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Théorie de « représentation en plan unique » de LIN Niantong

Chapitre I : Problème de méthode

4 Théorie de « représentation en plan unique » de LIN Niantong

Em 1941, Nelson escreveu sua primeira peça teatral, A mulher sem pecado. Com uma carreira ascendente no jornalismo, o que teria motivado a decisão de fazer teatro? Ruy Castro aponta que um dos motivos teria sido complementar a renda, mas não só isto. Nelson Rodrigues queria se contrapor ao teatro dominante, com uma nova proposta artística – que já vinha elaborando como crítico.

A primeira peça de Nelson Rodrigues a ir ao palco não foi A mulher sem pecado, escrita em 1941 e recusada por todas as companhias teatrais que receberam a proposta, mas o segundo texto do autor, Vestido de Noiva, encenada em 1943 pelo grupo paulista Os

Comediantes, com direção de Zbigniew Ziembinski.

Ruy Castro registra que a peça enfrentou grandes dificuldades para ser encenada justamente porque sua estética era muito diferente do que se fazia no teatro brasileiro de então – a ruptura era mais radical do que em A mulher sem pecado. Em Vestido de Noiva, a narrativa se desenvolve em três planos simultâneos de ação – um para a “realidade”, outro para a “memória” e outro para a “alucinação”, sendo que os três se misturam progressivamente no decorrer da peça. A narrativa começa com um acidente de carro sofrido pela protagonista Alaíde, que, em meio a reminiscências e delírios, transita entre os três planos, recompondo o enredo de um triângulo amoroso. Castro sugere que Tomás Santa Rosa, do grupo amador Os comediantes, teria cedido a pressões para aceitar o texto. O problema da estrutura cênica em três planos simultâneos, incomum no teatro da época, foi resolvido pelo encenador polonês Zbigniew Ziembinski.

Vestido de Noiva estreou em 28 de dezembro de 1943, no Teatro Municipal do Rio,

com subvenções do governo (graças ao auxílio do ministro Capanema) e levou elogios de críticos como Manuel Bandeira (O Cruzeiro), Carlos Lacerda, Álvaro Lins e José César Borba. Consta que Nelson Rodrigues teria utilizado sua influência na imprensa para aumentar

José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos

o número de matérias com elogios ao seu trabalho, inclusive escrevendo críticas que seriam assinadas por outros.

Reportagens laudatórias assinadas por outros, mas com o indiscutível estilo nelsonrodrigues, continuariam saindo em ‘O Globo’ durante janeiro de 1944. E, assim que ele se mudasse para os ‘Diários Associados’, em fevereiro, passariam a sair nos jornais e revistas de Chateaubriand186.

A imprensa é uma presença constante no teatro de Nelson Rodrigues, desde sua primeira peça levada ao palco, Vestido de noiva, em cujas cenas iniciais aparecem os repórteres, cobrindo com frieza e insensibilidade o acidente que matou a protagonista do enredo. Segundo o autor, a própria peça teve sua inspiração – ainda que de forma indireta – num acontecimento jornalístico, um atropelamento registrado por um fotógrafo de O Globo:

Escrevi Vestido de Noiva sem nenhuma sugestão. Eu estava no arquivo d’O Globo e tinha lá uma fotografia de velório. Foi a partir dessa foto que comecei a imaginar a peça. Aliás, foi no velório de Madame Clessi que fiz aquilo. Resolvi fazer uma peça onde tivesse um velório e um casamento simultaneamente. Comecei a bolar um processo que resolvesse um problema cênico e Vestido de noiva foi realmente isto 187.

Após as temporadas de sucesso das duas peças entre 1944 e 1945, Nelson se consolida como autor teatral. As peças seguintes, que exploram mais os tabus sexuais e preconceitos da sociedade, causam polêmica e conferem a Rodrigues a pecha de autor maldito, proibido pela censura: Álbum de família foi proibida pela censura em 1946, com a alegação de que “preconizava o incesto” e “incitava ao crime”. Anjo negro, que falava de racismo, foi interditada em 1948. Dorotéia, em 1950, foi (segundo Castro) um fracasso de público e crítica, ficando apenas treze dias em cartaz.

Em 1953, Nelson lançou A falecida, voltando-se para temáticas como o futebol e o cotidiano dos subúrbios cariocas, levada ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro pela companhia dramática do Serviço Nacional de Teatro, bancada pelo Ministério da Educação

188. No mesmo ano, o Teatro Brasileiro de Comédia, de São Paulo, tentou encenar Senhora

186 CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p.

176.

187 RODRIGUES, Nelson. Nelson Rodrigues por ele mesmo. Org. Sônia Rodrigues. Rio de Janeiro: Nova

Fronteira, 2012, p. 57.

188 Ruy Castro menciona que esta peça teria causado polêmica ao mostrar cenas do cotidiano dos subúrbios

cariocas, como partidas de sinuca e jogos de futebol, no palco do Teatro Municipal, frequentado pela elite. A peça, com diversas referências irônicas à política da época, e certamente calcada em temas da coluna A vida

José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos

dos afogados, porém a peça foi proibida pela censura estadual. No Rio de Janeiro, o texto foi

liberado e estreou pela companhia do SNT. Ainda assim, a peça foi alvo de polêmicas e houve tumulto na estreia.

Além da dramaturgia, Nelson Rodrigues também experimentou ser ator, por uma única temporada, participando de uma peça de sua autoria – Perdoa-me por me traíres, em 1957. A produção foi bancada por Nelson e amigos – Gláucio Gill, Léo Jusi e Abdias do Nascimento formaram uma companhia para apresentar o texto e conseguiram dinheiro para apresentar a peça por dez dias no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O espetáculo foi recebido com protestos na estreia e proibido pela censura no dia seguinte, devido a pressões de políticos e da Igreja. Porém, Nelson conseguiu aliados no Legislativo e na Igreja que o ajudaram a ter a peça liberada. A temporada curta, de dez dias, foi sucesso de público, porém muito atacada pela crítica.

Após Perdoa-me por me traíres, Nelson escreveu uma peça em que aparecem personagens jornalistas: Viúva, porém honesta, uma “farsa irresponsável” na definição do autor. Nesta peça, umas das personagens principais é um dono de um jornal e “gângster” influente a ponto de poder “nomear ministro pelo telefone”. As piadas sobram até para os críticos teatrais – com os quais Nelson Rodrigues tinha bons motivos para estar indisposto ao escrever Viúva, porém honesta, após o fracasso de crítica da peça anterior. Em Viúva... um “pederasta foragido do SAM [Serviço de Assistência ao Menor]” entra na redação, possivelmente fugindo da polícia, e é contratado como crítico de teatro, já que não entende nada do assunto.

Em 1958, além de uma reestreia de Doroteia (com o título alternativo de Vinde

emssaboar vossos pecados, e com Dercy Gonçalves fazendo o monólogo), houve a estreia de

mais uma peça de Nelson Rodrigues, Os sete gatinhos, no Teatro Carlos Gomes, no Rio. No início dos anos 60, Nelson coloca o jornalismo mais em evidência como tema de sua dramaturgia, nas peças Boca de ouro (1960) e O beijo no asfalto (1961). Já Otto Lara

Resende ou Bonitinha, mas ordinária (1962) fazia alusões ao colega de Nelson nas redações

mencionado no título, e ainda atribuindo-lhe a autoria da frase “o mineiro só é solidário no câncer”. Diversos nomes de jornais e jornalistas conhecidos são mencionados nos diálogos da peça.

Em 1965, estreou no Rio de Janeiro Toda nudez será castigada, peça posteriormente adaptada para o cinema. A produção teatral de Nelson se estendeu pela década seguinte, com

José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos

Ao mesmo tempo, o autor começou a se dedicar também à televisão, escrevendo novelas para a TV Rio – a primeira foi A morta sem espelho, que produziu junto com Walter Clark, em 1963, com diversas restrições da censura. No ano seguinte, escreveu Sonho de

amor, que, para driblar a censura (já indisposta com o nome de Nelson Rodrigues), foi

veiculada como se fosse uma adaptação de O tronco do ipê, de José de Alencar. Ainda em 1964 escreveu sua terceira e última novela, O desconhecido. Em 1966, manteve um quadro fixo na TV Globo, A cabra vadia, no qual entrevistava personalidades. Esta atuação na TV não o afastou do jornalismo nem da literatura – ainda em 66, a convite de Carlos Lacerda, publicou um romance, O casamento, proibido pela censura. Ao mesmo tempo, publicava no

Correio da Manhã suas Confissões, crônicas de teor autobiográfico, mais tarde reunidas em

livro.

A obra rodriguiana tornou-se cada vez mais presente em diversas linguagens. O

casamento foi adaptado para o cinema em 1975 e, três anos depois, foi a vez do conto A dama do lotação servir de base para um filme.