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PREDICATE FUNCTIONS

Dans le document COMMON LISP An Interactive Approach (Page 97-113)

Descrição

A reportagem do Jornal da Band, que trata de uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre poluição das cidades, tem abordagem descritiva, já que apenas são apresentadas as condições de poluição das cidades, a partir dos resultados da pesquisa. Não há fontes especialistas. Há somente fonte testemunhal. A origem da pesquisa é nacional, realizada em todo o país, por um instituto público. Ciência é o assunto principal, apresentada de forma fragmentada e desarticulada do ambiente de produção e de recepção. As imagens auxiliam na compreensão do processo científico envolvido, mas não há demonstração do processo.

Análise

A reportagem que aborda uma pesquisa do IBGE sobre poluição das cidades brasileiras tem o foco exc lusivo nos resultados da pesquisa e não no processo de construção e análise dos dados. É dada prioridade aos números e aos problemas ambientais das regiões e cidades brasileiras.

O foco nos resultados pode ser observado logo na abertura (“A gente não sabia, mas a fumaça das queimadas é a principal causa da poluição do ar no Brasil. A constatação é de uma pesquisa do IBGE sobre os problemas ambientais do país. Pernambuco, por exemplo, tem o maior número de casas sem esgoto. O Rio de Janeiro, o índice mais alto de contaminação da água”). O apresentador usa uma expressão que iguala o nível de informação que ele tem a respeito do assunto com a que o público tem. Ao dizer que “a gente não sabia”, ele ressalta que o virá depois é novidade, tanto para ele como para os receptores. Além disso, ele compara seu grau de conhecimento do assunto com o de seus telespectadores, gerando uma aproximação com o público. A matéria é construída jogando com a posição discursiva de que apresentador e telespectadores não sabem dos resultados da pesquisa, que a matéria trata de abordar. É a matéria que supre a falta de conhecimento do apresentador e do público sobre a pesquisa do IBGE.

Não há, nessa reportagem, nenhuma preocupação com os procedimentos metodológicos empregados pelo IBGE. O discurso da matéria não considera relevante o modo como os dados foram levantados e trabalhados. Nada foi dito sobre isso. Também não foram ouvidos técnicos, pesquisadores responsáveis pela pesquisa. A matéria não apresenta fontes especialistas.

Mesmo tratando-se de um instituto de pesquisa governamental, amplamente conhecido, o telejornal deve considerar que, além da credibilidade, outros fatores estão em jogo, pois, dependendo da amostra, dos objetivos da pesquisa e da coleta e análise dos dados, o alcance e até mesmo os próprios números dos resultados variam. Mas a matéria desconsidera tais elementos. A matéria levou em conta o critério de reputação da Ciência (do IBGE), conforme afirma Weingart (1998), como fator de noticiabilidade e desprezou as especificidades da pesquisa. Isso pode acarretar distorções na apreensão dos resultados, visto que pode levar o público a certas interpretações que os dados do levantamento não foram possíveis de suscitar. Neste caso, o principal aspecto silenciado é a forma de obtenção dos dados: os dados da pesquisa do IBGE foram alcançados a partir de questionário enviado às prefeituras, ou seja, é a visão oficial das administrações municipais e não de pesquisadores/técnicos do IBGE, o que pode mudar substancialmente os resultados da pesquisa. No entanto, essa ressalva não foi feita na matéria.

São os silêncios apontados por Orlandi (2002) e a ação dos padrões de manipulação da grande imprensa defendidos por Abramo (2003). Nesse caso, está presente, sobretudo, o padrão da fragmentação, em que os fatos não são apresentados como uma realidade, com suas estruturas e interconexões, sua dinâmica e seus movimentos e processos próprios, suas causas, suas condições e conseqüências. A pesquisa do IBGE, ao ser apropriada pelo discurso da divulgação, perde sua contextualização, sua estrutura e se torna fragmentada. A matéria torna- se incapaz de transmitir a pesquisa em sua essência, no que ela realmente se propôs e naquilo que ela obteve a partir daí.

Ao longo da matéria, a repórter lança mão dos resultados e aponta os principais problemas ambientais do país, segundo o levantamento. As imagens ajudam a transmitir tais informações, já que mostram, a partir de algumas imagens de arquivos, a ocorrência de tais problemas.

Há apenas uma fonte, testemunhal, nessa reportagem, cujo discurso resume-se aos enunciados: “Óleo, óleo, óleo, poluição” e “Vai quase até a ponta daquela ilha de rede para matar duas tainhas”. A repetição das palavras proporcionou ênfase e extensão à situação de degradação. Nota-se o uso de enunciados dependentes do ambiente, como aquele que não tem sentido sem a presença de imagens que o expliquem (MAINGUENEAU, 2001). A fonte testemunhal falou e mostrou a amplitude do problema e a câmera registrou. Esse procedimento oferece maior credibilidade ao que é dito.

Não foram ouvidos pesquisadores da área ambiental, organizações não- governamentais ambientalistas, empresas poluidoras (já que a matéria aponta que a maior contaminação dos rios no Rio de Janeiro deve-se à exploração de petróleo e a Petrobras não foi procurada) ou fontes oficiais.

Essa escassez de fonte torna a matéria fraca. Cria-se o efeito de que os resultados da pesquisa são suficientes. As outras visões, que poderiam explicar, combater ou corroborar tais

indicadores, não foram considerados. Para suprir a ausência de tais fontes, a matéria emprega imagens de impacto, porque mostram rios poluídos, favelas sem saneamento, erosão, poluição. Não se busca a interpretação dos dados, a análise da situação por especialistas no assunto.

Como não disponibiliza tais recursos, a matéria é construída com longos discursos da repórter. Esses discursos, cobertos pelas imagens de impacto, tentam dar conta dos principais resultados apontados pela pesquisa do IBGE. O resultado disso são informações densas, o que é cansativo para o telespectador, já que a repórter procura resumir toda uma pesquisa somente no seu discurso.

Uma discussão mais analítica vem do diálogo entre o apresentador e o comentarista Joelmir Betting. Eles tentam suprir as carências de informação e de fontes da matéria com comentário, o que é uma tentativa louvável, mas as versões provenientes dos “outros lados da questão” não podem ser suprimidos. A qualidade e a credibilidade da informação ficam comprometidas ao se supervalorizar a visão de um comentarista em detrimento de fontes especialistas e oficiais. Observa-se, com isso, a necessidade de equilíbrio entre informação e opinião nas matérias. Não se pode negar o papel relevante do comentarista no sentido de interpretação e contextualização dos fatos apresentados. No entanto, torna-se necessário, nessa matéria em particular, uma melhor apresentação da informação, com outras fontes que podem contribuir com outros pontos de vista.

O comentário de Betting tem os seguintes objetivos: 1) ressaltar que a situação da poluição é mesmo séria. 2) Mostrar o que o governo Federal está fazendo para tentar diminuir tais problemas e, com isso, ressaltar que “nem tudo está perdido, pois algumas coisas estão sendo feitas”. Ele ocupa a posição discursiva da fonte oficial, governamental, ausente na matéria. 3) Relacionar os problemas ambientais com algumas conseqüências sociais, de saúde pública e saneamento. Neste trecho, o comentarista ocupa a posição discursiva do especialista, de representante de organizações da sociedade civil.

Com a substituição de fontes por comentários procura-se criar um consenso em torno do fato. É o comentarista quem finaliza a matéria. Ele dá a última palavra. Ele explica, em caráter opinativo e pessoal, o que deveria ser explicado por fontes com autoridade. Neste caso, a reputação e a proeminência (visibilidade) do comentarista são os critérios escolhidos pela matéria para dar a chancela à matéria em nome das fontes. Ele é autorizado pelo telejornal a dar a explicação em nome das fontes. Isso não deixa de ser uma forma de manipulação da informação. Essa substituição caracteriza o que Abramo (2003) chama de padrão de inversão da opinião pela informação, em que pode ocorrer manipulação da informação a partir da troca de informação por opinião.

Telejornal: Jornal Nacional

Matéria: Aparelho que engana o cérebro para não sentir dor (CD-Rom 1,

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