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1.2 Exp´eriences de d´etection de mati`ere noire

2.1.2 Interaction des ´electrons de haute ´energie avec la mati`ere 30

Como colocado nos capítulos anteriores, será o contexto enunciativo relevante que permitirá aos participantes de uma situação fazer inferências – e mostrar, através de suas ações, as inferências que fizeram – sobre o que está sendo feito e dito numa interação. Ao mesmo tempo, são essas mesmas ações que

79 constroem o contexto enunciativo relevante a que os participantes recorrem para fazer as inferências. Assim, de elocução em elocução – ou seja, de turno de fala em turno de fala – os participantes de um interação conversacional vão construindo e reconstruindo o contexto que lhes permite entender suas próprias elocuções: “an utterance context is the organized sequence of turns in which it appears” (MAYNARD, 2006, pág. 58).

O que a AC propõe, em termos de postura analítica, é perceber esse processo de organização das sequências de ações sendo realizado momento a momento, passo a passo, nos seus detalhes. A AC dá visibilidade ao incessante processo de contextualização realizado pelas pessoas em suas interações conversacionais cotidianas:

For the target of its inquiries stands where talk amounts to action, where action projects consequences in a structure and texture of interaction which the talk is itself progressively embodying and realizing, and where the particulars of the talk inform what actions are being done and what sort of social scene is being constituted. (SCHEGLOFF, 1992, pág. 104)

Na realização desse processo de contextualização através da fala, as pessoas mostram competências conversacionais tanto para produzir ações como para fazer inferências sobre as ações produzidas por seus interlocutores. Essas competências se traduzem pelo conhecimento e pelo uso de práticas metódicas, verdadeiros padrões interacionais da fala, que auxiliam os falantes a realizarem e interpretarem ações quando conversam.Em vez de se preocupar com os “conteúdos” das conversas, a AC se debruça sobre os padrões conversacionais com que as pessoas constroem, sequencialmente, qualquer tipo de “conteúdo” pela fala. Esses padrões conversacionais auxiliam as pessoas no processo de produção e interpretação de suas elocuções pois a elas revelam qual o quadro inferencial geral em que estão envolvidas.

As práticas metódicas que resultam em um padrão conversacional – que, por sua vez, revela uma ordem interacional – não são meros veículos neutros ou repositórios para “conteúdos” propositivos da fala. Ao contrário, além de auxiliarem na realização (e interpretação) de ações variadas, elas servirão como recursos para

80 que as pessoas o façam de um modo específico, de acordo com os propósitos locais da interação: por exemplo, o padrão conversacional verificado nas entrevistas televisivas do Roda Viva servirá como um recurso para que os participantes co- pilotem a interação e, através de variações nesse padrão, possam dar um tom específico, em cada emissão particular, ao quadro inferencial geral proposto pelo padrão.

Para ilustrar o que estamos dizendo, podemos citar um dos procedimentos que fazem parte do padrão conversacional do Roda Viva – assim como de vários outros tipos de entrevistas televisivas: os entrevistados esperam para tomar a palavra apenas ao final da produção de uma forma gramatical interrogativa feita pelo entrevistador. Apesar de ser um procedimento padronizado – um etnométodo verificado em vários programas de entrevista – isso não é uma regra a ser seguida mecanicamente, mas algo que os participantes têm em conta quando participam do Roda Viva. Quando um entrevistado toma a palavra antes que o entrevistador produza a forma gramatical interrogativa, isso terá consequências interacionais, ou seja, consequências para o quadro inferencial que está sendo criado localmente a partir do quadro inferencial geral proposto pelo padrão. Isso, ao invés de revelar uma desimportância do padrão conversacional do Roda Viva, revela sua importância já que é a partir desse padrão que as ações serão levadas em conta, mesmo quando uma intervenção de um falante estiver em desacordo com os procedimentos metódicos padronizados.

A gestão local das práticas conversacionais têm consequências para o sentido das ações realizadas em um turno de fala:

A ‘practice’ is any feature of the design of a turn in a sequence that (i) has a distinctive character, (ii) has specific locations within a turn or sequence, and (iii) is distinctive in its consequences for

the nature or the meaning of the action that the turn implements. (HERITAGE, 2011, pág.212, grifo nosso)

A AC preconiza que, nos seus mais variados domínios, a fala-em-interação apresenta práticas metódicas situadas para a realização das ações que estão sendo localmente realizadas. O conjunto de práticas metódicas – o conjunto dos etnométodos da fala-em-interação – revela a maquinaria conversacional utilizada

81 pelas pessoas para co-pilotarem as interações conversacionais de que participam num determinado tipo de situação. A partir desse recurso para a co-pilotagem da interação, os interagentes podem construir, de acordo com os seus propósitos, a organização local das sequencias de suas falas. A AC se preocupa, portanto, em compreender as maquinarias que possibilitam aos falantes co-pilotarem suas interações e, assim, construírem os contextos enunciativos locais nos mais variados campos de atividade cotidiana – como podemos ver evidenciado abaixo por Sacks:

[t]he work I am doing is about talk. It is about the details of talk. In some sense it is about how conversation works. The specific aim is, in the first instance, to see whether actual single events are studiable and how they might be studiable, and then what an explanation of them would look like.

Thus is it not any particular conversation, as an object, that we are primarily interested in. Our aim is to get into a position to transform, in almost literal, physical sense, our view of “what happened”, from a matter of a particular interaction done by particular people, to a matter of interactions as products of a machinery. We are trying to find the machinery. (SACKS, 2003, pág. 26 e 27)

Compreender as maquinarias utilizadas pelas pessoas para interagir conversacionalmente permite aos investigadores descobrir os fatos sociais dos diversos tipos de interação conversacional (SIDNELL, 2013, PAG.78), ou seja, as práticas, normas e ações que os membros de uma sociedade reconhecem como dados nos seus diferentes campos de atuação conversacional. Como tal – de acordo com o que vimos no capítulo anterior – não se trata de descobrir regras gerais no sentido que uma sociologia tradicional daria para isso (algo que as pessoas seguiriam de maneira automática, independentemente das circunstâncias), mas sim os fatos conversacionais situados para os quais as pessoas se orientam quando falam, mesmo que não sigam cegamente as normas e práticas implicitadas nesses fatos.

Na obra Structures of Social Action (1984) – uma obra de referência no campo da AC – John Heritage e Maxwell Atkinson, através da clara alusão que o título de sua obra faz ao trabalho de Talcott Parsons, The structure of Social Action, ressaltam que não existe uma estrutura geral para a realização de ações sociais, como preconizava Parsons, mas sim uma multiplicidade de estruturas para as quais as pessoas se orientam e através das quais agem: “the detailed study of actual,

82 particular social actions and interactions has revealed the immense variety of the phenomena of action, and it is this variety which has informed our pluralization of Talcott Parson´s famous title” (HERITAGE e ATKINSON, 1984, pág 13).

Essas diversas estruturas são expressas pelos diversos tipos de atividades interacionais que são realizadas pelas pessoas numa sociedade – nos termos de Goffman, diversas ordens interacionais. Por isso, podemos dizer que as pessoas possuem competências situadas para agir conversacionalmente, pois cada família de situações semelhantes revela uma ordem interacional própria que nos é dada a ver pela maquinaria conversacional específica com que é produzida: as pessoas se orientam para os fatos conversacionais específicos de uma entrevista médica, de uma aula de língua estrangeira, de uma entrevista de emprego, da marcação de uma reserva num restaurante, de uma conversa informal – podendo, assim, sincronizar suas ações individuais nos mais variados tipos de situação.

Contudo, como salientam Sacks, Schegloff e Jefferson, a conversa informal – aquela que não ocorre baseada em objetivos institucionais – parece ser “a forma básica de sistema de troca de fala, com outros sistemas na disposição representando uma gama de transformações do sistema de tomada de turnos da conversa, para se alcançar outros tipos de sistemas de tomada de turno” (2003, pág.55).

O sistema de tomada de turno – como veremos mais à frente – é o mais importante sistema da maquinaria conversacional, pois dele dependem todos os outros sistemas da fala-em-interação – tal como o sistema de realização de reparo ou o sistema de organização de preferência, por exemplo. Se os diversos tipos de fala-em-interação institucional são derivações do sistema de tomada de turno da conversa informal, como propõem Sacks, Schegloff e Jefferson, não parece despropositado dizer que a maquinaria que revela a ordem interacional da conversa informal é a matriz geradora das diversas maquinarias que revelam as diversas ordens interacionais das falas-em-interação que podem ser percebidas nos diferentes tipos de situação da vida cotidiana: “[a] conversa ocupa obviamente uma posição central entre os sistemas de troca de fala; talvez o seu sistema de tomada de turnos explique mais ou menos essa centralidade” (2003, pág. 15).

A diferença entre a conversa informal e a fala-em-interação institucionalizada é que, nessa última, os falantes deverão sempre realizar as atividades e os papéis

83 sociais determinados pelo caráter institucional da interação. Isso faz com que, nessas interações, haja uma menor abertura – em relação ao que se percebe nas conversas informais – para a escolha local dos participantes na realização de suas ações. Isso ocorre, justamente, pela necessidade de desempenhar os papéis sociais preestabelecidos (por exemplo, médico e paciente, professor e aluno etc.) e as atividades predeterminadas pelos objetivos institucionalizados da situação (fazer diagnósticos, relatar sintomas, explicar tópicos de estudo etc.). Assim, cada família de situações sociais institucionais semelhantes apresentará uma maquinaria conversacional própria que dá visibilidade (o caráter visto mas não destacado) a uma estrutura – um contexto institucional – particular: “we see a pervasive orientation on the part of the participants to the institutional context in which they are operating. This orientation shapes the ways in which the participants speak and thus they can be seen to talk the context into being” (SIDNELL, 2010, pág. 10\26).

Uma das tarefas do analista da conversa é observar, em um conjunto amplo de episódios conversacionais de mesmo tipo, as regularidades conversacionais para as quais os participantes se orientam – mesmo que, vez por outra, essa orientação seja no sentido de violar (breach) as regras implícitas aos fatos sociais conversacionais observados. Aliás, a própria maneira como a violação é realizada ajudará a revelar a ordem implícita:

CA investigation always begins with single cases, trying to account for their dynamics one by one. Analysis may as well stop here, with a detailed explanation of what is happening in the single example. If one wants to further generalize to other cases, this will always be done very cautiously, showing how the ‘device’ or ‘practice’ is at work in several examples. Claims are not formulated as general laws such as whenever X takes place, then Y follows’. Rather, in order to account for a particular practice, special attention is paid to deviant cases in which a ‘breach’ occurs. It is cases like these, and participant’s reactions to them, that shed light on otherwise implicit mechanism. (PALLOTTI, 2007, pág. 7)

As diversas estruturas conversacionais de uma sociedade – essas maquinarias que revelam os fatos sociais situados das interações conversacionais – não são encaradas, pela AC, como algo a ser atendido cegamente pelos falantes, mas sim como recursos para os quais os falantes se orientam enquanto interagem

84 conversacionalmente de modo a que, em cada episódio interacional de que participam, possam construir – a partir dessas estruturas gerais – uma estrutura-em- ação, ou dito de outra forma, uma ordem-social-em-ação ou, simplesmente, um contexto-em-ação.

Assim, mesmo que numa família de situações semelhantes – por exemplo, consultas médicas com grávidas de gêmeos no terceiro trimestre de gestação em Portugal – exista uma ordem interacional própria, será no uso concreto de sua maquinaria – ou seja, no conjunto dos etnométodos utilizados para interagir nesse tipo de situação – que os participantes construirão localmente o contexto relevante de um episódio interacional específico. Fica clara, então, a importância de se descobrir essas diversas maquinarias das atividades conversacionais práticas: elas serão o veículo pelo qual as pessoas construirão os contextos enunciativos locais e, como tal, apresentarão para isso uma série de constrangimentos e possibilidades particulares. Numa conversa informal, devido ao caráter do menor constrangimento colocado pela maquinaria interacional que ali se observa, a decisão local, turno a turno, do caráter da interação (que papéis sociais e que atividades serão ali exercidas) é algo bastante aberto. Mas nas interações conversacionais institucionais, devido ao maior constrangimento colocado previamente por suas maquinarias específicas, as decisões locais estarão sempre sujeitas a esses constrangimentos e obrigações morais situadas (mesmo que para violá-los).

Compreender os constrangimentos, direitos e obrigações morais – tanto nas conversas informais como nas institucionais – faz parte das competências interacionais dos falantes que, para conseguirem dar o tom pretendido às sua ações e perceberem acuradamente as ações dos outros, levam em conta os procedimentos específicos (a maquinaria que dá visibilidade aos constrangimentos e obrigações morais) para interagirem nesses determinados tipos de interação. Para o analista, compreender essas maquinarias específicas auxiliará a compreender com maior precisão e refinamento o que está efetivamente acontecendo em um episódio singular de interação conversacional. Acreditamos que não seja equivocado dizer que os diversos tipos de maquinaria da fala-em-interação funcionam – além de um recurso para a co-pilotagem interacional – como um um verdadeiro contexto geral para a produção de contextos locais:

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The term ‘talk-in-interaction’ reminds us that talking with one another is social interaction, and that talk is ubiquitous in social life. Furthermore, it has become increasingly clear over two decades of research in conversation analysis that talk is very orderly indeed. It is, moreover, organized by use of machinery

deployed in and adapted to local contingencies of interaction across an immense variety of social settings and participants [...].

For example, whenever, wherever, and by whomever, turn have to be taken, encounters have to be opened and closed, questions asked and aswered, requests made and granted or denied, assessment offered and seconded, and so forth. The organization

of talk provides the formal resources to accomplish these interactional tasks, and deploys these resources in a manner that is sensitive to just what circumstances and participants happen to be at hand – which is to say locally. The shape of talk found in a specific site thus reflects the context-sensitive (and thus particularized) application of a more general, context-free (and thus anonymous) interactional mechanism. (ZIMMERMAN e

BODEN, 1991, pag. 8, grifo nosso)