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Trajectoires et ressources sectorielles particulières.

Les logiques d’institutionnalisation d’une elite du Welfare ? William Genieys (CEPEL)

1. Description et identification de l’élite du Welfare.

1.2. Trajectoires et ressources sectorielles particulières.

O nome original egípcio da Dança do Ventre é Raks Sharki ou Raqs El Sharq e significa Dança do Oriente ou Dança do Leste, fazendo referência à região onde nasce o sol. Na Grécia é chamada de Chiftitelli, na Turquia de Rakkase, na França de Dance du Ventre e no continente americano é mais conhecida como Belly Dance ou Dança do Ventre. Essa denominação deve-se aos movimentos, que são predominantes do ventre e quadril femininos.

É uma dança designada, unicamente, para o corpo feminino, respeitando e valorizando seus contornos, a Dança do Ventre enfatiza os músculos abdominais e os movimentos de quadris e tórax, em uma sensual combinação de movimentos flúidos e harmoniosos de troncos, braços e mãos com movimentos sinuosos e vigorosos de quadril. Em geral, é praticada com os pés descalços, mantendo uma tradição egípcia que crê que a força da terra é captada pelos pés e levada aos quadris, durante a dança. Embora os movimentos do quadril sejam sua marca diferencial, esta dança trabalha o corpo como um todo. Penna (1993), discute os benefícios trazidos por esta dança ao afirmar que o despertar dos sentidos conduz à melhoria da saúde, que os movimentos de pelve massageiam os órgãos sexuais, melhoram a circulação sanguínea, favorecem as pernas, coluna, órgãos internos de maneira geral e as gônadas. Melhora a postura do corpo como um todo, realinhando a pessoa: “(...) A postura do tronco melhora, a

cabeça encontra o seu lugar, os braços ficam mais soltos e alongados. As mãos ficam mais leves porque os pulsos, assim como as demais articulações do corpo, soltaram-se

graças ao estilo sinuoso e circular do movimento” (p.144). Esta dança também

possibilita à dançarina sentir o próprio ventre como o centro da consciência e como o centro de gravidade do corpo, desenvolve o senso de dignidade e melhora a auto- estima, possibilita à mulher perceber o seu próprio valor, favorecendo a forma como lida com outras pessoas, valores e idéias. “(...) Emocionalmente, essa abertura pode

levar à busca de novas relações. Dá gosto pela vida que se apreende através de todos

os órgãos estimulados pelo treinamento” (1993, p.144).

A origem da Dança do Ventre é incerta, existe pouca ou nenhuma documentação a este respeito o que abriu espaço, então, para diversas versões na tentativa de contextualizar sua possível origem. Dentre as diversas hipóteses a mais provável, ou talvez a mais difundida é a de que esta dança teria se originado nos rituais religiosos do Antigo Egito, em períodos anteriores à Era Faraônica, sendo praticada como forma de homenagem às divindades femininas associadas à fertilidade. Outra hipótese é a de que tenha se originado na civilização pré sumérica estabelecida entre os rios Tigre e Eufrates há dez mil anos, também como um ritual sagrado em honra às divindades femininas protetoras das águas, das terras, das mães e dos seus filhos, associadas a ritos de fertilização. “(...) Todas as criaturas eram consideradas filhos da Deusa, louvada em

ritos em que as mulheres dançavam procurando receber a força da Grande Mãe

(Penna, 1993, p.83). Existe ainda outra hipótese que acredita que esta dança tenha surgido simultaneamente no Egito, no Pacífico e na Mesopotâmia, região que atualmente compreende a Síria, Turquia, Irã e Iraque (Peto, 2004).

Embora tenhamos levantado algumas questões referentes à Grande Mãe, considero relevante esclarecermos melhor o simbolismo deste arquétipo. Neumann em obra dedicada especialmente à discussão desse tema: A Grande Mãe (2006), esclarece que“No centro do caráter elementar feminino, onde a mulher contém e protege, nutre e

dá à luz, se encontra o vaso, que é tanto um atributo como um símbolo da natureza

feminina” (p.111). O tipo original do caráter elementar do feminino estaria associado ao

caráter impessoal e transpessoal da Grande Mãe, que possui como símbolo dominante o vaso redondo. Suas imagens geralmente contemplam ventre e seios espantosamente grandes, o que impulsionou o autor a considerar essas regiões do corpo como centrais do vaso-tronco da deusa e como o simbolismo de sua feminilidade. Para Neumann, o ventre representa de maneira mais enfática o caráter elementar e continente do vaso cujo o símbolo de entrada é o útero que reflete o mundo inferior ao qual pertencem: “(...) não

apenas as trevas subterrâneas, como a noite e o inferno, mas também os símbolos da fenda, da caverna, do abismo e do precipício, assim como o do vale e das profundezas,

que, em inumeráveis ritos e mitos, desempenham o papel de útero da terra a ser

fecundado” (p.50).

Neumann também destaca que o Grande Feminino não contém somente traços positivos; a ele incluem-se características como a Mãe Bondosa e a Mãe Terrível, ou seja, não é apenas o doador e protetor da vida, ele a retém e a retoma, representa ao mesmo tempo a vida e a morte: “(...) O Grande Feminino contém os opostos e o mundo

efetivamente vive pelo fato de que combina em si a terra e o céu, a noite e o dia, a vida

e a morte” (p.50). Ele acrescenta que a terra e a água são elementos naturais ligados,

essencialmente, ao simbolismo do vaso.

A Grande Mãe respondia às demandas das culturas orientadas pelo dinamismo matriarcal, no qual predominavam os dinamismos mágico e mitológico, no qual os contrários ainda não se excluíam cartesianamente. Segundo Penna, este arquétipo é como um banco de dados “(...) de incontáveis experiências de concepção, gestação,

parto e cuidados maternais registrados no inconsciente” (1993, p.88), e como um

banco de dados pode ser acessado mesmo por nossa consciência patriarcal dicotomizada.

Em cada região do mundo essa divindade recebeu um nome; Ísis no Egito, Atana em Creta, Inana na Suméria, Ishtar na Babilônia e Gaia ou Géia na Grécia. No Egito, as deusas homenageadas pela Dança do Ventre eram Ísis e sua filha Hathor. Penna (1993), nos fala que as egípicias acreditavam na existência de uma correlação entre os movimentos do corpo e o estado de espírito; neste sentido, não era preciso técnica para dançar em homenagem às suas deusas. Esse povo não acreditava na morte como um fim mas como uma continuidade em outro lado da vida. A autora (1993, pp.112-113), afirma que os mistérios da vida e da morte eram passados para a população por intermédio de ensinamentos profundos, acessíveis apenas àqueles que eram iniciados nos mistérios de Ísis e Osíris. Tal conhecimento era transmitido somente dentro dos templos ou das pirâmides. A Dança do Ventre faria portanto, parte dos cultos à Ísis, realizados nesses ambientes sagrados e secretos.

Esta ligação da Dança do Ventre com a Grande Mãe encontra-se presente nos mitos, manifestações de dança em diferentes culturas e em relatos históricos que afirmam que apenas algumas mulheres conhecidas como sacerdotisas poderiam dançá-la, visto que o critério de escolha dessas sacerdotisas valorizava o número de filhos de cada mulher, a expressão de sua feminilidade, assim como a influência que exerciam na comunidade. Os rituais incluíam oferendas à Deusa como flores de lótus, incensos, frutas e ervas aromáticas. Acreditava-se que por intermédio do canto e da dança um canal de comunicação com o divino seria estabelecido, encenavam portanto, a ligação intrínseca entre os ciclos da natureza e a mulher.

“(...) O cheiro dos incensos, o ritmo acelerado dos tambores e a

exuberância dos movimentos são estímulos fisiopsíquicos intensos, que podem levar a um estado de transe. Em condições assim ocorre a soltura das barreiras conscientes do pensamento, favorecendo o contato com a dinâmica interna. Dessa maneira buscava-se ativar o arquétipo inerente a todos e evocar a luminosa imagem interna da

Grande Mãe” (Penna, 1993, p.87).

Conforme vimos anteriormente, a sociedade patriarcal reprimiu valores femininos dentre eles o culto e a valorização dos atributos da Grande Mãe. No entanto, esses atributos continuam existindo dentro de cada pessoa independentemente do tempo, pois pressupomos a existência do inconsciente coletivo e a possibilidade da constelação de determiandos arquétipos. Penna (1993) afirma que embora tenhamos nos afastado da deusa e substituído seu culto por deuses e depois por um único Deus soberano, os aspectos da Grande Mãe: “(...) ressurgem nos sonhos, no gosto pela dança

do ventre. Reaparece na atenção pelo corpo, à alimentação, no cuidado com os

animais, plantas, na ecologia” (p.101).

Além de possibilitar um canal de comunicação com o divino, A Dança do Ventre era usada na iniciação sexual das jovens e na preparação do parto (Peto, 2004, p.13). Penna (1993) acrescenta que a Dança do Ventre herdada pelas sumérias, acádias, babilônicas, asiáticas e egípcias de suas ancestrais foi uma forte expressão ritualística e sagrada da identificação das mulheres com a Deusa, e foi a partir desta dança que essas mulheres obtiveram força e esperança, aproximaram-se de suas origens e enfrentaram os medos de gerar e criar filhos saudáveis e de sobreviver às condições rudes da época.

Essas mulheres sem qualquer receio ofertavam-se à Deusa e dançavam em sua reverência:

“Unindo a força das pernas à atitude religiosa adequada, os quadris

largos e soltos com a fé das filhas da grandiosa Mãe, aquelas mulheres acharam um meio eficiente de afastar parte dos perigos da gestação e dar vida a filhos cheios de vigor e saúde. Conseguiram

essa preparação treinando a dança à Mãe” (Penna, 1993, p.86).

Com a invasão do povo árabe no Egito em 638d.C., a dança foi incorporada à cultura árabe, assumindo ares mais festivos e menos religiosos. A sua prática passou a ser permitida em festas populares e em palácios. O sentido da Dança do Ventre mudou novamente com a invasão da Turquia ao Reino Árabe. De sagrada e folclórica, passou a ser considerada uma dança profana – importante ressaltar que a palavra profana tem o sentido antagônico a sagrado.

Devido ao fato de as mulheres da cultura árabe serem tidas como submissas aos homens, a única coisa que elas possuem de direito que é só delas, a qual podem usar quando e quanto quiserem é a Dança do Ventre. Em geral, elas costumam se encontrar em grupos de amigas ou familiares e dançam umas para as outras, celebrando a espiritualidade e força femininas, transmitindo beleza e senso de liberdade através da sua expressão particular. Em tempos anteriores o homem que fosse pego observando-as dançar era punido severamente, há registros que afirmam que em grande parte estes burladores recebiam o castigo da cegueira.

Após a invasão árabe no Egito e a conseqüente mistura de culturas, a Dança do Ventre foi expandida pelo mundo afora graças ao caráter viajante e mercador do povo árabe. Com esta expansão mundial, a dança sofreu, ao longo dos tempos, diversas influências, acumulando em cada região diferentes interpretações e significados. As principais influências que recebeu são provenientes do Ocidente, como por exemplo do Balé, do Jazz, da Dança Contemporânea e do Flamenco; no entanto, mesmo com tais influências seu estilo caraterístico se sobressai.

Em apresentações podemos perceber a presença de acessórios específicos como o(s) véu(s), os snujs – pequenos címbalos metálicos tocados com os dedos –, a espada,

a serpente, o punhal, as taças, o candelabro, a bengala, o jarro, o pandeiro, as flores e o Meleah Laf – lenço envolto ao corpo. As danças com espada, véu(s), punhal e candelabro são inovações introduzidas recentemente. Tradicionalmente existem apenas as danças folclóricas da bengala, do jarro e o Meleah. Algumas destas danças com elementos, tal como a dança da bengala, podem ser acompanhadas pelos homens, com movimentos masculinos, do Dabcke, dança tipicamente masculina.

No Egito ainda é mantida a tradição de apresentações de Dança do Ventre em cerimônias de casamento. É comum a dançarina dançar com um candelabro ou com taças, pois acredita-se que o fogo abrirá caminho para essa nova fase, iluminando os noivos. Também é muito comum os noivos desenharem as suas mãos no ventre da dançarina, que por sua vez realiza movimentos serpentinosos e sinuosos de mãos e braços próximo ao ventre da noiva, fazendo referência aos cultos de fertilidade.

Penna (1993), afirma que um dos objetivos da Dança do Ventre é fazer o com que o corpo da mulher ondule sinuosamente como as serpentes na terra. Com isso, “(...)

essa chamuscante dançarina transforma-se na expressão da força sagrada que tudo transmuta e purifica: o fogo” (p.133). A autora destaca que em diversas culturas, a libido é frequentemente representada pela chama e vista como a energia da vida que pode ser desperta especificamente por esse tipo de dança: “(...) Segundo antigos

ensinamentos orientais, a libido está “adormecida” ou estocada na base da coluna

dorsal. Ascendendo, espalha-se pelo corpo todo, revitalizando os órgãos” (idem). Cabe

destacarmos alguns pensamentos orientais que acreditam na existência de uma organização energética responsável pelos processos vitais na base da coluna, representada pela serpente de fogo: a Kundalini, que ora aparece como deusa feminina, ora como força primordial assente na base da coluna humana, lhe sendo atribuída à saúde física e mental (Penna, 1993). Desta forma, o assoalho pélvico do ventre representaria a sede da Kundalini, que levanta e se expande por todo o corpo, energizando os chamados chakras da concepção hinduísta antiga.

(Disponível em: http://www.salves.com.br/Chakras.html)

Segundo tal concepção, o corpo humano é composto por sete invólucros ou camadas capazes de organizar as forças de uma pessoa. Esses sete invólucros são chamados de chakras e considerados como centros de consciência, com isso eles retratam que a consciência não depende apenas da cabeça e dos processos mentais, mas também do corpo e destes sete centros que se comunicam entre si e possuem o poder da auto-regulação. “(...) Somos conscientes e temos uma identidade porque elaboramos as

informações de todas as áreas somáticas, internas e externas” (Penna, 1993, p.75).

Conforme a figura acima nos mostra, esses sete chakras estão distribuídos em torno do períneo, do sacro, plexo solar, coração, garganta, testa e topo da cabeça. Interessante notarmos que os três primeiros, bem como a sede da Kundalini, encontram-se no ventre. A seguir temos uma breve contextualização dos chakras.

Muladhara Chakra – (Chakra básico). Faz a conexão com as energias da

Svadhisthana Chakra – (Sacro). É o centro do desejo sexual e da potência

criativa.

Manipura Chakra - (Plexo solar). É o chakra do centro do poder pessoal.

Anahata Chakra – (Chakra do coração). Centro da essência divina e do

amor universal. Equilibra os 3 primeiros com os 3 últimos chakras.

Vishuddha Chakra – (Chakra laríngeo). Fonte da expressão e

comunicação criativa.

Ajna Chakra – (Terceiro olho). Centro dos poderes psíquicos.

Sahasrara Chakra – (Chakra da coroa). É o chakra responsável pela

conexão com a energia divina.

(Disponível em: http://www.neotantra.com/chakras.asp)

Penna acredita que a Dança do Ventre pode propiciar à praticante o conhecimento de como lidar corretamente com as energias do corpo, representadas

pelos chakras, assim como com as representações simbólicas que podem emergir à consciência. Segundo ela:

“Terra, água, ar e fogo, os quatro elementos básicos da natureza,

segundo os gregos, são desenvolvidos na dançarina. Esses mesmos elementos foram usados por Jung para representar simbolicamente as quatro funções da psique humana: sensação, sentimento, pensamento e intuição, respectivamente. O elemento fogo, criador e transformador, relaciona-se com o despertar do Kundalini, a serpente

de fogo que se eleva da base ao ápice da coluna dorsal” (p.144).

Interessante pensarmos no poder do ventre de equilíbrar e harmonizar o corpo como um todo, assim como no que ele é capaz de evocar. Mas afinal, o que constitui o ventre, o que chamamos de ventre e qual a sua importância no equilíbrio e manutenção da vida? A região ventral é dividida em três partes; a superior situada entre o diafragma e os pares de costelas flutuantes, a média que se estende até as cristas ilíacas e a região do baixo ventre que compreende toda a bacia. A região inferior da pelve é coberta por um conjunto complexo de músculos interligados (diafragma pélvico) que sustentam as vísceras, regulam a abertura e o fechamento dos orifícios anal, uretral e vaginal e estabelecem a relação entre a bacia e as coxas. É no ventre que estão contidos os principais órgãos dos aparelhos digestivo, excretor e reprodutor.

No assoalho pélvico, além dos órgãos sexuais encontramos uma região sensível chamada períneo, que se estende da vagina ou do saco escrotal até o ânus. Este nome possivelmente significa ao redor (peri) do novo (neo) ou ao redor do fogo (ígneo),tais interpretações associam o períneo com o nascimento do ser biológico e com a origem da força necessária para a manutenção do equilíbrio vital humano. No ventre da mulher se localiza o útero, com características específicas como a umidade e o aquecimento que facilitam as transformações embrionárias que ocorrem dentro dele. Foi o simbolismo do ventre, bem como a capacidade de perpetuação da espécie e conseqüente continuidade da vida, que fez com que em tempos longínqüos as mulheres fossem relacionadas com a fertilização das terras.

A vivência corporal trazida pela Dança do Ventre proporciona a conscientização dos universos visceral e vegetativo, tornando a mulher mais consciente por exemplo, do

seu ciclo menstrual e das alterações corpóreas ocorridas ao longo do mês. Para Marques (1994): “(...) O ventre, situando-se no meio do corpo, pode através da dança,

proporcionar a condução de impulsos nervosos e energia para a parte superior e inferior do corpo” (p.28).

Marques (1994) detectou que através dos movimentos sinuosos e repetitivos da Dança do Ventre seria possível alcançar um estado de alteração da consciência, o qual possibilita à dançarina o contato com imagens inconscientes.

Além de despertar a consciência da mulher para músculos até então esquecidos e reprimidos pela cultura patriarcal ocidental, dificilmente percebidos no cotidiano como os músculos pélvicos, esta dança permite à mulher sentir seu ventre como o centro de gravidade do corpo e, portanto reorganizar seu tônus muscular global. Desta forma, tal dança possibilita o contato da mulher com a própria feminilidade, assim como o contato com o corpo de forma mais harmônica e menos androgenizada (Penna, 1993).

Sendo assim, entendemos a Dança do Ventre como facilitadora da emergência do princípio Feminino e promotora da integração do corpo e da mente, dicotomizadas pelo pensamento patriarcal. Mais do que isso, esta dança permite entrar em contato com o centro gerador e integrador da psique (Self):

“(...) A temática da vida e da morte, do amor e do sofrimento, trazidos

pela dança, tendo que se desfazer do passado para renascer, são pólos opostos e importantes na integração e desenvolvimento da consciência. A Dança do Ventre mostra, de forma artística, o mistério da vida e da morte e como estas dimensões podem estar presentes na

vida de cada mulher” (Marques, 1994, p.26).

Trabalhos como o de Marques (1994), Albuquerque (2000), Ioshimoto (2000) e Kurbhi (2001) demonstraram que a dança é arquetípica e por esse motivo ao dançar não se executa movimentos simplesmente, algo a mais acontece em nossa psique que nos remete a algo muito maior, atuando na libertação do corpo reprimido (Ioshimoto, 2000). Ioshimoto e Marques deixam implícita a questão do potencial arquétipo da dança – tanto a dança em geral quanto a Dança do Ventre –, quando afirmam:

“(...) A dança retrata dimensões profundas do humano, cujo contato

propicia a atualização do seu potencial através da experiência, imprimindo-lhe significado. Neste sentido, se for considerada como uma predisposição herdada (como parece ser) cuja manifestação ocorre de diversas formas, segundo o desenvolvimento dos grupos humanos, sua importância se amplia ao estudo do que há de comum

no humano, ao estudo da espécie” (Ioshimoto, 2000, p.54) e

“O fato da Dança do Ventre ter sobrevivido desde tempos remotos da

História em diferentes culturas e com diferentes denominações, representa um sinal de que possui uma força simbólica que vai além

do pessoal, atingindo as camadas do inconsciente coletivo” (Marques,

1994, p.29).

É relevante pensarmos no motivo pelo qual a Dança do Ventre transcorreu durante milênios e perdura até os dias atuais exercendo forte atração tanto a quem pratica quanto a quem assiste. Em função do quê nos sentimos apaixonados e estranhamente atraídos a um elemento de uma cultura tão distante da nossa? Sabemos que quando os rituais, como representações cerimoniais baseadas em temas mitológiocos e arquetípicos, não exercem mais a função de nos re-ligar com o sagrado, perdem o sentido e deixam de existir em determinada cultura sendo, então, buscadas novas representações arquetípicas ou interpretações para determinados elementos. Esta é a explicação para o mesmo tema aparecer com formas variadas. No caso da Dança do Ventre o que vemos é que a nossa sociedade, carente dos elementos femininos- dionisíacos, admira-se com os valores antigos e sagrados trazidos por esta dança, segundo Penna (1993): “(...) Seu significado tem relação direta com os conflitos atuais

e suas relações dependem de que se viva aquele meio antigo de estabelecer contato com

as forças misteriosas do corpo e da natureza” (p.143).

Conforme exposto em capítulos anteriores, atualmente, mais do que nunca, é urgente resgatarmos valores do princípio Feminino e integrá-los à nossa bagagem proveniente do desenvolvimento patriarcal, no sentido de nos abrirmos para o contato