No primeiro dia da disciplina, em 22 de Agosto de 2013, iniciei a aula às 14h15. O atraso de 15 minutos ocorreu para que mais estudantes chegassem. Ao chegarem, sentaram-se nas carteiras sem modificar substancialmente sua organização. Sentado à frente da sala, me apresentei, dizendo meu nome, e tomando o cuidado de explicar meu departamento de origem, o DME, e as disciplinas pelas quais normalmente sou responsável (Didática Geral, Metodologia de Ensino e Estágio Supervisionado). Fiz uma piada nesse momento, dizendo que ministrava apenas as disciplinas “bacanas”, dando a entender que os estudantes normalmente não gostam dessas disciplinas, e enfatizei a disciplina de estágio dessa forma. Alguns estudantes riram, entendendo a piada (ou concordando com ela), mas a maioria permaneceu em silêncio. Em seguida, perguntei o que mais precisaria falar sobre mim, e disse que tocava flauta, o instrumento “mais bonito do mundo”.
Pedi então para conhecer os alunos melhor e perguntei de um em um seu nome e o instrumento que tocava. Enfatizei que isso seria rápido, porque, quando era aluno, considerava esse momento de conversa no primeiro dia de aula chato. Os estudantes disseram seu nome e instrumento sem problemas, e fui anotando sua presença na lista de chamada. O aluno Nicolas71, ao se apresentar e afirmar que tocava violão erudito, afirmou “ou melhor, tocava”. Alguns alunos riram e entenderam o que ele quis dizer: que o curso de Licenciatura em Música da UFSCar não privilegia a performance instrumental, e os alunos acabam perdendo técnica em seus instrumentos durante os anos de graduação. Eu sabia disso por meio das avaliações de curso realizadas e tentando entrar em sinergia com o aluno, afirmei: “a gente [professores do curso] dá uma atrapalhada, né?”72.
Após isso, passei a mostrar os documentos da disciplina, como o cronograma, plano da disciplina e o TCLE, por meio do AVA. Primeiro mostrei o cronograma da disciplina (apêndice B). Ao aparecer na tela do Datashow, alguns
71 Atribuí, de forma aleatória, pseudônimos aos alunos, a fim de manter seu anonimato. Utilizei nomes pouco comuns em Portugal nos últimos anos, de acordo com sites pesquisados na internet. Fiz isso para garantir que os pseudônimos não remetessem ao nome real de nenhum aluno da disciplina ou ainda de outros alunos do curso.
72 Optei por transcrever minhas falas e dos alunos da forma mais fiel possível, com o intuito de preservar intenções, subjetividades e estilos. Assim, aparecerão ao longo desse texto, nestes casos, formas coloquiais, gírias, erros de concordância etc.
alunos comentaram entre si que o acharam interessante. Os alunos ouviram a explicação sobre o cronograma atentamente. Durante a explicação, um aluno falou em voz baixa: “que legal”, mas não consegui perceber quem foi.
Em seguida, mostrei e expliquei o plano da disciplina (apêndice A). Perguntei quem já havia olhado um plano postado no Nexos73, e poucos alunos levantaram a mão. Perguntei quem sabia o que era o Nexos, e novamente poucos alunos levantaram a mão. O aluno Bianor afirmou que já tentou avaliar uma disciplina pelo Nexos, mas que não conseguiu. Afirmei que faria a avaliação da disciplina em sala, com os alunos. Expliquei onde fica e o que é o Nexos, afirmando que o plano dessa disciplina, além de estar lá, também estaria no AVA e na pasta da disciplina que abriria no Xerox da universidade74. Fiz, então, uma piada: “vamos ler juntos o plano porque eu acho importante. Além disso, eu fiz esse negócio e agora vocês vão ler”. Os alunos riram.
Em seguida expliquei aos alunos que os objetivos gerais e a ementa não eram possíveis de serem mudadas, e li em voz alta os objetivos gerais da disciplina. Em seguida, li também em voz alta a ementa. Enquanto fui lendo, alguns alunos foram rindo pela maneira como lia, dando a entender que a ementa é muito extensa. Ao final da ementa há a palavra “etc.” Afirmei: “a palavra etc. no final é sensacional”. Os alunos riram. Disse então: “é óbvio que não vai dar tempo de trabalhar tudo isso em duas horas de aula semanais. Aí entra o professor tentando fazer tudo isso ter sentido. Então, sobre o que a gente vai falar mesmo?”.
Então expliquei o processo de planejamento, afirmando que primeiro comecei a pensar no para quê a disciplina serve, porque os alunos a têm e porque é importante cursá-la. Afirmei, ainda, que havia conversado com o professor de LEM 1 e, portanto, sabia que ele havia trabalhado harmonia com os alunos. Nesse momento, afirmei que, em minha opinião, no curso, ninguém trata do assunto melodia, e que esse seria importante. Afirmei, ainda, que as disciplinas, no geral, não possuem ligação entre si, e que minha ideia era unir as coisas: os conhecimentos trabalhados em outros momentos do curso e, ao mesmo tempo, tentar fazer com que a disciplina fosse útil para a formação dos alunos. Então disse:
73 Como já explicado, Nexos é o site onde os planos da disciplina ficam disponibilizados: <nexos.ufscar.br>.
74 Há, na UFSCar, um quiosque de uma empresa especializada em fazer fotocópias. Esta empresa disponibiliza pastas para que os professores deixem textos para serem copiados pelos alunos. Os serviços de cópias são pagos pelos estudantes.
“o que a gente vai fazer é o seguinte: a gente vai estudar melodia; vai aprofundar as coisas de LEM 1 e ver como elas se encaixam com melodia e vamos aprofundar harmonia. Essa é a ideia da disciplina”.
Passei então a ler os objetivos específicos em voz alta. Ao ler o objetivo específico 1 – compreender os acordes básicos (tétrades) e as funções harmônicas que esses acordes podem assumir no contexto da tonalidade – afirmei aos alunos que já havia um recorte aí, pois a disciplina abordaria apenas a tonalidade, e que esse assunto já seria extenso o suficiente. Ao ler o objetivo 2 – unir acordes em sucessões tendo em conta suas particularidades, de maneira que tais sucessões sejam eficazes – afirmei que percebo que as pessoas sabem os acordes, mas não sabem realizar harmonizações e afirmei: “isso não serve. Um acorde é apenas um amontoado de sons. O legal mesmo é a função que ele exerce dentro da música, o que você consegue fazer com ele”.
Ao ler o objetivo 3 – compreender que as leis que regem a tonalidade na música ocidental são historicamente e socialmente construídas, a partir dos harmônicos do som – afirmei que as pessoas ensinam harmonia como se fosse uma verdade absoluta, e isto não seria verdadeiro. Afirmei, ainda, que as leis da harmonia foram se formando e não são uma coisa pronta e acabada. E disse: “eu vou discutir com vocês se é isso mesmo. Será que é? Será que não é? Será que pode ser diferente? Aí tem aquele monte de regras dizendo que não pode usar o acorde tal em tal lugar. Por quê? Porque um cara escreveu um livro em 1637 falando que não pode. Mas porque não pode? Vamos estudar porque não pode”. Nesse momento, o aluno Andreo diz em tom de piada: “porque Deus quis”. Concordei e todos riram.
Os objetivos 4 – harmonizar melodias simples, de até 8 compassos, nos modos maior e menor e sem modulações, com o objetivo de trabalhar estas melodias em um contexto educacional – e 5 – criar melodias simples, de até 8 compassos, nos modos maior e menor e sem modulações, com o objetivo de trabalhar estas melodias em um contexto educacional – foram lidos sem maiores problemas. Ao final dessa leitura, afirmei: “porque tem o lance da inspiração. Vai baixar um alienígena e vai me ensinar a fazer uma melodia. Sim, tem inspiração, mas uma melodia tem uma série de parâmetros. E se vocês souberem isso, acho que, pelo menos, vai facilitar um pouco o trabalho”. O objetivo 6 – terem desenvolvido autonomia pessoal e consciência crítica – é lido e afirmei que falaria
mais sobre isso depois. Perguntei se alguém tinha alguma dúvida e os alunos afirmaram que não.
Em seguida perguntei aos alunos o que eles haviam achado da proposta. Alguns disseram: “legal”. Perguntei se alguém queria mudar ou sugerir alguma coisa. O aluno Amaro perguntou se haveria algum livro de referência, e respondi que no plano da disciplina havia sim uma bibliografia a ser utilizada. O aluno Bianor perguntou se seria trabalhado o assunto Modos75, e respondi que não havia pensado em tratar desse assunto, pois achava que não haveria tempo, e que achei mais interessante fechar o assunto tonalidade porque foi o que o professor de LEM 1 começou. Mas afirmei que poderia inserir o assunto na disciplina se achassem pertinente. Alguns alunos perguntam se o professor que dará LEM 3 trabalhará com isso, e disse que não sabia. O aluno Nicolas afirma que o professor da disciplina de Percepção 3 trabalhou Modos. Os alunos afirmam ainda que o professor de LEM 1 já havia iniciado o assunto, ensinando-os a identificar os modos, o que de fato constava do planejamento que me fora enviado por ele.
A meu pedido, os alunos relataram mais detalhadamente como se deu o trabalho sobre os Modos em LEM 1. Disseram que o professor dessa disciplina tocava ao piano os modos em forma de escalas76 e eles tinham que dizer de que Modo se tratava. Não cabe aqui comentar sobre a metodologia de ensino adotada por outro professor, mas, para trabalhar o assunto Modos de acordo com as premissas deste estudo, eu teria que, por exemplo, achar melodias musicais criadas a partir destes Modos e trabalhá-las com os alunos, e isso se afastaria bastante do planejamento inicial da disciplina. Além disso, na verdade, considero que o assunto Modos é menos necessário de ser trabalhado no atual momento sócio histórico, pois os Modos só são utilizados em alguns tipos muito específicos de música, ao contrário da tonalidade, que se faz presente na maioria dos estilos musicais. Após alguns minutos de conversa, todos concordaram que seria interessante trabalhar o assunto Modos apenas se desse tempo, ao final da disciplina.
Eu ainda disse: “eu sei que tem muita coisa que dá vontade de saber, mas pensem na disciplina, porque os assuntos trabalhados precisam fazer sentido na disciplina”. Afirmei, porém, que me dispunha a fazer mudanças se os estudantes
75 Vide nota de rodapé 60, à página 121.
76 Escala é “uma sequência de notas em ordem de altura ascendente ou descendente” (SADIE, 1994, p. 301).
achassem necessário, mas que havia pensado mesmo em eles saírem da disciplina entendendo a tonalidade e que isso já seria bom e, mais que isso, já seria bastante coisa. Enfatizei, ainda, que a disciplina era muito curta, com apenas duas horas semanais, e que achava difícil adicionar assuntos, mas que ficaria alerta para a possível inclusão do assunto Modos ao final.
O assunto, de fato, não foi trabalhado na disciplina. Mas, numa tentativa de levar em consideração o pedido dos alunos, no dia 29 de Novembro de 2013, após a 13ª aula, enviei a seguinte mensagem aos alunos, pelo fórum de notícias do AVA:
Oi pessoal, na primeira aula da disciplina vocês haviam apontado que gostariam que o assunto "modalismo" fosse tratado, mas não vai dar tempo. Vou deixar então dois textos que achei na internet e que dão uma introdução interessante ao assunto:
http://www.cmozart.com.br/Artigo8.php http://www.cmozart.com.br/Artigo9.php
Indico também dois textos sobre música erudita X popular que também me pareceram interessantes:
http://www.cmozart.com.br/Artigo6.php http://www.cmozart.com.br/Artigo7.php Abs!
Fernando.
P.S. Não, o conteúdo destes textos não será cobrado na avaliação 2...é só para enriquecer a aprendizagem de vocês mesmo...
Não houve manifestação dos alunos sobre esta mensagem.
Ainda na primeira aula da disciplina, li os outros itens do plano da disciplina em voz alta com os alunos. Ao explicar as atividades que eles desenvolveriam, o aluno Andreo perguntou se, dentre os trabalhos em grupo, haveria também trabalhos em que os alunos terão que tocar instrumentos. Ao ouvir de mim que sim, ele disse: “muito me agrada isso”. Disse que, normalmente, os professores explicam a teoria musical apenas usando a lousa, e isso possibilitaria que, ao tocar seus instrumentos, os alunos não conseguissem colocar em prática o que aprenderam de teoria. Expliquei, então, que queria trabalhar com audição, execução e composição, mas sem explicar que isso é a base do modelo (T)EC(L)A de Swanwick (2003).
Em seguida, expliquei detalhadamente as avaliações da disciplina. Ao final da explicação, perguntei o que os alunos haviam achado e alguns responderam “legal”, “maravilhoso” e “massa”. Um aluno disse: “à primeira vista, parece excelente, tem que ver na hora que colocar na prática”. Após isso, disse: “fiquem tranquilos. A ideia das avaliações da disciplina não é apenas testar, mas ensinar também. Vai dar tudo
certo”. Perguntei então: “beleza, pessoal? Está parecendo bom ou está parecendo ruim”? O aluno Bianor respondeu: “está parecendo misterioso”.
Ao final da aula, o aluno Nicolas veio conversar reservadamente comigo em minha mesa e me parabenizou pela aula e pela disciplina. Disse que, quando viu que eu seria o responsável pela disciplina, desistiu de fazer outra no mesmo horário para poder fazer LEM 2. Disse que já tinha sido reprovado em disciplinas de FTM anteriormente e tido experiências ruins com outros professores. Ele afirmou que alguns desses professores são ótimos músicos, entendem muito do assunto tratado nas disciplinas, mas na hora de ensinar, falham. Nesse momento, o aluno Andreo, que ouviu a conversa, também veio até mim e disse: “eles não tem essa didática que você tem. Eles sabem, mas sabem pra eles. Eles podem explicar de mil maneiras, mas mil maneiras que eles entendem”. O aluno Amaro também observou essa conversa, mas nada falou. Porém, ao sair da sala, disse: “professor, boa aula”. O aluno Andreo, também saindo da sala, disse: “Galizia, show de bola”, e todos saíram da sala.
Julguei interessante trazer esse relato, pois os alunos externaram o mesmo sentimento meu em relação aos professores de minha formação, como relatado na introdução deste documento. Além disso, eles retomam a questão da ausência de formação pedagógica do professor universitário e a ênfase nos saberes disciplinares em sua formação, como discutido no capítulo 1. Por fim, as dificuldades que tive com meus saberes disciplinares, curriculares e experienciais em relação a disciplinas de FTM no ensino superior parecem ter sido superadas, a julgar pelos comentários dos alunos.