6. Conduite à tenir pour la protection des mineures face à un risque d’une MSF
6.2 Conduite à tenir en cas d’un risque imminent de MSF pour une mineure
Data: 28 de Agosto de 2003.
A professora estava corrigindo o dever de casa sobre o corpo humano. A correção foi oral. A atividade era um questionário.
Posteriormente, ela falou para os estudantes: “[...] a crônica que vamos ler hoje é de Fernando Sabino”. Antes, entretanto, leu uma sintética biografia do autor para a classe.
Crônica:
Fuga
Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.
- Pára com esse barulho, meu filho – falou, sem se voltar.
Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.
- Pois então pára de empurrar a cadeira. - Eu vou embora – foi a resposta.
Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave onde diabo meteram a chave da despensa? – (a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.
A calma que deixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:
- Viu um menino saindo desta casa? Gritou para o operário que descansava
diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.
- Saiu agora mesmo com uma trouxinha - informou ele.
Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro.
A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e – saíra de casa prevenido – uma moeda de 1 cruzeiro. Chamou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia a distância.
- Meu filho, cuidado!
O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como um animalzinho:
- Que susto você me passou, meu filho – e apertava-o contra o peito, comovido.
- Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.
Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:
- Machucando é? Fazer uma coisa dessas com seu pai. - Me larga. Eu quero ir embora.
Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala – tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.
- Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando. - Fico, mas vou empurrar esta cadeira.
E o barulho começou.
A professora avisou à classe que a leitura deveria ser silenciosa
“procurando se deter nas coisas minuciosas”. Segundo o seu caderno de planejamento, o objetivo do texto era “trabalhar o assunto de gramática”:
“Gramática – modos do verbo. Tempos”.
Após a leitura silenciosa, a professora pediu a um estudante que lesse o texto em voz alta. Cada estudante leu um trecho do texto. Depois a professora leu o texto todo. (Havia muito barulho externo)
Ela explicou o texto e pediu que, em grupos, por causa da pouca quantidade de dicionários, os estudantes fizessem uma lista das palavras desconhecidas e as procurassem no dicionário, atentando para os seus significados.
Duração de 1h00 para essa atividade.
INTERVALO DA AULA
Na volta do intervalo, foram corrigidas as palavras que os estudantes procuraram no dicionário e, também, solicitou-se uma produção textual sobre a peça teatral “História de uma caixola”101, pois durante toda a semana, segundo a
professora, só deu tempo para conversar sobre a mesma e colocar os conteúdos em dia.
Na aula seguinte a professora fez a correção, no quadro-de-giz, de uma atividade de matemática envolvendo problemas de adição e subtração.
Com o texto “fuga”, a professora disse que destacaria algumas frases para que os estudantes a transformassem, passando a seguinte atividade:
Atividade
01. Transforme as frases, colocando-as no tempo presente: - O pai colocou o papel na máquina.
- O menino começou a empurrar a cadeira. - O pai falou sem se voltar.
- Ele já sabia reagir às injustiças paternas.
03. É possível responder a 2ª questão? Por quê?
04. Relembrando os modos dos verbos estudados, escreva: a) Quais verbos que estejam no modo indicativo.
b) Dois verbos que estejam no modo imperativo.
Após, em média, 40min. A professora, junto com os estudantes, corrigiu a atividade no quadro de giz e oralmente. Logo em seguida, como tarefa para casa, fez a seguinte atividade:
01. Todas as frases estão no pretérito, mas existe diferença entre elas: Observe: Ele defendeu seu filho com muita garra.
Ele defendia seu filho com muita garra. Ele defendera seu filho com muita garra. - Você concorda com a afirmação acima?
- Qual a diferença entre uma frase e outra?
02. Retire de jornais frases que apareçam no tempo futuro.
03. Passe a frase para o singular. Marque os verbos.
Somos o que são todos os pais.
INTERVALO (maratona da escola com todas as salas)
No retorno do intervalo, a professora solicitou a turma que fizesse uma produção textual sobre o que fariam se fossem o pai da criança do texto “a fuga”.
Informou que o texto era “livre”, mas que deveriam “obedecer às pontuações e utilizar as letras maiúsculas corretamente”.
A professora colocou no quadro:
Redação:
A professora pediu aos estudantes que entregassem a redação no mesmo dia. Ela solicitou que os estudantes se colocassem no lugar do pai desde o início do texto. Um estudante disse que “amarraria o menino na cadeira”. A professora interferiu e disse que não deveriam “colocar impossíveis de acontecer” e o questionou sobre essa atitude. A professora informou aos estudantes que eles deveriam pensar o que fariam com o menino desde o início da crônica e não apenas com o final, após o menino ter fugido.
COMENTÁRIOS:
Já faz parte da nossa escrita situar o leitor quanto à dinâmica das aulas das Professoras A e B e, posteriormente, tecer comentários sobre essas mesmas aulas. Para isso, em uma primeira instância, tentamos conceituar os gêneros textuais trabalhados para, em seguida, irmos mostrando a funcionalidade discursiva dos mesmos, assim como suas formas de inserção no contexto escolar.
O gênero textual em questão é a crônica literária. Sua presença na sala de aula da Professora B nos causou surpresa e contentamento, pois não é um texto que, em geral, freqüenta os espaços escolares, ainda mais no Ensino Fundamental I, onde há predominância de outros gêneros literários, tais como contos e fábulas.
Segundo o Dicionário de Termos Literários de Moisés (2004), a palavra crônica provém tanto do latim chronica, significando relato de fatos, quanto do grego
Khronikós, palavra derivada de Khrónos que quer dizer tempo. Trata-se, atualmente,
de um gênero híbrido, devido às variações que sofreu ao longo dos séculos. Por isso, existem várias categorias de crônica (policial, histórica, esportiva etc.), dentre as quais a literária, só podendo ser assim denominada “[...]quando consegue superar os limites da transitoriedade própria da notícia, colhendo o universal dentro do particular”( D’ONOFRIO, 1995, p.123).
Um outro conceito complementar ao de D’Onofrio (1999) e que está intimamente relacionado com a crônica Fuga, de Fernando Sabino, utilizada pela Professora B, é o de Soares (1993). Segundo ela:
Ligada ao tempo (chrónos), ou melhor, ao seu tempo, a crônica o atravessa por ser um registro poético e muitas vezes irônico, através do que se capta o imaginário coletivo em suas manifestações cotidianas. Polimórfica, ela se utiliza afetivamente do diálogo, do monólogo, da alegoria, da confissão, da entrevista, do verso, da resenha, de personalidades reais, de personagens ficcionais..., afastando-se sempre da mera reprodução de fatos. E enquanto literatura, ela capta poeticamente o instante, perenizando-o. (SOARES,1993,p. 64)
Podemos dizer que, antes mesmo de tomarmos como exemplo as conceituações anteriormente descritas para caracterizar a crônica de Fernando Sabino, se fizéssemos um apanhado de sua obra e de sua biografia, entenderíamos toda a funcionalidade discursiva dos seus textos, principalmente das crônicas. Lendo Fernando Sabino, lemos os dramáticos acontecimentos cotidianos repletos de uma linguagem poética e irônica; linguagem esta que não dá margem ao esquecimento e realça a singularidade pluralista discursiva de suas crônicas. Dito isto, não será tão necessário pontuar que um estudo gramatical desarticulado de seus textos nunca dará conta de mostrar ao leitor a complexidade e simplicidade de sua escrita. Além disso, quando nos centramos apenas no estudo seco, vazio, contextualmente
incoerente da gramática102, não conseguimos visualizar os possíveis sentidos que as palavras, isoladas ou conjuntamente, podem produzir num texto.
Sendo assim, arriscamo-nos a dizer que o estudo dos verbos, a priori extraídos do texto, assim como da procura no dicionário de palavras desconhecidas – estratégias estas propostas pela Professora B -, não proporcionaram aos estudantes um entendimento global da crônica Fuga. Os verbos foram destituídos de seu valor semântico, desconectados de seu contexto de uso. Assim, não exerceram a função de temporalidade e causalidade tão necessária à constituição do gênero em questão, pois podemos dizer que a crônica, embora possua uma temporalidade, a mesma não se inscreve numa ordem cronológica delimitada e explicitada por anos, décadas etc. No entanto, essa função existe tanto externamente quanto internamente no texto ora indicado. Externamente, porque traz à tona questões
102Quando criticamos o uso indevido da gramática estamos nos remetendo as colocações de Bagno
(2003, p. 63) sobre a aquisição da dita norma-padrão como uma gramática que possuí a “língua correta”, ou seja, “[...] que tenta preservar um modelo de língua ideal, inspirado na grande literatura do passado”. Desconsidera, portanto, a pluralidade e a flexibilidade lingüísticas a partir de situações concretas de uso da língua.
sociais que marcam sua existência num determinado contexto histórico. Internamente, porque os verbos configuram toda a sua seqüência narrativa.
No texto Fuga, podemos perceber essa temporalidade interna da narrativa ao estudarmos os verbos dentro do contexto em que estão inseridos: a frase completa, o parágrafo e o texto. Assim, quando a Professora B destaca, na primeira questão da atividade, fragmentos de frases do texto que possuem verbos, solicitando dos estudantes a transformação desses para o tempo presente, tanto o entendimento semântico do texto quanto da sua temporalidade se perdem. Podemos verificar essa afirmativa nas seguintes frases da atividade realizada pela Professora B:
- O pai colocou o papel na máquina.
- O menino começou a empurrar a cadeira.
Ambas as frases, no texto Fuga, aparecem numa única oração, embora tenham que ser estudadas separadamente na atividade realizada pela referida professora. Essa separação compromete o entendimento contextualizado do tempo verbal e de sua possível variabilidade dentro de orações. Por exemplo, a primeira frase mencionada na atividade não corresponde exatamente ao que está escrito na crônica em questão. Antes da frase “o pai colocou o papel na máquina” existe, no início do texto original, o advérbio mal que foi suprimido pela Professora B; o que modificou o sentido da ação. Assim sendo, sua dependência com a locução verbal ”[...] o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal”, é desfeita, não podendo ser percebida uma conexão entre as orações. Isto é, a ação de colocar existe concomitantemente com a ação de começar a empurrar a cadeira, o que confere tanto uma causalidade quanto uma temporalidade ao texto que lhes são próprias e que o constitui enquanto narrativa.
Outros tantos exemplos desse tipo, sobre a funcionalidade da gramática nesse texto, poderiam ser aqui aprofundados, mas isso não constitui nem o foco dessa pesquisa, nem da nossa formação. Nosso objetivo é mostrar quais gêneros
visitam os bancos escolares; que estratégias de leitura/aproximação são propostas
para cada gênero em questão (o que envolve, em certa medida, o estudo gramatical de textos). Daí o porquê de abordarmos este assunto em nossas análises, bem como de enfatizarmos a necessidade de se trabalhar a diversidade lingüística a partir da diversidade textual. Assim, acrescentaríamos à aula da Professora B, outros gêneros textuais que trouxessem temáticas e/ou fatos e acontecimentos
semelhantes ao da crônica Fuga, como por exemplo, notícias jornalísticas, fábulas, imagens etc.
Além disso, é válido verificar que a Professora B solicitou aos estudantes uma produção textual, ou melhor, uma produção direcionada (redação). Nesta, os estudantes deveriam se colocar no lugar do personagem pai da crônica e tomar uma atitude com o personagem filho. Sabemos, entretanto, que produzir textos no espaço escolar, e até mesmo fora dele, não é uma tarefa fácil. Muito menos quando essa produção exige de nós um posicionamento quanto a questões sociais. Por isso mencionamos a necessidade de se discutir qualquer temática apoiada na diversidade textual, pois poderá ajudar o estudante/leitor a participar de outros espaços de interação e, por conseguinte, possibilitar uma maior reflexão em torno da questão abordada em sala de aula a partir do texto centralizador ou texto primeiro. Isso significa dizer, segundo Meserani (2002, p. 62), que o registro de mensagens alheias leva à reprodução: repetição, produção do mesmo, do igual. A constituição de mensagens escritas implica criação: produção da diferença, do original. E, para isso, é necessário um diálogo contínuo, não só entre pessoas como também entre textos variados.
Em resumo:
As referências temáticas e textuais nas atividades de leitura e produção textual podem ser amplas, proporcionando aos alunos acesso a uma gama variada de tipos de textos: informativos, publicitários, literários, jornalísticos, cartas, etc. [...] Além disso, a leitura deve ser trabalhada também em diferentes eventos. A escola deveria proporcionar ao aluno a conscientização de que um texto pode ser analisado em diferentes níveis: por exemplo, quanto à sua estrutura, em termos do plano de desenvolvimento proposto e de sua orientação argumentativa, ou ainda quanto ao tipo de texto e tema veiculado pelo uso específico que se faz da linguagem no texto estudado, dentre outros.(MATENCIO, 1994, p. 100-101)
Além disso, outra forma instigante de ensinar ou tornar mais explícito para os estudantes a variabilidade narrativa, seria utilizando gêneros textuais, tais como: o conto, a fábula, a notícia, dentre outros.
QUADRO 2A:DIÁRIO DE CAMPO