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Dans le document COMMON LISP An Interactive Approach (Page 69-75)

Descrição

A reportagem sobre infertilidade tem abordagem interpretativa/analítica, já que apresenta não só o tratamento, mas mostra a principal causa do problema e acompanha os resultados do tratamento a partir de um exemplo. Há fontes testemunhais e especialistas na matéria. Trata-se de uma pesquisa nacional, realizada por uma universidade pública da região Sudeste, do Estado de São Paulo (Unicamp). Os cientistas fala m do local de trabalho. As informações dos cientistas corroboram as informações da jornalista e também das demais fontes. É uma matéria em que a Ciência é assunto principal. A abordagem científica ocorre de forma contextualizada. A Ciência é apresentada de forma elogiativa. A Ciência é incorporada aos ambientes social e de recepção. As imagens auxiliam na compreensão do conteúdo. Há demonstração do processo científico com imagens e palavras. A matéria contém esquemas e desenhos como elementos ilustrativos. Tais ilustrações contribuem para a apreensão do conteúdo científico da matéria.

Análise

Esta reportagem abordou o tema da infertilidade masculina sob a ótica das fontes testemunhais. Como exemplo, foi apresentada a história de um casal que tentou, por três anos, ter filho, e que somente obteve sucesso após a realização da cirurgia no marido. Essa é uma forma interessante de tratar de assuntos de CT&I em telejornalismo. Ao relacionar o problema (e a solução proposta pela Ciência) à vida de pessoas comuns, a matéria torna-se mais humana e atrativa, cativante para o público. Sobre o tema, em particular, torna-se relevante a identificação de Bueno (2004, p. 55-56) para o qual a discussão sobre temas complexos passa, obrigatoriamente, pela sociedade civil. Assim, é indispensável resgatar a participação dos atores sociais como fontes.

A Ciência é inserida nessa matéria para tratar de um assunto considerado polêmico, já que põe em cena o preconceito de muitos homens em lidar com a própria infertilidade e a relutância em buscar, na Ciência, a solução para o problema (“A infertilidade masculina tem tratamento, mas basta o home m deixar de lado o preconceito e procurar um médico”).

A infertilidade masculina, na matéria, não é tratada como assunto proibido, mas, por outro lado, a própria matéria a encara como um assunto polêmico na sociedade, em especial entre os homens brasileiros. É quase um assunto proibido, vetado, evitado, disfarçado (não na matéria, mas na vida dos homens). Dessa forma, os discursos da matéria (das fontes testemunhais, especialistas, da repórter e do apresentador) criam o sentido de romper o tabu, o preconceito em torno do assunto. A matéria procura derrubar o silêncio produzido socialmente. Ocorre o que Orlandi (2001) chama de transferência, de deslizamento de sentidos e que produz outros efeitos: o não-dito não é destruído, apagado socialmente, mas é incorporado ao discurso da matéria. O não-dito tem espaço no que é dito sobre o assunto: a infertilidade masculina continua sendo um tema polêmico, mas a matéria mostra que a Ciência pode resolver o problema se tal preconceito e o receio de procurar um médico forem superados.

Os discursos dessa matéria valorizam a harmonia que a Ciência trouxe à família, como uma gratificação para os homens e suas famílias por estes terem tratado o problema da infertilidade: a matéria mostra que vale a pena o homem recorrer à Ciência, ao tratamento

médico – enfrentando os preconceitos que cercam o assunto – e poder, assim, ter filhos. Entre os recursos empregados para isso, destacam-se o som (música infantil), as imagens das brincadeiras da criança – que passa a mão na barriga da mãe grávida – dos pais brincando com o filho, do ambiente doméstico e os discursos do filho e dos pais. Repórter: “Se você tivesse procurado médico antes seria tudo mais fácil?”. “Com certeza”, responde o marido. A repórter também relaciona o discurso jornalístico (de entrevistar) ao discurso infantil de poucas palavras e alguns gestos da criança de dois anos (“Onde está o nenê da mamãe?”. “Tá aqui? Na barriga?”).

Ao inserir o discurso da criança, reforçado pelas imagens lúdicas da criança brincando em casa e pelas perguntas da repórter, cria-se uma cenografia, que definirá o tom próprio que legitima o próprio discurso buscando o convencimento do co-enunciador (MAINGUENEAU, 2001). Na matéria, a cenografia tem a função de convencer os homens inférteis a procurarem ajuda médica. A cenografia possibilita, ainda, a inserção de um assunto paralelo ao tratamento da infertilidade masculina: a alegria familiar proporcionada pela presença de filhos. As perguntas à criança não inseriram nenhuma informação nova ao tratamento (“Onde está o nenê da mamãe?”, “Na barriga?”). A criança é apenas a prova de que o tratamento é eficaz: o menino é um produto final do tratamento médico contra a infertilidade masculina. Repórter: “Hoje, Davi tem quase dois anos de idade. É uma criança saudável, comunicativa. Ele nasceu de parto natural e já está sendo preparado para receber o primeiro irmãozinho”. A matéria ressalta que as crianças trazem felicidade aos casais e que o tratamento é eficaz. O ambiente familiar tem a função de conve ncer os homens a procurarem ajuda médica porque o tratamento pode trazer felicidade. Este é o lugar consignado ao público (masculino) pela cenografia da matéria.

Do lado das fontes especializadas foram ouvidos dois médicos: um andrologista e um urologista. Eles fornecem a definição sobre a principal doença causadora da infertilidade masculina (varicocele), a partir da comparação dessa com as varizes das mulheres; explicam as principais formas de resolver cientificamente a infertilidade masculina e a cirurgia que trata da varicocele. A fonte testemunhal/paciente – o marido que se submeteu à cirurgia – confirma o sucesso do tratamento. Diz ele: “Levou umas duas horas e no mesmo dia eu saí e voltei para casa. E esse tratamento, essa cirurgia que eu fiz, foi definitiva. Resolveu o problema e agora a Cristiane tá grávida de novo”.

Imagens em microscópio de fertilização in vitro, visualização, na tela do computador, de espermograma e reproduções do aparelho reprodutor masculino com indicações do especialista são as imagens que vinculam a doença e os tratamentos desenvolvidos pela Ciência e que são fundamentais para a apreensão do conteúdo da matéria.

No final da matéria, a necessidade de os homens romperem o preconceito de procurar um médico – que foi o discurso gerador da matéria desde o início – é reafirmada no discurso do especialista (“O homem tem realmente que perder esse medo, esse receio, e procurar auxílio médico porque, muitas vezes, está ao seu alcance e é de fácil resolução”).

A matéria busca criar o sentido de adesão ao tratamento e salienta a ação do Ato

Perlocucionário (AUSTIN apud KOCH, 1995) no e do discurso, como aquele que pretende

produzir mudanças no comportamento do telespectador, no caso, homens que sofrem de infertilidade e não procuram auxílio médico.

Estão em evidência, também, as funções referencial (informação sobre o problema e sobre o tratamento) e conativa (a matéria tenta convencer os homens com infertilidade a procurarem auxílio na Ciência, na medicina), apresentadas por Jakobson (1995).

Além disso, os discursos da matéria jogam com a posição discursiva dos homens com infertilidade (PINTO, 1999), ou seja, a posição que os discursos da matéria atribuem ao receptor, a imagem que fazem dele, como pessoas preconceituosas quanto à abordagem do assunto da infertilidade. Tanto é assim, que a matéria precisa recorrer ao convencimento de que é preciso superar o preconceito.

Ao terminar a reportagem com música infantil e a imagem do filho do casal, também há a reafirmação de que vale a pena, de que é importante e de que o tratamento pode trazer felicidade a uma família, comprovado pelo nascimento de Davi, uma criança “saudável” e “comunicativa”, conforme descreveu a repórter.

Telejornal: Jornal da Cultura

Matéria: Reconstituição do rosto de Tutankamon (CD-Rom 1, página 15)

Dans le document COMMON LISP An Interactive Approach (Page 69-75)