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Dans le document A valuable extension to the (Page 100-103)

O uso de maldições é recorrente em todo o antigo Oriente Próximo. Certamente, também é uma das influencias da cultura do antigo Oriente Próximo na literatura e pensamento israelita, que usa deste recurso em sua literatura e religião. Segundo Gusso, a maldição era utilizada pelos vizinhos de Israel: ―como forma de automaldição‖, ―como garantia do cumprimento de decretos‖ e ―como pedidos para que a divindade destruísse ou ferisse de alguma forma o inimigo‖ (GUSSO, 1996, p.41).

Dentro da pesquisa acerca das lamentações sumérias e na verificação mais abrangente da hinologia desta civilização, os pesquisadores encontram o surgimento de imprecações ou maldições (VANSTIPHOUT, 1986, p.1-11). A conclusão que Kramer faz é que as maldições são posteriores ao gênero das lamentações, sendo inclusas dentro dos poemas já existentes em alguma forma devido à ―amargura‖ e ―resignação‖ à vontade dos deuses (1969, p.89).

Cooper, por sua vez, discorda quanto à época das maldições. Segundo ele, a maldição pode ser um gênero anterior ao de lamentação (2006, p.39). Ele baseia suas hipóteses na

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Na versão em ingles do livro do Westermann diz ―self-assurance‖, confira: WESTERMANN, Claus. Praise and Lament in

descoberta de uma placa em Ugarit que contém uma maldição de Akkad. Essa descoberta proporcionou avanços na pesquisa do gênero de lamentação na Mesopotâmia. Esse texto recebe a data referente a terceira dinastia de Ur, por volta de 2100 a 2000; em seu conteúdo, afirma que os deuses teriam causado a destruição da Suméria. O que é peculiar neste texto é que se trata de uma oração contra inimigos do povo (comum das maldições), mas também de restauração de seu governo. É um texto que possuí um rico vocabulário de lamento. Esta maldição ―combina recursos de narrativa histórica e lamentação‖. Por causa disto tem-se proposto que este texto seja considerado híbrido, uma mescla de lamento pela cidade com maldição com aspectos de narrativa. Para Cooper, a maldição de Akkad deve lançar luz no entendimento da lamentação pela Suméria e Ur, um dos cinco lamentos pesquisados (2006, p.40).

Assim como na pesquisa dos salmos bíblicos, os estudiosos não são unanimes em reconhecer se estas maldições são um gênero especifico ou se parte do gênero das lamentações, ou ainda, se as maldições se valeram desta linguagem de lamentação. Gusso prefere falar de ―salmos que contêm maldições‖ e reconhece que não existem poemas completos de maldição, tanto na literatura do antigo Oriente Próximo como na de Israel (2007, p.36-51). Para Mowinckel, no contexto dos salmos bíblicos, as maldições são encontradas geralmente nos salmos de lamentação (1962, p.51).

Além das maldições pesquisadas pelos sumeriologistas, inclusive presente nos lamentos pelas cidades, existem poemas, hinos, orações, tratados e documentos e rituais prescritos que contem explicitamente maldições.

Normalmente, nesses poemas é perceptível a declaração de quem se sente injustiçado amaldiçoando seu inimigo. Por exemplo, nas orações shu‟illa recitada pelos babilônicos e assírios, posteriormente a 3000. Nesta oração o suplicante pede ao deus Girra que amaldiçoe seus inimigos28. Também há um poema hitita de Mursili II a Telibinu datado da segunda metade do século XIV que pede uma maldição contra inimigos da nação29.

Existiam também tratados entre povos que continham maldições para aquele que, de uma forma ou de outra, não cumprisse sua parte no acordo. Primeiro, vejamos o tratado entre

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Que eles morram, e que eu viva; que eles se afastem para longe, e que eu prospere; que eles acabem, e que eu floresça; que eles se enfraqueçam, e que eu me fortaleça; Girra esplêndido, o mais iminente dos deuses, que agarras o meu e o inimigo, agarra-os para que eu não sofra dano. Eu, teu servo, que eu viva, que eu seja salvo e venha à tua presença. VV.AA. Preces do

Oriente Antigo. São Paulo: Edições Paulinas, 1985, p.30,31.

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E os países inimigos que se agitam e se revoltam, que não te respeitam, ó Telibinu, como não te respeitam os deuses do país hitita, que querem incendiar vossos templos, que procuram apossar-te dos vossos rítons, dos vossos vasos, dos vossos objetos de prata e ouro, que procuram devastar vossos campos, vossas vinhas, vossos jardins, vossas florestas, que procuram levar vossos camponeses, vossos vinhateiros, vossos jardineiros e vossas moleiras, é a eles que se deve mandar a febre, a

o rei hitita Mursili e o rei de Ugarit Niqmepa, por volta de 1300. Ao final do tratado se pronuncia a maldição30.

Os fragmentos do tratado do rei neo-assírio Assur-nirari V com o rei de Arpad, chamado Mati-ilu, por volta de 754, ilustram mais um exemplo de tratados que contém maldições para quem não os cumprir31.

Além do tratado entre essas partes, fica claro que a cerimonia prescrevia um ritual simbólico que acompanhava o acordo. Briend, Lebrun e Puech trazem a narração do drama ritual da maldição que representava o que deveria acontecer com Mati-ilu se ele não cumprisse sua parte no juramento. O tratado fora acompanhado de um ritual que ilustrava dramaticamente as palavras documentadas. A cena descreve alguém decepando a cabeça de um cordeiro, que simbolizava a cabeça de Mati-ilu. Certamente, o ritual deveria impactar os participantes como que os forçando a serem fieis ao acordo (BRIEND; LEBRUN; PUECH; 1998, p.70-72). Seria uma maldição ritual-cerimonial32.

Notamos a presença de maldições num mesmo tratado, mas com versões diferentes. Isso reforça ainda mais a prática da maldição no antigo Oriente Próximo. No tratado egipto- hitita entre Ramsés II e Hattusili III, por volta de 1270, na versão egípcia, diz o seguinte: ―[...] àquele que não as observar – seja hitita ou seja egípcio –, então os mil deuses do país do Hatti e os mil deuses do país do Egito destruiriam sua casa, seu país e seus servidores‖ (BRIEND; LEBRUN; PUECH; 1998, p.68). Vejamos a maldição na versão babilônica: ―[...] àquele que não observar as palavras que estão nesta placa de prata, os grandes deuses do país do Egito, bem como os grandes deuses do país do Hatti, exterminarão sua casa, seu país e seus servidores‖ (BRIEND; LEBRUN; PUECH; 1998, p.62). Ambas muito semelhantes.

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Toda palavra deste tratado e deste juramento, inscrita nesta placa, se Niqmepa não for fiel a estas palavras do tratado e do juramento, que estes deuses, pela vida deles, façam desaparecer Niqmepa, sua pessoa, suas mulheres, seus filhos, sua cidade e seu país e tudo que possuí. E se Niqmepa for fiel às palavras deste tratado e deste juramento, inscritos nesta placa, então pela vida deles, estes deuses guardem Niqmepa, sua pessoa, suas mulheres, seus filhos, sua cidade, seu país e tudo que possuí. BRIEND, Jacques; LEBRUN, René; PUECH, Émile. Tratados e Juramentos no Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Paulus, 1998, p.50-54.

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―que Mati-ilu, seus filhos e filhas, seus maiorais e o povo de seu país sejam como [...]; que seu país seja como um deserto; que se lhe deixe um espaço do tamanho de um tijolo, que nada se deixe a seus filhos e filhas, a seus maiorais e ao povo de seu país para manterem-se de pé. Que Mati-ilu, com seus filhos, suas filhas, seus maiorais e o povo de seu país sejam [...] como calcário e que ele, com o povo de seu país, seja esmagado como gesso‖. BRIEND, Jacques; LEBRUN, René; PUECH, Émile. Tratados e Juramentos no Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Paulus, 1998, p.71. Na continuação do tratado ainda se faz outras maldições para quem não cumprisse o tratado: ―se o exército parte para a guerra sob o comando de Assurnirari, rei da Assíria, e se Mati-ilu, com seus maiorais, suas forças e de seus carros, não se põe a caminho com total lealdade, que Sin, o grande senhor, que habita em Harran, revista Mati-ilu, seus filhos, seus maiorais e o povo de seu país com a lepra, como um manto; que tenha de vagar pelos campos e que não haja nenhuma piedade por eles. Que Mati-ilu não tenha mais esterco e bois, burros, carneiros e cavalos em seu país. Que comam a carne de seus filhos e de suas filhas, que achem a carne tão boa quanto a carne dos cordeiros. Que sejam privados do trovão de Adad, tanto que a chuva lhe seja interditada, que a poeira lhes sirva de alimento, o pez, de unguento, a urina do jumento, de bebida, o papiro, de vestimenta e que sua cama seja um montão de esterco‖. BRIEND, Jacques; LEBRUN, René; PUECH, Émile. Tratados e Juramentos no Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Paulus, 1998, p.72.

32 Confira a maldição cerimonial proposta no acordo entre Assarhaddon com príncipes vassalos, por volta de 672 a.C.: BRIEND, Jacques; LEBRUN, René; PUECH, Émile. Tratados e Juramentos no Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Paulus, 1998, p.92-93.

As maldições destes acordos estão presentes com sua versão de benção. Isto é, maldições para quem não cumprisse, e bênçãos para quem cumprisse sua parte no acordo. Também poderia haver maldições para aqueles que prejudicarem a uma das partes do tratado (BRIEND; LEBRUN; PUECH; 1998, p.47,48). Nas orações e tratados que observamos, as maldições aparecem no final dos textos, como um encerramento ou doxologia. Assim era a tradição de maldição e benção do antigo Israel.

Em outras palavras, a prática de amaldiçoar estava presente no antigo Oriente Próximo. O que não é difícil deduzir que essas maldições fizeram parte da literatura e da religião-cultura daqueles que, antes de e, concomitantemente com, viviam em torno de Israel. Depreendemos a ideia de que as lamentações do antigo Israel também foram influenciadas pelo modo de pensar e praticar maldições do contexto oriental de seus predecessores. Poderíamos relatar outros textos que contém maldições, mas estes, por ora, são suficientes para o propósito deste tópico.

A importância de se estudar e verificar as maldições no antigo Oriente Próximo é, pelo menos, duplo. A primeira razão é de âmbito geral na pesquisa: as maldições aparecem em grande parte na literatura hebraica dentro dos salmos de lamentação, isto é, não se trata de um gênero em si mesmo, mas de um recurso que os escritores hebreus utilizaram em seus textos. A maldição fazia parte da cultura israelita imbutida no gênero das lamentações. A segunda razão é especifica e de interesse particular: o salmo de lamentação em Jeremias 20.7-18 usa o recurso da maldição.

3 A LAMENTAÇÃO NO ANTIGO ISRAEL

A influência do mundo do antigo Oriente Próximo no antigo Israel é bastante significativa. O conhecimento das ideias e crenças religiosas do antigo Israel, isto é, do fenômeno religioso no qual ele estava inserido se torna mais preciso através da ótica de todo contexto cultural no qual estava inserido. Certamente ampliamos as possibilidades de interpretações da Bíblia Hebraica quanto ao fenômeno da lamentação na experiência do antigo Israel ao considerar as influências que moldaram o pensamento e as práticas israelitas.

Conquanto, foi a partir dos modelos representativos do ambiente no qual estava inserido que o antigo Israel pôde desenvolver sua cosmovisão e prática religiosa, incluindo a lamentação. É notório que a produção literária de Israel possuí tópicos correspondentes com a produção literária anterior a ele, vinculada a estes povos mais antigos. Porém, não podemos descartar as peculiaridades de Israel, principalmente as que se encontram no âmbito religioso.

Em outras palavras, a linguagem de lamentação comum ao antigo Oriente Próximo é experimentada por Israel não como uma copia de gênero, mas como um desenvolvimento próprio desta linguagem e formas literárias em seu próprio contexto e a partir de sua peculiar cosmovisão – mesmo esta tendo sido influenciada pelo seu macro ambiente religioso-cultural. Para Fohrer, este processo de ―assimilação‖ pelos israelitas não pode ser visto simplesmente como uma ―cananeização‖ ou sincretismo religioso (FOHRER, 2006, p. 81-128). O pensamento do antigo Israel se desenvolveu a custa de sua própria idiossincrasia. Ainda que sujeito à constante influência dos povos vizinhos, o pensamento israelita se desenvolveu em seu próprio gênero. Ao longo da história de Israel, a política, as forças armadas e o culto israelita tiveram várias reformulações. Tanto é que a literatura israelita como a recebemos conflita com a prática de vida de seus predecessores e vizinhos33.

A lamentação em Israel, como observamos neste capítulo, passou por vários estágios de desenvolvimento no pensamento religioso de Israel, isto é, em sua teologia e em sua cultura (fundamentalmente religiosa) até chegar à forma literária, como conhecemos na Bíblia Hebraica.

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Sobre a singularidade dos textos sagrados de Israel mediante os textos paralelos do antigo Oriente Próximo, consulte: RODRIGUEZ, Angel. Antigos Textos Literários do Oriente Próximo Paralelos à Bíblia e a Questão da Revelação e

Inspiração. Disponível em:

<http://www.adventista.edu.br/salt/arquivos_antigos/3Textos%20Antigos%20e%20a%20Revela%C3%A7%C3%A3o.pdf>. Acesso em: 11 mai. 2011.

O propósito deste capítulo, portanto, é descrever o curso do desenvolvimento da linguagem de lamentação ao longo da história da religião do antigo Israel. A religião de Israel não era ―nem homogênea nem estática‖ (FOHRER, 2006, p.25). Ela coexiste como diversidade cultural em seu próprio campo imaginário religioso e avança em suas concepções elementares à medida que procura encontrar sua representatividade religiosa no macrocenário do antigo Oriente Próximo e no microcenário de sua própria existência sociocultural.

A linguagem de lamentação faz parte dessa diversidade e processo inato à construção da vida religiosa e existência do antigo Israel. Ela é parte do pensamento e prática do antigo Oriente Próximo e, significativamente, do antigo Israel, que passa por um processo de evolução histórica e transformações derivadas de tensões internas e externas. A linguagem de lamentação se diversifica em suas expressões à medida que Israel avança na elaboração de sua própria identidade e cosmovisão.

Os vários movimentos e tendências de grupos de Israel contribuíram para as diversas formas de uso e aplicabilidade da lamentação. Cada movimento fazia uso desta linguagem de acordo com suas necessidades de ocupar um lugar no cenário religioso, marcadamente heterogêneo. A linguagem de lamentação, ao longo dessa história torna visíveis as tensões e contrastes em diversas abordagens da vida daquele povo. Por conseguinte, a lamentação em Israel não se trata apenas de um fenômeno cultural ou até mesmo de repetição do ambiente cultural maior. Ela é também parte do pensamento e da construção da identidade religiosa deles.

Não obstante, a linguagem de lamentação não pode somente ser analisada como um fenômeno único e sistematizado do antigo Israel. As conceitualizações e metodologias puramente teológicas não são suficientes para explanar o tema, porque procuram apresentar estruturas padrões numa única mensagem teológica que o lamento em Israel poderia propiciar. Ao contrário da sistematização, a observação e análise da linguagem de lamentação ao longo da história da religião do antigo Israel nos permite ver as várias manifestações de usos e funções desta linguagem.

Importa dizer que não há como demarcar o surgimento pontual da linguagem de lamentação. Sabemos que Israel fez uso desta linguagem em sua religião e, posteriormente, em sua literatura. Identificamos que essa linguagem é peculiar ao universo da linguagem simbólica e ritual do antigo Oriente Próximo, de onde Israel surge e legitima seu espaço e normas próprias. É comum encontrar nas páginas da Bíblia Hebraica narrações de rituais de lamentação e poemas do gênero.

O pensamento religioso de Israel é definido por ele dentro dos limites destas literaturas34. Dentro deste contexto, destacamos na presente dissertação as diversas etapas e contribuições de alguns textos de lamentação. Westermann propõe uma divisão tríplice que nos ajuda de modo mais geral, numa visão de construção teológica, mas não tão especifica quando vinculada à dinâmica da religião de Israel (2005).

Com fins de delimitação para verificar a presença da linguagem de lamentação, suas transformações e funções ao longo do desenvolvimento da religião do antigo Israel dividimos em época pré-exílica, exílica e pós-exílica.

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