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4.2 Electronique, cˆablage et acquisition

5.1.5 Optimisation de la s´election des ´ev`enements de volume

É nessa subfase que o ‘telespectador’ pode assumir uma presença mais visível, ou melhor, audível, já que o que se apresenta do ‘telespectador’ é apenas o seu turno de fala vocalizado pelo ‘mediador’ do programa. Nessa fase, os ‘telespectadores’ – pelo menos alguns deles – podem se tornar “monitoráveis”, no sentido goffmaniano16, pelos participantes presentes no estúdio.

No trecho nº 3 (linhas 001 e 022), observamos um exemplo prototípico dessa fase, em que o que ocorre é a leitura, pelo ‘mediador’, dos turnos de fala endereçados pelo ‘telespectador’ ao ‘entrevistado’ daquela emissão.

Trecho de transcrição nº3

Mediador: Paulo Markun 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013 014 015 016 017 018 019

P.M. pra recolocar a bola em jogo professor tem perguntas

aqui de jor- jorge luiz pereira de santana são paulo que é operador da bmf pergunta o seguinte eu vou fazer as várias são todas sobre o mesmo tema. Nas cotas para negros nas universidades o senhor é a favor ou contra? (0.33) felipe sampaio de são paulo que é estudante .hh que é que o senhor acha da política de cotas para negros. eu sei que nós já começamos a abordar esse assunto mas o próprio (.) professor valdélio já havia (.) mencionado no intervalo da gente voltar esse assunto (0.4) geraldo rogério da vila maria pergunta no sistema de cotas para inclusão de negros nas universidades publicas como deveria ser feito uma (0.2) seleção. pela árvore genealógica? (0.3) e daniel (pfeifer) de florianópolis diz qu- santa catarina (.)ele diz que não concorda com esse sistema de cotas para os ingressos d- na: de negros nas universidades .hhh porque segundo ele entrariam pessoas despreparadas .hhh pra frequentar uma universidade. deveria sim (.) haver um trabalho no

16 Goffman define uma situação social como “um ambiente que proporciona possibilidades mútuas

de monitoramento” (2013a, pág.17, grifo nosso). É nesse sentido que usamos, aqui, a ideia de

166

020 021 022

023 H. S.

ensino básico e fundamental pra preparar o aluno a disputar (.) uma vaga pela competitividade. então voltamos ao assunto das cotas [(0.3) por esse ( )] [eu acho é]...

A fase interacional de “vocalização da fala do telespectador” pode ocorrer em vários momentos. Entretanto, os mais recorrentes se dão logo em seguida à fase “volta do intervalo”, ou quando um ‘entrevistador’ faz uma pergunta semelhante àquela que vários ‘telespectadores’ também haviam feito à produção do programa. No segundo caso, antes que o ‘entrevistado’ responda, o ‘mediador’ aproveita a brecha para ler as perguntas feitas pelos ‘telespectadores’. Essas são, portanto, as duas brechas mais evidentes que o incumbente da categoria ‘mediador’ utiliza para iniciar a fase de “vocalização do telespectador”.

Como podemos perceber pela organização categorial-sequencial observada na transcrição acima, embora o ‘telespectador’ não possa produzir uma pergunta de modo direto e instantâneo – necessitando que sua intervenção seja selecionada pela produção do programa e, posteriormente, lida pelo ‘mediador’ – aqui ele se torna, também, um incumbente da categoria ‘entrevistador’, como podemos observar entre as linhas 002 e 014, já que as ações que esses turnos vocalizados pelo ‘mediador’ realizam são, efetivamente, questionamentos.

Mas nem só através do ato de perguntar é feita a participação do ‘telespectador’ nessa fase do programa. Como vemos, entre as linhas 015 e 021, um dos ‘telespectadores’ não produziu uma pergunta mas uma opinião sobre um dos tópicos que estava sendo desenvolvido até aquele momento. Assim, além de poder emular um ‘entrevistador’, o incumbente da categoria ‘telespectador’ pode emular, também, um ‘debatedor’.

VII.1.1.3. Sequência de encerramento

Uma das características da fala-em-interação do Roda Viva que é diferente das conversas informais é o fato de que, enquanto estas não possuem extensão previamente especificada (SACKS, SCHEGLOFF E JEFFERSON, 2003, pág.14), aquela

167 tem seu tempo condicionado pela duração da emissão. Ou seja, a fala-em-interação no RV tem hora para acabar. Isso traz consequências não apenas para a fase de encerramento mas, também, para todas as outras fases interacionais, já que todas as atividades previstas para aquela situação social institucionalizada devem ser realizadas dentro daquele tempo pré-especificado. Toda a interação conversacional fica sujeita, portanto, a um manejo cuidadoso para que não ocorram dispersões em todos os sub cursos de ação representados pelas diversas fases da interação.

De qualquer modo, a incidência desta característica na fala-em-interação do RV – ter uma duração pré especificada – afeta a sequência de encerramento de modo a que o ‘mediador’ do programa deva interromper o fluxo da conversa e impor o seu final, já que é ele o “guardião” das regras interacionais do RV.

Aqui, na fase de encerramento, o ‘mediador’ do programa novamente orienta seu corpo em direção à câmera de televisão – sinalizando, novamente, a presença do ‘telespectador’ como importante participante da conversa – e realiza, de maneira geral, as seguintes ações, como podemos ver no trecho de transcrição nº 4: agradecer ao incumbente da categoria ‘entrevistado’; agradecer aos outros participantes do programa; informar sobre o dia e hora da próxima emissão do programa.

Trecho de transcrição nº4

Mediador: Rodolfo Gamberini 001

002 003 004 005

R. G. ((orientando o corpo à câmera de televisão))tá bem muito

obrigado então ao presidente do Corinthians senhor Vicente Matheus muito obrigado a todos vocês (.) que participaram desse roda viva o roda viva volta segunda feira que vem as nove e vinte da noite até e obrigado.

VII.1.2.O processo de contextualização global explicitado pela Organização

Estrutural Global (OEG) da fala-em-interação no Roda Viva

O que interessa notar na OEG da interação conversacional no Roda Viva, é que, das cinco fases interacionais que a compõem, quatro delas mobilizam

168 explicitamente o ‘telespectador’. E, mesmo na fase principal da interação, em que o telespectador não é direta ou explicitamente mobilizado, podemos perceber – e isso ficará mais claro com o prosseguimento da análise – que há uma orientação dos participantes, na produção e interpretação de suas falas, que leva em conta a presença dos ‘telespectadores’.

Desse modo, todas as fases que mobilizam explicitamente o ‘telespectador’ funcionam como balizas interacionais que ajudam a montar uma estrutura inferencial para a produção local da fala não só nessas fases mas também naquela em que essa categoria não é explicitamente mobilizada. A primeira coisa, portanto, que a OEG da fala-em-interação do RV nos revela, em termos da contextualização global que é por ela realizada, é que as falas ali observadas são tanto produzidas quanto interpretadas levando-se em conta a presença desse co-participante a que os convidados do programa só têm acesso pelas perguntas que são vocalizadas pelo ‘mediador’, ou por uma ideia, mais ou menos difusa, do que, hipoteticamente, seria um ‘telespectador’ “típico” do Roda Viva. A OEG da fala-em-interação no Roda Viva torna relevante que um dos principais participantes da interação é, enfim, o ‘telespectador’, mesmo ele não estando corporalmente presente no mesmo espaço em que estão os outros participantes da conversa.

Essa orientação para o telespectador afeta a maneira como os turnos de fala são desenhados, as ações são expressas nesses turnos, a maneira como as sequências são organizadas, os turnos de fala distribuídos etc... – não é a toa que Ian Hutchby afirma que “the question of how broadcast talk is designed for recipiency by an absent, overhearing audience has been central” (2006, posição 2294).

Embora nossa preocupação não seja estritamente a questão de como a fala- em-interação no RV é construída para atender a essa característica principal das conversas radiodifundidas – a presença de participantes não co-presentes – o que faremos, ao tentar perceber os processos de contextualização ali realizados de modo geral (nosso objetivo de pesquisa), certamente nos revelará os traços da interação conversacional no RV que são indícios dessa característica particular.

Os próximos tópicos de nosso trabalho serão uma tentativa de perceber, nas fases interacionais colocadas acima, como a fala-em-interação no RV é categorial- sequencialmente organizada. Desse modo, poderemos não apenas perceber os

169 processos de contextualização que indicam a importância do ‘telespectador’ como, também, aqueles que dão relevância a outros aspectos igualmente importantes para as situações sociais instauradas a partir de uma emissão do programa Roda Viva.

VII.2. As sequências de abertura das emissões do Roda Viva: projetando a organização da interação

VII.2.1. A organização das sequências na fase de abertura do Roda Viva: uma sequência tipo ‘convocação-resposta’ (summons-answer)

Trecho de transcrição nº5

Mediador: Rodolfo Gamberini 001 002 003 004 005 006 007 008 009 010 011 012 013 014 015 016 017 018 019 020 021 022 023 024 025 026 027 028 029 030 031 032

R.G. boa noite está começando nesse momento mais um Roda Viva

o programa de entrevistas e debates da TV Cultura de São Paulo canal 2. esta noite no centro da Roda Viva (.) está o presidente do Corinthians aliás mais uma vez presidente do Corinthians (.) o senhor Vicente Matheus. e pra participar desse Roda Viva, esta noite estão conosco aqui no estúdio da TV Cultura o jornalista Juca Kfouri da revista Placar (.) Ricardo Soares do jornal O Estado de São Paulo e revista Agavê (0.3) Michel Lorenz (.) da TV Record (.) Marcos Faerman do Jornal da Tarde e da TV Cultura (.) Júnia Nogueira de Sá (.) da revista Veja (0.5) Severino Pereira Júnior do Notícias Populares e Popular da Tarde (0.5) Haroldo Chiorino que é presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de São Paulo (0.3) e também jornalista da Folha de São Paulo. este que nós estamos mostrando agora no vídeo é Roberto Petry (.) do jornal Popular da Tarde. (.) está aqui também (.) Artur de Almeida (.) da TV Gazeta e Jornal da Tarde (.) e Flávio Adauto da Rádio Bandeirantes. na produção (0.3) mo- (.) queria que mostrasse agora aqui no nosso estúdio .hh esse pessoal todo que ocupa o segundo andar do estu- do estúdio d- do Roda Viva (.) são corinthianos convidados pela produção. eu gostaria que a gente mostrasse com destaque (0.3) dona Marlene (.) que é (.) a mulher do presidente do Corinthians senhor Vicente Matheus. (0.3) .hh senhor Vicente Matheus ahh >antes de começar a entrevista deixa eu fazer só um lembrete pro pessoal que tá em casa< que o j- normalmente as pessoas podem fazer telefonema pra cá pra fazer as perguntas pro presidente. Essa noite não é possível porque o programa foi gravado com certa antecedência.

170 A transcrição acima é uma sequência de abertura de uma das emissões do programa Roda Viva. Tentaremos perceber a organização da fala nessa sequência para, assim, notar um processo de contextualização advindo de seus procedimentos conversacionais.

Uma das primeiras coisas que chama a atenção na organização dessa sequência de abertura é o fato de Rodolfo Gamberini – o interagente que produz o turno de fala transcrito – não estar exatamente dirigindo a palavra aos que estão presentes no estúdio de televisão mas sim aos telespectadores do programa.

O que atesta tal percepção é o fato dele orientar o corpo e o olhar diretamente à câmera de televisão e não aos participantes em co-presença. Além disso, podemos afirmar que Gamberini tem como alvo os telespectadores pois as ações que realiza em seu turno de fala – implementadas pelas várias unidades de construção de turno (UCTs) ali presentes – são ações projetadas, primordialmente, para os telespectadores e não para os participantes que estão dividindo o mesmo espaço físico que ele.

As ações de saudar (linha 001 – UCT 1); apresentar a interação (linhas 001, 002 e 003 – UCT 2); apresentar os convidados do programa (linhas 003 até 026 – UCT 3); e prestar uma justificativa sobre a impossibilidade de participação dos telespectadores por telefone (linhas 027 até 032 – UCT 4) são destinadas aos participantes da interação que não estão presentes no estúdio pois, além de serem a eles visualmente dirigidas, os que no estúdio estavam, muito possivelmente, já haviam recebido saudações; já tinham sido previamente informados sobre os convidados daquela emissão além de, obviamente, não necessitarem fazer perguntas por telefone e, consequentemente, não precisarem de uma explicação pelo fato de, naquela emissão, as perguntas por telefone estarem impossibilitadas.

O comportamento de orientar o corpo e o olhar para a câmera de televisão, efetuado por Rodolfo Gamberini enquanto realiza as ações acima citadas, torna descritível aquilo que observamos na OEG do Roda Viva: a audiência do programa, formada por participantes difusos por espaços diversos, é um destinatário muito importante na fala-em-interação ali produzida. Esse é um dos traços fundamentais das conversas transmitidas por radiodifusão. Como salienta Ian Huchtby,