Descrição
Esta nota simples sobre Previsão do Tempo não conta com imagens externas, pois foi toda transmitida do estúdio do telejornal. A abordagem é descritiva – apenas indica como funciona o fenômeno climático. Não há fontes nesta matéria. A Ciência ocupa posição secundária, já que se trata de Previsão do Tempo. A abordagem da Ciência se dá de forma contextualizada. A Ciência não é apresentada de forma elogiativa nem depreciativa, mas equilibrada. As imagens auxiliam na apreensão do conteúdo. As imagens da Ciência encontram-se desarticuladas do ambiente de produção e do ambiente de recepção. A nota simples utiliza mapas em chroma key62 como elemento ilustrativo, que auxiliam na compreensão do processo científico.
Análise
Esta nota simples de Previsão do Tempo não é como a dos outros telejornais que compõem a amostra investigada. A diferenciação acontece porque a repórter responsável pelas informações meteorológicas inseriu explicações científicas sobre o fenômeno El Niño, que atuava no clima do planeta. Não é apresentada nenhuma pesquisa científica ou qualquer novidade tecnológica na nota. O gancho da matéria é a Previsão do Tempo. No entanto, outras intercorrências que afetam as temperaturas do planeta sugeriram um maior esclarecimento, o que foi bem aproveitado. O El Niño não foi apenas citado, mas sua atuação foi considerada a responsável pelas alterações do clima (como aumento de chuvas) naquele período.
No início, o apresentador já anuncia que o El Niño é o responsáve l pelas mudanças do clima. O El Niño é tomado como o causador da mudança do clima no planeta. Outras causas, inclusive por ação humana, foram ocultadas na matéria. O assunto é mostrado desprovido de contexto. O El Niño é o vilão, o causador da mudança do clima. A nota desenvolve-se a partir do diálogo estabelecido entre apresentador e repórter, no estúdio. Diz ele: “Fazia tempo que a gente não ouvia falar do El Niño, mas o fenômeno caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico está de volta, Mariana, e vai provocar muita chuva no extremo sul do Brasil neste fim de semana agora?”.
Chama a atenção nesta matéria as posições enunciativas, caracterizadas por Pinto (1999) como “as diferentes maneiras de construir a representação de uma determinada prática social ou área de conhecimento propostas pelos sujeitos que aparecem nos textos e que são assumidas ou não pelos participantes do evento comunicativo em curso”. A partir do diálogo representado entre apresentador e repórter, a matéria se relaciona com o público e com o conhecimento técnico-científico. O apresentador representa o público-telespectador, que ora
62 “É o recorte de imagens, para superposição ou adição de quadros no vídeo, através de uma chave de cores. Em
geral, o apresentador realiza a gravação de chamadas ou de notas em um fundo azul. Através de um programa de computador essa cor é recortada da imagem, que é sobreposta em outro quadro” (COUTINHO, 2006, p. 109).
é tomado com pouco conhecimento no assunto ora com conhecimento sobre termos científicos. A repórter representa o cientista e também a professora.
A partir da posição discursiva ocupada pelo apresentador, a matéria constrói o sentido do telespectador como pessoa leiga no assunto. É o apresentador (que joga com o papel de um telespectador interessado e curioso, mas desprovido de conhecimento científico) que indaga a repórter, incitando-a a fornecer as explicações científicas. Essa característica pode ser notada logo no início, quando ele pergunta a ela sobre as condições do clima no extremo sul do Brasil no final de semana.
A repórter, em seguida, confirma a afirmação do apresentador Carlos Nascimento, responde sua pergunta e dá a Previsão do Tempo, que é o assunto principal. É o que Bakhtin (1997) chama em um diálogo de fundo aperceptivo de compreensão responsiva. Ao tomar o apresentador no papel discursivo de telespectador, a repórter procura adequar seu discurso à idéia que ela faz desse público (segundo Bakhtin, o grau de informação que o receptor (ou coenunciador) tem da situação, seus conhecimentos especializados na área de determinada comunicação cultural, suas opiniões e suas convicções, seus preconceitos do ponto de vista do emissor (ou enunciador), suas simpatias e antipatias etc.) procurando a compreensão do discurso.
Ao aprovar a suposição do apresentador/telespectador, ela o acolhe porque ele participou com uma atitude responsiva ativa. Diz ela: “É isso mesmo Nascimento. Nas últimas semanas, a temperatura da água na superfície do Oceano Pacífico subiu. Agora está dois e três graus Celsius acima do normal, Nascimento”.
Ainda no papel discursivo do telespectador, o apresentador questiona se um aumento de dois ou três graus na temperatura do oceano não é pouco, já que pode parecer pouco para um não- especialista.
Ela explica que parece pouco, mas não é. Nota-se, a partir de então, que a repórter joga o papel discursivo de um especialista. É importante notar o tom didático, quase professoral, que a explicação carrega. Adinolfi (2005), ao avaliar os discursos de matérias de divulgação científica em revistas, avalia que um dos papéis desempenhados por jornalistas nas matérias de CT&I das revistas é o que oscila entre o papel da Ciência e o do público (no caso, os leitores das revistas), identificando-se ora com um, ora com outro.
[o repórter] analisa, interpreta, acrescenta... e também se identifica com o leitor ao revelar indignação, surpresa incredulidade. Ou seja, ora o divulgador se identifica com os cientistas (ao contar, por exemplo, a história da medicina em tom professoral), ora com o leitor (ao partilhar seu espanto com os avanços da medicina) (ADINOLFI, 2005, p. 90).
A preocupação da repórter, neste trecho, não é com a fidelidade dos termo s, mas com o entendimento do processo por qualquer pessoa, não importando seu grau de conhecimento ou familiaridade com o assunto. “O didatismo da divulgação científica é uma tentativa de contrastar com a relação pedagógica clássica, mais severa, autorizada, institucionalizada, em que a mediação é apagada” (ADINOLFI, 2005, p. 104). Diz a repórter: “Parece pouco, mas vamos fazer uma comparação simples. Ferver água numa xicrinha de café, por exemplo, é muito mais fácil e rápido do que numa panela grande para fazer arroz. Imagina a quantidade de energia necessária para esquentar todo o oceano. É esse calor fora do normal que tem favorecido a formação de áreas de instabilidade no extremo sul do Brasil. Vamos ao mapa”.
Ao comparar o aquecimento das águas do Oceano Pacífico com a energia dispensada para esquentar água numa xicrinha e numa panela grande, a repórter tornou a explicação acessível a qualquer pessoa. O que o apresentador/telespectador achava que era pouco, descobriu que era preciso uma enorme quantidade de energia, de calor para provocar tal mudança.
Depois de compreender a atuação do El Niño, mesmo sem a explicação/definição do que é esse fenômeno, a matéria deixa mais claro como ele atua – o que é essencial para a compreensão das mudanças no clima.
Ainda no papel de educadora, a repórter aproveita o didatismo da explicação e chama seus telespectadores a prestarem atenção no mapa em chroma key (que poderia ser comparado a uma lousa na escola, mas com o recurso de animação/movimento). O mapa (e o discurso que é gerado a partir das imagens apresent adas) tem funções (JAKOBSON, 1995) referencial (de complementar a informação) e, sobretudo, fática, como uma forma de manter o contato, de atrair a atenção para a explicação, como algo novo, interessante, além do discurso verbal, do diálogo entre apresentador e repórter e dos recursos não-verbais (entonação, ritmo, expressões corporal e facial dos interlocutores) apresentados até então.
A repórter joga com uma suposta co-participação do telespectador para o entendimento da explicação, reforçada pela atenção que deve ser dispensada às imagens do mapa. No entanto, não há descoberta a ser feita na matéria, representada por um conhecimento científico produzido por um especialista e mediado por um jornalista: o jornalista tem o conhecimento do cientista e transmite tal informação ao público. Cria-se a dicotomia entre a repórter que já sabe (e que não fica sabendo por um conhecimento externo a ela) e o público (que não sabe). Com as imagens do mapa, não há explicações nem definições do que são áreas de instabilidade ou frente fria. A repórter faz tais inferências e pressupõe que o telespectador domine tais conceitos, o que só acontecerá para quem tiver uma formação específica na área. Somente um especialista saberá olhar para o mapa e notar se se trata de uma frente fria ou de uma área de instabilidade. As imagens do mapa não esclarecem essa diferença. São termos técnicos e visões que requerem um conhecimento adquirido. Para suprir essa lacuna de entendimento, a repórter explica como são formadas as áreas de instabilidade (“Aqui no mapa dá para ver muitas nuvens no Rio Grande do Sul, apesar de parecer, isso não é uma frente fria. São áreas de instabilidade que se formam em conseqüência do calor, da umidade e de correntes de vento que passam a mais de dez quilômetros do chão. Por enquanto essas nuvens vão provocar bastante chuva só na fronteira do Brasil com o Uruguai”).
Pode-se observar uma abordagem diferente das matérias diárias de Previsão do Tempo dos telejornais. Muito mais que simplesmente a previsão da ocorrência de chuvas, essa nota ofereceu novas informações em um assunto que todos os telejornais estudados só abordaram de forma técnica, desprezando o conhecimento científico responsável por tais dados/previsões. Ao comparar um fenômeno climático a instrumentos e processos do dia-a- dia das pessoas (como esquentar água), a nota pode criar o sentido de que há Ciência na vida cotidiana das pessoas e que é possível relacionar os fatores e aprender com isso.
Ao reproduzir um suposto diálogo entre repórter (na posição discursiva de especialista) e apresentador (que representa o telespectador), a matéria simula uma aproximação entre o conhecimento científico e o público, mas não o realiza concretamente. Se, de acordo com Pinto (1999), o lugar atribuído ao co-enunciador também é indicativo do ideológico de um discurso, nota-se que a Ciência é apresentada ao telespectador como algo distante, de
conhecimento apenas de algumas pessoas, especialistas. Ao público (e ao apresentador) só resta ser depositário desse conhecimento. Sobre isso, Foucault (2002, p. 36-37) avalia que uma das formas de se controlar os discursos é determinar as condições de funcionamento deste discurso, “de impor aos indivíduos que os pronunciam certo número de regras e assim de não permitir que todo mundo tenha acesso a eles”. Nesta matéria, nota-se que a repórter, e só ela, domina o discurso e o conhecimento científico. O telespectador apenas recebe tal conhecimento e isso fica evidente pela atuação do apresentador representando essa imagem de telespectador.
Ao ocupar a posição discursiva de especialista, a repórter, divulgadora científica, simplesmente transportou o discurso da Ciência para o público, sem reelaborá- lo. Segundo Orlandi (2001, p. 24), quando o trabalho de divulgação científica não é “bem feito” resulta apenas em “transporte” de um sentido de um discurso para o outro, o que gera perda e resulta em caricatura. A caricatura criada na matéria gira em torno da posição discursiva da repórter: ela abandona a posição discursiva e as funções atribuídas a uma jornalista, divulgadora científica, e se faz passar por cientista e por professora.