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Como o objetivo geral da pesquisa é perceber os processos de contextualização levados a cabo pelos participantes do programa RV – objetivo que será alcançado quando conseguirmos observar como esses participantes organizam

127 sequencialmente a interação conversacional – é importante definirmos os objetivos específicos através dos quais esse objetivo geral se revelará em sua totalidade e de modo detalhado. Aqui, nossa opção metodológica foi por estabelecer dois objetivos específicos: 1-) perceber os processos de micro contextualização; e 2-) perceber os processos de macro contextualização.

Geralmente, nas ciências humanas e sociais, as análises sobre a noção de contexto se dividem nessas duas dimensões. São, portanto, análises micro- contextuais ou análises macro-contextuais. Por análises micro-contextuais estamos chamando aquelas em que o foco de atenção é colocado no contexto proximal de uma interação: as características micro-estruturais da sociedade, ou seja, aquelas definidoras das situações interacionais imediatas em que os participantes estão envolvidos – por exemplo, uma aula, uma briga de trânsito, uma paquera. Por análises macro-contextuais estamos nos referindo àquelas em que o foco de atenção é colocado no contexto distal, ou seja, nas características macro estruturais de uma sociedade – aquilo que aqui estamos chamando de suas estruturas socioculturais – e que tem sido um dos objetos centrais das ciências sociais por muito tempo: os arranjos institucionais, de poder e de posicionamento social em uma sociedade.

Na perspectiva aqui adotada – e já explicitada nos capítulos teóricos – tanto os micro quanto os macro contextos não se constituem como entidades dissociadas e autônomas, mas sim como diferentes dimensões de uma mesma entidade: as circunstâncias de enunciação/ação mutuamente relevantes construídas pela intersubjetividade situada dos participantes de uma interação. Assim, tanto em relação às microestruturas de uma sociedade quanto em relação às suas macroestruturas, o que é relevante não é o foco de atenção estabelecido a priori pelo pesquisador, mas os focos de atenção concretos dos participantes de uma interação – focos esses que revelarão tanto os micro quanto os macro contextos concretamente mobilizados.

Para fins de análise, embora micro e macro contexto sejam entidades associadas no todo de um episódio interacional, é possível falarmos nessas duas dimensões contextuais. De acordo com Schegloff, mesmo sendo dimensões associadas ao todo contextual, é possível e desejável que a análise atente para cada uma dessas dimensões de modo particular pelo fato de serem mobilizadas pelos

128 participantes da interação enquanto dimensões problemáticas e relevantes para eles próprios. Portanto, isso é algo pertinente de se levar em conta numa análise contextual de perspectiva êmica:

The concern with “context” in the social and human sciences, especially with respect to interaction and discourse, is commonly understood to be adressed to two types of context – what can be called “external” or “distal” on the one hand, and “intra- interactional” or “discourse” or “proximate” on the other. Under the former rubric may be grouped aspects of social life long central to the social sciences – the class, ethnic, and gender composition of an interaction, each of these understood either as a distinctive source of ordering of and constraint on social life, or as an embodiment of more general properties such as “power” (in various of the senses in which that term is used). Here as well are found the various institutional matrices within which may be taken as “shaping” what goes on under their auspices or in arenas of social life on which they have a bearing.

By the second type of context we can understand the sort of occasion or genre of interaction which participants, by their conduct, make some episode be an instance of, the sort of sequences of talk or courses of conduct in which particular events may occur (stories, request sequences, etc), the capacity in which participants act relative to the episode in progress (e.g. as the initiator of a conversation or a topic, or its recipient) etc.

Now clearly, these two types need not constitute disjunct, or non-overlapping, sets. “Buyer” and “seller” can refer both to the “objective statuses” of participants in an interaction in a marketplace, and to the relevant “capacities” in which they engage one another in a particular spate of talk. But as that very example may suggest, although “external” and “intra- interactional” contexts need not be disjunct, their relationship can be problematic, and must be taken as problematic for the purposes of disciplined analysis. (SCHEGLOFF, 1992, pág. 195)

É preciso deixar claro mais uma vez, contrariando algumas críticas a ela dirigidas, que a etnometodolgia não negligencia os macro contextos, mesmo que a análise etnometodológica centre seu olhar na dimensão micro da sociedade que é a interação comunicacional e suas micro estruturas discursivas. Ela apenas insiste no fato de que os macrocontextos não são entidades objetivas que existem fora da interação mas sim entidades construídas de dentro da interação pelos seus interagentes, de modo a revelar uma orientação particular para as estruturas socioculturais (orientação essa que só pode ser realizada, aliás, através das microestruturas discursivas da interação). Assim, na dimensão micro da sociedade –

129 a interação – os participantes mobilizam situadamente não apenas microestruturas (as estruturas discursivas relativas à situação interacional imediata) mas também macro estruturas (estruturas socioculturais), numa operação de construção de relevâncias.

Quando falamos em microestruturas, nos referimos, por exemplo, tanto à estrutura global de uma interação (ou seja, o tipo de situação, com seus cursos de ação) e os tipos de sequências de turnos que formam seus sub-cursos de ação (por exemplo, os tipos de pares adjacentes, com suas possíveis inserções e expansões, numa interação de tipo conversacional) quanto aos sistemas de relação entre os papéis intrainteracionais assumidos pelos interagentes (no caso específico da interação de tipo conversacional, podemos citar: os mecanismos de categorização de pertencimento dos falantes como, por exemplo, ‘participantes de uma chamada telefônica’; os sistemas de relação entre categorias de pertencimento dos falantes como, por exemplo, o par relacional ‘quem chama - quem é chamado’ ao telefone, independente de os incumbentes das categorias ‘quem chama’ ou ‘quem é chamado’ serem um ‘professor’ ou um ‘diplomata’, categorias essas relativas às macroestruturas sociais).

Ao falarmos em macroestruturas, nos referimos tanto aos sistemas de valores e crenças de uma dada cultura12 como aos sistemas de posicionamento e

hierarquia social fornecidos por uma estrutura social. Ou seja, ao falarmos em macroestruturas, nos referimos aos sistemas de categorização de uma estrutura sociocultural – como, por exemplo, identidades sociais oriundas de classe, etnia, gênero, nacionalidade etc... relativos a diversos tipos de estruturas sociais, mas também unidades sociais, fenômenos naturais, regras, princípios morais, modelos de ação etc..., relativos às estruturas culturais.

O que define um contexto para a interação conversacional é o modo como seus participantes se orientam local e situadamente, através da organização que

12Segundo Franco Crespi, “os diversos elementos que surgem condensados no termo cultura

fazem ressaltar, por um lado, a dimensão descritiva e cognitiva da cultura; as crenças e as representações sociais da realidade natural e social, ou as imagens do mundo e da vida, que contribuem para explicar e definir as identidades individuais, as unidades sociais, os fenômenos naturais; por outro, a dimensão prescritiva da cultura, enquanto conjunto de valores que indicam os objetivos ideais a prosseguir, e de normas (modelos de acção, definição dos papéis, regras, princípios morais, leis jurídicas, etc.) que indicam o modo segundo o qual os indivíduos e as coletividades devem comportar-se” (1997, pág. 14).

130 fazem de uma interação, tanto para as microestruturas sociais como para as macroestruturas sociais, produzindo, dessa forma, microestruturas-sociais-em-ação e macroestruturas-sociais-em-ação.

Mas como é feita concretamente essa organização? Como vimos, podemos dizer que a organização da interação conversacional é feita pelo modo como seus participantes realizam suas ações em sequências de elocuções, de modo a que a ação de um participante sempre seja produzida levando-se em conta as ações que a antecederam em elocuções prévias, pois elas projetaram as circunstâncias locais relevantes para a realização das ações subsequentes na interação. Nesse processo de projeção de circunstâncias relevantes de enunciação/ação, os interagentes mobilizam intersubjetivamente certas microestruturas sociais e certas macroestruturas sociais. Por exemplo, ao realizar a ação sequencial de responder ao chamado de um guarda de trânsito, o interagente interpelado pode estar se orientando para e, consequentemente, tornando relevante, um determinado tipo de hierarquia prevista por uma macroestrutura social (guarda de trânsito > motorista). Além disso, quando o interpelado espera para falar somente sequencialmente às perguntas feitas pelo guarda de trânsito, esses interagentes podem estar se orientando para, e consequentemente tornando relevante, uma microestrutura social relativa ao frame (GOFFMAN, 2012) ‘blitz de trânsito’, diversamente do que fariam numa situação de ‘conversa informal’, por exemplo (mesmo que o interagente interpelado e o guarda de trânsito sejam, também, amigos).

Serão, ainda, os detalhes reveladores dos modos concretos com que os participantes realizam essas ações (nesse caso específico: interpelar; atender à interpelação; perguntar; responder) que mostrarão como é, de fato, que os participantes se orientam localmente para as micro e macro estruturas mobilizadas e é isso o que revelará a intersubjetividade situada que eles, ali, construíram. Por exemplo, o atendimento à interpelação do guarda de trânsito pode ser feito de vários modos: demonstrando subserviência (por exemplo, atendendo prontamente à interpelação, sem demonstrar hesitações; mostrando uma expressão facial amigável; usando um tom de voz suave); ou, demonstrando desacordo com a interpelação (por exemplo, hesitando entre parar ou não o carro; mostrando uma expressão facial de desagrado; usando volume de voz mais alto que o do

131 interpelante); entre várias outras formas. A construção situada da intersubjetividade se realizará, portanto, através da mobilização sui-generis, pelos interagentes, de micro e macro estruturas sociais.

Desse modo, percebemos que a organização da interação é feita sequencialmente pelas elocuções/ações dos participantes que, com isso, estão construindo localmente tanto microestruturas-em-ação quanto macroestruturas- em-ação – e, assim, explicitando as condições (micro e macro) relevantes de enunciação/ação. E, embora uma mesma elocução/ação possa mobilizar, ao mesmo tempo, tanto micro quanto macro estruturas, o fato é que essas diferentes dimensões existem e, como afirmou Schegloff, são tornadas problemáticas pelos participantes que estão, a todo momento, se orientando para elas de maneira situada.

Dentre as ações sequenciais importantíssimas nesse processo estão as ações de categorização. Elas, além de se prestarem à organização das micro e macro estruturas de um modo explícito – já que, segundo Sacks (1995), são ações responsáveis por se imputar direitos e obrigações normativos – mantêm com outras ações sequenciais uma relação inapagável: são tanto formadas por ações sequenciais outras como, também, responsáveis por as formar, como vimos nos capítulos teóricos. Nesse sentido, nossa análise levará em conta tanto a organização interacional realizada por ações específicas de categorização como a organização interacional realizada por ações sequenciais diversas nos turnos de fala, e sempre buscando perceber a correlação entre esses tipos diferentes de ações. Acreditamos, tal como o fazem Rod Watson e Édison Gastaldo que

pensar a ordem conversacional em termos de sequências de turnos de enunciados e categorizações de pertencimento permite [...] ampliar as possibilidades analíticas tanto de um único turno de fala quanto de sequências de turno. Se realmente quisermos ver a “ordem por toda parte” em uma conversa, precisamos levar em conta os fenômenos de categorização, senão pelo menos parte do fenômeno se perderá, como os elementos normativos da conversação. (2015, pág. 149)

Isso posto, podemos agora dizer que é a organização categorial-sequencial da interação, tanto aquela que constrói microestruturas-em-ação quanto aquela que

132 constrói macroestruturas-em-ação, o que nos interessa nessa pesquisa. Numa perspectiva etnometodológica, é a organização categorial-sequencial de uma interação que revelará os processos de contextualização, tanto micro quanto macro, ali presentes.

Diante do que foi visto, organizaremos nossa análise da seguinte maneira: Parte I (O Mundo DO Roda Viva) - para percebermos os processos de micro contextualização (nosso primeiro objetivo específico) precisaremos questionar nosso objeto da seguinte maneira: como os participantes do RV constroem microestruturas sociais situadas (microestruturas-em-ação) através de organizações categoriais- sequenciais?

Especificamente para esta parte da análise, iremos descobrir como os participantes organizam: a-) a estrutura global da interação conversacional do RV (organização estrutural global – OEG); b-) as sequências de turnos de fala no RV (organização de sequências); c-) a alternância dos turnos de fala no RV (sistema de tomada de turnos)

Não basta, portanto, que encaremos, apriorísticamente, o quadro inferencial gerado pelas emissões do RV como entrevista ou debate – mesmo que os interagentes assim o afirmem. É preciso que olhemos para os detalhes da interação, dados por sua organização categorial-sequencial concreta para descobrirmos, enfim, que quadros interacionais locais surgem a partir dos quadros primários (GOFFMAN, 2012) ‘entrevista’ e ‘debate’ dados pela cultura. Ou seja, qual o sentido das categorias ‘entrevista’ e ‘debate’ no RV?

Parte II (O Mundo NO Roda Viva) - para percebermos os processos de macro