Descrição
A nota coberta sobre a reconstituição do rosto de Tutankamon apresentada pelo Jornal da
Cultura tem abordagem interpretativa/analítica, pois a matéria apresenta a pesquisa e a
relaciona com alguns conhecimentos prévios sobre Tutankamon. Não há fontes ouvidas na matéria. O apresentador cita “Doutor Zaimer Hawer, secretário geral do Conselho Supremo de Antigüidades do Egito”, sua imagem aparece na tela, dando entrevista a vários repórteres, mas esse não é ouvido na matéria. Seu discurso aparece de forma indireta nas palavras do apresentador. A origem da pesquisa é internacional (do Egito), realizada por uma instituição pública. As imagens são de agência internacional de notícias. A Ciência é o assunto principal e a abordagem acontece de forma contextualizada. A Ciência é apresentada de forma elogiativa. O ambiente (das imagens) colabora para a apreensão do conteúdo. A Ciência é incorporada ao ambiente de produção, mas é desarticulada do ambiente de recepção. As imagens auxiliam no processo científico envolvido. Há demonstração do processo científico com palavras e imagens. A matéria empregou esquemas e desenhos como elementos ilustrativos. Estes auxiliam na compreensão do conteúdo científico.
Análise
Nessa nota coberta o apresentador chama a atenção do público ao atribuir um caráter misterioso ao assunto (“Já que estamos falando de coisas misteriosas, um mistério milenar está sendo revelado”). Sobre isso, segundo Orlandi (2001), do ponto de vista do discurso, a relação entre as palavras e as coisas, entre a linguagem e o real, não é direta, mas mediada pelo imaginário. A criação de um ambiente, de um cenário de mistério é empregada como um fator de facilitação para a comunicação do assunto científico.
A Ciência é responsável, na matéria, por desvendar o mistério. Mas, logo no início, essa forma de atrair o público pelo lado obscuro do assunto é transferida para o conteúdo da matéria, que apresenta elementos que comprometem a compreensão e, por isso, caracteriza-se como um ponto de dispersão da nota coberta. “Com um elemento coletado no sarcófago da múmia do faraó Tutankamon, cientistas reconstituem a face do chamado Rei Menino do
Egito”. O “elemento”, que seria a chave para o entendimento do trabalho científico é oculto, obscuro, misterioso, como algo sobrenatural.
Os discursos dessa nota coberta podem ser, notadamente, divididos em dois, mas que não são estanques; entrecruzam-se, se relacionam e constroem o discurso da divulgação. Pode-se concordar com Foucault (2000, p. 33) para o qual os acontecimentos discursivos não devem ser isolados, fechados em sim mesmos, mas devem ser descritos a partir de jogos de relações. Um dos discursos é o da descoberta. É o discurso da no vidade trazida pela Ciê ncia. Esse discurso contempla as informações que explicam como o trabalho de reconstituição do rosto do faraó foi feito (“Mil e setecentas imagens de alta resolução ajudaram a modelar a cabeça do faraó em três dimensões”. “Também a máscara mortuária e esculturas de Tutankamon ajudam na reconstituição”). Neste discurso também foram apresentados os especialistas responsáveis pela pesquisa. Por se tratar de uma nota coberta e por ser de origem internacional, a nota coberta não apresenta sonora, a voz do especialista/cientista. No entanto, essa lacuna é preenchida com imagens do cientista concedendo entrevista e também com o discurso, indireto, de um especialista envolvido no projeto (“O trabalho está a cargo de três equipes do Museu Egípcio no Cairo”. “O doutor Zaimer Hawer, secretário geral do Conselho Supremo de Antigüidades do Egito, explica que com base na varredura eletrônica das imagens foi feito um molde plástico do crânio e depois foi coberto com cerâmica para esculpir o rosto. Em seguida, acrescentaram olhos de vidro, a face, os lábios e o cabelo”).
Outro discurso é o da contextualização histórica. Neste aspecto são oferecidas informações sobre quem foi o faraó, onde e quando ele viveu (“Ele morreu há mais ou menos 30 séculos entre 17 e 19 anos, não se sabe muito bem”). O final da matéria agrega e relaciona (como causa e efeito) os dois discursos, revelando como as circunstâncias da descoberta do túmulo do faraó (discurso histórico, de contextualização) possibilitaram o desenvolvimento da pesquisa (discurso da descoberta). (“O túmulo do faraó Tutankamon foi encontrado em 1922, pelo egiptólogo inglês Haward Carter, na margem direita do Rio Nilo, no Egito. Ao contrário de outros túmulos de faraós encontrados no Egito até hoje, o de Tutankamon não havia sido violado por ladrões, por isso, os cientistas podem se apoiar em muitos detalhes para reconstituir o rosto desse faraó menino”). Nesse trecho, a posição que a matéria reserva à Ciência é de interação, de reciprocidade: a pesquisa só foi possível porque algumas circunstâncias históricas foram favoráveis. Com isso, a Ciência não é mostrada como um fato isolado, um acontecimento exterior à sociedade, às pessoas, à história, ma s como constitutiva da e na relação com essas esferas.
A matéria emprega diversas marcações temporais de passado-presente que podem dificultar a compreensão da matéria: 1) um passado recente de emprego da tecnologia para reconstituição do rosto do faraó, 2) um presente que resgata um passado do trabalho recém concluído dos cientistas, 3) um passado referente ao nascimento do faraó (trata-se do passado mais longínquo da matéria), 4) um passado que revela a data em que a múmia do faraó foi encontrada e 5) um presente que só é possível graças à circunstância do passado (forma com que a múmia foi encontrada). Sobre isso, corrobora a posição de Orlandi (2001b, p. 182) que defende que a mídia produz uma memória horizontal dos fatos. Segundo a autora, na televisão, um fato é interpretado por outro disponível na própria matéria, já que não há espaço para interpretação. As datas, as informações fragmentadas que tentam recompor a história do faraó e do Antigo Egito acabam por criar sentidos que não se transformam em conhecimento, porque só simulam uma historicidade sem elo discursivo e mesmo de processo histórico- científico que envolve, preenche tais datas/acontecimentos.
Comparações entre as matérias: a função educativa
Dois assuntos apareceram, nesse dia, em mais de um telejornal60: a) a matéria intitulada “Banco Nacional de Tumores” foi veiculada no Jornal da Band e no Jornal da Record, em ambos no gênero reportagem e b) a nota coberta “Reconstituição do rosto de Tutankamon” que foi abordada, no gênero nota coberta, pelo Jornal Nacional e pelo Jornal da Cultura. A reportagem do Jornal da Band sobre o Banco Nacional de Tumores possui características que a tornam interessante e fácil de ser compreendida pelo público:
a) linguagem com poucos termos técnicos tanto nos discursos do apresentador, como nos da repórter e das fontes especializadas;
b) imagens do local em que as amostras serão guardadas; c) demonstração do trabalho dos cientistas no laboratório;
d) enfoque nas perspectivas futuras que poderão advir com os estudos desenvolvidos pelo Banco Nacional de Tumores.
A reportagem do Jornal da Record sobre o mesmo assunto emprega recursos parecidos com os utilizados na reportagem do Jornal da Band. Em relação ao Jornal da Record, destacam-se os seguintes elementos:
a) relaciona a inauguração aos benefícios que o Banco trará à sociedade; b) explicação (com palavras e imagens) das etapas do trabalho científico; c) demonstração, pelo repórter, do processo que envolve a coleta de amostras;
d) relaciona o Banco Nacional de Tumores recém- inaugurado com outros centros parecidos em outros países e relativiza o que é feito no Brasil em clínicas particulares;
e) mostra a perspectiva (benéfica) para o futuro tanto das pesquisas sobre câncer como do próprio Banco Nacional de Tumores.
Por outro lado, utiliza (sem explicação por imagens e/ou palavras) alguns termos científicos, o que dificulta a apreensão do conteúdo da matéria. No entanto, o tom emotivo da matéria (porque se relaciona a sentimentos/percepções humanas de doença, morte, dor e esperança) tenta preencher as lacunas de entendimento que a falta de compreensão dos termos técnico/científicos pode ocasionar. Nota-se uma ênfase maior, na matéria do Jornal da
Record, do apelo emocional, o que pode garantir uma maior atenção do público, mas não a
compreensão do processo científico envolvido no Banco de Tumores.
A nota coberta sobre a reconstituição do rosto de Tutankamon do Jornal Nacional possui características negativas que a tornam simplesmente factual, com pouca possibilidade de aprofundamento, contextualização. São elas:
a) tempo de duração reduzido; b) ausência de fonte;
c) descontextualização do assunto;
d) ausência de explicação do processo científico envolvido e mesmo das repercussões que esse trabalho pode ter.
60
As matérias sobre o mesmo assunto foram analisadas individual e comparativamente sobre a contribuição para a Compreensão Pública da Ciência.
Pode-se aferir que a nota coberta do Jornal Nacional não oferece elementos para que o telespectador relacione o fato ao contexto histórico do assunto. A matéria é fácil de ser compreendida, no entanto, a ausência de informações sobre o contexto histórico e o processo científico dificulta a compreensão da Ciência e da Tecnologia envolvidas.
A nota coberta sobre o mesmo assunto veiculada pelo Jornal da Cultura também apresenta características negativas que comprometem a compreensão do assunto. São elas:
a) não explicação de termos essenciais para o entendimento do trabalho;
b) emprego de diversas marcações temporais de passado-presente que podem dificultar a compreensão da matéria;
c) citação de datas e informações fragmentadas que tentam recompor a história do faraó e do Antigo Egito;
d) ausência de fontes.
Com isso, mesmo sendo um pouco mais contextualizada que a matéria do Jornal Nacional, tais contextos estão desvinculados da história e, por isso, contribuem pouco para o processo elucidativo do telespectador e para a função educativa.
Na nota coberta sobre o protetor solar de geleiras, do Jornal da Band, é possível ava liar que a matéria é meramente factual. Deixa de interpretar a Invenção como decorrência dos problemas ambientais e também sociais. Além disso, não há entrevistas com fontes especialistas que, no caso, poderiam explicar o porquê na Invenção. Assim, o papel educativo que o assunto poderia despertar, principalmente relacionado à relação das pessoas com o meio ambiente, foi suprimido.
A reportagem do Jornal da Record sobre o estudo do economista Márcio Pochmann explicita as posições políticas do pesquisador. É uma forma diferente (comparando-se aos demais telejornais estudados) de inserir a posição política do pesquisador ao tratar de um assunto de CT&I. A matéria também fornece tabelas e gráficos que auxiliam na compreensão do assunto. No entanto, algumas características negativas dificultam o interesse pela matéria e chegam a atrapalhar a percepção pública sobre o tema abordado:
a) excesso de dados e números que interferem de compreensão da pesquisa; b) desvinculação da pesquisa à vida das pessoas;
c) uso de linguagem técnica (da área econômica);
d) poucas fontes (no caso, ausência do discurso direto da fonte oficial).
A reportagem do Jornal da Cultura sobre infertilidade masculina possui elementos jornalísticos que buscam o esclarecimento do público e a conseqüente mudança de atitude diante de um problema de saúde (no caso de homens que, por preconceito, deixam de consultar um médico e de tratar da infertilidade), o que deve ser considerado positivo no processo de produção de notícias.
Um deles é o ambiente (a ceno grafia) em que se desenvolve a matéria: o ambiente familiar tem a função de convencer os homens a procurarem ajuda médica porque o tratamento pode trazer felicidade.
Outro elemento é o uso de imagens (esquemas, desenhos, imagens computadorizadas) que explicam sobre a doença e os tratamentos desenvolvidos pela Ciência. A explicação do tratamento em uma linguagem simples, sem uso de termos técnicos, também facilita a compreensão.
Dia 13 de maio de 2005
Principais acontecimentos noticiados pelos telejornais
As editorias, nesse dia, estão presentes da seguinte forma nos telejornais:Jornal da Band: CT&I, Cultura, Editorial, Esportes, Internacional, Polícia/Justiça, Política,
Previsão do Tempo, Religião e Reportagem Especial. A editoria de CT&I apresentou, nesta edição, três reportagens. Uma sobre a inauguração do laboratório antivírus, uma sobre Previsão do Tempo e uma sobre uma pesquisa do IBGE sobre poluição das cidades.
Jornal Nacional: Comportamento, Cultura, Economia, Esportes, Internacional,
Polícia/Justiça, Política, Previsão do Tempo, Religião e Saúde Pública. A editoria de CT&I apresentou duas reportagens: uma sobre o aparelho que engana o cérebro para não sentir dor e outra sobre a pesquisa do IBGE sobre poluição das cidades.
Jornal da Record: CT&I, Economia, Esportes, Internacional, Polícia/Justiça, Política,
Previsão do Tempo e Saúde Pública. A editoria de CT&I apresentou uma reportagem sobre a pesquisa do IBGE sobre poluição das cidades.
Jornal da Cultura: Cidades, Cultura, Economia, Internacional, Polícia/Justiça, Política,
Previsão do Tempo e Religião. Não houve a editoria de CT&I nesta edição do telejornal. Na editoria de Política houve destaque para a decisão da Justiça Eleitoral de tornar inelegíveis Rosinha e Anthony Garotinho. Na área de Polícia/Justiça foi noticiado que um homem foi encontrado morto dentro do quartel do Exército no Rio de Janeiro. Outro assunto foi sobre o tráfego de drogas sintéticas entre jovens de São Paulo.
Na área de Cultura houve destaque para Lígia Fagundes Telles, que ganhou prêmio de literatura. Na editoria Internacional tiveram destaque a bomba que explodiu em frente à sede da Petrobras na Bolívia, o militar chileno que assumiu participação no desaparecimento de mais de 500 pessoas na ditadura de Pinochet e o início do processo de beatificação do papa João Paulo II.
É possível visualizar uma síntese da presença das editorias de cada um dos telejornais a partir da tabela da página seguinte:
Principais editorias
Jornal da Band Jornal Nacional Jornal da Record Jornal da Cultura
== == == Cidades
== Comportamento == ==
Cultura Cultura == Cultura
CT&I CT&I CT&I ==
== Economia Economia Economia
Editorial == == ==
Esportes Esportes Esportes ==
Internacional Internacional Internacional Internacional Polícia/Justiça Polícia/Justiça Polícia/Justiça Polícia/Justiça
Política Política Política Política
Previsão do Tempo Previsão do Tempo Previsão do Tempo Previsão do Tempo
Religião Religião == Religião
Report. Especial == == ==
== Saúde pública Saúde pública ==
Tempo total dos telejornais e tempo das matérias de CT&I
O Jornal da Band teve duração de 36 minutos e 56 segundos, dos quais 5 minutos e 6 segundos foram dedicados a CT&I. No caso do Jornal Nacional, este durou 36 minutos e 1 segundo, dos quais 4 minutos e 4 segundos dedicados a CT&I. O Jornal da Record teve 34 minutos e 17 segundos de programação jornalística, das quais 1 minuto e 41 segundos sobre CT&I. O Jornal da Cultura teve 29 minutos e 58 segundos. Deste tempo, nenhuma matéria foi dedicada a CT&I.
Telejornal Jornal da Band Jornal Nacional Jornal da Record Jornal da Cultura Total Geral Tempo total 36’50” (7 blocos) 36’01” (4 blocos) 34’17” (5 blocos) 29’58” (5 blocos) 2h 17’05” Tempo CT&I 5’06” 4’04” 1’41” *** 10’51” % Tempo de CT&I 13,86% 11,22% 4,12% *** 7,66%
As matérias de CT&I dos telejornais
O Jornal da Band, o Jornal Nacional e o Jornal da Record publicaram matérias de CT&I nesse dia. No caso do Jornal da Band foram três matérias. Uma matéria de 1 minuto e 25 segundos sobre a inauguração, prevista para julho, do primeiro laboratório antivírus de computador da América Latina, criado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo e por uma empresa de segurança em informática. A outra matéria, de 45 segundos61, é de Previsão do Tempo, mas há explicação científica, feita por Mariana Ferrão, do fenômeno climático El Niño, o que justifica a seleção desta matéria como parte do corpus de análise
61 Este tempo refere-se apenas ao tempo da explicação científica da matéria, que antecede a previsão do tempo.
A parte referente à previsão do tempo (apresentada depois da explicação científica) não foi incluída no tempo dedicado a CT&I porque, como aconteceu com as demais previsões do tempo apresentadas (por esse e pelos outros telejornais) não houve nenhuma referência a CT&I. Dessa forma, obedeceu-se ao critério adotado neste trabalho para os demais telejornais estudados.
entre as de CT&I. A última, de 2 minutos e 56 segundos, trata da divulgação de uma pesquisa do IBGE sobre os problemas ambientais do país. As três matérias da área de CT&I somam 5 minutos e 6 segundos e foram distribuídas em mais de um bloco do telejornal.
No Jornal Nacional foram divulgadas duas matérias. Uma reportagem, de 1 minuto e 54 segundos, que trata da relação entre arte e Ciência abordando o tema da dor e enfatizou um aparelho que engana o cérebro para não sentir dor. A outra, de 2 minutos e 10 segundos, também abordou a pesquisa do IBGE sobre poluição ambiental no Brasil. Nessa edição do
Jornal Nacional, as duas matérias da área de CT&I, que totalizaram 4 minutos e 4 segundos,
foram distribuídas em mais de um bloco do telejornal.
No Jornal da Record foi divulgada uma matéria, de 1 minuto e 41 segundos, sobre a mesma pesquisa do IBGE.
Matérias de CT&I
Jornal da Band Jornal Nacional Jornal da
Record Jornal da Cultura Laboratório antivírus Aparelho que engana o cérebro para não sentir dor
Poluição das cidades – pesquisa IBGE
***
Previsão do Tempo Poluição das cidades – pesquisa IBGE *** *** Poluição das cidades – pesquisa IBGE *** *** ***