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Chapter 1. Introduction

1.3 English as a global language

Entendemos que Simondon – ao menos na obra que tomamos como norte em nosso estudo – não nos fornece asserções explicativas claras (salvo em alguns poucos trechos) acerca do sentido que os conceitos de forma, informação e transdução possuem no interior de sua teoria da individuação. Estamos, pois, diante do caso em que o leitor só adquire a devida compreensão filosófica dos conceitos à medida que avança na leitura do texto; é somente enquanto seguimos as argumentações do filósofo que as acepções referidas vão se revelando. Atendendo, então, ao já anunciado objetivo central de nossa tese, vamos retomar o caso da fabricação do tijolo e explicitar, por ora no contexto da individuação técnica, os papeis que Simondon atribui aos conceitos de forma, informação e transdução.

Em primeiro lugar, vemos que a forma não é simplesmente descartada por Simondon; ao contrário, ela é relevante no processo técnico total, mas, frise-se, não enquanto elemento em si transcendente. Pode-se admitir que a forma do molde existe como ideia que antecede o processo de construção do artefato, mas é preciso recordar que, sendo o objeto de estudo do nosso autor a operação mesma de individuação

técnica, o elemento crucial em sua teoria é a realização efetiva da forma durante o

processo de fabricação. Expliquemos melhor: a forma não atua como forma pura, mas

como forma materializada, pois ela entra em cena constituindo, conforme vimos, uma das semi-cadeias do processo técnico, uma progressão da ideia ao molde construído. Assim, o que de fato verificamos é que o molde, durante o processo de fabricação, atua como limite, ao impedir, por meio de suas paredes, a expansão do barro em todas as direções. O molde (ou seja, a forma) tem aqui, mais precisamente, o papel de realizar a

modulação do barro durante o processo, não sendo este o caso de o molde simplesmente

dar forma à matéria; antes, a forma é, como vimos há pouco, creditada mais à própria

matéria do que ao molde.

Podemos ver, portanto, que a forma, longe de ser rejeitada, está fortemente presente na teoria, tendo, entretanto, um papel bem diferente daquele desempenhado no interior do esquema hilemórfico. Para Simondon, a forma não é simplesmente

concedida à matéria enquanto noção pura e antecedente; em vez disso, vemos que, na

dinâmica do processo de fabricação do artefato, a matéria toma forma segundo o molde. A forma é entendida, mais exatamente, como sendo o resultado efetivo do processo mesmo de individuação técnica; assim, podemos dizer que ela é efeito e não causa do processo total.

Percebemos também que Simondon, ao apresentar suas explicações acerca da

informação no processo técnico, simplesmente não considera crucial para tal a ideia de

emissão e recepção de mensagem; tampouco se vale da teoria da informação ligada à cibernética. O que Simondon efetivamente faz, no contexto de sua teoria da individuação, é conceber e apresentar a informação – que nada mais é aqui do que processo dinâmico de tomada de forma – enquanto noção a ser considerada, de um ponto de vista filosófico, mais conveniente que a de forma. Ora, a informação supõe a

existência de um sistema em estado de equilíbrio metastável capaz de individuar-se; já a forma aristotélica é por demais isolada e independente de qualquer noção de sistema e de metaestabilidade. Vale recordar, contudo, que no hilemorfismo o isolamento da forma é apenas conceitual, uma vez que a forma nunca está isolada da matéria ao considerarmos os entes naturais. O sinolo aristotélico, segundo nos aponta Reale (1990), “é o conjunto ou o todo constituído de matéria e forma” (1990, p. 184), e significa, portanto, a impossibilidade de se observar, na natureza, o isolamento tanto de um como de outro elemento; só abstratamente é possível separá-los, e ainda assim é necessária, para tal, nossa experiência ou observação dos indivíduos existentes. No que diz respeito à concepção de Simondon acerca da fabricação do tijolo, a informação significa tudo o que efetivamente ocorre no momento em que o tijolo é fabricado, e isso pressupõe necessariamente alguns fatores: não só matéria (o barro já desde a fase de sua preparação), como também, e principalmente, energia potencial, ressonância interna, a modulação do barro realizada pelas paredes do molde, as propriedades que o próprio barro exibe no instante em que é derramado no molde. Todos estes elementos, que Aristóteles simplesmente não considera em seu esquema hilemórfico (e ele sequer poderia fazê-lo, uma vez que não lhe era possível assimilar tais elementos no período em que fazia suas investigações), constituem, portanto, a noção simondoniana de informação, a qual significa, como já dissemos, uma renovação da noção de forma devido ao fato de abranger necessariamente o sistema completo de atualização da

energia potencial.

Em suma, para Simondon,

o princípio de individuação é uma operação. O que faz com que um ser seja ele mesmo, diferente de todos os demais, não é nem sua matéria nem sua forma, mas a operação

pela qual sua matéria adquire forma em um determinado sistema de ressonância interna (Simondon, 2009, p.61).

Notamos aqui outra vez a importância que Simondon atribui à ideia de relação – o ser individual, não sendo nem pura substância, nem simples termo de uma relação, é em si

mesmo um ser relacional, um ser que se forma segundo uma relação construída

dinamicamente entre forma e matéria; o indivíduo é “teatro e agente de uma relação; [...] teatro ou agente de uma comunicação interativa” (Simondon, 2009, p. 84). Fragozo (2012) entende que Simondon, em seu diálogo crítico com o hilemorfismo, encontra neste “realismo da relação” o ponto de partida epistemológico para repensar a técnica e o conceito mesmo de indivíduo:

na medida em que é a partir de uma concepção incompleta da técnica que se baseia o paradigma central da tradição filosófica, a saber, o hilemorfismo, é preciso não apenas proceder a uma „hermenêutica desconstrutiva‟ (conceito não simondoniano, mas que se aplica de modo exemplar no seu caso) dessa tradição, mas também propor uma outra concepção da técnica que leve justamente em consideração esta desconstrução. Daí a necessidade de novos conceitos fundamentais tais como „transdução‟, „transindividual‟, „individuação‟ e „realismo das relações‟, este último sendo [...] o „núcleo epistemológico‟ desta reforma conceitual que vai se opor diretamente ao conceito de „substância‟ na medida em que Simondon pensa o indivíduo como „ser em relação‟, doravante „dessubstancializado‟ (Fragozo, 2012, p. 524)28

.

28Barthélémy (2005b), seguindo essa mesma perspectiva, assinala que, no pensamento de Simondon, “o

sentido profundo da ontogênese consiste em dissociar substancialsimo e realismo ao fundar a realidade do real e a individualidade do indivíduo sobre a relação” (2005b, p. 100). Citemos ainda uma vez Fragozo (2012), que salienta que “o indivído, para Simondon, é real, mas não é substancial: ele é relação” (2012, p.524).

A operação técnica de tomada de forma, no entanto, não se estende, segundo Simondon, à gênese de todos os seres. Ela é feita em um tempo curto, e o ser resultante é um ser relativamente estável, cuja hecceidade (seu caráter único) deve-se a esta operação enquanto única. O que resta deste processo é, pois, uma rigorosa separação entre a operação e o indivíduo, ou, nas palavras de Simondon, “uma certa exterioridade da operação de individuação em relação a seu resultado” (Simondon, 2009, p. 62); exterioridade que se traduz no fato de o artefato individual, após o término do processo de tomada de forma, ir se degradando com o passar do tempo. A noção de transdução, por conseguinte, não desempenha qualquer papel aqui, sendo certamente este o principal motivo pelo qual Simondon não considera a fabricação técnica como paradigma da individuação. De fato, a transdução não significa separação entre operação individuante e indivíduo, mas, ao contrário, continuidade, prosseguimento indefinido da operação de individuação, coisa que, como vemos, não ocorre com o artefato; a transdução implica, em outros termos, “conservação do ser” (p. 87). No caso do vivente, a operação de individuação não é única ou completa, pois ele carrega consigo seu próprio princípio de individuação, o que o permite individuar-se continuamente. Nesse sentido, o devir do ser vivo é permanentemente um devir entre duas individuações, estando o individuante (o sistema em que se verifica a operação mesma de individuação) e o individuado (o próprio ser vivo) em uma “relação

alagmática prolongada” (p. 62; grifo nosso). No caso do objeto técnico, ao contrário, a

operação alagmática só existe num instante, enquanto a matéria toma forma através da atualização da energia potencial. No que concerne ao ser vivo, a operação de individuação (ela mesma o princípio individuante), não só gera como afeta permanentemente a estrutura (o próprio ser vivo individuado), tornando-a o ponto de partida de uma nova operação estruturante. O ser vivo, assevera Simondon, “assim que

é iniciado, continua individuando-se ele mesmo; é ao mesmo tempo sistema individuante e resultado parcial de individuação” (Simondon, 2009, p. 63). Quer isto dizer que há nele um regime de ressonância interna permanente, constituinte da unidade orgânica (o resultado de uma individuação se converte no princípio de outra, havendo, pois, uma sucessão temporal de individuações). Dão-se, pois, sempre novas condições de individuação, numa operação de “ontogênese sustentada pela memória” (p. 63)29.

A individuação estaria, então, melhor assinalada no domínio do vivente do que em todos os demais? É na ontogênese do vivo que Simondon encontra o paradigma da individuação? De fato, não. É ainda no âmbito físico que o autor localiza “processos de formação natural [...] que a natureza apresenta fora do reino definido como vivente”, nos quais se percebe claramente a presença de um princípio individuante e de um mais duradouro “papel desempenhado na aquisição de forma pelas condições energéticas” (p. 63). Veremos, pois, no capítulo seguinte, que o caso em que se dá a passagem da massa amorfa para o indivíduo estruturado, isto é, cristalizado, não só é considerado o modelo da individuação física propriamente dita, como é ainda o caso eleito por Simondon como o verdadeiro paradigma da individuação em geral30.

29

O importante papel da memória na ontogênese do vivente será por nós explicitado no último capítulo da tese, no qual avaliamos o modo como Simondon concebe a individuação biológica.

30

Combes (2013) entende que Simondon toma como paradigma para o estudo da individuação tanto o conhecimento que as ciências físicas nos proporcionam quanto os indivíduos físicos eles mesmos, em específico o processo por meio do qual estes últimos são constituídos. No caso de a cristalização ser tomada por Simondon como instância de um paradigma físico, explica Combes que “tal indiscernibilidade entre níveis epistemológicos e ontológicos, evidente nas formulações do autor para explicar sua escolha do paradigma físico, não deriva de uma falta de rigor. Antes, ela se segue da escolha do processo de constituição do indivíduo físico (...) como paradigma da individuação, o que significa necessariamente depender de descrições existentes de individuações exemplares. Eis porque o estudo da individuação, tomando a operação constituinte do indivíduo físico por sua operação paradigmática, reivindica „traçar seu paradigma a partir das ciências físicas‟, cujo critério de validade é constituído „através do progresso de uma experiência construtiva‟ (IG, 257; IL, 555)” (Combes, 2013, p. 13).As obras de Simondon a que Combes se refere nesta citação são: IG- L’individu et as gênese physico-biologique, Presses Universitaires de France, 1964; Éditions Jérôme Millon, 1995, e IL- L’individuation à la lumière dês notions de forme et d’information, Éditions Jérôme Millon, 2005.

Capítulo IV

O paradigma da individuação cristalina e a individualidade das partículas físicas