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Chapter 3. Literature review

3.2 Identity

Vamos acompanhar, a partir desta seção,o modo como Simondon aborda o problema dos níveis de individualidade no campo vital. Esta abordagem é importante, pois deixa definitivamente claro o quão distante está o autor do velho risco de se considerar o indivíduo como um absoluto ou como substância. Nosso filósofo primeiramente ressalta que o conceito de indivíduo biológico pressupõe a ideia de organização, o que o faz recorrer, primeiramente, à noção de integração dos sistemas viventes, propriedade esta que pode, segundo ele, existir de duas maneiras: ou no interior de cada ser vivo ou através da relação orgânica entre vários seres. Neste último caso, a integração é predominantemente externa, sendo, então, o grupo o fator integrador. Destaca Simondon que a única realidade concreta no estudo do vivente é a unidade do sistema vital, que pode, em certos casos, reduzir-se a um só ser, e em outros, corresponder a um grupo de seres (Simondon, 2009, p. 230). O exemplo dado para este último caso é o das térmitas, que constroem “os edifícios mais complexos do reino animal”, e que, ao atuarem em conjunto, agem como se fossem partes constituintes de um único ser vivo (p. 230).

Para Simondon, se um ser possui um alto nível de organização, isto se dá devido ao fato de que ele integra elementos já disponíveis na natureza, o que significa que a individualidade não pode ser considerada como produto exclusivo da atividade do vivente (p.233). A integração interna de um ser só é possível devido à relação que existe entre os meios externo e interno (p. 233). Em se tratando de um grupo (como no caso da

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Falaremos mais detalhadamente sobre o que ocorre na ontogênese a partir destas disparidades cromossômicas logo mais, nas seções V e VI deste capítulo.

colônia), tal intercâmbio integra e diferencia ao mesmo tempo os “subindivíduos” que o compõem (Simondon, 2009, p. 233). A informação se mede, neste contexto, pela relação entre integração e diferenciação no vivente, que é o que Simondon chama aqui de transdução. Mas é preciso ainda que esteja presente neste processo a ressonância interna, pois sem ela a vida mesma não seria possível. Tal ressonância significa basicamente “o acoplamento de termos não simétricos, que ocorre dentro de um sistema em via de individuação, como o que se dá entre a solução e o germe cristalino” (p.234). Acrescenta Simondon, na descrição que faz desta ressonância interna, que a integração em questão corresponderia, em termos psicológicos, à “representação” entendida como armazenamento de informação segundo as circunstâncias; já a diferenciação corresponderia, por seu turno, a uma “atividade que distribui no tempo energias adquiridas e armazenadas progressivamente” (p.234).

Existem, no entanto, processos de integração e diferenciação que ocorrem nos limites externos do vivente, e que caracterizam a já referida relação do ser com o mundo ao redor, ou com o grupo a que pertence enquanto indivíduo. Eles podem, por isso, ser relativamente independentes da diferenciação e da integração que se dão em seu interior. A palavra “relativamente”, no entanto, mostra que pode haver também conexão entre os dois modos de integração. Vejamos um exemplo: se a integração externa, envolvendo “intercâmbio de informação ou de energia com o exterior”, tiver relação com algum constante esforço físico realizado por um mamífero, poderá, então, ser responsável por transformações importantes em seu corpo, ou por radicais “mudanças de estrutura do conjunto” (p. 235). Mas o esforço possui também aspectos afetivos, o que certamente afetará as relações que este animal mantém com o grupo a que pertence: poderão ocorrer disputas ou ações altruístas, entre outros tipos de conduta.

Outro fator importante que nosso autor leva em conta é a homeostase, que tem, segundo ele, relação com as condições externas de transdução, graças às quais o ser individual chega a produzir uma equivalência de si mesmo com estas mesmas condições, fato este que facilita a transdução interna. É fácil notar que nem sempre Simondon utiliza exemplos para facilitar a compreensão de suas afirmações. No presente contexto, entendemos que este esforço do organismo de chegar a uma “equivalência com as condições do meio” poderia ser ilustrado com o caso de alguns répteis que, logo de manhã, são vistos sobre pedras aquecidas pelo sol a fim de elevar sua temperatura corporal. Este procedimento pode facilitar a regulação homeostática, a qual, segundo o filósofo, caracteriza a vida enquanto “equilíbrio entre a integração e a diferenciação” (Simondon, 2009, p. 235). A transdução externa é, dessa forma, viabilizada, dependendo sobretudo da vida singular do indivíduo, mais exatamente da relação entre as tendências orgânicas e as qualidades dos objetos ou situações que o vivente descobre ou encontra no ambiente.

Devemos também destacar a visão de Simondon segundo a qual, na individuação vital, a primeira de todas as transdutividades é a do tempo, o qual, em vez de ser fragmentado em instantes, deve ser captado como continuidade. A transdução do vivente, enquanto atividade reguladora, é uma operação temporal e contínua. Ao mesmo tempo em que um instante é diferente daquele que lhe sucede ou do que lhe antecede, ele está indissoluvelmente ligado a eles; é contínuo em relação a eles, de modo que distinção e continuidade são dois aspectos complementares do mesmo tipo de realidade.

Assim, “o tipo fundamental de transdução vital é a série temporal, ao mesmo tempo integradora e diferenciadora; a identidade do ser vivente é feita de sua temporalidade” (p. 239), sendo a vida individual em si um processo que abrange a diferenciação e a integração numa relação de complementaridade. Nesta operação, sempre resta junto ao

indivíduo constituído, associado a ele, uma determinada carga de realidade pré-

individual, que Simondon chama de “natureza associada”, e que é sempre rica em

potenciais e forças organizáveis (Simondon, 2009, p. 243). Tal natureza nunca é, em si, recortada como o são os indivíduos viventes, significando isto que ela não possui limites comparáveis aos deles; seu papel é viabilizar a individuação, a qual, por sua vez, justamente graças a esta natureza associada e rica em potenciais, resulta em estruturas e funções vitais. Há, pois, uma relação que não é simplesmente a de matéria e forma, mas que é transdutiva, que avança de individuação em individuação, levando o indivíduo a ultrapassar-se continuamente.

Tentemos oferecer uma ideia mais clara deste resíduo ou carga pré-individual que o organismo vivo leva permanentemente consigo. Ora, enquanto dura a vida, a individuação é viabilizada por esta carga, a qual pode, então, ser definida como um estado: trata-se da tensão característica do ser pré-individual, do estado de equilíbrio metaestável constituinte do pré-individual, da incompatibilidade rica em potenciais que já existe na totalidade pré-individual, através da qual ocorre o desfasar-se do ser. O crescimento do cristal também pressupõe esta tensão, esta incompatibilidade; é por meio dela que o cristal continua individuando-se. No nível físico, como no vital, portanto, não é possível a continuidade da individuação sem metaestabilidade, sem a incompatibilidade do indivíduo consigo mesmo: eis a presença do pré-individual no cristal e no vivente, ou, como Simondon prefere dizer, da carga pré-individual, que garante o prosseguimento das individuações física e biológica.