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COMMON BANNERS

Dans le document A valuable extension to the (Page 186-192)

Em nível secundário, as lamentações ocupam um papel preponderante na liturgia coletiva. Uma vez que o culto em Israel assumia uma posição de destaque na sociedade israelita, a assembleia de Israel tanto falava quanto respondia a Yhwh na sua dinâmica litúrgica cotidiana (EICHRODT, 2004, p.81-152). As respostas de lamento e louvor eram solicitadas quando a proclamação da palavra de Yhwh no culto no contexto de ação sagrada, na presença da assembleia cultual (WESTERMANN, 2005, p.31).

Verificamos a lamentação como parte ou a própria liturgia de cultos em Israel no papel que ocupa o livro Lamentações na tradição e memória deste povo. O livro de Lamentações era usado como o cântico fúnebre de uma liturgia em torno dos escombros do templo de Jerusalém, destruído pelos exércitos babilônicos, representando o polo do lamento na ocasião. Seu contexto histórico demonstra que Israel manteve viva a memoria da destruição de Jerusalém e do templo; e o faz até hoje no dia 9 do mês Ab. O livro de lamentações é o cântico fúnebre para a cidade morta. Sua incumbência é servir a cerimônia que rememora o sofrimento mais profundo da história do povo.

Este documento é adequado ao relacionar imagens de morte e desespero com as de pureza e moralidade na caótica Jerusalém de seus dias que passava por desesperao e alto índice de violência (ARMSTRONG, 2008). O gênero do livro é relacionado com os lamentos mesopotâmicos por cidades destruídas (HILLERS, 1972, p.xxviii-xxx). Mas demonstram particularidades próprias em sua composição, todas elas discutidas por Calovi (2006) e demonstradas em particularidades por Dobbs-Allsop em na plausibilidade das linhas

enjambing e da direção da métrica kinah (2008, p.13-35).

A forma do livro e seu estilo literário têm função tão importante quanto seu conteúdo: seus lamentos foram compostos em forma de acrósticos. As quatro primeiras unidades poéticas abrangem todo o alfabeto hebraico. A quinta unidade difere das quatro primeiras, mas suas vinte e duas linhas, numero de letras do alfabeto hebraico sugerem mais um acróstico. No capítulo três, que é a unidade poética central do livro, não apenas a primeira, mas as três linhas de cada estrofe começam com a mesma letra.

A opinião de Gottwald explica a finalidade do acróstico – comumente usado para memorização de poemas – para descrever o sofrimento: o acróstico pretende garantir que a

tristeza e o desespero sejam descritos de forma plena (1954, p.23). Isto é, a leitura litúrgica de Lamentações, letra por letra, dá atenção ao sentimento daquelas pessoas tomadas pela aflição. Suponhamos que o ritual prescrevia a leitura do livro, então, orante e ouvinte precisariam estar atentos a cada detalhe do poema, tal como um ritual de luto.

Günkel analisou o livro de Lamentações e demonstrou que é uma composição de lamentos comunitários (HILLERS, 172, p.xxvii). Segundo sua análise, apesar do capítulo 3 parecer uma lamentação individual, o ―eu‖ poético pode ser lido como a representatividade de todo o povo para além do indivíduo. A ocasião que faz este livro é comunal com finalidade litúrgica. A liturgia do livro de Lamentações unia as lágrimas da comunidade, do grupo dos sionitas em torno do templo destroçado. É o espaço que o culto em Israel tinha para o luto e a perda. Afinal de contas, o lamento de um sempre faz eco na experiência de outros. Através de hinos e salmos de lamentação a vida do sofredor ganhava um novo significado. A dor era evidenciada, não negada. A solidariedade com a dor do outro servia de balsamo para as feridas dos solitários. A liturgia de lamentação trocava os rituais de festividade pelos de lágrimas e dor.

A finalidade da lamentação, não obstante, é desencadear espectros de esperança para quem sofre. A capacidade de lamentar num culto dirigido à dor e ao sofrimento, em conjunto com o grupo que lhe dá sustentação é, segundo o casal Mitscherlich, uma ação terapêutica que recobra a dignidade do ser116.

O livro de Lamentações se encontra na companhia dos Salmos de lamentação em prol da comunidade para assegurar um espaço para a dor e a perda na sociedade do antigo Israel. Para a nação, tanto um como outro têm papel litúrgico no culto para todo Israel.

O culto em Israel per si poderia ter sido compreendido com o papel de mediador no relacionamento entre Deus e as pessoas; assim também o era o sacerdote ou oficial de tal culto e veio a ser alguns dos profetas; no caso de um culto fora dos limites do templo central do antigo Israel, os santuários locais poderiam assumir esta posição. Eichrodt entende o culto como a própria mediação: ―o culto não é somente a expressão necessária da realidade interior, senão também mediador e expoente das energias divinas para que o homem delas participe‖ (2004, p.82). Dentro da liturgia na religião javista, o culto deveria levar o ser humano a uma

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Mitscherlich escreveu um estudo sobre o ―entorpecimento psíquico‖ que aconteceu na Europa após a segunda guerra mundial. Seu livro é intitulado de ―incapacidade de lamentar‖. Ele analisa o problema psiquiátrico que aflige pessoas que não vivem em comunidade. O ponto alto deste isolamento da comunidade, que era comum aos que regressaram da guerra, era a perda da motivação e a depressão grave. MITSCHERLICH, Alexander; MITSCHERLICH, Margarete. Inability to Mourn:

ação responsiva a palavra divina proferida117. Certamente, o culto recebia valor sacramental na religião israelita.

Dentre a diversidade de respostas que a assembléia reunida em culto poderia dar encontram-se o lamento e o louvor, a confissão o agradecimento, a penitência e o sacrifício.

117 Westermann argumenta que o cerne do culto em Israel é a palavra de Yhwh e que é possível ao ser humano responder a Deus. Consulte: WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã Ltda., 2005, p.25-33.

4 GÊNERO E TEOLOGIA DA LAMENTAÇÃO NA BÍBLIA HEBRAICA

A textura na qual o gênero literário da lamentação se encontra na Bíblia Hebraica é a poesia. Somente em poucos textos percebemos a lamentação em narrativas que, segundo Westermann, seriam os lamentos mais antigos (2005, p.189,190).

A poesia simplifica a realidade narrativa da história e amplifica a dimensão simbólica e metafórica da existência (RICOEUR, 2000). Por vezes, a poesia hebraica se torna uma linguagem de difícil interpretação para o leitor moderno e ocidental porque não se limitam a aspectos narratológicos, mas em imagens polissêmicas (CROATTO, 2010, p.102-106) como uma expressão da religião do antigo Israel de difícil localização histórica (ALTER, In: ALTER; KERMODE; 1997, p.653-666).

Os poemas significativos da história da religião do antigo Israel se espalham por toda Bíblia Hebraica, mas concentram-se principalmente no saltério.

Certamente, na época em que os poemas de Israel eram proferidos ou lidos, as imagens que expressavam eram comuns aos interlocutores. Atualmente, a barreira que nos distancia dos poemas de Israel torna a pesquisa cada vez mais instigante, porém, comumente imprecisa em termos de autoria, ocasião e circunstancias históricas de sua composição. A tarefa dos pesquisadores tem sido descobrir as relações existentes entre os salmos, as circunstancias que levaram à composição e o uso que se estabeleceu ao longo da história para determinado salmo.

Contudo, assim como em diversas culturas existem tipos diferentes de poesia, também o é no caso da poesia hebraica. Dentro de cada gênero literário da Bíblia Hebraica, podemos ainda enumerar subgêneros ou subdivisões de gêneros.

Não obstante, Schökel alerta para alguns cuidados quanto à pormenorização dos gêneros dos salmos: deve-se evitar o reducionismo do salmo a uma forma padrão; não se deve exagerar nas subdivisões de um gênero; deve-se lembrar de que o poeta usa suas próprias convenções sem se submeter totalmente a elas; e, a situação vivencial não pode ser desconsiderada na analise das formas (SCHÖKEL, 1987, p.28,29). Zogbo-Wendland advertem:

Uma divisão dos salmos em gêneros específicos, à maneira de Günkel, é, sem dúvida nenhuma, um exercício muito útil quando contribuí a identificar características poéticas de poemas individuais, ou quando nos indica algo de sua função religiosa. Contudo, devemos estar conscientes da subjetividade

presente em qualquer tentativa de categorizar salmos ou qualquer outro tipo de poesia bíblica (1989, p.18,19).

É possível os salmos serem categorizados para uma finalidade comunicativa mais abrangente, além da de gêneros. Tem haver com a função geral que o salmo irá desempenhar na dinâmica de comunicação religiosa de Israel. Com essas categorias mais genéricas é possível justapor mais de um gênero literário. Destacamos as quatro categorias principais: poesia didática, poesia litúrgica, poesia erótica e poesia profética.

A didática tem como principal função ensinar a lei de Deus. A litúrgica caracteriza o uso dos salmos no culto e em festividades religiosas. A erótica é representada em Israel pelo Cântico dos Cânticos e se aproxima de outros contos eróticos do antigo Oriente Próximo (ZOGBO; WENDLAND; 1989, p.19-21). A profética tem como proposito comunicar uma mensagem a um grupo específico ou àqueles a quem diretamente o profeta/poeta se reporta. De todas essas funções, a profética é talvez a mais rica e abrangente, pois ela guarda em si uma diversidade de gêneros que convergem para a entrega da mensagem profética.

Os salmos podem se apresentar com gêneros diversos118. Dificilmente encontra-se um salmo com gênero puro. Daí a variedade de divergências entre os pesquisadores. Todavia, o trabalho de delimitação de gênero para as poesias hebraicas são de difíceis conclusões na pesquisa por causa da falta de evidencias históricas e das circunstancias de origem dos salmos. Para tanto, o recurso que disponibilizamos é a identificação do gênero em sua forma para acessar o conteúdo do salmo. Somente a partir deste ponto é possível conjecturar os possíveis ambientes vivenciais do salmo.

O gênero literário é determinado ou justificado por sua forma particular. Identificamos um gênero examinando sua forma, estrutura, configuração, Sitz im Lebem, estilo e vocabulário. A análise dos gêneros literários nos permite designar os textos sob uma forma comum. É evidente, portanto, entre os estudiosos que é possível categorizar salmos de lamentação individual e nacional ou coletivo. Todos eles assumem que o saltério é composto em grande escala pelos salmos de lamentação. Por certo, como Günkel (1985) afirmou, e atestado pelos posteriores pesquisadores que o gênero de lamentação é a espinha dorsal do saltério.

118 Ballarini e Reali, por exemplo, destacam os seguintes gêneros literários da Bíblia Hebraica: hinos, teofanias, cantos da realeza ou entronização do Senhor, lamentações ou súplicas individuais, salmos de súplica coletiva ou da nação, salmos de confiança, salmos de ação de graças individual, salmos de ação de graças por Israel ou nacionais, salmos reais, salmos de Sião, liturgias de entrada, salmos de peregrinação e procissão, requisitórios sobre ruptura da aliança, salmos de congratulações ou macarismáticos, salmos ou oráculos de proteção divina, salmos de juízo de Deus, salmos sapienciais e salmos alfabéticos. Consultar: BALLARINI, Teodorico; REALI, Venanzio. Poética Hebraica e os Salmos. Petrópolis: Vozes, 1985, p.60,61.

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