3.3 Une méthode des tableaux pour DBI
3.3.2 Une méthode des tableaux avec labels pour DBI
A imunodeficiência associada à infecção pelo HIV é paradoxalmente caracterizada por uma activação persistente de vários componentes do sistema imunitário. Com efeito, documenta‐se nos doentes infectados pelo HIV uma frequência aumentada de células T, B, Natural killer (NK) e monócitos com um fenótipo activado, uma activação policlonal de células B traduzida numa hipergamaglobulinemia, um aumento do número de células T em ciclo celular, hiperplasia dos gânglios linfáticos, aumento dos níveis de citocinas proinflamatórias e quimiocinas e de marcadores séricos de activação do sistema imune como, por exemplo, 2‐microglobulina e neopterina 53, 75, 85.
Apesar da activação do sistema imunitário ser um componente essencial de uma resposta imunitária apropriada a um antigénio estranho, a sua persistência pode ter consequências negativas.
Do ponto de vista virológico, a activação imunitária é crítica para a manutenção do estado infeccioso, uma vez que a replicação produtiva do HIV depende da activação celular 86, 87. A activação celular provoca a translocação para o núcleo de factores de transcrição celulares, tais como Nuclear factor B (NF‐B) e specificity protein 1 (Sp1),
que se ligam em locais próprios das sequências LTR do genoma do vírus, dando origem à transcrição do DNA integrado, conduzindo à produção de novos viriões 88‐90. Assim, a activação imunitária gera os substratos para a replicação viral. Estabelece‐se então um ciclo vicioso em que a replicação do vírus promove a activação celular que, por seu turno, induz a replicação viral. Este ciclo é ainda alimentado pelos elevados níveis de citocinas proinflamatórias presentes 85. De notar que a estimulação do sistema imunitário, através de vacinação, de indivíduos infectados pelo HIV, conduz a um aumento transitório dos níveis de replicação do HIV 89.
Do ponto de vista imunológico, o padrão crónico de activação imunitária pode impedir uma resposta adequada das células ao antigénio. A activação imunitária crónica conduz à expansão clonal dos linfócitos T que, por um lado, aumenta a susceptibilidade linfocitária à apoptose e, por outro, leva à exaustão dessas células, impedindo‐as de responder aos antigénios (anergia) 85. Além disso, os elevados níveis de inflamação nos
gânglios linfáticos podem contribuir para a destruição da sua arquitectura, promovendo alterações de tráfego celular e interferindo com o desenvolvimento da resposta imune
75, 91
.
Mais do que a própria replicação viral, a activação crónica generalizada do sistema imunitário é hoje considerada um factor determinante e de prognóstico do ritmo de depleção de células T CD4+ e da progressão da doença na infecção pelo HIV 92‐95. Estudos de modelos de infecção não patogénica pelo vírus da imunodeficiência símia (SIV, Simian
immunodeficiecy virus) têm contribuído significativamente para o reconhecimento do
papel nocivo da activação imunitária 96. Com efeito, os hospedeiros naturais dos vírus SIVsm e SIVagm, os macacos africanos Sooty mangabey (Cercocebus atys) e os African green monkeys (género Chlorocebus), respectivamente, não apresentam depleção
significativa de células T CD4+ circulantes nem desenvolvem doença, apesar de exibirem elevados níveis de replicação viral 97, 98. Pelo contrário, a transmissão de SIV de hospedeiros naturais africanos para macacos asiáticos Rhesus (Macaca mulatta) resulta numa perda progressiva de células T CD4+ em circulação e desenvolvimento de doença
99
. Ao contrário do que acontece no modelo patogénico de infecção pelo SIV e HIV, no modelo não patogénico de infecção pelo SIV os hospedeiros conseguem montar uma resposta precoce anti‐inflamatória que poderá impedir a hiperactivação crónica e generalizada do sistema imunitário 100.
4. Outras alterações imunológicas na infecção pelo HIV
Durante o curso da infecção pelo HIV observa‐se uma desregulação de praticamente todos os componentes do sistema imunitário. Tal como previamente referido, uma das principais alterações consiste numa destruição precoce das células T CD4+ no GALT, acompanhada por uma diminuição progressiva dessas células no sangue periférico. Vários factores têm sido implicados nessa depleção e incluem mecanismos virológicos directos e mecanismos indirectos devidos a uma reacção inadequada do próprio sistema imunitário 53, 60.Mesmo antes de haver uma perda significativa do número de células T CD4+ circulantes, estão presentes alterações qualitativas que se traduzem numa diminuição da capacidade proliferativa linfocitária em resposta a antigénios (toxóide tetânico, vírus Influenza e Candida albicans), anticorpos anti‐CD3, aloantigénios e mitogénios 101‐106. Segundo estudos imunológicos longitudinais, essas alterações são sequenciais e associam‐se a progressão da doença, observando‐se inicialmente perda de respostas proliferativas in vitro a antigénios solúveis, depois a aloantigénios e, por fim, a mitogénios 107, 108.
Tal como as células T CD4+, também as células T CD8+ circulantes sofrem um decréscimo no início da infecção. No entanto, três a quatro semanas após o início do quadro clínico, observa‐se um aumento do número de linfócitos T CD8+ para níveis iguais ou superiores aos anteriores à infecção, documentando‐se, no final da infecção primária, uma expansão desta população de células e, por não ser acompanhada por uma recuperação total do número de células T CD4+, uma inversão da razão CD4:CD8 no sangue periférico que se mantém durante toda a infecção 54. Qualitativamente, as células T CD8+ de indivíduos infectados pelo HIV apresentam um fenótipo activado, verificando‐se uma associação entre o aumento da expressão do marcador CD38 nas células T CD8+ circulantes e um prognóstico adverso 109.
Para além das alterações qualitativas e quantitativas das células T, observa‐se uma desregulação em todas as populações celulares envolvidas na resposta imunitária, tais como células B 110, NK 111, monócitos/macrófagos 112 e DC 113.
Os monócitos/macrófagos e DC actuam como “sentinelas” de imunidade inata e, devido ao seu papel como células apresentadoras de antigénio (APC, Antigen presenting
cells), permitem activar a imunidade adquirida 112. A susceptibilidade destas células à infecção pelo HIV‐1, a possibilidade de se tornarem reservatórios virais e as alterações funcionais que apresentam em doentes infectados pelo HIV‐1, evidenciam o papel crucial que desempenham na imunopatogénese desta infecção 112, 114, 115.
A revisão introdutória desta Tese focar‐se‐á nas alterações que as DC e monócitos/macrófagos apresentam e no papel destas células na infecção pelo HIV.
5. O papel das células dendríticas no sistema imunitário
As células dendríticas (DC) foram observadas pela primeira vez na pele em 1868, por Paul Langherhans, tendo sido baptizadas com o seu nome e erradamente consideradas células nervosas cutâneas 116. Mais de um século depois, em 1973, Ralph Steinmann e Zanvil Cohn descobriram estas células em suspensões celulares de baço de ratinho e, com base na sua morfologia peculiar caracterizada por prolongamentos ou dendrites, designaram‐nas “células dendríticas” 117, caracterizando‐as in vitro 118 e in vivo 119. A possibilidade de purificar DC a partir de fracções de baço de ratinho permitiu avaliar a sua capacidade estimuladora de células T em reacções leucocitárias mistas, tendo sido reconhecida a sua importância como APC. Estes estudos permitiram concluir que as DC activavam a proliferação de linfócitos T em reacções leucocitárias mistas com uma eficiência pelo menos 100 vezes superior à de macrófagos ou células B 120. Estudos posteriores demonstraram a capacidade das DC de estimular células T citotóxicas 121 e respostas mediadas por anticorpos dependentes de células T CD4+ helper 122. Utilizando células de Langherhans da epiderme de ratinho, foi possível estabelecer uma dissociação entre duas propriedades das DC enquanto APC: num estádio imaturo, as DC servem de “sentinelas” nos tecidos não linfóides prontas a capturar antigénios; após maturação, apresentam esses antigénios a células T, estimulando‐as 123, 124. As DC podem assim ser caracterizadas por uma elevada capacidade de captura, processamento e retenção no seu interior, de péptidos/antigénios microbianos, apresentando‐os, subsequentemente, no contexto do complexo major de histocompatibilidade (MHC,
Major histocompatibility complex), a células T naive (células que ainda não foram
expostas ao antigénio para o qual são específicas), activando‐as 125.
Estudos mais recentes permitiram reconhecer um papel mais abrangente das DC no sistema imunitário. Para além de indutoras de imunidade, as DC têm propriedades tolerogénicas, essenciais para eliminar linfócitos auto‐reactivos, minimizando reacções auto‐imunes 126, 127.
A identificação das DC há 36 anos abriu caminho a uma nova área de investigação centrada na biologia destas células. Actualmente, reconhece‐se que as DC promovem a ligação entre a imunidade inata e a imunidade adquirida, uma vez que integram a