Tradicionalmente as perspectivas em torno do fenômeno da lamentação são percebidos na literatura sagrada e na linguagem emocional humana. Nós simpatizamos com a linguagem individual e coletiva de angústia e sofrimento porque faz parte de um fenômeno universal, parte da vida do ser humano. O lamento, portanto, é uma linguagem muito antiga para expressar dor, sofrimento, angústias e esperança em meio às desesperanças. É por meio da literatura antiga que temos acesso à realidade psíquica e social do antigo Oriente Próximo.
Na análise destes documentos, Gerstenberger propõe a uma via de interpretação através da observação dos cultos do antigo Oriente Próximo e do antigo Israel. Ele inspira suas hipóteses no trabalho de Mowinckel ao afirmar que a lamentação como literatura era desenvolvida no ambiente litúrgico da antiguidade. Em outras palavras, esses estudiosos, somado a outros, como Günkel e Weiser, acreditam que o lugar vivencial da literatura de lamentação é essencialmente litúrgico.
A prática da lamentação até hoje é realizada em formas de rituais em Israel. O ―muro das lamentações‖ recebe continuamente pessoas que oram e depositam cartas com seus desejos por escrito neste muro.
Isto nos indica que no antigo Oriente Próximo, bem como em Israel, a lamentação estava ligada a atos litúrgicos. As referências à lamentação em rituais podem ser observadas na literatura ugarítica e suméria e nas cerimônias de lamentação do antigo Oriente Próximo de modo geral.
Em primeiro lugar, verificamos que a lamentação estava envolvida em rituais fúnebres. A prática da lamentação associada à morte é muito antiga. É provável que seu significado e função fossem míticos e até mágicos.
Alguns textos ugaríticos narram cenas de luto entre os deuses. Depois que El sabe que Baal está morto, ele desce ao trono e senta-se; põe uma tanga, despeja poeira na cabeça, mutila seu corpo com instrumentos cortantes e lacera seu peito e costas gritando que Baal estava morto (GREENFIELD, In: ALTER; KERMODE; 1997, p.599). Em outros textos, a lamentação fazia parte dos rituais de fertilidade, quando o deus vegetal morto era pranteado durante o outono. E sua revitalização era festejada na época da colheita.
A Bíblia Hebraica está repleta de textos que nos permitem relacionar a lamentação com práticas fúnebres107. Segundo Greenfield, muitas descrições semelhantes ao luto, da Bíblia Hebraica, são encontradas em textos ugaríticos e acadianos e em inscrições fenícias, e em até textos aramaicos antigos (1997, p.600). O antigo Oriente Próximo, portanto, testemunhou uma cultura de lamentação tanto em literatura como em categorias rituais em sua liturgia, isto é, em sua experiência e fenomenologia cúltica.
Para citar um exemplo, em Ezequiel 26.16, na lamentação sobre o rei de Tiro, o profeta descreve como os magnatas navais irão sentar-se na terra, ter suas vestes matizadas e removidas; em Ezequiel 27.29-31 ele leva a imagem de luto mostrando os marinheiros deixando seus navios para lançar pó sobre suas cabeças, cingidos de sacos e com os cabelos cortados, lamentando. Em outras palavras, esses textos de Ezequiel nos mostram um excelente uso do lugar-comum do luto em meio às lamentações.
Em segundo lugar, na Mesopotâmia, mais precisamente na Suméria, os lamentos possuem conotação litúrgica. Provavelmente é das cerimonias de lamentação sumérias que derivam a literatura dos lamentos pelas cidades. Um dos tipos de gênero de lamentação usado nestas cerimônias é chamado ―lamentos balag‖ e são usados em rituais de restauração de santuários. O termo balag tem haver com instrumentos musicais para apaziguamento de deuses por causa das alterações das estátuas ou estruturas sagradas na ocasião de destruição de templos e cidades (CALOVI, 2006, p.77).
Podemos identificar que estes lamentos balag são cânticos rituais para restauração das estruturas sagradas dos antigos sumérios. Segundo Kutscher, o lamento balag depreende dos lamentos pelas cidades, às vezes, até mesmo podem ser gêneros que se confundem entre si. O tema destes cânticos congregacionais eram os desastres públicos. Eram usados para acompanhar as cerimônias de reconstruções de santuários em caráter cúltico. Kutsher demonstra que esses cânticos litúrgicos de lamentação descrevem muitas violências sofridas quando da destruição de determinada cidade e eram liderados por sacerdotes do povo (KUTSHER, 1975, p.1-7).
As lamentações mesopotâmicas constituem em sua maioria ritos e liturgias contra o sofrimento. Por vezes incluía a confissão de pecados e pedidos de socorro e libertação. Como é o caso dos lamentos eršema, que literalmente quer dizer, ―choro com o tambor šem‖. Este tipo de lamento litúrgico é bastante curto e possuí conteúdo altamente mitológico. Assim como os cânticos de lamentação balag, também eram conduzidos por sacerdotes. Os estudos
sobre os lamentos eršema não são unanimes, o que não nos permite uma definição quanto a sua prescrição ritual (COHEN, 1981).
Em terceiro lugar, as cerimônias de lamentação do antigo oriente Próximo poderiam envolver rituais de maldição. Briend, Lebrun e Puech nos mostraram através de tratados e juramentos do antigo Oriente Próximo, que estes tratados eram realizados em cerimônias litúrgicas e acompanhados de cerimonias de maldições. Muito semelhantes a atos simbólicos. Isto é, se alguém não cumprisse cabalmente sua parte no acordo, estaria debaixo de uma maldição: os deuses de seu próprio país e os do seu vizinho iriam concretizar o mal proferido nas maldições do contrato (BRIEND; LEBRUN; PUECH; 1998, p.70-72). Na cerimônia, enquanto se pronunciava as clausulas do contrato realizavam atos simbólicos referentes às maldições, como cortar a cabeça de um cordeiro e outras formas de violência que simbolizavam a destruição do infeliz.
Em quarto lugar, as cerimônias de lamentação do antigo Oriente Próximo continham um elemento de louvor aos deuses. É provável que lamento e louvor andassem juntos na prática litúrgica do antigo Oriente Próximo. Sob este binômio – lamento e louvor – Gerstenberger escreveu um artigo intitulado ―Louvor no Reino da Morte‖ que esclarece a fusão destas duas linguagens nos cultos de Ugarit e da Suméria (GERSTENBERGER, In: LEE; MANDOLFO; 2008, p.115-124). Ele atestou a presença de hinos e cânticos na cerimônia de lamentação do antigo Orientem Próximo e verifica que em vários salmos de lamentação existe a presença imediata do louvor após o choro de angústia. Através de seu pressuposto de que estes salmos eram realizados na liturgia cotidiana do antigo Israel sob influência deste contexto veterooriental, concluí que era parte do culto elogiar a divindade. Quem sabe, era primordial que a divindade soubesse que seria elogiada para que pudesse atender aos pedidos do sofredor (GERSTENBERGER, In: LEE; MANDOLFO; 2008, p.115- 118). Se a literatura e o culto no antigo Israel foram influenciados pela literatura e imaginário cananeu é natural que este binômio, lamento e louvor, seja verificado na literatura anterior a de Israel. É o que Gerstenberger se empenha em fazê-lo através do estudo da hinologia suméria. Ele concluiu que os hinos sumérios não seguem uma regra uniforme nem há tantas correspondências entre eles (2008).
Para confirmar sua hipótese, o pesquisador sublinha que os lamentos sumérios pelas cidades contêm esporadicamente o elemento de louvor em sua configuração. No lamento por Ur existe entre as linhas 418 e 435 do poema uma declaração de louvor do deus lua, que restaurou a cidade destruída. No lamento pela Suméria e Ur há um notável desvio do tom de lamentação para um discurso contra o agente da destruição das cidades. Nesta parte o poema
mostra a forma de orar pedindo bênçãos e realizando encantamentos contra o malfeitor. No lamento por Nipur tem na sua segunda parte elementos de louvor e elogios ao desempenho da divindade, na linha 322 (2008, p.119,120).
Na religião suméria e acadiana, Inana é a protagonista de uma cerimonia ritual muito importante do antigo Oriente Próximo. Este ritual pode estar conectado com festas sazonais de morte e renascimento da natureza, como parte de um ciclo. Neste mundo mitológico há uma cena que envolve Inana, Urnamma e Ningešzida. No ápice do poema é requerido que se louve a Ningešzida, como uma espécie de cântico de gratidão. Este cântico estaria remetendo os interlocutores no culto ao reconhecimento do renascimento do ciclo de morte-vida da natureza, muito provavelmente ligado a fertilidade da terra (GERSTENBERGER, In: LEE; MANDOLFO; 2008, p.120,121).
Dentro do cotidiano no antigo Oriente Próximo havia diversos rituais de curas, resgates e reabilitações das pessoas que ficavam inquietas diante da morte e das doenças. A civilização suméria legou para a humanidade uma variedade de literaturas com cânticos de curas e exorcismos. Eles usavam um tambor, cantavam para apaziguar o coração e levantavam suas mãos aos céus, como parte dos rituais: elementos que serviriam para apaziguar a ira da divindade (GERSTENBERGER, In: LEE; MANDOLFO; 2008, p.122).
Em outras palavras, o antigo Oriente Próximo utilizava a lamentação e o louvor como recursos litúrgicos. O primeiro como uma forma de incluir os suplicantes no culto; o segundo, como forma de reforçar e elogiar o poder divino de salvar as vítimas das doenças, da morte e dos desastres.