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4. Comment aborder la question des mutilations sexuelles féminines

4.3 Utiliser un interprète

Data: 25 de julho de 2003.

A professora disse aos estudantes, na sala de leitura, que hoje eles não iriam ler livros, fariam uma coisa diferente. “Vão trabalhar um tipo de texto que nunca trabalharam”. Os estudantes se arriscaram falando os tipos que já conheciam. A professora colocou no quadro de giz: “texto publicitário” e pediu uma frase de qualquer produto.

Estudantes: “Ace todo branco fosse assim.

“Pra você ficar legal, melhor é melhoral”. “Apracur pra curar”.

A cada frase a professora perguntava qual era o produto que estava sendo vendido e, posteriormente, a denominava de slogans. Ela falou que estes “chamam a atenção do leitor pra comprar aquele produto”.

A sala foi dividida em grupos de quatro integrantes. A professora distribuiu um texto, a primeira vista imagético-verbal, para cada grupo, e informou- os que iriam criar um texto publicitário:

Os grupos leram o texto, mas a leitura ficou difícil porque os educandos falavam em voz alta. Um estudante disse que não compreendeu o texto. A professora então leu o texto para os estudantes, mas se fixou apenas na parte do

slogan.

Uma estudante disse que a Faber Castell, nome este presente no texto distribuído pela professora, “está dando uma satisfação e também fazendo uma propaganda”. Disse, ainda, que existe uma imagem no texto e pergunta aos estudantes “Qual é esta imagem?” e “Qual produto está sendo vendido?”.

Respostas dos estudantes: “Lápis de cor”. A professora perguntou: “De que marca?” Resposta da turma: “Faber Castell”.

Professora: “E o que quer dizer a frase ‘Nenhuma coruja perdeu o sono...”

Resposta da turma: “Porque a coruja morava na madeira”.

“Porque a madeira era onde ela ficava, a árvore, aí”. “Porque é da madeira que se faz um lápis”.

“Porque eles estavam arrancando os outros”. Professora: “que outros?”

Estudante: “os outros galhos”. Estudante: “De outras árvores”.

Estudante: “Porque a madeira dela não era de floresta”.

A professora completou: “... que era uma madeira especial, que eles plantam para fazer os seus lápis. Eles não saem por aí devastando. Eles não tiram nenhum animal do seu habitat”. E continuou a perguntar: “Qual o objetivo desse texto para os leitores?”

A turma não respondeu. A professora, o tempo todo, chamou a atenção da turma por causa do barulho.

A professora passou a dirigir as perguntas.

Estudante: “De incentivar os povos a não cortar árvore”. Professora: “Não”.

Estudante: “Que não é pra empatar ninguém dormir”. Professora: “De jeito nenhum”.

A professora dirigiu a pergunta a outro estudante. Ele e os demais não responderam.

Professora: “No final do ano eu vou fazer aquele ditado. Não adianta chorar no pé do cabloco”.

Estudante: “Fazer a propaganda do lápis”.

Professora: “Exatamente. E com isso eles aproveitaram e colocaram um texto dizendo como eles fabricam os lápis. Então eles foram espertos, usaram a natureza para comprar. Se tiver aqui um lápis comum e outro da Faber Castell, qual nós compraríamos?”

Estudantes: “Faber Castell”.

Professora: “E por que escolheram logo a coruja para aparecer na propaganda?” — A professora dirigiu esta pergunta a um estudante.

Estudante: “porque eles não tiram a árvore de todas corujas, porque eles escolhem outras árvores...”

Professora: “aonde as corujas vivem?” Estudantes: “Nas árvores”.

A professora perguntou o que significava a palavra companhia de acordo com o slogan.

Estudante: “Quer dizer... vou dar um exemplo: tem uma empresa e outra empresa. Uma produz madeira e a outra precisa da madeira para fazer um objeto, aí elas se juntam e formam uma companhia.”

Professora: “Eu estou falando dessa companhia aqui do texto”.

A mesma estudante: “Porque os lápis sempre estão juntos para escrever, desenhar...” A estudante falou outras coisas similares, mas que foram difíceis de registrar pelo pesquisador.

A professora perguntou: “De onde vêm as cores?”. Estudante: “Das plantas”.

A professora perguntou o porquê do nome Faber Castell. A turma não respondeu.

A professora perguntou, então, se havia alguma dúvida sobre o texto publicitário e, após um silêncio em relação à pergunta, distribuiu um papel ofício para cada grupo produzir o seu texto publicitário. Orientou os educandos, dizendo

que escrevessem na folha “texto publicitário”. Disse à classe para escrever um texto conscientizando as pessoas quanto à preservação do meio ambiente. Colocou no quadro de giz a seguinte orientação:

Não esqueçam:

• que os leitores precisam entender a mensagem;

• o objetivo da propaganda é convencer as pessoas de que o produto deve ser comprado;

• a imagem é muito importante nesse tipo de texto; • o slogan ajuda a chamar a atenção do leitor;

• o uso de cores e letras também ajudam a chamar atenção.

A professora leu a orientação e a explicou pra turma.

INTERVALO DA AULA

A atividade continuou na sala de aula, pois havia começado na sala de leitura. Os estudantes tiveram o período de uma hora para realizá-la.

A professora disse que um representante de cada grupo deveria apresentar seu produto para toda classe. Todos os grupos leram e apresentaram o desenho do produto. Ao término de cada apresentação/leitura a turma aplaudiu. A professora não fez, durante as apresentações, nenhuma interferência. Ela elogiou todas as produções e avisou que na próxima semana faria a correção gramatical e tiraria as dúvidas sobre texto publicitário. Pediu que pegassem os cadernos de matemática para registrar o dever de casa, pois em seguida, faria uma brincadeira.

P/casa

.Estudar a tabuada de multiplicação para sabatina. .Livro de matemática p. 103.

A professora fez a mesma brincadeira da aula anterior, mantendo os mesmos grupos da produção do texto publicitário.

COMENTÁRIOS:

Trataremos, agora, de um gênero textual comum na vida cotidiana das pessoas, mas pouco freqüente nas salas de aula: o anúncio publicitário. Inicialmente, recorreremos à sua caracterização, com o intuito de apreender melhor sobre sua estrutura e funcionalidade discursiva antes de interagirmos com aula da Professora A.

O anúncio em questão é caracterizado como publicitário, o que lhe confere uma outra ordem de sentidos diferente de um anúncio proveniente de contextos específicos de interlocução, como, por exemplo, um anúncio de casamento para os familiares e amigos, um anúncio de gravidez, de regras de convivência etc. Entretanto, podemos nos interrogar: mas todos esses anúncios, caracterizados de não publicitários, não teriam, também, a função de informar, convencer e compartilhar sentidos ideológicos sendo, portanto, também publicitários? Pensamos que sim, embora a diferenciação aqui realizada esteja justamente relacionada ao conceito de publicitário. Sendo assim, traremos agora sobre a definição do referido termo a partir de fontes diversas:

- No dicionário87, encontramos as seguintes definições: -

1. Qualidade do que é público: a publicidade dum escândalo.

2. Caráter do que é feito em público: a publicidade dos debates judiciais.

3. A arte de exercer uma ação psicológica sobre o público com fins comerciais ou políticos; propaganda; agência de publicidade; a publicidade governamental.

4. Cartaz, anúncio, texto, etc., com caráter publicitário: duas páginas de publicidade no jornal. (FERREIRA,1986, p. 1. 414)

- De acordo com Marcuschi (2000,p. 27): -

A publicidade opera de maneira particularmente produtiva na subversão da ordem instituída para chamar a atenção para a venda de um produto. Parece que desenquadrar o produto de seu enquadre normal é uma forma de enquadrá-lo em nosso enfoque para que o vejamos de forma mais nítida no mar de ofertas de produtos.

- De acordo com Lara (2003,p. 46):

87 FERREIRA, Aurélio Buarque de Iolanda. Novo dicionário de Língua Portuguesa. 2.ed., Rio de

A publicidade existe desde os primórdios da humanidade, em ruas gregas, romanas, em papiros e placas, em arautos e vozes. Ganha espaço quando a imprensa se desenvolve; ganha cores quando as técnicas de reprodução permitem; ganha as ruas quando os meios de comunicação vão às ruas. Vergonha das vergonhas, pede que se comprem produtos, estimula o lucro, ofende a sociedade com sua franqueza e rudeza no falar. Choca o mundo, inserindo-se aqui e ali, sugerindo consumo, pondo preço nos desejos.

- De acordo com SANDMANN (2002),

Em português publicidade é usado para a venda de produtos ou serviços e propaganda tanto para a propagação de idéias como no sentido de publicidade. Propaganda é, portanto, o termo mais abrangente e o que pode ser usado em todos os sentidos. (p.10)

A partir das definições dadas ao termo publicidade, podemos melhor compreender a nossa posição inicial de destacar o anúncio trabalhado pela Professora A como sendo uma notícia publicitária, dando margem ao entendimento de que existem anúncios que se desvinculam da publicidade. Por outro lado, se nos centrarmos na origem do termo, que é proveniente do latim publicus, significando

tornar algo público, devemos entender que qualquer anúncio deverá ser considerado

como publicitário. Entretanto, se pensarmos atualmente no sentido assumido e/ou incorporado à palavra publicidade, nossa diferenciação entre anúncios torna-se, contextualmente, relevante. Esta nossa visão está respaldada, por exemplo, pela conceituação de publicidade apresentada por Lara (2003) que destaca a existência deste conceito desde os primórdios da humanidade, embora ressalte os rumos diferenciados tomados, principalmente ligados ao consumismo exacerbado e, por conseguinte, pondo preço nos desejos. Daí sentirmos a necessidade de situar o gênero textual em questão antes de adentrarmos por uma análise mais específica da aula da Professora A. Neste caso, nos propomos a dialogar com a dinâmica estabelecida pela referida professora, iniciando com algumas observações sobre o que conseguimos vislumbrar no anúncio publicitário em questão.

Podemos ver que neste texto não há a utilização de recursos lingüísticos que busquem se desvencilhar da norma padrão estabelecida. No entanto, a linguagem apelativa e persuasiva do anúncio pode ser vista tanto em seu slogan:

em toda à sua narrativa, de palavras ou expressões sinônimas88 que semanticamente nos remetem à preocupação da Faber Castell com o meio ambiente; daí ser necessário e prudente o consumo de seus produtos.

Outro aspecto que pode ser ressaltado sobre o anúncio da Faber Castell, diz respeito ao segundo slogan que acompanha a logotipo da empresa: Sua

companhia para escrever, desenhar e pintar, que além de informar sobre os tipos de

produto que esta empresa vende, faz uso do pronome possessivo sua, visando gerar tanto uma aproximação informal entre o leitor e a empresa, quanto um desejoso vínculo afetivo e participativo com a filosofia de trabalho enfatizada pela Faber Castell. Esta constatação, por exemplo, inclui um estudo gramatical aproveitável para os estudantes na medida em que coloca à gramática a serviço da compreensão dos sentidos dispostos no texto. Tal inter-relação não foi realizada pela Professora A. Supomos que este fato tenha sido ocasionado pelo não entendimento desta sobre o uso da gramática:

Entrevistadora: Como você seleciona os textos para sala de aula? Professora A: Eu seleciono... Eu tenho o objetivo de alcançar o

quê? Primeiro eu trabalho a leitura individual na sala, pra ver o nível de leitura que eles estão.

Entrevistadora: É a leitura em voz alta que você está falando? Professora A: É, primeiro silenciosa, pra eles conhecerem, faço

antecipação do título, né. O que é que eles acham que vão encontrar no texto. Depois de trabalhar o texto, a interpretação, o tempo que está sendo...o tempo verbal em que foi escrito o texto, a gente vai trabalhar a parte gramatical. Agora, a depender do texto, né. (Entrevista realizada em 19 de dezembro de 2003.)89

Vê-se que a Professora A não relaciona a interpretação de um texto com o estudo gramatical, tratando-os como pólos distintos. Esta constatação faz-se necessária para que compreendamos as suas estratégias de leitura/aproximação de gêneros textuais.

Já a atitude da Professora A de não dizer para os estudantes sobre qual gênero textual iriam ler, dando apenas a pista de que se tratava de “um tipo de texto que nunca trabalharam”, pode ser considerada como uma pertinente estratégia de leitura, visto que tanto resgata a memória leitora dos estudantes para textos que

88 São elas: madeira plantada - plantação de madeiras - matéria-prima - preservando flora e fauna

naturais -lição de ecologia.

conhecem, como cria expectativas favoráveis para a discussão do anúncio. Além disso, buscar dos estudantes frases de propaganda, antes de revelar as características de um texto publicitário, permite uma fantástica associação entre prática, o que os estudantes já sabem sobre esse texto, e teoria, a partir do estudo direcionado do anúncio publicitário em questão. Vale sublinhar, que o conceito de

slogan também é introduzido pela Professora A, após a citação dessas frases pelos

estudantes, reforçando, novamente, o importante trajeto da prática para a teoria. Trajeto este que se faz necessário e viável tendo em vista que o gênero textual anúncio publicitário faz parte do dia-a-dia destes estudantes.

Em relação ao bate-papo instaurado na sala de leitura, consideramos ser essencial a idéia de a professora ter iniciado uma discussão em pequenos grupos e, em seguida, ter socializado o que foi debatido. Por outro lado, sentimos que o texto publicitário em questão não está dentre os mais fáceis de entendimento pelo leitor, já que utiliza escritos longos e não metafóricos, assim como dois slogans - um referente à propaganda específica e que serve de título para a narrativa textual, e outro que acompanha a logomarca da empresa. Mas, embora essa complexidade estrutural e lingüística tenha dado margem a não entendimentos por parte de alguns estudantes sobre o texto, pensamos ser coerente a sua inserção no espaço escolar, desde que outros anúncios pudessem servir, também, de base para que os estudantes realizassem maiores inferências. Isto porque, mesmo sabendo que o referido gênero faz parte do cotidiano dos estudantes, a advertência da Professora A para produções textuais similares corre o risco de ser mal interpretada pelo fato de ter sido realizada a partir de um único texto publicitário. O que significa dizer que embora o contato com esse gênero seja constante fora dos muros da sala de aula, isto não garante que os estudantes compreendam os teores persuasivos, argumentativos, ilustrativos, dentre outras estratégias publicitárias.

Nesse processo, sublinhamos que a utilização de gêneros textuais diversificados, abordando a temática Meio Ambiente, se faria necessária como estratégia de leitura, visto que evidenciaria melhor a intenção do anúncio publicitário ao usar essa temática como pano de fundo, tanto para dar credibilidade à empresa quanto para divulgar e vender mais seus produtos.

Observamos, ainda, que a Professora A estimula o diálogo com os estudantes, ao problematizar suas respostas e relacionar os textos escritos com a imagem exposta no anúncio. No entanto, não vê o silêncio dos estudantes para

certas questões como algo revelador de sentidos, utilizando recursos desnecessários e incoerentes, tais como: ameaça (realizou atividades escolares aparentemente desprazíveis; afirmativa essa evidente pelo seu tom de brincadeira) e direcionamento de respostas (apontou para os estudantes que deveriam responder as questões propostas). Outro aspecto a ser destacado diz respeito à orientação escrita que esta professora disponibilizou aos estudantes com o intuito de auxiliar suas produções textuais. Isto, a nosso ver, revela, ainda que de forma inconsciente, uma preocupação com a compreensão estrutural do gênero, além de servir como complemento de suas explicações orais sobre a atividade a ser realizada.

Quanto à finalização da aula, percebemos, novamente, uma desvinculação entre gramática e texto, ao ser proposto pela Professora A uma

correção gramatical das produções textuais dos estudantes. Então, o que podemos

dizer dessa atitude?

Inicialmente, convidaríamos à professora a ler a seguinte colocação de Irandé (2003):

[...] o fato de o professor, diante dos trabalhos dos alunos, ter apenas que procurar os erros tornou-se uma coisa tão natural que o termo consagrado para essa leitura do professor é “corrigir”. A pergunta que os alunos nos fazem é sempre: Professor(a), o (a) senhor(a) já corrigiu as provas? Por que não perguntam se já vimos, se já lemos seus trabalhos, seus textos? Uma análise semântica revela: “corrigir” é uma palavra que implica naturalmente uma outra: “erro”. Na verdade, o professor não lê, não avalia o que os alunos escreveram: o professor “corrige”, porque, como revisor, só tem olhos para os erros. (p. 55)

E, posteriormente, consideraríamos não intencional a atitude da Professora A de desvincular texto e gramática, pois vimos que esta se preocupa em buscar uma formação em Pedagogia, bem como elabora um planejamento cuidadoso de suas aulas, revelando na sua fala cotidiana com os estudantes uma vontade em acertar, embora não compreenda, ainda, - e de certo modo nós também -, de que forma.

Para tentarmos compreender essa questão, utilizaremos as palavras do Pajé Felippe Serpa90 que dizia que as atualizações são inúmeras sendo, portanto, pertinente entender que ao tecer críticas e idealizar em cima das idéias e atitudes de

90 Em conversas informais, que também incluem suas aulas na Faculdade de Educação da UFBA.

outros profissionais, nós estamos mostrando o nosso percurso de atualização, que embora seja fruto do convívio em diversas instâncias sociais, são também formas singulares de apreensão e digestão do que vivenciamos. Assim sendo, concluímos, a partir de expressões e idéias desse mesmo Pajé, que embora no campo das

potencialidades sejamos todos iguais, no campo das possibilidades somos todos diferentes.

QUADRO 4A: DIÁRIO DE CAMPO