Chapitre III : Film meut chinois des année trente, études
1 Passage du cinéma muet au parlant
2.2 Studio de Lian hua
2.2.2 Des styles chez Lian hua
A peça, segundo o próprio autor, em diversas declarações à imprensa, e inclusive no prefácio do livro em que o texto de Barrela foi publicado, tem inspiração num caso ocorrido
José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos
em Santos na década de 50, e que teria repercutido na imprensa local: um rapaz de classe média foi preso, por causa de algum delito de pouca importância, e, ao passar a noite na cela, foi estuprado pelos detentos. Depois de ser libertado, o garoto jurou vingança e se tornou um assassino.
Devido à ausência de maiores detalhes, como datas ou nomes, bem como a dificuldade de encontrar jornais santistas da época nos principais acervos públicos, não foi possível identificar matérias jornalísticas sobre este relato. Temos, a respeito, apenas declarações do próprio Plínio Marcos, como esta dada em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 1977.
Moacir - De que é que trata essa peça [Barrela] e depois o livro.
Plínio - É o problema de depósito de presos. É aquele negócio, eles vão pegando as pessoas e vão todas sendo enfiadas num depósito, pra aguardar a triagem. Essa triagem, por exemplo, se for em Nova Iguaçu, que justamente com Dallas City é a campeã mundial do "bochicho", o cara pode ficar até dois anos esperando a triagem. E aí nesses depósitos de presos é que os presos se barbarizam à vontade. E isso é relatado na peça.
(...)
Moacir - Como é que você colheu material pra escrever a peça?
Plínio - Foi um caso que houve em Santos, que me chocou profundamente. Um garoto, um rapazinho mais ou menos bom, entrou em cana e, quando saiu, saiu matando gente. Ele matou...
Tarso - Entrou em cana por quê?
Plínio - Falta de documento, por causa de uma besteira qualquer. Foi colocado na cela com as feras, né? E aí estupraram ele lá dentro. Quando ele saiu, saiu matando todos os que tinham estado com ele lá dentro e tinham saído. Esse caso, que foi muito comentado, eu transformei na peça. Mas, quero adiantar que a Barrela não é autobiográfica320.
Além disto, precisamos levar em conta que houve várias versões da peça, e somente uma, a de 1976, foi publicada em livro. Paulo Vieira, na pesquisa para sua tese de doutoramento A flor e
o mal, teve acesso à versão original de 1959 e compara as duas quanto a personagens, ações e
diálogos. A versão de 1959, segundo o pesquisador, é mais simples e menos violenta do que a posterior 321. Na versão de 1959, segundo Paulo Vieira, a ação se desenvolve em torno de sete personagens: Pachorra, Bahia, Fumaça, Louco, Tirica, Portuga e o Garoto.
Mas na primeira versão não era assim. O conflito era bem menor e menos abrangente em sua ação. Os polos de conflito estavam situados entre o Louco e Portuga, como veremos nas doze unidades de ação que compõem a peça:
320 AMÂNCIO, Moacir; CASTRO, Tarso de; FASSONI, Orlando et al. Plínio sem cortes. Folha de S.Paulo. São
Paulo, 17 de julho de 1977, caderno Folhetim, p. 2.
José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos
1. Portuga acorda todo mundo. O Louco diz para fazer a “barrela”. Esboça-se o conflito.
2. Pachorra intervém. Fumam maconha.
3. O Louco volta a insistir no tema da curra. Nova briga. 4. Pachorra intervém. Fumam ‘cigarro de bar’.
5. Louco ameaça matar Portuga. 6. Entra o Garoto.
7. Todos os presos gritam “barrela” para o Garoto. Pachorra intervém. 8. Portuga esclarece o título da peça (portanto também o seu tema), quando responde para o Garoto o que é “barrela”.
9. Fumam maconha. 10. Curram o Garoto.
11. O Louco mata Portuga 322 .
Na versão publicada em livro, pode-se observar que, embora as personagens sejam as mesmas, há alterações. Pachorra, na segunda versão, tem seu nome alterado para Bereco. Vieira observa que outras características da personagem mudam, não só o nome. Os dois têm o papel de “xerife” da cela, por serem mais fortes e violentos que os outros – mas sua atitude com relação à ameaça de os colegas de cela estuprarem o Garoto é diferente. Pachorra, da primeira peça, intervém pouco em favor do Garoto. Já Bereco tenta proteger o garoto dos colegas que ameaçam estuprá-lo e só cede quando tem sua autoridade ameaçada pelo grupo, que contesta: ou Bereco aceita a que a “curra” aconteça, ou todos se juntam contra ele. Na peça original, Pachorra também participava da “barrela”; na versão do livro, não participa 323.
Algumas das personagens secundárias também são alteradas, como Louco e Portuga (na primeira versão, segundo Vieira, o conflito entre os dois recebia maior destaque).
Assim, observa-se que a narrativa jornalística serviu para Plínio antes como um ponto de partida para criar uma narrativa de ficção. Não se trata de reproduzir fielmente os eventos relatados, mas de falar sobre as causas do fenômeno da violência sexual na cadeia, mostrando em cena o comportamento de um grupo de presos.
Embora não seja possível fazer uma comparação detalhada entre o relato jornalístico e o teatral, podemos considerar que, por si só, o fato de o autor declarar ter escolhido um acontecimento relatado em jornais como base para elaborar um texto teatral já é significativo de uma influência do jornalismo na dramaturgia. Plínio Marcos, em diversos momentos, compara seu trabalho teatral a uma atividade jornalística, intitulando-se “repórter de um tempo mau”, por exemplo, na entrevista aos jornalistas da Folha em 1977:
322 VIEIRA, Paulo. Plínio Marcos, a flor e o mal. Tese de Doutoramento. São Paulo: ECA-USP, 1993, p. 100. 323 VIEIRA, op. cit., p. 98-100.
José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos
Moacir - Plínio, nas tuas peças você sempre vai em cima de fatos, você parte de dados que você vê na rua, etc. sei lá, informações, o teu trabalho jornalístico também só pode escrever sobre fatos, né? Por princípio.
Plínio – Há períodos em que jornalista só escreve sobre ficção.
Moacir - Ficção. É claro. Mas você nos teus contos, o Querô, também tem, é uma, você intitulou de reportagem.
Plínio - Eu, quando escrevi a primeira peça eu fiz uma declaração de que eu queria ser apenas um repórter de um tempo muito mau.
Moacir - O Chico Buarque de Holanda, por exemplo, numa música como Construção, tem uma colocação estética?
Plínio - Ele é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos e fez uma reportagem poética, pombas, na linguagem dele.
Moacir - Mas veja bem, a linguagem que o cara escolhe é uma discussão estética.
Plínio - Não estamos preocupados com isso, amigo, cada um se comunica como pode.
Tarso - Também acho
Plínio - Agora, se deve discutir o que ele quis dizer, o que o Chico Buarque quis dizer com aquilo? Eu não vou discutir poesia com um poeta do gabarito do Chico Buarque, aliás, mesmo porque se torna absurdo a discussão do que "é poesia, e o que não é poesia", mas a gente discute o que é que ele quer dizer com aquilo, e o que ele quer dizer com aquilo é realmente um retrato muito amargo da realidade brasileira, é uma reportagem.
Tarso - E muito realista.
Plínio - É uma reportagem realista, feita por um poeta de valor incalculável 324.
Em outro texto publicado na mesma Folha de S.Paulo, em 28 de junho de 1977, o autor diz: “se retrato a violência em minhas peças, é que, como repórter de um tempo mau, me vejo obrigado a registrar os fatos que os meus olhos de ver veem”325.
Ou seja, além de se basear num acontecimento (presumivelmente) relatado em jornais para escrever sua peça, Plínio Marcos defende que o artista deve falar sobre a realidade de seu país, com sua própria linguagem, sem se preocupar muito com discussões estéticas, mas sim com a denúncia de problemas sociais.