2.2 Des d´etecteurs `a double composante ionisation-chaleur
2.2.1 Voie chaleur
A ideia de relevância condicional, como já foi dito, indica que há uma expectativa gerada por uma ação, produzida numa PPP (primeira parte do par adjacente), que condicionará a ação a ser produzida na SPP (segunda parte do par adjacente). Muitas vezes, a ação expressa por uma PPP abre um leque de possibilidades para a SPP. Isso, a princípio, parece diminuir a importância da ideia de pares adjacentes – pois, na medida em que há várias opções possíveis de SPP8, a
8Em relação ao leque de possibilidades que uma PPP abre, diz Levinson: “[...] in fact there are, for
example, a great many responses to questions other than answers which nevertheless count as acceptable seconds-(rather than, say, beginnings of insertion sequences prior to answers) – including protestations of ignorance, ‘re-routes’ (like Better ask John), refusals to provide an answer, and challenges to the presuppositions or sincerity of the question” (2013, pág. 307).
94 própria ideia de adjacência poderia estar comprometida devido ao caráter relativamente vago de sua relevância condicional. Mas, como lembra Levinson,
[...] the importance of the notion is revived by the concept of
preference organization. The central insight here is that no all the
potential second parts to a first part of an adjacency pair are of equal standing: there is a ranking operating over the alternatives such that there is at least one preferred and one dispreferred category of response. (2013, pág. 307)
A ideia de preferência se refere ao fato de que, para o aqui e agora de uma interação, quando uma PPP abre possibilidades múltiplas para uma SPP, existem entre elas uma espécie de hierarquia em que algumas possibilidades são preferidas em relação às outras.
Como antecipa Levinson (2013), a ideia de preferência não deve ser encarada como a preferência individual de um falante. Portanto, não há nenhuma pretensão de que a análise busque alguma sondagem psicológica quando se utiliza dessa ideia. O que se quer referir aqui é que há maneiras metódicas de se marcar a preferência ou despreferência de uma SPP numa situação específica. Resumidamente, podemos dizer que as SPPs preferidas não são marcadas – no sentido linguístico do termo – enquanto as SPP despreferidas são marcadas (LEVINSON, 2013, pág. 307). Nas palavras de Anita Pomerantz, que escreveu um dos estudos clássicos sobre as formas metódicas de preferência/despreferência:
Two types of shapes are of interest […]: One type is a design that maximizes the occurrences of the actions being performed with them, utilizes minimization of gap between its initiation and prior turn’s completion, and contains components that are explicitly stated instances of the action being performed. The other type minimizes the occurrences of the actions performed with them, in part utilizing the organization of delays and nonexplicitly stated action components, such as action other than a conditionally relevant next. The respective turn shapes will be called preferred- action turn shape and dispreferred-action turn shape. (2003, pág. 64)
Há portanto, um maior esforço interacional, observado numa SPP, aquando da produção de uma ação despreferida. Assim, o analista de uma interação conversacional que tenta perceber a preferência/despreferência de uma ação para o
95 aqui e agora da interação, ao invés de tentar “adivinhar” quais as preferências pessoais dos falantes, irá buscar perceber para que tipo de trabalho interacional os falantes se orientam. Mostrar hesitações e justificativas são alguns dos métodos comuns para a realização de ações despreferidas. Além desses, podemos perceber também outra maneira bastante comum de os falantes produzirem ações despeferidas: a produção de sequências inseridas em que o que se objetiva, na verdade, é evitar a produção imediata da despreferência. Esses métodos – e muitos outros que, por falta de espaço, não é possível mostrar aqui – revelam a orientação dos falantes para um maior trabalho interacional na realização da sequência em curso quando a ação realizada é despreferida.
O que é válido ressaltar, como fazem Loder, Salimen e Muller, é que uma ação ser despreferida não implica que ela não possa ser realizada, ou mesmo que não possa ser realizada sem que haja todo o trabalho interacional que ressaltamos acima:
É possível encontrar rejeições a ofertas prefaciadas com atrasos e acompanhadas de justificativas [...] mas também é possível encontrá-las sem atrasos, justificativas ou hesitações. Nesse último caso, a produção da ação despreferida de maneira direta tem grandes chances de ser entendida pelo interlocutor como uma elocução agressiva, gerando consequências (tais como reclamações, solicitações de justificativa por parte do interlocutor), com as quais o participante que rejeitou a oferta terá que lidar antes que a interação possa prosseguir; é esse o tipo de trabalho extra em que deverá se engajar ao produzir, de modo direto, uma ação despreferida. (2008, pág. 55)
A organização da preferência é – em conjunto com a organização da tomada de turnos e a organização de reparo – outro importante meio pelo qual os falantes criam uma arquitetura local para a emergência de sua intersubjetividade.
***
Como nossas preocupações nessa pesquisa se inserem dentro do quadro normativo das ciências da comunicação, é fundamental ressaltarmos, em relação aos sistemas organizacionais vistos acima, que o problema do entendimento mútuo,
96 quando encarado sem que se leve em conta os procedimentos metódicos pelos quais ele é possibilitado, torna arriscada qualquer tentativa de análise sobre a intersubjetividade perseguida pelos interagentes numa interação comunicacional:
The achievement and maintenance of […] intersubjectivity is not treated in a theoretically satisfactory manner by invoking socialization as a mechanism, for intersubjectivity is achieved for a virtually inexhaustible range of types of events always contextually specified, for which no “distal” or “remote” socialization could provide. The solution surely is provided for by a resource that is itself built into the fabric of social conduct, into procedural infrastructure of interaction. (SCHEGLOFF, 1992, 1299)
Se o entendimento mútuo, tal como o encaramos, se dá através da emergência local e situada da intersubjetividade – e não através de mera transmissão de informações – é fundamental para a pesquisa comunicacional ter em conta os recursos – as diversas maquinarias interacionais – que possibilitam aos falantes a construção de um contexto local e, consequentemente, a emergência da intersubjetividade. A explicação de um episódio interacional, quando se leva em conta apenas uma ideia abstrata do que o pesquisador considera ser o contexto sociocultural em que esse episódio ocorre, é uma atitude, por um lado, preconceituosa – pois baseada em ideias apriorísticas lastreadas unicamente nos saberes socioculturais do pesquisador – e por outro, preguiçosa – pois relega toda compreensão do que ocorre para uma suposta ordenação geral (um contexto geral) que a tudo comandaria.
O trabalho de compreensão dos procedimentos interacionais pelos quais uma determinada ordem interacional se faz visível, além de exaustivo, desglamouriza a prática da pesquisa social. A prática da pesquisa em AC, ao invés de dar relevância à genialidade individual e ao “lampejo de iluminação”, ressalta o incontornável trabalho de paciência, metodicamente produzido e, muitas vezes, coletivamente elaborado.
97 III.3. A prática da pesquisa em AC
A prática da pesquisa em AC pode ser sintetizada por três etapas fundamentais: a gravação, a transcrição e as data-sessions. Mas, antes de falarmos sobre essas etapas, é necessário perceber com um pouco mais de atenção a postura êmica que deve adotar o analista da fala-em-interação.
O ponto de vista êmico é algo incontornável para quem procura fazer análises de interações conversacionais a partir da mentalidade analítica da AC, já que essa é oriunda da etnometodologia. De um modo geral, o analista deve procurar, nas interações conversacionais que investiga, a organização da interação tal como é elaborada e explicitada pelos seus participantes. Essa organização é vista pela AC como um desdobramento sistemático de métodos interacionais – dispositivos, sistemas, enfim, da maquinaria – realizado pelos membros para lidar com as situações interacionais práticas de seu cotidiano (TEN HAVE, 1990). Como também já foi visto, esses métodos têm a dupla característica de serem gerais e de, ao mesmo tempo, permitirem um ajuste local de acordo com as circunstâncias específicas de um episódio interacional: “these methods have a double-faced characteristic: on the one hand they are quite general, while on the other they allow for a fine-tuned adaptation to local circumstances; in the terminology used by Sacks et al (1978), they are both ‘context-free’ and ‘context-sensitive’” (TEN HAVE, 1990).
É precisamente essa característica – de os métodos serem, ao mesmo tempo, livres de contexto e sensíveis ao contexto – que faz com que a prática em pesquisa em AC não repouse numa espécie de grade analítica pronta nem em motivações apriorísticas, já que um único episódio singular de interação conversacional irá revelar ao pesquisador toda a riqueza – a emergência de saberes relevantes únicos e customizados – que pode ser percebida na organização local construída pelos participantes a partir de uma ordem geral da fala-em-interação. É por isso que, de acordo com Binet e Monteiro, “as direcções de pesquisa não precedem mas sim emergem no decurso de uma análise não motivada por pré-considerações.” (2012, pág. 11).
Contudo, como já advertido por Ten Have, o fato de o campo de estudos em AC já ter observado uma série de aparatos conversacionais sobre os quais os falantes
98 se apoiam ao interagir conversacionalmente faz com que corramos o risco, enquanto analistas, de nos esquecermos, pouco a pouco, da mentalidade radicalmente indutivista com que a AC erigiu sua prática de pesquisa. Por isso, ressaltamos novamente a seguinte citação: “any instance of talk-in-interaction is built on routines of various sorts, but it is, at the same time, a unique achievement here and now. What is needed, then, is a continuous mutual confrontation of concepts and data, of ‘ideas’ and ‘evidence’ […]” (2007, pág. 38).
Este confronto mútuo entre, por um lado, os conceitos e as ideias sobre as rotinas interacionais já observadas pela AC e, por outro lado, os dados e as evidências empíricas com que o analista irá se deparar em suas pesquisas, torna-se o objetivo desse campo de pesquisa, agora que ele já apresenta um grau bastante elevado de desenvolvimento. Por isso, Michel Binet e David Monteiro nos chamam a atenção para o duplo olhar ao qual deve estar sujeito o analista da fala-em- interação:
Este elogio da indução, hostil a qualquer pré-construção teórica da análise a desenvolver [...] vai a par com uma forte ambição nomotética: a descrição densa e a análise detalhada de um acontecimento interaccional singular visam alcançar e evidenciar a co-produção metódica e procedimental da ordem, localmente observável. (2012, pág. 11)
O ponto de vista qualitativo que rege a pesquisa em AC, situa este campo de saber numa encruzilhada a qual ele soube “dar a volta” de modo extremamente hábil e inteligente: embora a metodologia qualitativa não aceite “subordinar por completo o valor documental de um dado à sua integração num conjunto mais vasto de dados recolhidos com recurso a técnicas de amostragem” (BINET e MONTEIRO, 2012, pág. 9), a descrição detalhada de um episódio interacional singular permite revelar a co-ordenação, pelos falantes, de um contexto preciso. Esse contexto preciso – o contexto enunciativo local – toma como base um contexto interacional geral para o qual os falantes – membros de uma mesma comunidade cultural – se orientam e levam em conta. As diversas maquinarias da fala-em-interação, como dissemos, são verdadeiros contextos interacionais gerais usados pelos falantes para construir o contexto enunciativo local. O olhar analítico da AC permite – já que as
99 maquinarias por ela observadas são livres de contexto e sensíveis ao contexto – “habilitar o investigador a dominar e reproduzir em contexto real o “saber fazer” dos interactantes” (BINET e MONTEIRO, 2012, pág. 9) observando portanto, ao mesmo tempo, a ordem geral que os orienta, como também toda a riqueza da ordem local que emerge dessa ordem geral.
III.3.1. as gravações
O advento, a partir dos anos 1960, de novas tecnologias de gravação de som e imagem permitiu que se recolhesse, “com riqueza de detalhes sem precedente o desenrolar sequencial de comportamentos interaccionais” (BINET e MONTEIRO, 2012, pág. 10). Como vimos no capítulo anterior, o investigador etnometodólogo se mobilizará para realizar gravações de situações naturais. No caso específico da AC, situações naturais de fala-em-interação. Essa nem sempre é uma tarefa fácil, e por vários motivos. Talvez o principal deles seja o fato de, ao solicitar a permissão para a realização de uma gravação, o investigador já estar, de alguma maneira, desestabilizando a ‘naturalidade’ do quadro interacional que se propôs investigar. Este problema, contudo, não é exclusivamente percebido na AC, mas em diversos campos da pesquisa social. William Labov, ao se deparar com esta questão em seu campo de conhecimento – a sociolinguística – denominou-a paradoxo do observador: “o objetivo da pesquisa linguística na comunidade deve ser descobrir como as pessoas falam quando não estão sendo sistematicamente observadas – no entanto, só podemos obter tais dados por meio da observação sistemática” (2008, pág. 245).
Para lidar com o paradoxo do observador, várias estratégias podem ser adotadas. Segundo Caroline Silva, Daniela Andrade e Ana Ostermann,
Uma das formas que os pesquisadores encontram para lidar com essa questão é descartar as primeiras gravações feitas (quando isso é possível). Acredita-se que essa atitude seja uma possível amenização para o impasse do paradoxo, com base na crença de que as pessoas não são capazes de se automonitorar (gestos e linguagem) por longos períodos de tempo. Entende-se que os participantes acabam por se acostumar com a presença de
100
microfones, câmeras ou gravadores e passam a agir naturalmente depois de certo tempo na presença dos equipamentos de gravação. (2009, pág.4)
Outras formas de minimização do paradoxo do observador podem ser adotadas, a depender do tipo de interação conversacional que se pretende observar. Por exemplo, Binet e Rodrigues indicam uma das formas de minimização do paradoxo do observador em interações entre técnicos de serviço social e seus atendidos:
uma das estratégias metodológicas consiste em negociar um primeiro acordo de autorização e de colaboração com os técnicos, que ficam incumbidos de gravar os seus próprios atendimentos, mediante os consentimentos prévios dos utentes dos serviços, obtidos no início de cada entrevista de ação social [...] Deste modo, a presença física do investigador no quadro da interação a registar é eliminada. Porém, a presença do gravador e a formulação do pedido de gravação para gravar não eliminam por completo as interferências decorrentes da investigação. (2015, pág. 280)
Mas o fato de quebrar a ‘naturalidade’ de uma interação não é necessariamente ruim e nem inviabiliza, por completo, a pesquisa, já que isso pode produzir dados interessantes. Esses dados, emergidos pela a presença do pesquisador e do dispositivo de gravação da interação, podem revelar saberes de senso comum sobre uma ordem normativa de determinado tipo de situação. Isso ocorre pois a presença do gravador, de acordo com Binet, “é suscetível de reforçar pressões normalizadoras” (2013, pág. 142). Assim, ao saber que está sendo gravado, o interagente ajusta seus comportamentos para essa nova situação, em que o pesquisador – geralmente alguém de fora, estranho ao ambiente – está lá para “esquadrinhar” tudo o que ocorre. Por isso, o participante da situação talvez se sinta compelido a agir de modo mais normativamente regulado do que o faz habitualmente.
Uma das estratégias, portanto, para lidarmos com a questão do paradoxo do observador é tornar naturais as situações artificiais: por um lado, encarando a própria artificialidade gerada pelas presenças do gravador e do pesquisador como
101 uma situação natural com gravador e pesquisador; e por outro lado, encarando toda artificialidade introduzida na interação – tal como os pedidos para gravação, por exemplo – como algo em que se possa perceber uma ordem interacional própria (e, portanto, natural). Como nos mostram Rodrigues e Binet em estudo que realizaram sobre os pedidos para gravação de atendimentos de ação social:
Tendo em vista averiguar em que medida os pedidos de autorização para gravar são sequências artificiais dos atendimentos, uma vez que estão ausentes dos comportamentos que ocorrem fora do contexto da investigação, alguns autores (Heritage e Raymon, 2005; Mondada, 2005; Maynard, Freese e Schaeffer, 2010, pp.791-814; Shanmuganathan, 2005; Speer e Hutchby, 2003) têm tomado como objeto de estudo as sequências em que esses pedidos surgem, mostrando assim que se trata de ocorrências em si mesmas dignas de estudo, sublinhando ainda que constituem comportamentos autênticos que obedecem aos mesmos princípios e regularidades que regem quaisquer outros comportamentos interacionais. (2015, pág. 282)
Achamos pertinente ressaltar, ainda, um outro aspecto importante em relação aos dispositivos tecnológicos de inscrição de interações conversacionais: em uma sociedade cada vez mais midiatizada, passamos a encontrar a ‘naturalidade’ das interações, justamente, na presença dos dispositivos tecnológicos. São interações que só ocorrem pela presença desses dispositivos. O nosso corpus, por exemplo – formado por emissões de um programa de televisão – é um desses casos. As interações conversacionais midiatizadas, que se generalizam nos nossos dias, são situações naturais muito importantes, com uma riqueza a ser devidamente explorada pelos procedimentos analíticos da etnometodologia e da AC e que, por isso mesmo, abrem uma enorme janela de oportunidades para o analista da fala- em-interação (e sem o inconveniente do paradoxo do observador9).
9É claro, outros inconvenientes surgem. Um dos mais visíveis é a necessidade de que a interação
conversacional midiatizada a ser analisada não seja editada, no sentido de subtrair trechos de fala – ou pelo menos, não seja excessivamente editada, preservando intacta, pelo menos, alguma sequencialidade natural da interação. Esse questão é importante pois com o barateamento e a agilização dos processos de edição em áudio e vídeo, é difícil encontrarmos materiais audiovisuais sem edição alguma – que seria o ‘padrão-ouro’ para uma análise de cunho etnometodológico. Aliás, esse foi um dos motivos pelos quais escolhemos como objeto empírico o programa Roda Viva, já que esse programa televisivo, mesmo quando não exibido ao vivo, mantém-se sem cortes.
102 III.3.2. As transcrições
No início dos estudos da AC, Harvey Sacks convocou sua colega Gail Jefferson para transcrever os materiais com que estava trabalhando e deu uma única instrução: anotar tudo o que ela, ali, ouvia (SIDNELL, 2010, PÁG 9/34). Esse foi o início da invenção de uma tecnologia fundamental para a AC, sem a qual não se conseguiria chegar aos fatos conversacionais descobertos pelos investigadores desse campo de conhecimento.
Pouco a pouco, Gail Jefferson foi construindo um sistema de transcrição dos fenômenos conversacionais que, até hoje, é utilizado pelos analistas da conversa nas suas transcrições. A partir de então, as transcrições formam uma etapa fundamental do processo de análise de uma interação conversacional pois, como avalia Rebecca Clift, “Jefferson’s transcription system is to CA what the electron microscope is to the sub-cellular structure of matter: it is simply what makes observations possible” (2016, pág. 44).
Mas o que essas transcrições tornam visível? Além de possibilitarem a transcrição de falas e o recorte de turnos, o sistema de transcrição de Jefferson permite tornar visíveis fenômenos conversacionais como: pausas intra e interturnos; contiguidade de turnos; sobreposições de fala; fenômenos prosódicos e entoacionais (ênfases, volume, velocidade etc.); cortes abruptos; sinais de retorno do ouvinte; respirações; risos; interjeições; atividades não verbais; fenômenos rítmicos, etc. (BINET, 2012b, pág. 3 e 4).
Se observarmos, por exemplo, as pausas – um fenômeno muito frequente em nossas falas – veremos como elas, a depender das circunstâncias concretas em que são produzidas, trazem consequências interacionais bastante importantes. No sistema de transcrição de Jefferson, esse é o tipo de fenômeno que não pode escapar à transcrição, sob o risco de perdermos dados extremamente relevantes para a descoberta da “ordem que está por todo lado”. Do mesmo modo, todos os fenômenos apontados no parágrafo acima, e ainda outros, são de importância elevada para nossas interações conversacionais. Só um sistema de transcrição que os torna visíveis permite o entendimento detalhado – e, por isso, mais acurado – do que está acontecendo no aqui e agora de uma interação conversacional.
103 Para atestar o alcance de seu sistema de transcrição, Gail Jefferson nos mostra, em artigo publicado em 2004, uma comparação entre duas transcrições de uma mesma gravação. A gravação é relativa a um episódio conversacional entre o presidente norte americano Richard Nixon e um de seus conselheiros, John Dean, realizado na Casa Branca durante o período em que ocorreu o escândalo Watergate. As gravações, das quais faz parte esse episódio, foram realizadas a mando do próprio