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4.2 Electronique, cˆablage et acquisition

4.2.4 Evaluation des amplitudes

Neste tópico de análise, de modo a perceber mais detalhadamente a organização da fala-em-interação no RV, faremos uma observação comparada entre o sistema de tomada de turno dessas interações conversacionais com o observado nas conversas informais. Essa opção metodológica se justifica pelo fato, apontado por Sacks, Schegloff e Jefferson (2003, pág.55), de que a conversa informal apresenta um sistema de tomada de turno de fala prototípico, do qual derivam os sistemas de tomada de turno para conversas não-informais13. Abaixo, detalharemos

os motivos pelos quais é pertinente para o objetivo geral da pesquisa que percebamos a transformação derivada no RV do sistema de tomada de turno encontrado nas conversas informais.

13A prototipicidade do sistema de troca de turnos das conversas informais é o que faz com que esse

tipo de interação conversacional seja prototípica - de maneira geral e não apenas nesse sistema específico - para qualquer interação conversacional. Essa afirmação é possível devido à centralidade que a troca de turnos ocupa em qualquer tipo de interação formada por turnos. Sobre o sistema de troca de turnos numa interação conversacional, Clayman e Heritage afirmam: “a system of this sort determines how opportunities to speak arise, and hence how successive turns at talk are produced and allocated to the participants. Correspondingly, it defines the boundaries of permissible conduct within turns at talk” (2010, pág. 216).

141 As diferenças entre as interações conversacionais informais e as institucionalizadas, no que tange ao seus sistemas de tomada de turno, baseiam-se primordialmente, segundo Schegloff (1987, pág. 222), na diferença de posição que cada uma delas ocupa no espectro formado por tipos de atribuição de tomada de turno. Em um dos pólos desse espectro estão as interações em que a troca de fala é realizada integralmente por atribuição local dos participantes, enquanto no outro pólo estão aquelas em que a atribuição da troca de fala é completamente pré- determinada:

[...] in ordinary conversation determination of both who shall speak next and when that one should speak (i.e. when current turn should end) is accomplished in a local, turn by turn and not by some predetermined pattern. In contrast many meetings preallocate every other turn to the chairperson and give to the chairperson the power to allocate, in those turns, who shall have rights to speak in the others. Many ceremonies, rituals and formal debates, on the other hand, may fully specify the order and length of all turns, being thereby at the opposite end of the ‘local

allocation’ versus ‘preallocation spectrum’. In general it appears

that other speech exchange systems, and their turn taking organizations, are the product of transformations or modifications of the one of conversation, which is the primordial organization for talk in interaction. (SCHEGLOFF, 1987, pág. 222, grifo nosso)

De acordo com Sacks, Schegloff e Jefferson (2003), as conversas informais ocupam um dos pólos extremos desse espectro: o pólo das interações em que a atribuição da troca de fala é determinada por escolhas exclusivamente locais. Já as interações conversacionais institucionalizadas ocupam todas as outras posições desse espectro, distanciando-se progressivamente do pólo ocupado pelas conversas informais. Tipos extremos de interações conversacionais institucionalizadas ocupam o pólo oposto, em que a atribuição da troca de fala é completamente pré- determinada – como seria o caso, por exemplo, das cerimônias (SACKS, SCHEGLOFF e JEFFERSON, 2003, pág. 55).

O que dá o caráter de prototipicidade ao sistema de tomada de turno das conversas informais é o fato de que há, a partir delas, uma progressiva transformação na atribuição da troca de fala nas interações conversacionais

142 institucionalizadas, diminuindo as possibilidades de atribuição local aos participantes e, com isso, restringindo variações no sistema:

Ainda que tenhamos nos referido à conversa como ‘um dos pólos extremos’ na disposição linear, e à ‘cerimônia’ como sendo possivelmente o outro pólo, não devemos ser entendidos como se estivéssemos propondo o status independente ou igual da conversa e da cerimônia como tipos polares. Parece provável que a conversa deva ser considerada a forma básica de sistema de troca de fala, com outros sistemas na disposição representando uma gama de transformações do sistema de tomada de turnos da conversa, para se alcançar outros tipos de sistemas de tomada de turnos. À luz disso, o debate ou a cerimônia não seriam um tipo polar independente, mas, em vez disso, a transformação mais extrema da conversa – mais extrema ao fixar completamente o

mais importante (e talvez quase todos) dos parâmetros que a conversa permite que varie. (SACKS, SCHEGLOFF e JEFFERSON,

2003, pág. 55, grifo nosso)

Assim, a comparação do sistema de troca de fala específico do RV com o das conversas informais se justifica já que, sendo aquele uma derivação deste, compreender as pré-atribuições da troca de fala no RV – nos parâmetros em que, nas conversas informais, se permite variação através da escolha local dos participantes – será útil para percebermos um quadro inferencial que constrange a fala no RV.

Esse constrangimento nos interessa pois, além de ser por si só um contexto para a produção e interpretação da fala no RV, é só a partir de então que o processo de contextualização local feito pelos participantes poderá emergir – embora, não esqueçamos, os constrangimentos deverão ser atendidos localmente pelos participantes, que têm autonomia, inclusive, para quebrar as regras interacionais, ainda que isso custe a transformação do caráter da interação. Em suma, o processo de contextualização local no RV, ao invés de ser realizado pela livre escolha local dos participantes na alocação dos turnos de fala, o será pelas escolhas possíveis colocadas pelo constrangimento derivado das pré-atribuições de seu sistema de troca de fala.

É claro que o sistema de troca de fala da interação conversacional do programa RV, apesar de conter pré-atribuições para a tomada de turno, apresenta

143 maior abertura para escolhas locais do que poderia apresentar, por exemplo, a liturgia de uma missa católica. As transcrições nos mostram, como veremos nas análises, que a interação conversacional do RV não se posiciona no pólo extremo das atribuições de troca de fala totalmente pré-definidas, mas sim em algum ponto entre os dois extremos, sendo sensível – ainda que não em todos, mas ao menos em alguns aspectos – ao contexto local. Por exemplo, um ‘entrevistador’ do RV, ainda que tenha que respeitar o momento a ele atribuído pelo ‘mediador’ para fazer uma pergunta – como veremos nas transcrições – em certas ocasiões pode se auto atribuir um turno de fala a depender do andamento local da interação.

Isso nos permite dizer que o sistema de troca de turnos do RV, à maneira do modelo de sistema de troca de turnos que Sacks, Schegloff e Jefferson construíram para as conversas informais, também tem por característica ser “livre de contexto e sensível ao contexto” (2003, pág.13) – embora com menor grau de abertura ao gerenciamento local do contexto pelos participantes.

Quando Sacks, Schegloff e Jefferson modelizaram o sistema de troca de fala das conversas informais, estavam atentos ao fato de que esse tipo de interação possibilita uma ampla abertura ao gerenciamento local do contexto pelos participantes. Assim, o modelo apresentado, embora seja uma abstração e, portanto, livre de contexto – pois pode ser replicável a qualquer interação conversacional informal independente do contexto local em que elas ocorram – também tem como característica ser sensível ao contexto local – que será tornado relevante, justamente, pelas escolhas locais dos participantes nos parâmetros do sistema que permitem variação. Sobre esse modelo, dizem os autores:

A conversa pode acomodar uma vasta gama de situações, interações nas quais estão operando pessoas de variadas identidades (ou de variados grupos de identidades); ela pode ser sensível às várias combinações; e pode ser capaz de lidar com uma

mudança de situação dentro de uma situação.

Consequentemente, deve haver algum aparato formal que seja ele mesmo livre de contexto, de forma que ele possa, em ocorrências locais de sua operação, ser sensível a vários parâmetros da realidade social em um contexto local e a eles exibir sua sensibilidade. Deve-se esperar que alguns aspectos da organização da conversa tenham esse status de serem livres de contexto e sensíveis ao contexto; pois, é claro, a conversa é um veículo para a interação entre partes com quaisquer identidades

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potenciais e com qualquer grau de familiaridade potencial. Concluímos que a organização da TOMADA DE TURNOS “para a” conversa possa ser tal coisa. Isto é, ela parece ter um tipo apropriado de abstração geral e um potencial de particularização local. (SACKS, SCHEGLOFF e JEFFERSON, 2003, pág.14)

O que queremos descobrir, neste momento da análise, é a abstração geral do sistema de tomada de turno das interações conversacionais no RV, que pode revelar tanto o grau de abertura à particularização local pelos participantes quanto as pré- atribuições da troca de fala naquelas interações.

Como pudemos perceber nas análises, a interação conversacional que ali se dá também pode, tal como nas conversas informais, “acomodar uma vasta gama de situações, interações nas quais estão operando pessoas de variadas identidades (ou de variados grupos de identidades)” e “pode ser capaz de lidar com uma mudança de situação dentro de uma situação” – embora essa acomodação, no RV, se dê sempre a partir do constrangimento de que, ali, essas várias identidades estarão restritas – ou, ao menos, vinculadas – ao mecanismo de categorização de pertencimento (MCP) ‘participantes de programa de televisão’, que gera as categorias omnirelevantes ‘entrevistado’, ‘entrevistador’, ‘debatedor’, ‘mediador’, ‘telespectador’, ‘convidado’. Do mesmo modo, a sensibilidade às mudanças de situação estará restrita às modulações possíveis dentro das situações ‘entrevista’ e ‘debate’. Como as interações conversacionais institucionalizadas sempre apresentam esses dois constrangimentos gerais – (1) a necessidade de realização de determinada atividade por (2) incumbentes de determinadas categorias de pertencimento – suas variações estarão por eles, inevitavelmente, restritas.

Se queremos construir um modelo para um sistema de tomada de turnos do RV, devemos pensá-lo – já que esse tipo de interação não apresenta um sistema de tomada de turno completamente pré-determinado – do mesmo modo que Sacks, Schegloff e Jefferson o fizeram em relação às interações conversacionais informais, ou seja, como “um tipo apropriado de abstração geral e um potencial de particularização local” (2003, pág. 14). O que a modelização feita pelos autores sobre o sistema de tomada de turnos das conversas informais contempla é, justamente, a possibilidade de variação desse sistema.Qualquer tipo de interação que não esteja

145 posicionada no pólo das atribuições de turno de fala completamente pré- determinadas deverá levar em conta, portanto, a possibilidade de variação, ainda que mínima, a ser efetuada pelos participantes.

Isso nos permite dizer que um analista das interações comunicacionais, se quiser compreender o contexto de uma interação específica, não pode se contentar apenas com os constrangimentos colocados pelas pré-determinações de seus sistemas interacionais, mas deve estar atento, também, às escolhas locais efetuadas pelos participantes nos parâmetros em que os sistemas permitem variação (aliás, a pesquisa comunicacional atenta à perspectiva êmica que não negligencia os contextos tornados relevantes pelos participantes das interações, não irá obscurecer essa estilística comunicacional14, ou seja, não negligenciará a potencial variação

efetuada pelas escolhas locais dos participantes nos recursos interacionais da linguagem).

No programa RV, a cada emissão específica e mesmo dentro de uma mesma emissão, as variações interacionais que os participantes realizam serão acomodadas através do sistema de tomada de turno ali operante. Essas variações interacionais são fruto das escolhas locais dos participantes nos parâmetros do sistema que são abertos a essas escolhas, evidenciando um processo de contextualização local que age a partir da contextualização prévia dada pelas características de pré-alocação dos turnos.

A partir do que foi dito, procederemos da seguinte maneira para compreendermos o sistema de tomada de turnos do RV: cotejaremos cada característica do sistema de tomada de turnos das conversas informais – tal como apontadas por Sacks, Schegloff e Jefferson no texto Sistemática Elementar para a Organização da Tomada de Turnos para a conversa – com o funcionamento da tomada de turnos nas interações conversacionais do RV. Assim, de modo comparativo, dada a prototipicidade do sistema de tomada de turnos das conversas informais, conseguiremos perceber, na derivação que a fala-em-interação no RV impõe a esse sistema, um processo de contextualização em que algumas

14Sobre a ideia aqui esboçada de uma estilística comunicacional, problematizaremos com mais

146 possibilidades de escolha local pelos participantes são substituídas por predefinições na tomada de turno. Como afirma Garcez:

Procura-se definir, então, quais as propriedades da conversa cotidiana sofrem modificações naquilo que poderia ser reconhecido como uma forma institucional de fala-em-interação, assim como o modo pelo qual tais modificações se dão e que consequências elas têm em termos de constrangimentos e possibilidades para a conduta e ação social. Por exemplo: se faz sentido falar de discurso de sala de aula como algo que tem realidade conversacional para os participantes, como é que essa fala-em-interação difere de outras formas de fala-em-interação, e principalmente da conversa em geral? Como os participantes demonstram que isto é uma sala de aula, e o que isto significa para as possibilidades de ação pelo uso da linguagem neste, agora muito propriamente, contexto. (GARCEZ, 2088, pág. 26 e 27)

Como o RV possibilita a construção de ações pelos seus participantes? E como essas ações, reflexivamente, ajudam a construir um contexto local? Será através da observação da organização categorial-sequencial do sistema de tomada de turnos do RV que poderemos responder a essas perguntas, já que:

Visto que são usados para organizar tipos de atividade bastante diferentes umas das outras, é de particular interesse ver como os sistemas de tomada de turnos em operação podem ser caracterizados em função de suas adaptações às propriedades dos tipos de atividade nas quais eles operam. Mais uma vez, um investigador interessado em algum tipo de atividade organizada por um sistema de tomada de turnos desejará descrever como o tipo de atividade investigada se adapta à forma particular do sistema de tomada de turnos que nela opera ou como é por ela limitado. (SACKS, SCHEGLOFF, JEFFERSON, ANO, pág.12)