GETTING STARTED
CHAPTER 5 STRINGS AND
Descrição
A reportagem tem abordagem predominantemente descritiva, já que são apenas divulgados os resultados da pesquisa, sem qualquer relação com os aspectos sociais ou as conseqüências da pesquisa. Há apenas uma fonte especialista. Outra fonte, oficial, aparece apenas no discurso
do apresentador, na nota pé da matéria, como discurso indireto. Trata-se de uma pesquisa nacional, da região Sudeste (Campinas/SP), realizada por uma universidade pública (Unicamp). O cientista fala do local de trabalho e ocupa posição discursiva principal (e única) na matéria. O discurso do cientista corrobora o discurso do repórter. O discurso da fonte oficial (relatado pelo apresentador) se contrapõe ao discurso do cientista. A Ciência é o assunto principal da matéria. Esta é abordada de forma fragmentada. A linguagem predominante é especializada (com o uso de termos técnicos da área econômica). A Ciência é apresentada de forma equilibrada (nem depreciativa nem elogiativa). A Ciência é apresentada de forma articulada com o ambiente de produção, mas desarticulada do ambiente de recepção desta. As imagens auxiliam na compreensão do processo científico envolvido. Há demonstração do processo científico com imagens e palavras. A matéria conta com tabelas, que auxiliam na compreensão do conteúdo científico envolvido.
Análise
O foco central dessa reportagem são os resultados da pesquisa. Trata-se de um estudo sobre os investimentos do governo Federal na área social. Nota-se uma valorização do pesquisador e da instituição à qual este pesquisador está vinculado como caráter identificador da Ciência. Desde a abertura, o apresentador faz referência à autoria da pesquisa: trata-se de um estudo desenvolvido pelo economista Márcio Pochmann, da Unicamp. Na matéria, pesquisador e instituição de pesquisa (no caso uma universidade estadual) proporcionam credibilidade aos resultados. Além disso, o repórter também é identificado por nome: o apresentador anuncia que a reportagem é de Celso Teixeira (o que são acontece em todas as matérias do telejornal, nem mesmo nas de CT&I). Com isso, identificam-se os autores dos discursos que irão se entrelaçar na matéria (o âncora Bóris Casoy já é conhecido, mas seu nome aparece também com créditos no início do telejornal, como é usual).
As pessoas responsáveis pelas enunciações são identificadas. Esse cuidado pode ter sido tomado inclusive pela polêmica do estudo: o objeto da pesquisa científica entra na esfera político-partidária. A Ciência, nesta matéria, não é mostrada isenta de outros valores e interesses sociais. A prova disso é que o pesquisador é apresentado (depois da exposição dos resultados da pesquisa) de forma a inseri- lo no contexto político. A posição/preferência/atuação política do pesquisador foi exposta na matéria, como citação indireta do repórter. Diz o repórter: “Pochmann, que foi secretário, justamente, de programas sociais da ex-prefeita Martha Suplicy, do PT, diz que a sua posição política em relação ao governo Lula não interferiu no estudo”.
A matéria mostra que o pesquisador tem posições políticas e que ele foi questionado se suas escolhas pessoais interferiram no estudo. Trata-se de uma forma diferente, comparada com as encontradas nos demais telejornais estudados, de se inserir o contexto social e político do pesquisador ao tratar de um assunto técnico-científico. A matéria dá destaque às posições pessoais do pesquisador e coloca essa informação no conjunto de formulação dos sentidos da matéria, formato pouco comum nos telejornais.
Além disso, as posições políticas do pesquisador são mostradas como um dos fatores motivadores da pesquisa e um dos critérios de credibilidade da pesquisa e do pesquisador: a matéria faz inferência (DUCROT, 1981) de que o fato de ter sido “secretário, justamente, de programas sociais da ex-prefeita Martha Suplicy, do PT” (e o governo Federal também ser do PT), não impede a atuação do pesquisador na esfera pública e que tal atuação é possível e isso não interfere nos resultados da pesquisa, de acordo com o próprio pesquisador e que é corroborado pelo discurso do repórter. O discurso do pesquisador entre em cena para justificar
a pesquisa como científica – como parte de seus interesses enquanto pesquisador e não como parte de suas posições políticas. Diz o pesquisador: “É um estudo acadêmico. É interesse do estudioso, certamente, saber em que medida as políticas que estão sendo feitas colaboram ou não para o enfrentamento da exclusão social no Brasil”.
Ao apresentar os resultados da pesquisa, o repórter já anuncia, logo no início, que são cálculos matemáticos. Ele caracteriza a pesquisa como “uma verdadeira sopa de números”. Com isso, cria-se o efeito de sentido de que é preciso uma atenção especial do telespectador para a compreensão do assunto, porque haverá, na matéria, a exposição de muitos números de forma misturada, como uma sopa. Esse recurso pode atrair a atenção do público, mas, por outro lado, gerar um obstáculo à apreensão dos resultados e da própria pesquisa.
O resultado é apresentado com a ajuda de tabelas. No entanto, é preciso notar que o excesso de dados, números interfere de compreensão da pesquisa. De acordo com Carvalho (2003, p. 23), o excesso de preocupação com didática, em vez de estimular, pode deixar o público enfadado. Segundo a autora, não é necessário contar tudo, explicar todos os pormenores, pois, muitos detalhes, dependendo de como forem contados, podem acabar confundindo em vez de explicar. Nota-se na explicação do repórter uma preocupação com a didática em detrimento do poder de atração da matéria.
Ademais, o uso de recursos gráficos e visuais pode contribuir para a compreensão do assunto, mas pode representar também um excesso de didatismo que torna a explicação dos resultados da pesquisa pouco interessante. De acordo com Carvalho (idem, p. 23), do lado dos que produzem a matéria, não é preciso conhecer a fundo as ferramentas da comunicação, apenas é preciso saber usá- las com criatividade e coerência dentro da proposta de divulgar Ciência. Isso é corroborado pelo uso de termos técnicos da área de Economia como por exemplo “per capta”. O próprio objeto da pesquisa: “o orçamento social” não é exp licado, definido ou exemplificado em nenhum momento da matéria. Com a não contextualização da pesquisa com as demais esferas da sociedade e da vida das pessoas, a compreensão da matéria também pode ser prejudicada, pois cria efeitos de sentido de distancia mento da pesquisa, da Ciência em relação à sociedade.
Na conclusão da matéria, feita pelo apresentador, é exposto, em discurso indireto, o posicionamento do governo Federal diante dos resultados da pesquisa. Diz o apresentador quando trata da justificativa do governo Federal para contestar tais números: “O Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa, defendeu os números oficiais e criticou o trabalho do economista. Segundo Lisboa, o economista usou o IGP para fazer a correção inflacionária dos investimentos enquanto o governo usou o IPCA. Somente em 2002, o IGP foi mais de 10 pontos percentuais superior ao IPCA”.
O discurso do apresentador é permeado de termos técnicos que dificultam a compreensão pelo público não-especializado. Com isso, dilui- se a força do discurso da fonte oficial. Enquanto o pesquisador defende os números e é identificado na matéria (a ele é atribuída a pesquisa, ele aparece na tela e seu discurso é inserido no discurso da matéria), a fonte oficial, que apresenta posição contrária aos números da pesquisa, é apresentada apenas no discurso do apresentador. O discurso da fonte oficial é indireto: o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa, não aparece na televisão; seu discurso constitui-se na formulação do apresentador e, além disso, o conteúdo desse discurso é técnico, desconhecido do público leigo.