3 Subjunctive complements in Balkan Slavic (BlkS)
3.1 Morpho-syntactic realization of BlkS
3.1.1 BlkS mood markers
O sentido do pensamento para Heidegger é fundamentalmente distinto. O pensar por determinações da lógica restringe-se a relacionar (indução ou dedução) linearmente conceitos. De outro lado, a pergunta da hermenêutica diz respeito à possibilidade de um pensar que pensa a verdade do Ser. Pretende-se despertar os sentidos para o que não cabe em abstrações, acordar para o que é vivo e acontece na linguagem. Para tanto. é preciso pensar “contra a lógica”, mas isso não significa cair no ilógico. O sentido da palavra “lógica” (como também irrazão) é dado negativamente a partir do que é compreendido a partir da lógica. O ilógico, portanto, é determinado (negativamente) pela lógica. Não se trata, então, de se deixar levar apenas por
201 HEIDEGGER, Martin: Que é isto – A filosofia? Identidade e diferença. Petrópolis, Vozes, 2006, p 32-33 202 GUSDORF, Georges: Tratado de Metafísica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1960, p. 21.
sentimentos ou aderir à negação niilista de qualquer coisa, pois, como Heidegger ensina, o
niilismo foi inventado pela lógica203.
Pensar contra a lógica é, para Heidegger, meditar sobre os primórdios do pensamento. Os sistemas da lógica perdem-se de suas raízes, quando interrompem a abertura do questionar. Para Heidegger, é neste primeiro questionar que está a essência do logos.204
Ricoeur vê mais riqueza no uso de uma lógica que trabalha mais com aproximações e menos com identidades. Compreender – como faz Ricoeur - o verbo “ser” como o lugar mais próprio da metáfora205, torna possível fazer uso de definições da linguagem natural (que por sua própria natureza, dissocia) sem que estas sejam delineadas com o rigor da metafísica clássica – que se pretende desconstruir. Dentro de um universo de metáforas, em que o “é” significa a um só tempo “não é” e “é como”, os princípios da identidade, não-contradição e terceiro excluído perdem sua força.
A crítica não retira a importância histórica do pensamento cartesiano: crer na razão e em método que permite ao ser humano alcançar a verdade de maneira inequívoca foi um passo fundamental para a emancipação em relação ao domínio da Igreja Medieval.
Ocorre que, apesar de ter a pretensão de se libertar de seu tempo, o cartesianismo foi o prelúdio e o retrato de uma época que acreditava, acima de tudo, no progresso pela razão. De fato, a tarefa de transpor para as ciências humanas a certeza das ciências exatas não foi desafio exclusivo de Descartes, esta se tornou a maior obsessão do pensamento moderno.
É revelador notar que hodiernamente, o movimento parece acontecer no sentido inverso: há uma humanização das ciências exatas. As novas descobertas científicas, sobretudo na física e na química, mostram que as ciências exatas precisam aprender a lidar com o caos, com a imprevisibilidade, com a intervenção do observador no resultado da experiência e na atribuição
203 HEIDEGGER, Martin: Carta sobre o Humanismo. São Paulo: Centauro, 2005.P 58-61 204 HEIDEGGER, Martin: Carta sobre o Humanismo. São Paulo: Centauro, 2005.P 58-61 205 RICOEUR, Paul: A Metáfora Viva. São Paulo, Loyola: 2000. P. 10 e s.
de um sentido para suas observações206; dimensões que o método científico buscava expulsar ao extrair da experiência apenas o que pode ser medido, contado e pesado.
A física quântica revela a incerteza quanto à possibilidade de determinar o movimento e a posição de uma partícula e contradição no que diz respeito à identidade da partícula, que aparece tanto como energia quanto como matéria - um elétron “E” é ao mesmo tempo igual a “A” e a “não A”. As partículas subatômicas não são entes que se pode conceber individualmente, apenas manisfestam-se em sua individualidade em um curto período de tempo. Aceitar estas contradições é menos absurdo que negá-las. Tais descobertas rejeitam o postulado isolacionista cartesiano e trazem à tona a natureza fundamentalmente relacional nas coisas.
“Uma onda de matéria (ou onda de probabilidades) pode se comportar como se estivesse espalhada por todo espaço e tempo. Mas se todas as coisas potenciais se estendem indefinidamente em todas as direções, como se poderá falar em alguma distância entre elas ou conceber alguma separação? Todas as coisas em todos os momentos tocam uns nos outros em todos os pontos; a unidade do sistema completo é suprema.”207
Outra tese atual, que nos interessa por chamar atenção para o papel constitutivo do tempo, é extraída a termodinâmica de Prigogine. As trajetórias pensadas a partir da física newtoniana descreviam o movimento de um corpo isolado, mas, no mundo concreto, há apenas interações persistentes, que só podem ser propriamente descritas quando se leva em consideração o todo relacional. Por sua insistência em descrever o movimento a partir do modelo newtoniano, escapava à física o papel radicalmente transformador do tempo. A irreversibilidade jamais poderia ser compreendida pela descrição abstrata de elementos individuais, ela só ganha sentido quando se observa as partículas no seu ambiente em contínuas colisões208. A física quântica mostrou que as partículas apresentam uma natureza essencialmente dúbia (são ao mesmo tempo
206 ZOHAR, Danah: O Ser Quântico – Uma Visão Revolucionária da Natureza Humana e da Consciência Baseada
na Nova Física. São Paulo: Best Seller, 1990. 20 e s.
207 ZOHAR, Danah: O Ser Quântico – Uma Visão Revolucionária da Natureza Humana e da Consciência Baseada
na Nova Física. São Paulo: Best Seller, 1990. P. 35.
onda e matéria), dependem de sua ligação com o meio; seu movimento acontece como superposição de ondas. Aí sobressai seu aspecto relacional.
“A solução da equação de movimento para uma partícula livre é, portanto, uma superposição de ondas planas. Essas ondas, que são as funções próprias, estendem-se pelo espaço inteiro, em contraste com a trajetória, que é localizada num ponto209”
Prigogine explica a natureza relacional do Ser a partir das ressonâncias de Poincaré. O termo ressonância está associado a uma espécie de ligação a partir da qual nasce um todo novo como, por exemplo, no acoplamento de sons: quando é tocada uma nota musical em um instrumento, ouvimos os harmônicos, não partes isoladas210. As ressonâncias de Poincaré são responsáveis pelo colapso da trajetória, tornando esta um objeto probabilista, de previsão inalcançável por uma descrição determinista. Ao contrário do que se pensava, não é a nossa ignorância a respeito dos movimentos exatos das moléculas que torna a previsão das trajetórias impossível; as ressonâncias – interações - são as verdadeiras responsáveis por isso. Por exemplo, na transição de fases (líquido, sólido, gasoso) na química há a emergência uma propriedade nova. A explicação desse acontecimento é irredutível a uma descrição em termos de comportamentos individuais das moléculas211.A partir de uma termodinâmica contextualizada, isto é, em interações persistentes, Prigogine pôde observar fenômenos que não eram detectáveis pelo método clássico. Sem dúvida, a sua constatação mais impressionante é a de que os sistemas desorganizados (em interações caóticas) podem se auto-organizar: uma nova ordem pode emergir de um lugar onde só havia dispersão. A matéria, longe do equilíbrio, adquire novas propriedades, as moléculas evoluem juntas. Correlações de longo alcance, inexistentes no equilíbrio, aparecem em condições de não equilíbrio212. Um sistema evolui no tempo de forma descontínua, coexistem zonas deterministas (evolução linear) e pontos de comportamento probabilista (pontos de bifurcação). São nestes momentos probabilistas que se pode observar a auto-organização, a escolha imprevisível por parte do sistema.
209 PRIGOGINE, Ilya: O Fim das Certezas: Tempo, Caos e Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996. P. 124. 210 PRIGOGINE, Ilya: O Fim das Certezas: Tempo, Caos e Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996. P. 42. 211 PRIGOGINE, Ilya: O Fim das Certezas: Tempo, Caos e Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996. P. 47. 212 PRIGOGINE, Ilya: O Fim das Certezas: Tempo, Caos e Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996. P. 71.
A observação das ressonâncias demonstra que descrições probabilistas são irredutíveis e que a irreversibilidade não é mera aparência, desse modo, põe às claras o papel construtivo da
flecha do tempo. Ao invés de partir de uma trajetória isolada como elemento fundamental da
descrição, defini-se a trajetória em termos de conjuntos como uma superposição de ondas planas e as ressonâncias de Poincaré eliminam a coerência dessas superposições213.
2.2.3. Kant e Husserl:a temporalidade ainda não é levada às suas mais radicais