A morte sempre suscitou dúvidas entre os israelitas. A concepção da Bíblia Hebraica não faz distinção entre o corpo e o espírito do indivíduo. Alguém vivo é alma vivente, e O morto é uma alma morta111. Essas ideias justificam o cuidado que os israelitas tinham com os cadáveres e com rituais fúnebres. Justifica também a função da lamentação: não havia alegria
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―Numinoso‖ é expressão cunhada por Otto para designar o conjunto de elementos que perfazem a realidade da relação do ser humano com o Sagrado. Segundo ele, esses elementos podem ser concomitantemente fascinantes e assombrosos. Trate-se de um fenômeno verificado nos participantes de uma religião, ou seja, não podem ser racionalmente deduzíveis, pois se encaixam na experiência e em como ela se traduz segundo quem a experimentou. Consulte: OTTO, Rudolf. O Sagrado: os
Aspectos Irracionais na Noção do Divino e Sua Relação com o Racional. São Leopoldo / Petrópolis: Sinodal / Vozes, 2007.
numa alma morta, nem esperança de alguma ressurreição escatológica. Pelo menos até os idos do pós-exílio (VAUX, 2004, p.80-83).
Vaux (2004, p.82) descreve como era realizado o cuidado com o cadáver e os rituais de sepultamento no antigo Israel: não havia incineração, mas uma câmara funerária; a palavra usada para o lugar fúnebre é hmfbf (bamah); no período helenístico já haviam ossuários e outras formas de sepultura.
Os ritos de luto eram observados quando um parente de alguém falecia, como em momentos de calamidade pública e catástrofes nacionais. Vaux sistematiza o rito fúnebre: à noticia da morte, rasgavam-se as vestes; vestiam-se de saco, uma veste rustíca sobre o corpo nu; tiravam-se os calçados, andavam à pé nas procissões; haviam gestos de dor e vergonha, como colocar um véu ou as mãos sobre a cabeça; punha-se terra sobre a cabeça; no período de luto, sentava-se sobre o chão; algumas vezes fazia-se incisões sobre o corpo e raspavam-se a cabeça. Havia ritos alimentares: jejuns por sete dias, que representava o tempo normal de luto; eles comiam o pão do luto e o cálice da consolação. Por certo, havia ritos de lamentações fúnebres (VAUX, 2004, p.83,84).
Os ritos de lamentações eram as principais cerimônias do funeral e do luto em Israel. Conforme Vaux, em sua forma mais simples ―era um grito agudo e repetido‖, que o profeta Miquéias compara ―ao do chacal e do avestruz‖. O parente do falecido gritava ―Ai!‖ e, por vezes, a relação de parentesco que tinham, como: ―Ai! Minha irmã‖. O pai ou chefe da família poderia chamar o filho morto pelo nome. Se o filho fosse único, a lamentação seria mais intensa. Os gritos eram obrigações dos parentes mais próximos. E se contratavam carpideiras profissionais para fazer o cântico de lamentação (VAUX, 2004, p.84,85).
Os rituais fúnebres em Israel estão longe de serem comparados com cultos pelos mortos. Ainda que se testemunhem cultos aos mortos no antigo Oriente Próximo, tal ideia era reprovável na concepção religiosa do antigo Israel. Os ritos fúnebres permeados de lamentações eram a expressão da dor da perda. Importa salientar que os gestos comumente usados nos rituais fúnebres também eram usados em outras ocasiões, não necessariamente de luto fúnebre; mas em qualquer situação de complexidade que envolvesse tais pessoas. Até mesmo os profetas realizam cânticos fúnebres para retratar sua mensagem. No livro de Amós encontramos um cântico fúnebre: ―Ouça esta palavra, ó nação de Israel, este lamento acerca
de vocês: ‗Caída para nunca mais se levantar, está a virgem Israel. Abandonada em sua própria terra, não há quem a levante‘‖112
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Jeremias é um dos profetas que lamentam. No texto abaixo, ele convoca as ―pranteadoras profissionais‖. Pede as mais habilidosas dentre elas. Ele conclama que as mães judaítas ensinassem suas filhas a lamentar-se, a realizar cânticos fúnebres. A situação que Jeremias descreve é de desolação, morte para todos os lados da cidade. Todas as mulheres deveriam lamentar.
Assim diz o Senhor dos Exércitos: Considerem: Chamem as pranteadoras profissionais; mandem chamaras mais hábeis entre elas. Venham elas depressa e lamentem por nós, até que os nossos olhos transbordem de lágrimas e águas corram de nossas pálpebras. O som de lamento se ouve desde Sião: ―Como estamos arruinados! Como é grande a nossa humilhação! Deixamos a nossa terra porque as nossas casas estão em ruínas‖. Ó mulheres, ouçam agora a palavra do Senhor; abram os ouvidos às palavras de sua boca. Ensinem suas filhas a lamentar-se; ensinem umas as outras a prantear. A morte subiu e penetrou pelas nossas janelas e invadiu as nossas fortalezas, eliminando das ruas as crianças e das praças, os rapazes. ―Diga: Assim declara o Senhor: ―Cadáveres ficarão estirados como esterco em campo aberto, como o trigo deixado para trás pelo ceifeiro, sem que ninguém o ajunte‖113
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Os cânticos fúnebres na sociedade israelita, normalmente, eram compostos por estas carpideiras. A tarefa de prantear ficava a cargo das mulheres, assim como a maioria dos cânticos de Israel; pois elas eram chamadas para realizar cânticos de vitórias; também entoavam cânticos de zombaria, contra os inimigos de Israel. Tanto o cântico de vitória quanto o de zombaria são partes do mesmo gênero literário. Interessante perceber que mesmo numa cultura onde a mulher ocupa um lugar periférico, elas não deixam de ser participantes da sociedade e agentes da religião.
As carpideiras eram as mulheres que realizavam os cânticos de lamentação fúnebre. Ou seja, a função de lamentar não ficava somente a cargo dos parentes do falecido. Eles poderiam contratar pessoas que realizassem a tarefa para eles. Parece ser uma profissão prioritariamente feminina. O texto de Jeremias é um dos testemunhos da historiografia que nos dá essa indicação. O culto do antigo Oriente Próximo ligado ao rito feminino do culto de
Ishtar de chorar o ―Tamuz‖ também nos indica que essa prática era feminina: ―[...] ele me
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BÍBLIA, A.T. Amós. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 5, vers. 1 e 2.
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BÍBLIA, A.T. Jeremias. Português. In: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004. Cap. 9, vers. 17 a 22.
levou para a entrada da porta norte da casa do Senhor. Lá eu vi mulheres sentadas, chorando por Tamuz‖114
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É certo que a lamentação fúnebre era um fenômeno da sociedade do antigo Israel e fora usado pelos mais hábeis profetas. Isso significa que tal gênero não era restrito às ocasiões de luto de familiares de alguém morto. O gênero era usado pelo profetas para zombar ou ironizar determinadas situações em Israel. Por exemplo, em Miquéias 2.4 se zomba das elites de Jerusalém com um cântico fúnebre; em Isaías 14.4-21 há a presença de um cântico de lamentação revestido com ironia que ―lhe confere uma acidez que combina bem com os desabafos de grupos ou pessoas que, finalmente, vêem-se livres das ‗maldades‘ e dos sofrimentos causados pelo objeto do cântico‖ (OTTERMANN, 2003, p.154).
A valorização da profissão das carpideiras é perceptível no livro de Jeremias, que é de nosso interesse. Ottermann averigua a possibilidade de Jeremias ter sido o profeta que partilhou com as carpideiras a função de ser voz profética diante as calamidades da destruição da cidade. Segundo ela, Jeremias as teria considerado sábias. Para a situação particular a que o texto de Jeremias 9.17-22 se refere era necessária que se multiplicasse a profissão, pois a única alternativa para uma cidade desolada é o luto e o lamento (OTTERMANN, 2003, p.155,156). Jeremias atesta a ação, interação, presença e relevância da lamentação a partir das mulheres israelitas de seu tempo caótico.