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A terra do antigo Israel é chamada na Bíblia por Canaã, hoje Palestina20, se localiza entre a Mesopotâmia e o Egito. Foi somente depois da descoberta do ferro, cerca do ano 1200, que Israel se estabeleceu neste local, pois esta região montanhosa era repleta de matas. Este antigo Israel é produto desta Palestina21. O palco onde sua história é formada é a parte

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Para uma aproximação do que seria o território do que nas pesquisas comumente é chamado de ―antigo Oriente Próximo‖ confira: GOTTWALD, Norman K. Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica. São Paulo: Paulinas, 1988, p.46-50. 20

Sobre o termo ―Palestina‖ (claramente um anacronismo para a presente dissertação) consulte: DONNER, Herbert. História

de Israel e dos Povos Vizinhos v.1: dos Primórdios até a Formação do Estado. 4.ed. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p.50.

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As hipóteses sobre o surgimento de Israel são basicamente duas. A primeira, afirma que Israel deriva de ―tribos seminômades das cercanias das terras cultiváveis‖ e afirmam que estes pastores, ―em algum momento, interrompem sua transumância regular e tornam-se camponeses‖. Schwantes discorda desta perspectiva, pois entende que os pastores são originários como resultado do campo e não o contrário. Conforme: SCHWANTES, Milton. Breve História de Israel. São Leopoldo: Oikos Editora, 2008, p.11. A segunda hipótese entende que Israel resulta de ―desintegração‖ da sociedade cananeia ao final do período do bronze e, fundamentalmente, do êxodo da população dos vales para a região das montanhas. Conforme: GOTTWALD, Norman. As Tribos de Iahweh: Uma Sociologia da Religião de Israel Liberto 1250-1050 a.C. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004. Consulte também: DONNER, Herbert. História de Israel e dos Povos Vizinhos v.1: dos Primórdios

meridional do corredor siro-palestinense, entre os territórios de aluvião fluvial do Egito e da Mesopotâmia. Israel é marcado pela geografia e o clima do Mediterrâneo. É marcado também, sobremaneira, em seu início e no decorrer de seu desenvolvimento, pelas influências literárias e religioso-culturais dos povos do Oriente Próximo, isto é, os do Egito e da Mesopotâmia.

Sabemos destas influências através do acesso a antigas fontes literárias (e arqueológicas) do mundo antigo como um todo, que em comparação com as fontes literárias dos israelitas demonstram vínculos com a realidade cultural que permeava aquele ambiente. ―A maioria da prova na escrita procede de textos estatais ou dos templos nos arquivos das principais potências do Egito, da Suméria, da Acádia, da antiga Babilônia, da Assíria, do império hitita, e da Pérsia‖ (GOTTWALD, 1988, p.60).

A religião mesopotâmica teve início na Suméria. Pouco se sabe a respeito deles e de sua língua. Mas a conservação de sua produção literária nos permite acessar informações dos costumes do antigo Oriente Próximo, especialmente, em nosso propósito, de sua cosmovisão religiosa e em como isso influenciou o antigo Israel e sua literatura (ELIADE, 2010, p.68,75). A presença de lamentações no antigo Oriente Próximo é evidente nos poemas de lamentações mesopotâmicos. Certamente, as práticas de lamentar destes povos estão relacionadas com a experiência da dor e estranheza da morte através de rituais ou encenações que acompanhavam o luto. Os lamentos mesopotâmicos mais antigos são relacionados aos salmos sumerianos pelas cidades destruídas, embora exista evidência do gênero anterior ao conjunto literário mais conhecido. Na pesquisa do mundo do antigo Oriente Próximo, estas são compreendidas como um gênero literário.

Os estudos quanto à literatura suméria e ao trabalho de reconstituição dos textos só foi possível depois dos avanços das pesquisas na língua suméria22. Após estes avanços linguísticos, os pesquisadores procuraram correlacionar estes poemas com os poemas de lamentações da Bíblia Hebraica.

22 Os temas destas literaturas sumerianas são diversos: forças da natureza, imagens cósmicas, narrativas míticas, noções de pecado e reorganização do cosmos. Em sua história, os sumérios foram subjugados pelos acadianos, anos mais tarde de seu assentamento na baixa Mesopotâmia. Os acadianos vinham do deserto da Síria e penetraram nas cidades sumerianas até o ponto de imporem uma espécie de simbiose religiosa-cultural. Mais tarde, é possível encontrar pesquisas que afirmem que estes dois países foram unificados num só, tornando-se uma cultural única, chamada de babilônica. Mas ainda assim, essas duas culturas mantiveram aspectos religiosos peculiares e próprios. ELIADE, Mircea. História das Crenças e das Ideias

Os lamentos sumérios pela cidade destruída são cinco23. Eles aparecem, nas pesquisas atuais, como um único conjunto e inclui uma sexta lamentação (este sexto lamento está em estado fragmentário, bem comprometido). São eles: lamento por Ur; lamento pela Suméria e Ur; lamento por Nipur; lamento por Eridu; lamento por Uruk; e, lamento por Ekimar. Este último, por ser bastante fragmentado, é descartado pelas pesquisas de ponta.

O lamento pela destruição de Ur é relacionado à tragédia que acometeu a terceira dinastia de Ur. Ur foi dominada pelos Elamitas por volta de 2000 a.C. Foi Kramer que inaugurou as pesquisas deste primeiro lamento em uma edição crítica com a tradução do lamento (KRAMER, 1940). Kramer também foi o responsável pelas edições inglesas da tradução e crítica do segundo lamento, ―lamento de Ibbi-Sin‖ e pelo terceiro, ―lamento por Nipur‖ (KRAMER, In: PRITCHARD, 1969, p.611-619). Kramer é um dos mais respeitados estudiosos do mundo e língua sumerianos do mundo. Os outros dois lamentos, ―lamento por Eridu‖ e ―lamento por Uruk‖ foram traduzidos por Green (GREEN, 1978, p.127-167; GREEN, 1984, p.253-279). O sexto lamento, o pela destruição de Ekimar não tem tradução conhecida. Mas o desenho da tabua que está no museu de Istambul foi reproduzido por Kramer (KRAMER, 1944).

Estes poemas são composições longas, por isso decidimos não transcrevê-los aqui. Possuem mais de quatrocentas linhas. O lamento pela Suméria e Ur, também chamado de ―Ibbi-Sin‖ possuem quinhentas e cinquenta e nove linhas, é o maior dos lamentos; o lamento por Ur possuí quatrocentos e trinta e seis versos; o lamento por Nipur possuí trezentos e vinte e seis linhas; o lamento por Uruk possuí duzentos e cinquenta e uma linhas, mas estas são foram preservadas e devem representar de sessenta a setenta por cento do que seria a tabua original; o lamento por Eridu possuí duzentos versos, mas encontra cerca de vinte por cento de seu estado corrompido.

Estes cinco lamentos principais tratam fundamentalmente das circunstancias e destruições que cidades sumérias sofreram sob investida estrangeira, ou seja, por causa de guerra e invasões24. Eles foram escritos por volta de um período de cento e cinquenta anos. A época é correspondente ao início da dinastia Isin, localizada junto ao período da Mesopotâmia

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Antes destes documentos cujos pesquisadores identificam como ―lamentos pela cidade‖, já havia a presença de lamentações na dinâmica religiosa dos sumérios. A prática de lamentar faz parte da cultura suméria desde tempos remotos. Normalmente, está ligada às mortes das divindades, segundo seus mitos, e com a destruição de templos e cidades. Em geral, está relacionada com a morte. Conforme: OTTERMANN, Monika; SCHWANTES, Milton (Orient.). As Brigas Divinas de

Inana: Reconstrução Feminista de Repressão e Resistência em Torno de uma Deusa Suméria. 2007. 339 f. + anexo 70 f.

Tese (Doutorado em Ciências da Religião). Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião. São Bernardo do Campo, 2007. 24

Para acessar um excelente resumo dos antecedentes históricos, sociais e culturais da Suméria, consulte: OTTERMANN, Monika; SCHWANTES, Milton (Orient.). As Brigas Divinas de Inana: Reconstrução Feminista de Repressão e Resistência

em Torno de uma Deusa Suméria. 2007. 339 f. + anexo 70 f. Tese (Doutorado em Ciências da Religião). Faculdade de

antiga, cerca de 2004. São poemas que retratam a derrota da terceira dinastia de Ur (CALOVI, 2006, p.82). Eles teriam sido compostos em ocasião de cerimônias religiosas e eram executadas, na opinião de Green, nas cerimonias de recondução das estátuas dos deuses a novos santuários, devido às destruições (GREEN, 1978, p.127-167). O ritual pedia a mudança das instalações sagradas do local destruído para outro lugar novo25.

É questionável se as pessoas realmente experimentavam um sofrimento efetivo. Ou se se tratava apenas de um ritual de mudança de local sagrado. Segundo os comentaristas destes rituais cujos poemas eram recitados, a linguagem requintada compunha mais um quadro de encenação ritual do que uma manifestação coletiva de dor e pesar. Segundo Tinney, em sua análise sobre o lamento por Nipur, a finalidade do lamento é dar uma retórica de legitimidade aos deuses do período (TINNEY, 1996).

Essas lamentações possuem traços poéticos comuns com a literatura padrão encontrados nas descobertas arqueológicas. Mas, entre eles próprios não há homogeneidade. Segundo Green, cada um destes cinco lamentos constitui um gênero poético sui generis, ainda sem consenso quanto sua determinação. Ao colocar os poemas lado a lado, em comparação um com o outro, há poucas similaridades. O que os dá similaridades são os detalhes das destruições e a ação dos deuses envolvidos (MICHALOWSKI, 1989, p.4,5). O que chama a atenção dos estudiosos nestes poemas é a forma distintiva e peculiar a cada um deles (VANSTIPHOUT, In: HECKER; SOMMERFELD, 1986, p.2-4).

Para Green, os poemas possuem seis temas recorrentes dos lamentos sumérios: destruição; responsabilidade das divindades; abandono da cidade pelos deuses (devido a destruição ou deslocamento das estátuas); reconstrução; retorno das divindades; e, apresentação de súplicas (GREEN, 1975, p.295-310). Muito semelhante é a opinião de Dobbs-Allops onde os lamentos possuiriam duas características formais: assunto e humor e estrutura e técnica poética. E sete temas recorrentes: abandono divino; indicação de responsabilidade; o agente divino da destruição; a destruição em si; a divindade que pranteia; o lamento; a restauração divina (DOBBS-ALLSOPP, 1993). Essas obras podem ter sido produzidas em três fases diferentes: agregação, composição e redação final com gêneros definidos a partir de convenções literárias (VANSTIPHOUT, In: HECKER; SOMMERFELD, 1986, p.8).

Para o respeitado sumeriologista Kramer, os lamentos sumérios têm origem no trabalho de ―poetas‖ sumérios ―em resposta à periódica e recorrente destruição de sua terra e

25 De qualquer forma, a linguagem de lamentação no antigo Oriente Próximo estava relacionada principalmente a rituais de lamentação, conforme: COOPER, Jerrold. Genre, Gender, and the Sumerian Lamentation. Journal of Cuneiform Studies. [s.l.], v.58, p.39-47, 2006.

suas cidades e templos‖ (KRAMER, 1969, p.89). O que nos permite verificar a partir da analise fenomenológica destas cerimônias onde os lamentos eram realizados – a saber, na ocasião de mudança das estatuas e reestabelecimento dos locais sagrados – percebemos uma espécie de ritual de apaziguamento das divindades, quer dizer, uma ―barganha‖ com os deuses, pelo ocorrido (SPARKS, 2005, p.96). Provavelmente, na esperança de não mais sofrer tais calamidades.

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