Por certo, houve uma intensa produção literária em círculos judaítas e em território babilônico. A maior parte dos judaítas não foi deportada. Os que foram para terras estrangeiras representavam a elite de Jerusalém: militares, artesãos, sacerdotes e gente ligada a corte real. Na Babilônia, porém, estavam vivendo como pessoas simples, ao estilo de camponeses. Durante o tempo do exílio detinham certa liberdade, mas o fruto de seu trabalho era absorvido pelos seus mandantes. A liberdade que detinham permitiu que continuassem suas tradições religiosas e se apoiassem mutuamente (SCHWANTES, 2007, p.95).
Os escritos que referenciam este período na Babilônia foram de grande importância na história da religião de Israel. Uma vez que foram produzidos por uma comunidade representativa da liderança de Judá, os textos reclamam a si certa exclusividade quanto à eleição de Yhwh. É fácil encontrar em seus escritos o vigor com que desprezavam os que ficaram em Judá. Como exemplo, vemos que no início do livro de Ezequiel é previsto a destruição de Jerusalém e do templo e compreende o fato como punição de Yhwh sobre a cidade, e detalha que não haveria remanescentes (SCHWANTES, 2007, p.95-117).
Podemos atribuir aos exilados, cativos na Babilônia, alguns escritos fundamentais. Certamente, o livro de Ezequiel e o Dêutero-Isaías. Reconhece-se, porém, outros textos: o Código da Santidade, isto é, Levítico capítulos 17 a 26; e o escrito Sacerdotal, para aqueles
83
Podemos pensar que os autores de Lamentações estavam vinculados aos profetas clássicos porque esses profetas são reconhecidos positivamente ao longo do livro. Esses autores estariam, portanto, vinculados a círculos proféticos antagônicos àqueles que profetizavam a ―paz‖ em Jerusalém. Porém, há ainda uma objeção: haveria entre esses círculos proféticos do qual o livro se deriva a presença de ―cantores‖? É provável que sim. São cantores com condições de conduzir as reuniões de ―luto‖ da cidade; cantores muito próximos dos círculos proféticos. Consulte: HARRISON, R.K. Jeremias e Lamentações: Introdução e Comentário. 5ª.ed. São Paulo: Vida Nova, 2006, p.155-162.
que levam em conta a teoria das quatro fontes. O texto de Levítico 17 a 26 seria uma das partes do escrito sacerdotal. No entanto, ainda há muitas críticas e incertezas quanto a teoria das fontes.
Há também a possibilidade de que alguns Salmos tenham sido escritos no exílio. Principalmente aqueles que possuam características similares aos textos de Ezequiel, do Segundo Isaías e do Código da Santidade. Os possíveis Salmos relacionados ao exílio sem características cultuais claras, como o Salmo 88, possivelmente sejam mais bem atribuídos aos exilados. A hipótese de que apenas uma pequena parte dos Salmos tem origem na época do exílio prossegue (SELLIN; FOHRER; 2007, p.393-406). Kaufmann atribuí a origem dos Salmos ao pré-exílio, ligados à época da monarquia até as primeiras deportações. Para ele, os salmos não foram e nem poderiam ser compostos no exílio, com exceção do Salmo 137 que deve ter sido o último Salmo a ser escrito (1989, p.313).
A literatura produzida em solo babilônico tinha como função principal manter as tradições religiosas de Israel e dar novo sentido à religião e teologia para o momento em que os israelitas se encontravam. Para Gabel e Wheeler, foi no cativeiro que os judaítas desenvolveram o apreço significativo pelo sábado (substituto mais adequado para o culto) e pela circuncisão; foi lá que começaram a desenvolver as sinagogas, como casas de manutenção da tradição israelita através de reuniões regulares (2003, p.136). Gusso também compreende a origem da sinagoga em terras babilônicas e possibilitou a transmissão dos ensinamentos da ―fé javista‖ para a nova geração que se assentou na Babilonia e regressaria sob determinação persa (GUSSO, 2002, p.75-92).
É presumível tomar como certo para nossa pesquisa somente o livro de Ezequiel e o Segundo Isaías como literatura representativa do período exílico; e, ainda, como representatividade dos possíveis Salmos originários em terras babilônicas, tomaremos o Salmo 137. Cada um destes escritos se relaciona de alguma forma com a linguagem de lamentação e são uteis para o desenvolvimento deste capítulo. Contudo, verificamos a presença de lamentações entre os exilados no livro de Ezequiel, alguns vestígios no Dêutero- Isaías, e a demonstração radical da lamentação que incluí maldição aos babilônicos no Salmo 137.
O livro de Ezequiel, em primeiro lugar, é praticamente um marco na teologia do período, pois incluí ressignificações da fé javista para o novo momento e local em que o povo cativo se encontrava. Sua literatura é marcada pela linguagem simbólica. Diverge dos outros profetas ao usar com exagero a linguagem figurada. Seu ponto de contato com os profetas
clássicos é Jeremias em sua perspectiva deuteronomística de análise da história da salvação (SSCHWANTES, 2007, p.96-105).
O livro demonstra que Ezequiel foi uma voz importante no exílio. Foi levado cativo juntamente com o rei Joaquim, por volta de 597/596; atuou seguramente entre os cativos e, provavelmente, havia uma comunidade em torno dele; tal homem era sacerdote em Judá, mas tornara-se profeta na Babilônia; acreditava que a ―primeira deportação‖ da qual participara não era o fim, mas o começo das dificuldades; entendia que Yhwh estava realizando seu julgamento sobre os judaítas remanescentes e as instituições de Israel: todos corrompidos (KLEIN, 1990, p.90-112).
O livro de Ezequiel verifica uma quebra de paradigmas na teologia de Israel84. Por conseguinte, houve mudanças na estrutura do pensamento teológico entre os exilados. Segundo Fohrer, Ezequiel se serve de tradições não israelitas de caráter cananeu-fenício e mesopotâmico (2006, p.411-416). O local onde o profeta se estabeleceu foi determinante para a construção do gênero e estrutura do seu livro. Chegando com os primeiros deportados, Ezequiel se estabeleceu em Tel-Abibe, às margens do rio Quebar, canal que ligava a Babilônia a Uruk por meio de Nipur85. Nipur foi uma das cidades mesopotâmicas destruídas por volta de 2000.
Nipur é uma das cidades mesopotâmicas conhecidas através do ―lamento por Nipur‖, um dos cinco lamentos sumérios pelas cidades destruídas. É possível que alguns rituais de lamentação daquela região tenham continuado até meados do século VI, época de Ezequiel. O lamento de Nipur procura legitimar os deuses em meio às catástrofes acometidas daqueles dias (TINNEY, 1996). Segundo Petter, Ezequiel teria recebido influências de símbolos, ritos e, principalmente, do gênero vinculado aos lamentos sumérios pelas cidades (2009).
A tese de Petter afirma que o lugar onde Ezequiel se estabeleceu moldou seu pensamento para composição de seu livro. Sua tese é viável a partir do trabalho de Dobbs- Allsopp. Dobbs-Allsopp procura entender o lamento pela cidade como um gênero, a partir de recursos à luz de canções fúnebres ligadas ao período86. Segundo Dobbs-Allsopp, há conexões entre a cultura israelita e mesopotâmica, mas não há qualquer empréstimo literário
84
É decisivo para leitura de Ezequiel compreender: sua vocação – Ezequiel foi chamado por Yhwh assim como Isaías e Jeremias, porém, em terra estrangeira; propõe um veredicto mais severo do que os outros profetas a Jerusalém – seu texto demonstra radical ameaças a Jerusalém e a figura a prostituta; descobre a presença de Deus para além de Israel, entre os exilados – conquanto, exclusivamente entre os desterrados; é possível profetizar e viver a fé fora da sua terra – ora, compreenderam que Yhwh veio com eles de Judá para o exílio. Essas e outras peculiaridades testemunham que os exilados assumiram a ―a pretensão de serem o único e verdadeiro Israel‖. Essas e outras peculiaridades do livro de Ezequiel podem ser consultadas em: SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século
VI a.C. São Paulo: Paulinas, 2007, p.96-117.
85 Consulte: Ezequiel 1.1; 3.15. 86
DOBBS-ALLSOPP, F.W. Weep, O Daughter of Zion: a Study of the City Lament in Genre in the Hebrew Bible. Roma: Pontificio Instituto Bíblico, 1993.
entre eles (1993). A linguagem de lamentação seria semelhante entre as culturas devido a influência do contexto, não da literatura em si. Petter concorda com tal semelhança, mas vai além, considerando que o lamento pela cidade é a matriz literária de Ezequiel. A fonte de Petter é a tradição e gênero de lamentação do antigo Oriente Próximo recebida pelo profeta em Nipur e por evidências desta influencia no sseu texto.
Contudo, é possível identificar tendências literárias relativas à lamentação na redação do livro de Ezequiel. Em primeiro lugar, o profeta é retratado como alguém que conduz funerais: primeiro, aos líderes de Israel; em seguida, para Tiro; e depois para o faraó.
Levante um lamento pelos príncipes de Israel87 [...] Filho do homem, faça um lamento a respeito de Tiro88 [...] Filho do homem, entoe um lamento a respeito do faraó, rei do Egito, e diga-lhe: Você é como um leão entre as nações, como um monstro nos mares, contorcendo-se em seus riachos, agitando e enlameando as suas águas com os pés89.
Em segundo lugar, há uma similaridade quanto ao deslocamento de Ezequiel de Judá para a Babilônia com o deslocamento da deusa suméria que aparece suplicando ao conselho dos deuses pela decisão de Enlil destruir a cidade: ela é incapaz de parar o decreto de destruição e abandona a cidade, o templo e torna-se uma estrangeira em terra em que ela não conhece. Como resultado deste incidente, ela lamenta amargamente a perda de seu povo, de sua cidade e de seu templo (KRAMER, In: DRIEL; KRISPIJN; VEENHOF; 1982). Semelhantemente, a ordem de destruição que Yhwh decreta contra Jerusalém não pode ser evitada e o profeta sai de sua terra e ruma à terra desconhecida. Aparentemente, a atitude de Ezequiel no início do exílio era de lamentação, bem como sua mensagem inicial na Babilônia era proferir lamentos:
Mas você, filho do homem, ouça o que lhe digo. Não seja rebelde como aquela nação; abra a boca e coma o que vou lhe dar. Então olhei, e vi a mão de alguém estendida para mim. Nela estava o rolo de um livro, que ele desenrolou diante de mim. Em ambos os lados do rolo estavam escritas palavras de lamento, pranto e ais. E ele me disse: ―Filho do homem, coma este rolo; depois vá falar à nação de Israel‖. Eu abri a boca, e ele me deu o rolo para eu comer. E acrescentou: ―Filho do homem, coma este rolo que
87
BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 19, vers. 1.
88
BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 27, vers. 2. Consulte também: Ezequiel 28.11.
89
BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 32, vers. 2.
estou lhe dando e encha o seu estômago com ele‖. Então eu o comi, e em minha boca era doce como mel90.
Segundo Petter, Ezequiel 2.8-3.3 faz relação com a linguagem de lamentação na estrutura da sua mensagem em três aspectos: sua natureza, conteúdo e a natureza comestível (2009, p.68-74). A natureza da mensagem é um decreto divino de lamentação pelas cidades destruídas. O conteúdo da mensagem está em torno da palavra yqi (qiyn), relativa aos cânticos fúnebres na tradição israelita. A natureza comestível da mensagem define a identidade do mensageiro: ele próprio é um depósito do lamento, isto é, o profeta absorve a lamentação divina (HESCHEL, 2007).
A reação de Ezequiel à absorção da mensagem de Yhwh, segundo a descrição de seu livro é de lamentação. Atestamos no profeta um comportamento emocional condizente com a lamentação: ―com o meu espírito cheio de amargura e ira‖; verificamos uma postura física adequada com as tradições por ele recebida: ―sentado‖91; e, a duração do tempo em que ficou, ―sete dias‖92
; em seguida, ele profetizou93.
Em terceiro lugar, há uma serie de gestos simbólicos exercidos por Ezequiel que estão atrelados à linguagem de lamentação. No capítulo 5 ele recebe a ordem de cortar o cabelo e raspar a barba. O ato de se barbear, de modo geral, é interpretado de duas formas, ora como um ato de humilhação94, ora como um ato de luto95. Além disso, a deusa dos lamentos sumérios faz gestos relacionados com seus cabelos e, em seguida, ela arranca seus cabelos como gesto de luto por seu povo e por sua cidade, como um ato de auto-humilhação pela desgraça (PETTER, 2009, p.83,84).
Há indicações de semelhanças gestuais de Ezequiel e a tradição de lamento mesopotâmica que confirmariam a tese de Petter. O texto de Ezequiel 6.11,12 mostra outros gestos de lamentação que o profeta deveria realizar: ―[...] esfregue as mãos, bata os pés e grite
90
BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 2, vers. 8 até cap.3, vers.3.
91 Trata-se de uma forma do hebraico bayf (yashab), literalmente, ―sentar-se‖, ―permanecer‖, ―habitar‖. Tem haver com pessoas que se sentam sobre algo e que se demoram extáticos em determinada posição, etc. Esse é o sentido mais provável para a tradução. A expressão usada pela Nova Versão Internacional não demonstra com assertividade o gesto físico do profeta. A versão revisada da tradução de João Ferreira de Almeida apresenta o termo como ―passei a morar onde eles habitavam‖ e parece mais adequada. Petter argumenta que se trata de uma expressão simbólica-ritual de lamentação, que também é possível no contexto do texto e da linguagem. Consulte: PETTER, Donna L. The Book of Ezekiel: Patterned After
Mesopotamian City Lament? 2009. 225f. Tese (Doutorado em Filosofia). Toronto: University of Toronto, 2009, p.79.
92 Comparar com Jó 2.8. 93
―Então o Espírito elevou-me e tirou-me de lá, com o meu espírito cheio de amargura e de ira, e com a forte mão do Senhor sobre mim. Fui aos exilados que moravam em Tel-Abibe, perto do rio Quebar. Sete dias fiquei lá entre eles — atônito! Ao fim dos sete dias a palavra do Senhor veio a mim [...]‖. BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 3, vers. 14 a 16.
94
Comparar com: 2 Samuel 10.4,5; Isaías 7.20.
‗Ai!‘ [...]‖96
. O próprio capítulo 6 vai demonstrar que se trata de gestual de luto. O capítulo 21 faz outra indicação: ―Clame e grite, filho do homem, pois ela está contra o meu povo; está contra todos os príncipes de Israel. Eles e o meu povo são atirados contra a espada. Lamente- se, pois; bata no peito‖97. Dobbs-Allsopp afirma que são gestos de lamentação fúnebre relativos às tradições de lamento pelas cidades (1993, p.78).
As referências até aqui verificadas pertencem particularmente ao início do ministério do profeta. Mas apenas para destacar uma última referência a respeito da linguagem de lamentação em Ezequiel, escolhemos uma que aparentemente é simultâneo ou posterior à destruição do templo e da cidade de Jerusalém. É uma referência bastante estranha: a ordem de Yhwh para que Ezequiel não lamente a morte se sua esposa. A morte da esposa teria finalidade simbólica para o povo cativo98.
É discutível se o texto, na ocasião, se tratava de um vaticínio profético ou um comunicado aos exilados de que a cidade e templo haviam caído, como forma de julgamento por seus atos. Interessa-nos perceber que mais uma vez a lamentação em Ezequiel está atrelada aos rituais simbólicos realizados pelo profeta. Podemos considerar, portanto, que a linguagem de lamentação em Ezequiel é bastante gestual e simbólica, onde o profeta recebe ordens de Yhwh referente ao que ele deveria ou não fazer e profetizar sobre o sentido disso. Como o profeta em suas ações simboliza a mensagem de Yhwh, podemos atestar uma mensagem cuja linguagem de lamentação encontra-se mesclada com as ameaças e profecias (HESCHEL, 2007).
Outra referência quanto à linguagem de lamentação usada no exílio fica por conta do Salmo 137. O problema de analisá-lo fica por conta da incerteza de data e lugar de origem. Para Sellin e Fohrer (2007, p.405) e Kaufmann (1989) não é possível que este Salmo tenha sido produzido no exílio. Ele seria, no caso, pós-exílico. Waiser compartilha desta opinião (1994, p.13). Kidner e poucos estudiosos assumem que foi escrito em terras babilônicas, na época do exílio (2004, p.467) e estão baseados na afirmação do versículo 1: ―Junto aos rios da
96
BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 6, vers. 11.
97
BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 21, vers. 12.
98
―Veio a mim esta palavra do Senhor: Filho do homem, com um único golpe estou para tirar de você o prazer dos seus olhos. Contudo, não lamente nem chore nem derrame nenhuma lágrima. Não permita que ninguém ouça o seu gemer; não pranteie pelos mortos. Mantenha apertado o seu turbante e as sandálias nos pés; não cubra o rosto nem coma a comida costumeira dos pranteadores. Assim, falei de manhã ao povo, e à tarde minha mulher morreu. No dia seguinte fiz o que me havia sido ordenado. Então o povo me perguntou: ―Você não vai nos dizer que relação essas coisas têm conosco?‖. E eu lhes respondi: ―Esta palavra do Senhor veio a mim: [...]‖.BÍBLIA, A.T. Ezequiel. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 24, vers. 15 a 19.
Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião‖99. Schmidt é cauteloso ao demarcar a data de origem deste texto porque compreende que os salmos, de modo geral, são caracterizado pelo uso de fórmulas e linguagens específicas que não permitem clara relação entre a poesia e a história (1994, p.288).
A despeito da cautela que devemos ter ao atribuir uma data e lugar é certo que o próprio salmo atesta dificuldades experimentadas no cativeiro pelos israelitas. Sem dúvidas, o autor do Salmo 137, seja em terras babilônicas –data posterior da destruição do templo e da cidade – ou no retorno à Judá, decidiu relatar seus sentimentos de ódio contra seus inimigos. Os sentimentos por trás deste salmo são religiosos e nacionalistas, onde o autor extravasa por meio de poesia seu ódio aos inimigos ao olhar o passado próximo de humilhação, saudades e tristeza (GUSSO, 2007, p.83).
Quanto ao gênero literário também há divergências de opinião. Mas é seguro afirmar que é um salmo de lamentação. Sellin e Fohrer o caracterizam como salmo de lamentação coletivo (2007, p.405). Schökel (1998) concorda com Günkel (1993) de que é de um salmo de lamentação, mas discorda da nomenclatura ―lamentação e súplica‖ usada por Schmidt (1994). Conquanto não seja fácil determinar o gênero literário de um salmo devido duas características próprias, Gusso propõe que este seja considerado uma lamentação, sem definir ao certo se coletiva ou individual (2007, p.75-79).
O Salmo 137 possuí paralelos e semelhanças com o estilo literário do antigo Oriente Próximo. Principalmente, com relação à presença clara de maldições. Como já observamos, a maldição é recorrente no antigo Oriente Próximo e deve ter sido um dos elementos absorvidos pelo antigo Israel. Fazer uso de maldições fazia parte do dia-a-dia dos israelitas e de sua literatura. Quanto mais em situações de perigo e calamidades, como aquela que o exílio trouxe. A tese de Gusso enfoca alguns usos da maldição por Israel: como automaldição (esta é a que Jeremias usa no capítulo 20 de seu livro), como forma de garantir o cumprimentos de leis, como forma de descobrir culpados, como forma de castigo, como uma espécie de arma de defesa e ataque contra inimigos e como pedido de castigo divino para os inimigos (2007, p.153-170).
O saltério testemunha a presença de maldições. Por um lado, o cotidiano do israelita era marcado pela crença no poder da palavra (ZIMMERLI, 1980, p.114); mas de outro, a literatura que contém maldições desperta interesse nos estudiosos, ora por deixar claro que a maldição fazia parte do contexto do antigo Israel, ora por elas serem utilizadas
99
BÍBLIA, A.T. Salmos. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 137, vers. 1.
intencionalmente para determinados fins. Temos somente possibilidades plausíveis para a presença de maldição nos salmos. Mas certamente cada salmo de lamentação com maldições deve ter o próprio objetivo quanto ao uso da mesma. Como é o caso do Salmo 137.
Aos versículos 1 a 4 cabe o retrato da humilhação que os israelitas passaram no exílio100. Em seguida, o salmista retrata a saudades de Jerusalém. É notório ressaltar que a teologia por trás do salmo a dos sionitas. Talvez muito próxima daqueles que compuseram o livro das Lamentações: ―Que a minha mão direita definhe, ó Jerusalém, se eu me esquecer de ti! Que a língua se me grude ao céu da boca, se eu não me lembrar de ti, e não considerar Jerusalém a minha maior alegria!‖101
. Finalmente, a maldição contra a Babilônia, nos versículos 7 a 9. O Salmo 137 encerra com a maldição contra os seus inimigos, usando expressões vinculadas com a linguagem de lamentação (―lembra-te‖, ―Ó!‖, ―feliz aquele‖ com sentido negativo)102.
Portanto, fica claro que não é possível haver um gênero de maldições ou imprecações