Descrição
A reportagem sobre a pesquisa da Unesco tem abordagem predominantemente interpretativa/analítica, pois busca os fatores responsáveis pelos números apontados pela pesquisa. Na matéria, há fontes especialista, oficial, independente e testemunhal. A origem da pesquisa é nacional, da Região Sudeste (Estado de São Paulo), mas a instituição responsável pelo estudo é internacional (Unesco). O cientista ocupa posição discursiva secundária em
relação a outras fontes. O discurso do cientista corrobora o discurso do jornalista e também das demais fontes. Nesta reportagem, a Ciência é o assunto principal, que é apresentada de maneira contextualizada e incorporada ao ambiente social, mas é desarticulada do ambiente de produção. As imagens auxiliam na compreensão do conteúdo científico da matéria, entretanto, não há demonstração do processo científico envolvido. A matéria não apresenta ele mento ilustrativo. Há apenas caracteres que indicam o número de homicídios.
Análise
A reportagem que trata da pesquisa da Unesco sobre violência no Estado de São Paulo tem três eixos principais como foco de desenvolvimento: a) os resultados da pesquisa, b) os fatores que justificam os números da pesquisa e c) os casos que exemplificam a violência no Estado.
Na abertura, o apresentador já anuncia o resultado da pesquisa da Unesco (“Pela primeira vez, o mapa da violência elaborado pela Unesco pesquisou só um Estado brasileiro e trouxe uma boa notícia: a tendência é de queda dos homicídios em São Paulo nos últimos cinco anos”). A expressividade do apresentador e o uso de termos como “boa notícia” revelam o tom otimista de seu discurso.
O discurso do repórter tem início com a apresentação dos números resultantes da pesquisa a partir de uma comparação (quase que por equivalência de números) entre os mortos da guerra do Iraque e as mortes ocasionadas pela violência em São Paulo (“A guerra no Iraque mata, a cada ano, 15.500 pessoas, pouco mais que a média do Estado de São Paulo nos últimos dez anos: 13.620 pessoas”). Disso, pode-se aferir que o repórter compara a situação de insegurança no Estado de São Paulo a de um país em guerra, pelo número de vítimas fatais. Essa comparação (entre a violência em São Paulo e as mortes de um país em gue rra), que tem caráter negativo, contrapõe-se ao tom do discurso do apresentador. A comparação exige do telespectador um certo cálculo: a matéria presume que o público saiba o que, em matemática, significa “média dos últimos dez anos”, caso contrário, a compreensão será prejudicada. A partir de então o tom do discurso do repórter torna-se também positivo. Essa carga positiva é representada pelos resultados da pesquisa: foi a pesquisa da Unesco a responsável por divulgar os dados positivos de queda da violência. O repórter apresenta os resultados da pesquisa, descrevendo-a e apontando um aspecto positivo, comparativamente em relação aos números da violência (“Uma pesquisa da Unesco revela que até 99, os assassinatos cresciam 8% ao ano. Mas a tendência se inverteu. Os homicídios vêm caindo 5% ao ano. Como toda vitória, essa tem seus pares”). Ao empregar o termo “vitória”, o repórter salienta o caráter de luta, de guerra, provavelmente contra a violência.
Sobre a fonte especialista é informado (pelo repórter) que o conteúdo do discurso será esclarecedor sobre um dos motivos da redução da violência (os fatores que levam aos números da pesquisa – o segundo eixo da matéria), mas isso não acontece, já que o discurso do especialista mostra-se inconclusivo. (Repórter: “O coordenador da pesquisa, Júlio Jacobo, destaca a mobilização da sociedade”). (Fonte especialista: “Não sei determinar quantos por cento do êxito de São Paulo nestes cinco anos foi pela pressão social”).
Em relação às causas da diminuição da violência, o repórter complementa, a partir dos dados levantados na pesquisa (“A queda da violência é atribuída também à melhoria do policiamento, às iniciativas municipais, como a Lei Seca e a políticas de inclusão social, como a abertura das escolas nos finais de semana”).
O repórter fornece maior detalhamento sobre os resultados da pesquisa (“A pesquisa mostra que os jovens são as maiores vítimas da violência. Morrem três vezes mais jovens na faixa de 20 e 24 anos do que na faixa dos 40 aos 49 anos”).
O discurso de uma fonte oficial (Saulo de Castro Abreu Filho, Secretário de Segurança de São Paulo) avalia a situação dos jovens em relação ao crime, de forma genérica e não- individua lizada (“Esse jovem que morre, que o estudo mostra, é o mesmo que mata. Se você pegar os 136 mil presos que têm no Estado de São Paulo, é tudo de 18 a 23 anos”). Pode-se observar que o encadeamento da edição do discurso da fonte oficial é confuso (o jovem primeiro morre e depois mata ou então, possivelmente, é claro, ele mata e, por isso, é preso), pouco esclarecedor (não acrescenta novas informações à pesquisa), acusatório (porque generaliza o perfil dos detentos no Estado de São Paulo) e não apresenta nenhuma medida oficial de reversão da situação, o que se espera de uma fonte que representa o poder governamental.
Em seguida, tem início o terceiro eixo que compõe a matéria, a que mostra casos de violência a partir da vivência de pessoas, como vítimas ou testemunhas. Diz o repórter: “Dona Vilma não viu a pesquisa, mas conhece bem o problema. Tinha uma filha de 18 anos que sonhava ser atriz”. “Controlava os horários da filha que, aos domingos, ia até uma praça, ponto de encontro de jovens”. O depoimento da fonte testemunhal é caracterizado pela emoção, o que, até então, não era observado em relação à descrição dos números da pesquisa (Diz ela: “Uma frase que ela me pedia constantemente: ‘Mãe, tem duas mil pessoas, porque a senhora acha que se tiver um tiro vai bater em mim’”).
Para contar a experiência da família com a violência que envolve jovens de São Paulo, o repórter reconstrói a histórica do crime (“Um carro atropelou um rapaz e o irmão dele foi tomar satisfação. Deu seis tiros”). Este exemplo contradiz a informação da fonte oficial. Nesse caso, a vítima (a moça que morreu) não estava envolvida em crime, não foi presa anteriormente.
Uma fonte independente, membro de uma organização não- governamental, revela as circunstâncias de ocorrência do crime no Estado, também de forma genérica e generalizante. (“Aqui em São Paulo, mais da metade dos homicídios, assim como em grandes cidades brasileiras, são motivados por motivos fúteis”). Dessa vez, o discurso da fonte independente corrobora o discurso da fonte testemunhal e mostra-se neutro diante da informação da fonte oficial.
O repórter volta, então, à recons tituição do crime (“Bárbara foi morta por uma bala perdida. O atirador de vinte anos está preso. O que a irmã dela pede para conter a violência não é diferente do que sugere o diretor da Unesco no Brasil”). Uma outra fonte testemunhal tem seu discurso comparado ao da fonte oficial da Unesco. Os dois discursos são comparados. Diz a fonte oficial: “Desarmamento já”. Em seguida, diz a fonte testemunhal: “Dar um jeito de ninguém comprar arma. Porque a pessoa vai em qualquer lugar e compra uma arma”. A função emotiva da linguagem (JAKOBSON, 1995) presente no discurso do repórter quando se refere às fontes testemunhais, e também no discurso de uma das fontes testemunhais, desliza para o discurso da fonte oficial da Unesco. Isso fica evidente na própria comparação estabelecida pelo repórter entre os discursos da fonte oficial e da fonte testemunhal. Neste momento, a matéria joga com o sentido de que a solução para a violência no Estado de São Paulo está no desarmamento.
A matéria é encerrada com uma análise política do apresentador sobre os investimentos do governo Federal em segurança (“Candidato à sucessão de Lula, o governador tucano, Geraldo Alckmin, tem dado especial ênfase a dois setores considerados calcanhar de Aquiles de sua gestão. Segurança pública e Febem. Aliás, dois assuntos que se confundem. Apesar desse progresso, a segurança pública em São Paulo não é das melhores e é um descalabro em todo país, sob a quase completa omissão das autoridades”). A opinião do âncora se sobrepõe aos demais discursos apresentados na matéria.
Uma das maneiras encontradas pelos veículos de comunicação de construir relações de credibilidade com o público foi apostar na criação de “âncoras” que apresentam os telejornais e na de jornalistas que demonstram grande autonomia (em alguns casos, apenas aparente, em outros, real) para manifestar suas opiniões, em matérias assinadas
(ARBEX Jr, 2001, p. 134).
Segundo Machado (2000, p. 107), trata-se da “autoridade de um âncora onisciente, onividente e onipresente, uma espécie de voz consensual que se intromete nos relatos e os fecha com um comentário de tipo editorial”. A multiplicidade de pontos de vista, de discursos é articulada (porque o comentário faz parte da matéria) e, ao mesmo tempo desarticulada (porque o discurso do apresentador tem força de conclusão. É dele a palavra final e o suposto consenso sobre a situação). Nesse aspecto, Weingart (1998) chama a atenção para o fato de a mídia criar o consenso sobre a Ciência.