As práticas de mediação fazem com que as informações se tornem claras e integradas em toda a sociedade, tendo em vista que estamos em uma sociedade em constante alteração, quer seja política, social, econômica, entre outras. Portanto, o espaço de deliberação em nossa sociedade necessita de uma tradução das linguagens existentes entre as esferas privadas e o Estado, de forma a torná-las claras para todos. Tal tradução é realizada pelos medium, compreendidos por “agências ou agentes especializados em práticas mediadoras, podemos citar a docência, a crítica literária, os partidos políticos e os movimentos sociais”. (LYCARIÃO, 2012, p. 135). O conceito de mediação abrangeria então “a produção da
inteligibilidade de discursos especiais por meio de sua decodificação pelos medium da linguagem ordinária”. (LYCARIÃO, 2012, p. 135).
Em relação à mediação, Lycarião (2012) amplia este conceito com a concepção de mediação social, definindo como algo que ultrapassa essa concepção inicial de mediação, onde os “conflitos políticos institucionais irão encontrar ecos na vida social cotidiana”, em “uma renovação do universo pré-reflexivo do mundo da vida”. (LYCARIÃO, 2012, p. 136). Nesta mediação social, a interligação na esfera pública, entre o mundo da vida e os sistemas políticos gera reflexos e alterações nesses espaços, modificando-os e não somente decodificando-os.
A comunicação entre o mundo da vida e os sistemas políticos, de acordo com Lycarião (2012), se dá por meio dos processos comunicativos, imprescindíveis nesta sociedade moderna que tem com uma avalanche de informações diárias, ao mesmo tempo em que apresenta cada vez mais uma diferenciação social, de classes e culturas. Desta forma, neste atual contexto social, necessitamos, cada vez mais, do engate comunicativo dos media para reduzir o abismo entre a sociedade civil e os sistemas políticos.
Lycarião (2012) aponta que os media podem trabalhar a favor de práticas mediadoras, baseado em estudos sobre Maia (2006), no momento em que faz uso de instrumentos para produção de visibilidade, dos quais dependem outros subsistemas, adentrando assim a importância dos media na elaboração de políticas públicas, entre eles a imprensa, o jornalismo.
Os primeiros jornais que surgiram, de acordo com Reis e Moraes (2016), tinham a função de tornar públicas as questões políticas, rotina parlamentar, impostos, informações sobre comércio internacional, buscando influenciar o público leitor e o mercado sobre tais assuntos. Baseados em seus estudos sobre Habermas, “a expansão do comércio necessitava da troca de informações para firmar negociações” (REIS; MORAES, 2016, p. 7), troca esta realizada pela imprensa, tida como “gênese do capitalismo” (REIS; MORAES, 2016, p. 7), onde a “imprensa era vista como um instrumento político útil a tornar públicas as intenções administrativas”. (REIS; MORAES, 2016, p. 7).
Reis e Moraes (2016) relatam que a imprensa vai alterando esse seu formato inicial com a ampliação dos frequentadores aos espaços conhecidos como salões e cafés, que eram utilizados, de forma restrita, para uso dos intelectuais da época para discussões e inserção das pessoas à classe média. Como forma de manter a coesão do círculo de discussões destes ambientes, devido ao aumento do número de intelectuais, os jornais e as revistas passaram a
retratar e reconstruir os fatos debatidos nestes locais, ganhando a função de discutir e dialogar sobre tais temas, principalmente por meio das cartas enviadas aos editores.
Surge então a imprensa como mediadora da opinião pública, de acordo com Reis e Morais (2016), aumentando assim o número de jornais na Europa. Em 1750, na Inglaterra, a circulação dos jornais e revistas é duplicada, pois os encontros que aconteciam nos antigos salões e cafés passaram a ser mediados pela imprensa, contendo nestes jornais uma crítica realizada por um profissional do campo jornalístico relativo ao tema publicado, reduzindo os encontros presenciais entre as pessoas de nível intelectual elevado. Na Alemanha, surgiram as sociedades de leitura para discutir sobre as publicações, dando origem, a partir de 1990, à chamada opinião pública. Na França, a leitura caminhou no sentido crítico, formando um público que raciocina politicamente. Neste percurso, “a imprensa se torna um quarto poder, pois age como órgão crítico de um público preocupado e reflexivo sobre política”. (REIS; MORAIS, 2016, p. 8).
Desta forma, para Reis e Morais (2016), a imprensa escrita, o Rádio e a TV passaram a pautar os debates e as discussões públicas, fazendo com que o jornalismo publicitário se tornasse ameaçador às necessidades do capital, gerando, em alguns casos, a intervenção do Estado.
A história da imprensa, para Oliveira e Fernandes (2013), pautados em Habermas, segue de artesanal, com a função inicial de informações para opinativa e, com seu aumento no número de tiragens, para a comunicação de massa, passando a ser concentrada em conglomerados com a cultura do consumo.
A imprensa como comunicação de massa é criticada por Habermas (2003) com o aparecimento dos jornais vendidos a preço de centavos, onde a cultura passa a ser uma forma de mercadoria. Tal ação gerou a imprensa de fim de semana para as massas, dando a essas pessoas a ilusão da participação na esfera pública política, pois o nível de formação escolar da do público leitor, segundo Habermas, os impedem de participar da mesma maneira que os intelectuais burgueses.
Mesmo com todas essas limitações, em relação à deliberação das mídias, segundo Altheman (2013), Habermas as coloca no lugar central da esfera pública, pois
expõem uma pluralidade de perspectivas e opiniões, alimentando a opinião pública. Ao mesmo tempo, esta, tornada visível pelos meios de comunicação, alimenta o fluxo comunicativo e deliberativo da esfera pública. (ALTHEMAN, 2013, p. 6).
A exposição nas mídias, por meio da visibilidade pública, segundo Altheman (2013), não dá origem ao que vai ser debatido, mas alimenta a esfera pública, seja de um assunto com origem na esfera política para os meios de comunicação, como no sentido inverso, pois é na esfera da visibilidade que o assunto fica disponível para alimentar outras esferas públicas, nos remetendo à importância de outros apontamentos sobre a importância de visibilidade pública.