• Aucun résultat trouvé

Chapter 10. Conclusions

10.1 Summary of findings

A origem do nativismo remonta à tradição filosófica iniciada por Platão, conhecida como realismo das ideias (Morente, 1980). De acordo com este filósofo, o conhecimento humano era a priori, não dependia da experiência para existir, mas estava presente em todas as pessoas. O diálogo intitulado Menon retrata bem esta ideia. Nele, Sócrates e um interlocutor discutem a respeito da origem do conhecimento e Sócrates defende que este se encontra potencialmente em todos os homens, que necessitam apenas das condições adequadas para manifestá-lo. Para comprovar sua tese, Sócrates demonstra ao interlocutor que um escravo seria capaz de resolver um problema de geometria, sem que tivesse qualquer educação matemática prévia. Por meio de perguntas que o escravo era capaz de responder, Sócrates montou toda a resolução do problema, escrevendo-o passo a passo no chão de terra.

Neste diálogo demonstra-se que a função do ambiente resume-se a permitir a manifestação daquilo que já se encontrava no interior do sujeito. Platão diferenciava o mundo físico, das coisas, do mundo das ideias, plano em que habitava a essência de tudo que existia. Em sua concepção, a alma de todos os homens teria passado ou vivenciado o mundo das ideias antes de reencarnar nos indivíduos. Assim sendo, estes seriam portadores de uma

memória da essência de todas as coisas existentes por tê-las contemplado anteriormente no mundo das ideias. Todavia, ao reencarnar no corpo de uma pessoa e entrar em contato com o mundo dos sentidos, esta memória se tornaria frágil e necessitaria de um método específico para ser recuperada. Para chegar ao conhecimento pleno (episteme) o indivíduo deveria utilizar a razão, a fim de distanciar-se da concretude das coisas (sensorial) em direção a uma compreensão mais abstrata de mundo (noésis).

Como aponta Sternberg (2000): “A teoria das formas dualísticas de Platão estabelecia que a realidade reside não nos objetos concretos (p. ex. mesas e cadeiras) de que somos conscientes através de nossos sentidos corporais, mas nas formas abstratas que esses objetos representam.” (p.23). Assim sendo, os sentidos seriam insuficientes para atingir a verdadeira essência das coisas, uma vez que eles estão intimamente ligados ao mundo físico. Como exposto no mito da caverna, os sentidos nos permitem ver apenas reflexos distorcidos, imprecisos, da essência dos objetos. Para superar esta dificuldade em chegar à verdade, que consiste nas formas abstratas que habitam o mundo das ideias, devemos utilizar a razão.

O pensamento de Platão foi fundante para o pensamento inatista na medida em que pressupõe que a experiência, ao invés de revelar a essência das coisas, na verdade é um impeditivo para que ela seja revelada. O filósofo René Descartes (século VII) continua esta tradição e desenvolve a filosofia racionalista, propondo a reflexão como o único método confiável para se chegar à verdade. A partir de algumas vivências sobre a imprecisão dos sentidos, como as ilusões de ótica ou a sensação de dor que algumas pessoas declaravam sentir em membros amputados (Sternberg, 2000), Descartes concluiu que a imprecisão dos sentidos impede a postulação de um método filosófico baseado nos mesmos.

Esta corrente de pensamento perdurou durante séculos na civilização ocidental (e ainda continua influente) e inspirou a ideia determinista de que o indivíduo já nasce com o seu futuro pré-estabelecido. De acordo com Davis e Oliveira (1994) o pensamento inatista estaria alinhado com certos pressupostos teológicos, pois, sendo o homem uma criação divina, ele já teria suas possibilidades de desenvolvimento e o seu destino selados pela vontade divina.

Jean Jacques Rousseau (século XVIII) foi o mais conhecido defensor do inatismo na Europa. Rousseau via a criança como um ser dotado de bondade, pois teria sido criado a partir da imagem e semelhança de Deus (Davis e Oliveira, 1994). Ela já nasceria com uma capacidade inata de discernir entre o bem e mal, dotada de moralidade e impelida para o bem. Os desvios que afastam o ser humano desse caminho são explicados pelas contingências do ambiente. Por exemplo, a forte desigualdade social e o menosprezo da monarquia em relação

aos pobres estimularia o aumento da violência. Ou seja, o ambiente pode desvirtuar o percurso natural do homem, mas o caminho da bondade pode ser retomado, se as condições forem modificadas de maneira favorável à sua condição inata.

O pensamento de Rousseau teve forte impacto sociológico e educacional, o que certamente influenciou o pensamento a respeito da criança até os séculos seguintes. Palácios (2004) destaca a importância do filósofo francês para o histórico da Psicologia do Desenvolvimento (ou evolutiva, como a nomeia o referido autor):

A criança nasce com uma bondade natural e com um sentimento inato do que é certo e errado. Nasce também com um plano de desenvolvimento que, graças à maturação, irá dar lugar a diferentes estágios de desenvolvimento, cada um dos quais terá suas próprias características psicológicas e estabelecerá suas próprias necessidades educativas (p. 21)

Podemos observar neste fragmento que o autor destaca aspectos que são centrais para a Psicologia do Desenvolvimento, como o conceito de maturação e o princípio de que o desenvolvimento ocorre por meio de uma sucessão de estágios. Estas ideias estão presentes nas teorias clássicas do desenvolvimento, embora nem sempre de forma tão direta.

As filosofias de Platão, Descartes e Rousseau influenciaram o nascimento de uma psicologia ligada a pressupostos mais deterministas, que postulam um caminho de desenvolvimento planejado, do qual não há como um sujeito distanciar-se muito. Priorizam-se os fatores internos e a maturação ocupa um papel determinante no desenvolvimento.

Certamente muitos são os teóricos da psicologia que não incorporaram nem total nem parcialmente os pressupostos do inatismo. Pozo (2002), ao revisar o racionalismo nas teorias de aprendizagem, argumenta que Chomsky e Fodor estão entre os autores que se encaixam nesta posição teórica, ao defenderem que o conhecimento já está pré-formado. Pozo critica tais teóricos, afirmando que as aquisições de conhecimento acumuladas ao longo da história da humanidade constituem um forte argumento de que mudanças internas são inerentes à condição humana. Um racionalismo levado ao extremo seria, portanto, uma posição insustentável. Davis e Oliveira (1994) parecem concordar com Pozo, salientando que faltam bases empíricas que apoiem o racionalismo, uma vez que mesmo a vida intrauterina é marcada por certa experiência individual neste ambiente. O que estes dois autores criticam são as posições extremas desta corrente de pensamento, que negaria praticamente toda e qualquer influência do meio sobre o indivíduo. Se assumir a influência do ambiente, o pensamento racionalista enfrenta uma explicativa complicada, que seria determinar até que ponto o ambiente teria o poder de “transformar” a essência do homem ou mudar uma trajetória pré-determinada de desenvolvimento.

Partindo desse problema, as teorias psicológicas dificilmente se arriscam a assumir uma postura inatista mais radical, mas certamente incorporam certos elementos desta corrente filosófica. Chomsky (2009), por exemplo, acredita que nós temos uma programação inata para o desenvolvimento da linguagem, mas reconhece que o ambiente é fundamental para que esta mesma programação possa ser ativada. O caso do menino selvagem é bastante ilustrativo neste sentido. O ocorrido se deu no sul da França, no ano de 1799: um menino com aproximadamente 11 anos apareceu num povoado. Embora andasse ereto, seu comportamento era semelhante ao de um animal: fazia suas necessidades em qualquer lugar, emitia sons estridentes e incompreensíveis, etc. O menino, nomeado Victor de Aveyron, passou um tempo num orfanato local, realizou exames médicos e nenhum problema de saúde foi detectado. Posteriormente, o menino foi adotado pelo educador Jean Marc Gaspard Itard e analisado e tratado por diversos profissionais em Paris, na tentativa de desenvolver comportamentos mais “humanos”. Ao longo de seus aproximadamente 40 anos de vida, Victor aprendeu a vestir-se sozinho, fazer sua higiene pessoal e desenvolveu um repertório pequeno de palavras, mas, no entanto, não chegou a desenvolver a linguagem oral tal como a conhecemos.

Atualmente as pesquisas em Psicologia do Desenvolvimento têm demonstrado um crescente interesse pelos aspectos inatos da criança, para além das tradicionais pesquisas com reflexos e processos maturacionais, que apontam para uma forte influência da filogênese e da hereditariedade nos processos de desenvolvimento. Pinker (2004), por exemplo, é um autor que vem tratando deste tema em suas obras e argumenta que historicamente foi criado um tipo de “muralha” que segregou o estudo da natureza humana entre o biológico e o cultural, mas as novas teorias das ciências da mente, cérebro, genética e evolução favorecem o rompimento desta barreira. De acordo com o autor, a aproximação entre a base biológica e fenômenos socioculturais é a tendência que pode superar a dicotomia que se construiu entre estes dois campos de conhecimento ao longo do século XX. Ainda que os conhecimentos gerados nestas pesquisas não sustentem o nativismo puro, como será considerado posteriormente neste trabalho, eles certamente colocam em xeque alguns pressupostos fundamentais do paradigma que foi predominante na psicologia por mais de meio século: o empirismo radical.