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1.2 Exp´eriences de d´etection de mati`ere noire

1.2.2 D´etection directe

A Análise da Conversa (AC), podemos dizer com segurança, é a herdeira mais proeminente da mentalidade etnometodológica de observação da vida social. O sociólogo americano Harvey Sacks é considerado o “pai fundador” desse campo de investigação, tendo recebido a colaboração próxima de dois de seus colegas, os também sociólogos Emanuel Schegloff e Gail Jefferson5.

As principais bases teóricas da AC podem ser encontradas, por um lado, no trabalho de Erving Goffman – Sacks e Schegloff foram seus alunos – e, por outro, como já dito, na etnometodologia de Harold Garfinkel. Da sociologia goffmaniana, a AC adotou a perspectiva de não negligenciar a situação social – com seus direitos e obrigações interacionais – como um fenômeno, por si só, digno de análise – ou seja, sem reduzi-la à psicologia individual ou às estruturas socioculturais gerais de uma sociedade (RAYMOND e SIDNELL, 2014, pág. 249). Mas a atenção ao caráter situado dos fenômenos sociais sempre foi feita pela AC levando em conta aquilo que a perspectiva etnometodológica insiste em ressaltar: o fato de que a construção da intersubjetividade é uma questão incessantemente colocada para os participantes de uma interação. Desse modo, às obrigações morais situadas percebidas por

5Como adverte Douglas Maynard, ainda está para ser devidamente valorizada a enorme influência e

contribuição dos trabalhos de Emanuel Schegloff e Gail Jefferson no desenvolvimento da AC. Segundo Maynard, “a full scholarly treatment of the influences on Schegloff and the ways in which his work has shaped the field over the 35 years since Sacks’ untimely death has yet to be written. Certainly one of Schegloff’s […] crowning contributions, as Sacks himself wrote in a 1974 letter to Schegloff, was to instantiate and pave the way for working “quantitatively” – namely on masses of data or what have come to be called collections, rather than just single instances where Sacks’ intention was “to isolate structure in particulars”. That structure is to be found in the details of a single instance, even while the investigator works with collections of a phenomenon, is a hallmark of CA not usually found in endeavors concerned with talk and interaction. Similarly, a complete assessment of Gail Jefferson’s contributions to early CA has as yet to be written, but it can be said that her invention of a system for detailed transcription is the very substrate upon which scholars in the CA field historically and to the present day have based and can generate observations and findings about what Sacks […] himself famously termed order at all points. The manifold CA reports and studies documenting robust conversational patterns and structures extant in the micro moments of talk and embodied social interaction would simply not be possible without the Jeffersonian system […]” (2013, pág.12).

70 Goffman nas diferentes interações do cotidiano de uma sociedade, a AC adicionou a preocupação etnometodológica acerca da construção, feita pelos próprios participantes de uma interação, de uma base comum que pudesse dar a eles mesmos o entendimento compartilhado sobre essas obrigações morais situadas:

With Garfinkel […] conversation analysts recognize that analyzing the conversation in terms of rules and practices that impose moral obligations, in the way that Goffman stressed, needs to be supplemented by recognizing the importance of intersubjectivity. In particular, this

approach means focusing on how interactional rules and practices are ceaselessly drawn upon by the participants in constructing shared and specific understandings of ‘where they are’ within a social interaction. Central to this process is a ‘reflexive’ dimension in social action: by their actions participants exhibit an analysis or an understanding of the event in which they are engaged, but by acting they also make an interactional contribution that moves the event itself forward on the basis of that analysis. In this sense, to adapt Otto Neurath’s famous metaphor, they are building the ship while already being out on the ocean. (HERITAGE, 2005, pág. 103 e 104, grifo nosso)

O importante a ressaltar é que o trabalho de Sacks, Schegloff e Jefferson permite demonstrar rigorosamente – através da compreensão dos etnométodos que as pessoas utilizam para interagir conversacionalmente – que uma interação conversacional não é um epifenômeno que poderia ser explicado, de maneira simplista, como consequência direta da linguagem, da mente, da sociedade, da cultura ou de alguma combinação entre esses elementos (STIVERS e SIDNELL, 2013, pág. 7), mas sim como um verdadeiro fenômeno (como aponta a sociologia de Goffman) realizado através de um agenciamento local, situado, conjunto e incessante dos membros da sociedade (como aponta a sociologia de Garfinkel).

O objetivo da AC, ao encarar as interações conversacionais – a fala-em-interação – como um fenômeno por si, é o de perceber os fenômenos conversacionais para os quais as pessoas se orientam quando interagem através da fala: os modos como alternam a vez de tomar a palavra, as formas situadas de realizar ações e sequências de ações através da fala, os modos de corrigir a própria fala e a fala dos outros etc. (SCHEGLOFF, 1992, pág. 104). A AC está preocupada, portanto, em compreender os métodos pelos quais as pessoas organizam as interações conversacionais do seu cotidiano. É importante ressaltar, contudo, que a AC “não tem e nunca teve um interesse central pela linguagem em si, nem por sua descrição, mas enfoca, isto sim,

71 a articulação dos métodos de ação social humana” (GARCEZ, 2008, pág. 21). Ou seja, a AC se preocupa em compreender os métodos pelos quais as pessoas organizam ações sociais quando interagem conversacionalmente.

O interesse da AC por essa articulação conversacional dos métodos de ação social se justifica pelo fato de que é essa articulação que permite aos falantes sincronizarem suas intervenções de modo a construírem intersubjetividade – ou seja, um mundo prático para o aqui e agora de uma situação. A sincronização de ações concertadas é o que permite, enfim, a construção de contextos comuns e, por isso, a emergência da intersubjetividade. Segundo Adriano Duarte Rodrigues,

a atividade conversacional bem sucedida, em que os processos de interssincronização entre os participantes funcionam de maneira bem regulada, desempenha [...] esta função ritual de constituição de uma comunidade, em torno do reconhecimento do mesmo mundo vivido e da identidade de membro de uma mesma comunidade de vida. (2007, pág. 11)

III.2. O olhar conversacionalista: a atenção à produção sequencial de ações