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Podemos dizer que a lamentação em Israel na época pré-exílica é atrelada aos cultos celebrados por ordem comunitária ou em eventos nacionais. Algumas vezes o culto envolvia rituais de lamentações durante dias, como na ocasião de guerras ou arrependimentos em tempo de angustia nacional. Em segundo plano, as lamentações são dirigidas a liturgias particulares dos grupos pequenos da sociedade israelita pré-exílica.

Segundo a opinião de Mowinckel (1962) e Gerstenberger (1984), as lamentações não teriam surgido de poemas ou orações privadas. Para eles, qualquer tipo de literatura litúrgica não nasce a partir de ―desabafos de indivíduos introvertidos‖ (GERSTENBERGER, 1984). Isto é, não nascem desses indivíduos. Ela nasce para eles. Principalmente, aos que se encontram em meio ao luto e sofrimento. Por conseguinte, as lamentações crescem com a preocupação da sociedade com o indivíduo em suas atividades culturais.

A perspectiva de Mowinckel, precursor da escola de interpretação cúltica dos salmos, lançou luz à presença da prática de lamentação no antigo Israel anterior a centralização do culto no templo em Jerusalém (época pré-exílica) e na época em que se deu a compilação do livro dos Salmos (pós-exílio). Aprofundando essa perspectiva, Gerstenberger concluí que existiam famílias de cunho sacerdotal em todas as partes do antigo Israel (GERSTENBERGER, 1984, p.11). Estes representantes do ―clero‖ teriam sido responsáveis pelo arquivamento dos salmos.

Os sacerdotes pré-exílicos praticavam orações e liturgias aos chamados grupos primários que formavam o antigo Israel. Essa talvez seja uma das maiores contribuições de

Gerstenberger para o estudo dos salmos. Ele distingue dois níveis de realização de cerimônias cultuais no antigo Israel. O primeiro nível, chamado primário, consiste o pequeno grupo, isto é, o clã, ou as famílias de Israel. Principalmente aquelas próximas dos santuários locais. O segundo nível de ministração é o da coletividade, ou seja, da associação tribal, regional e nacional. Portanto, havia diferenças entre os cultos primários dos secundários; diferença de tempo e frequência dos ritos, seu local, a competência do oficiante e a expectativa do grupo (GERSTENBERGER, 1984, p.13-16).

As práticas desses sacerdotes itinerantes ou ofienciantes religiosos eram diferentes daquelas exercidas no templo em Jerusalém, e quem sabe, anterior ao próprio templo de Salomão. Por conseguinte, devido a intensidade da tarefa, houve outros representantes religiosos que ―coordenavam os ritos sagrados‖ (GERSTENBERGER, 1984, p.12).

Para Gerstenberger, esses oficiais religiosos itinerantes estavam vinculados aos santuários locais. Participaram da época de profusão do profetismo em Israel cujos representantes eram Samuel, Elias e Eliseu52. Embora a perspectiva deuteronomística enfoque a ideia de profeta sob arquétipo mosaico, ela possibilita a compreensão das funções que os oficiais religiosos desempenhavam na época53. Seguindo as tradições proféticas tanto do norte como do sul, anterior ao exílio, os profetas tinham várias funções: profetas, sacerdotes, vidente, curandeiro, milagreiro e promotor de saúde pública. Os profetas relacionados ao sul, como por exemplo, Natã e Gad, possivelmente, foram os que tiveram maior atividade literária e, concomitantemente, acesso e influências políticas (BAUMANN, 2004)54.

Porém, ao lado desses sacerdotes enraizados nos santuários locais é possível encontrar oficiais de culto ―móveis‖, isto é, que exerciam seus dons e oficios de modo itinerante entre a sociedade. Para Gerstenberger esses itinerantes realizavam gestuais e ritos para as pessoas enfermas das comunidades; oravam pelos seus ―pacientes‖; eram responsáveis pelos cultos locais com as famílias; e, ao usarem linguagem litúrgica padrão, se tornaram os cuidadores da literatura de lamentação e os encarregados dos ritos especializados (1984, p.12-21). É provável que estes itinerantes fossem os responsáveis pelo ―arquivamento‖ e preservação dos salmos e orações. Teriam sido responsáveis pela composição destes salmos e orações?

52

Samuel, Elias e Eliseu fazem parte da tradição profética efraimita, que provém da produção literária dos deuteronomistas. O objetivo dos deuteronomistas era demonstrar a intensa relação entre a sociedade israelita e a dinâmica profética. Porém, acaba por demonstrar certa evolução histórica do profetismo em Israel em seu corpus literário.

53

Para aprofundamento na temática do profetismo em Israel consulte: WILSON, Robert. Profecia e Sociedade no Antigo

Israel. 2ª.ed. rev. São Paulo: Targumim / Paulus, 2006, p.169-344.

54 Consulte: BAUMANN, Igor P. Profetismo, Justiça de Deus e Indigência Humana: Uma Abordagem Exegética Histórico-

Crítica em 2 Samuel 12.1-15a. 2004. 120fl. Monografia (Bacharel em Teologia). Faculdade Teológica Batista do Paraná,

Os israelitas poderiam ser divididos em duas classes sociais: os envolvidos com a liderança do estado, naturalmente ricos e letrados; e o povo pobre, humilde e limitado em suas esferas políticas e econômicas. Nitidamente, muitos salmos bíblicos enfatizam o poder real e a ideologias dos judaítas. Esses salmos derivam de fontes elitizadas vinculadas ao poder monárquico. Conquanto, outra parte dos salmos bíblicos55 está claramente em prol dos pobres, marginalizados, explorados, caluniados e doentes. São os salmos dos sofredores. Sua grande parte pressupõe a ajuda misericordiosa do Senhor em prol dos injustiçados (GERSTENBERGER, 1991, p.9-14).

Reconhecemos, portanto, que esta perspectiva dos oficiais litúrgicos dos grupos primários da sociedade israelita pré-exílica possibilita encontrar entre essas comunidades marginalizadas e dentre os indivíduos sofridos os primeiros compositores dos salmos de lamentação. Caso esta hipótese não se fundamente devido à falta de recursos que os pobres tinham para confeccionar materiais litúrgicos, no mínimo, esses salmos foram compostos por alguns da elite judaíta (centro do poder) integrantes dos movimentos em favor dos marginalizados.

Os salmos de lamentação deveriam servir a comunidade israelita em constante sofrimento e lutas (GERSTENBERGER, 1991, p.5). Portanto, podemos dizer que na é época pré-exílica que encontramos nas práticas de lamentação, incluindo a lamentação litúrgica: meios de engajamento do sofredor no culto a Yhwh; a força e energia social dispensada por aqueles que eram socialmente marginalizados e aos que pretendiam dar voz aos oprimidos em meio às tensões sociais que assolavam o ambiente do antigo Israel; a possibilidade do campesinato realizar seus atos de adoração a Yhwh sem depender exclusivamente do sistema oficial – que estava em formação até a centralização do culto no templo; um meio de criação, manutenção, preservação e atualização da sabedoria popular; e, as práticas de lamentação através do registro das orações por liturgos itinerantes e, posteriormente, por movimentos que lutavam em prol dos sofredores e injustiçados.

55 Para Günkel, os salmos de lamentação constituem o maior bloco, com cerca de um terço do saltério como representatividade. Isso sem contarmos os salmos de lamentação localizados fora da compilação do saltério, como em Jeremias e Ezequiel, por exemplo.

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