Chapter 1. Introduction
1.1. Personal motivation for the study
de forma, reafirma seu intento inicial de trazer à luz as vicissitudes inerentes ao esquema hilemórfico. O passo seguinte do autor é mostrar que existem vários níveis de
forma no processo de individuação técnica, estando tais níveis presentes na própria matéria bruta singular – coisa que o hilemorfismo ignora ou perde. Há, por exemplo,
uma forma implícita em certo tronco de árvore a ser utilizado em uma obra em construção; um único tronco possui “uma hecceidade em sua totalidade e em cada uma de suas partes, até uma determinada escala de pequenez”, que o distingue de todos os demais troncos (Simondon, 2009, p. 68). Tal hecceidade significa que certo tronco “é reto ou curvo, quase cilíndrico ou regularmente cônico”, de modo que um tronco pode ser utilizado mais convenientemente para se fazer uma viga do que outro (p. 68)25. Há, então, em cada tronco, certas características que já se apresentam, segundo nosso autor, como características de forma, e que precisam ser levadas em conta na técnica de carpintaria.
25
Embora Simondon não nos dê qualquer explicação acerca da ocorrência do termo hecceidade em seus textos, diremos tratar-se do vocábulo haecceitas, criado por Duns Scott para designar a individualidade de uma coisa, diga-se, a “realidade última do ente” (Abbagnano, 2007, p. 496). Parece-nos que tal realidade última é, no caso do tronco de árvore considerado como indivíduo, uma propriedade ou característica material intrínseca deste tronco, pertencente só a ele e a nenhum outro, e que irá determinar a maneira pela qual ele será utilizado pelo obreiro.
Existe também, assevera Simondon, um segundo nível de forma implícita, ou de hecceidade, que aparece na hora em que o artesão elabora a matéria bruta. A serra mecânica corta a madeira sempre segundo um plano geométrico determinado, e o faz sem respeitar as ondulações das fibras da madeira individual; estas são, pois, as formas implícitas topológicas e não geométricas de tal madeira. Simondon frisa que, em alguns casos, o gesto técnico deve respeitar estas formas topológicas, caso contrário a matéria não se revelará suficientemente útil enquanto resultado do trabalho do artesão. No caso da madeira, o instrumento técnico que as respeita é aquele não geométrico ou não automático, ou seja, aquele impulsionado pela mão humana, mas que, no caso de se tratar de uma madeira, será dirigido pelas ondulações desta ou pelo sentido de suas fibras. Assim, explica Simondon que “saber utilizar uma ferramenta não é só ter adquirido a prática dos gestos necessários; é também saber reconhecer, através de sinais que chegam ao homem através da ferramenta, a forma implícita da matéria que se elabora, no lugar preciso em que a ferramenta acomete” (Simondon, 2009, pág. 69)26
. São estas formas implícitas que, segundo Simondon, possibilitam a informação inerente à operação técnica, uma vez que “modulam o gesto e dirigem parcialmente a ferramenta, em seu todo impulsionada pelo homem” (p.69). A forma técnica consegue, então, adaptar funcionalmente estas formas implícitas, mas não as cria. Dependendo do objetivo específico da operação técnica, é preciso cortar a madeira perpendicularmente às fibras, para tê-la porosa, assim como é preciso cortá-la longitudinalmente (paralelamente às fibras), para tê-la elástica e resistente (p. 71).
26
Tentemos explicar melhor a diferença entre o geométrico e o topológico, ainda considerando o caso da madeira. Geralmente um tronco de árvore tem uma forma cilíndrica (esta propriedade geométrica do tronco constitui o primeiro nível de forma implícita, segundo Simondon) e pode também ser compacto, maciço (sendo esta última não uma propriedade geométrica, e sim topológica, constituindo o segundo nível de forma implícita). Neste caso, para que este tronco me seja útil de alguma maneira, não devo, obviamente, tentar dobrá-lo ou torcê-lo; se tentar fazer isso, eu simplesmente o destruirei e o tornarei inútil. Por conseguinte, vejo-me obrigado a levar em conta não só suas propriedades geométricas (ou seja, o primeiro nível de forma implícita) mas também e sobretudo suas propriedades topológicas (o segundo nível de forma implícita) se quiser efetivamente utilizá-lo para algum fim.
Na visão de Simondon, o esquema hilemórfico não dá conta destas formas implícitas da matéria, confundindo-as com as chamadas qualidades exibidas por ela. Nosso autor, no entanto, vê estas formas como implicando “hecceidade no mais alto grau” (Simondon, 2009, p.72). Assim, as variações de porosidade da madeira – vale dizer, as formas implícitas elementares – não constituem uma dentre as qualidades que a madeira possui; a porosidade é, antes, uma maneira de informar sobre como se deverá lidar com ela segundo o modo como ela se apresenta em certo caso individual. Devemos, porém, deixar claro que Simondon não está fazendo uma afirmação de caráter antropológico, como se a natureza simplesmente se encarregasse de oferecer ao homem objetos variados e ao mesmo tempo informações acerca dos traços essenciais e da utilidade destes mesmos objetos. Diremos que é o contrário o que ocorre: em verdade, é o obreiro que, de tanto procurar,enfim encontra determinada propriedade (ou seja, a forma implícita) que faz com que aquele objeto individual lhe sirva para algum fim específico. As formas implícitas são, pois, aquelas que constituem a matéria enquanto ser já estruturado antes de toda elaboração; o que se verifica, com isso, é que “a operação técnica integra as formas implícitas em vez de impor uma forma totalmente estranha e nova a uma matéria que permaneceria passiva frente a tal forma” (p. 73). Esclareçamos que o termo “integrar”, no trecho citado, transmite a ideia de que a técnica é uma operação que sabe aproveitar ou utilizar, com vistas a algum fim prático, esta forma implícita encontrada. Simondon também supõe que a matéria elaborada pela primeira vez por mãos humanas não era uma matéria simplesmente bruta, mas por si “já estruturada a uma escala aproximada à escala das ferramentas” (p. 74). Em suma, Simondon quer chamar a atenção para alguns casos em que se verificam formas implícitas da própria matéria, as quais submetem ou orientam a operação técnica, ao passo que, no hilemorfismo, a forma é sempre e somente uma intenção fabricadora, que
não envelhece nem vem a ser; é algo genérico no sentido de que determina o mesmo procedimento para toda matéria, independentemente das formas implícitas que ela possua. Tudo isso possibilita ao autor reavaliar o esquema hilemórfico, de modo que se possa procurar nele um papel fundamental dado à singularidade, pois é esta a principal responsável pelo processo de informação ativa existente em cada operação técnica realizada. Esta singularidade é, pois, a do sistema, o que leva Simondon a defender que o princípio de individuação de fato não preexiste ao processo mesmo de individuação. O exame da operação técnica de aquisição de forma mostra que tal operação só ocorre se matéria e forma são unidas num sistema por meio de um estado ou condição energética de metaestabilidade (qual seja, a ressonância interna do sistema, fator indispensável em meio à atualização da energia potencial). O princípio de individuação é, neste caso, o estado energético total do sistema individuante.