A reportagem do Jornal Nacional sobre o aparelho que engana o cérebro para não sentir dor possui abordagem interpretativa/analítica, já que mostra, além do funcionamento dos aparelhos, as funções sociais da Tecnologia. Há fontes testemunhais e especialistas ouvidas
nesta matéria. Trata-se de uma matéria nacional, sobre um congresso realizado em São Paulo e também sobre um novo equipamento, uma nova Tecnologia em específico, para diminuir a dor, apresentada nesse congresso. O discurso do cientista corrobora os discursos do jornalista e também das demais fontes. O cientista aparece na matéria no próprio congresso. A abordagem científica ocorre de forma contextualizada. A Tecnologia é apresentada de forma elogiativa e é incorporada aos ambientes socia l e de recepção, mas desarticulada do ambiente de produção. As imagens auxiliam na compreensão do conteúdo científico envolvido. Há demonstração do processo tecnológico com imagens e palavras. A matéria apresenta esquemas e vinheta como elementos ilustrativos. Estes auxiliam na compreensão do conteúdo científico envolvido.
Análise
A reportagem desenvolve três assuntos a partir de um só: a dor. Portanto, o foco central da matéria são três assuntos. Um deles é o Congresso em São Paulo, que reúne pesquisadores para tratar do problema da dor. O outro é a mostra, que acontece no congresso, de pintura de pacientes que sofrem de dor. Outro ainda é o aparelho, em exposição, que diminui a dor. O foco da matéria, portanto, pode ser resumido da seguinte forma: a arte dividindo espaço com a Ciência (no caso do evento) e com a Tecnologia (o aparelho para diminuir a dor). Esse “gancho” da matéria pode ser observado na abertura. Diz a apresentadora, auxiliada por vinheta do corpo humano e do cérebro computadorizados: “Um congresso em São Paulo está expondo o esforço da Ciência para diminuir o sofrimento de quem sente dor. Num mesmo ambiente é possível ver com vistas da Tecnologia e obras de arte”. Com a palavra “esforço”, a apresentadora salienta a preocupação da Ciência, e o envolvimento de pesquisadores, com os problemas humanos, como a dor, que aflige o corpo e a mente das pessoas.
Os três assuntos se intercalam e se entrecruzam, formando um único discurso. O jogo dialógico tem início com a apresentação, do repórter, da experiência da fonte testemunhal, que teve o dedo amputado em um acidente e passou a sentir dores fortíssimas. A intensidade de suas dores é realçada com o relato (“Chegando a ficar praticamente em coma dois dias devido a tanta dor”).
Depois disso, o repórter fala de vários tipos de dor que intitulam as pinturas da exposição (“A vertigem da dor transposta para a tela. Dor emocional, dor de parto, dor de quem enfrentou 26 cirurgias para se livrar de um câncer e ainda a dor crônica, aquela que não deixa em paz um minuto, caso em que a dor é a própria doença”). O repórter salienta as funções expressiva (traz a carga emocional do emissor) e poética (a escolha das palavras para descrever a mostra, aliada às imagens das obras de arte) (JAKOBSON, 1995).
A razão da existência da exposição, o lado racional da explicação, vem com o discurso da coordenadora da mostra (“A maior dificuldade delas é contar o que estão sentindo. Quando elas conseguem expressar isso sai um pouquinho daquela carga emocional”).
A reportagem deixa claro que Ciência e arte, portanto, razão e emoção, ocupam o mesmo plano de importância na matéria e no congresso (Repórter: “A arte caminhando ao lado da Ciência. Essa exposição, com trabalhos de 35 pacientes, faz parte do Congresso da Dor, promovido pela Universidade de São Paulo. Oitocentos médicos e pesquisadores trocam informações sobre remédios e terapias. Da milenar acupuntura às técnicas mais avançadas como a que utiliza esse neuroestimulador instalado no cérebro do paciente”). Na matéria, a visão que os pacientes têm sobre suas dores tem a mesma relevância que o empenho dos pesquisadores e médicos na busca da solução para tais dores. Na reportagem, o evento em si
não é tão importante quanto o que ele representa na relação Ciência, Tecnologia e arte. Prova disso é que pouco foi dito sobre o local do evento e sobre os palestrantes do congresso. Poucas informações bastaram, entre elas, a instituição responsável pelo evento, o número de participantes e o objetivo do encontro.
Em seguida, começa a ser desenvolvido o assunto ligado à Tecnologia. É apresentado um novo aparelho para diminuir a dor. O repórter descreve o equipamento e como ele funciona. (“O aparelho começou a ser testado há 15 anos na Faculdade de Medicina da USP e hoje é usado por 40 pessoas. Uma espécie de marcapasso implantado no tórax envia impulsos elétricos ao eletrodo na cabeça, sem provocar danos à estrutura do cérebro”). A comparação do aparelho novo com um outro aparelho já difundido (marcapasso) facilita a compreensão do assunto científico. Para Carvalho (2003, p. 21), esses recursos tornam a matéria mais atrativa para o público. Para a autora, no telejornalismo, é preciso manter o rigor da apuração, mas é importante que a notícia seja sedutora, e, para isso, são usados metáforas ou instrumentos criativos, como dramatizações, simulações etc.
A fonte especialista (que também é o organizador do congresso) explica como é o acesso das pessoas ao equipamento (“Dos doentes previamente selecionados, 80% deverão se beneficiar com essa forma de tratamento”). O repórter complementa a informação sobre o público-alvo a que se destina o aparelho (“O aparelho só é indicado pra quem não conseguiu alívio com os tratamentos convencionais”).
O final da matéria é dado pela fonte testemunhal. O paciente que teve o dedo amputado é um dos beneficiários da nova Tecnologia. Cabe a ele, na matéria, explicar como o equipamento funciona e os resultados obtidos. Diz ele: “Ele manda o estímulo, confunde o cérebro pra não sentir o estímulo de dor e volta praticamente toda a atividade quase que normal. A vida mudou assim da água para o vinho”.
Nota-se, nessa explicação, que coube à fonte testemunhal uma explicação técnica. Com isso, fica ressaltada a credibilidade da fonte testemunhal: ela é capaz de explicar um processo científico que de fez parte, como beneficiária. Além disso, cria efeitos de sentido de que a fonte testemunhal, não especializada, é capaz de apreender o discurso científico e reelaborá- lo.
O tom emocional e expressivo que é dado à matéria, graças à inserção de arte no próprio congresso científico, e a relevância dada a isso na reportagem, criam o sentido de que a Ciência, a Tecnologia e os pesquisadores abrigam um lado humano, sensível, emotivo. Tanto que Ciência, Tecnologia e obras de arte compõem o próprio congresso. A Ciência e a Tecnologia na matéria não se opõem às emoções, mas os sentimentos são preocupações de pesquisadores e médicos, que buscam aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida das pessoas.
É possível aferir que o tom emocional e a expressividade dos discursos (em sua combinação do verbal e do não- verbal) acarretam em uma valorização do caráter emocional da Ciência e daqueles envolvidos no trabalho científico. No caso dessa matéria, o foco central é a relação da Ciência com a expressão dos sentimentos humanos (dor, sofrimento). O tom emocional faz parte do próprio congresso (que insere exposição de obras de pacientes que sofrem com dores). É uma forma diferente de abordagem dos assuntos de CT&I em comparação às outras matérias estudadas, proporcionada, sobretudo, pelo próprio assunto (e que os discursos corroboram). A inovação na abordagem surge como resultado da originalidade do Congresso
e não a partir do discurso de divulgação científica. Por outro lado, essa forma de abordagem pode, conforme afirma Orozco Gómez (2005), aumentar a legitimação da matéria, transferida, no caso, para uma adesão, um consenso para a própria Ciência.