Chapter 3. Literature review
3.1 Capital
3.1.3 Language(s) acquisition and social capital
A teoria da individuação biológica de Simondon tem sido poucas vezes examinada pelos estudiosos do autor. No decorrer de nossa pesquisa, não encontramos quase material algum dedicado exclusivamente ao assunto. Em sua maioria, as abordagens são um tanto breves, todas contidas em artigos cujo principal objetivo é discutir a filosofia da técnica de Simondon (como é o caso, por exemplo, de Vaccari (2010) e Lopes (2015)). Pensamos que tais abordagens podem causar a impressão de que o estudo de Simondon sobre o vivente é meramente um apoio contextual à sua teoria do objeto técnico. Na verdade, tal estudo resulta, e mostraremos isso a partir de agora, em uma contribuição decisiva à ideia segundo a qual a noção de indivíduo se define exclusivamente por meio do processo de individuação.
Começaremos este capítulo com a constatação de que a exposição que Simondon faz de sua teoria da individuação biológica é bastante longa, tomando ela boa parte de O indivíduo e sua gênese físico-biológica. É importante também frisarmos que não encontramos, nesta obra, uma teoria detalhada sobre a geração dos seres vivos ou sobre a origem da vida; nosso autor apenas localiza a passagem do não vivo para o vivo (como vimos no final do item quarto do capítulo anterior), sem, no entanto, explicar exatamente como ela se dá. Em seu estudo, o que Simondon efetivamente nos oferece é um modelo ontogenético (e ontológico) geral dos seres vivos, vale dizer, uma descrição – tão abstrata quanto a aplicada ao indivíduo puramente físico – das etapas de formação do indivíduo biológico. Antes, porém, de tratarmos deste modelo, devemos nos deter
por um momento em mais alguns pormenores da hipótese de Simondon a respeito da transição da matéria inerte para o ser vivo. Feito isso, precisaremos ainda acompanhar a maneira como o autor, buscando um ponto de referência para sua teoria da individuação vital, enfrenta o caráter flutuante da individualidade biológica.
Cabe primeiramente observar que Simondon, ao extrair das ciências físicas o paradigma da individuação, e ao transportá-lo para o domínio do vivente, não está com isso efetuando uma redução do vital ao físico:
de nenhum modo pretendemos dizer que a individuação física produz a individuação vital: queremos dizer somente que a realidade não torna explícita e desenvolvida todas as etapas possíveis da operação no sistema físico de individuação, e que resta ainda no ente real fisicamente individuado uma disponibilidade para uma individuação vital ulterior sem que sua individuação física seja dissolvida (Simondon, 2009, p. 475).
Simondon quer, pois, pensar a individuação física como sendo condição da individuação vital sem ser, no entanto, jamais sua causa. Há, para ele, uma transformação de um modo de individuação para o outro, mais exatamente uma mudança no grau de organização do campo físico para o vital. Para o autor,
a individuação física é a resolução de um primeiro problema em curso, e a individuação vital se insere nela, como resultado de uma nova problemática; existe uma problemática pré-física e uma problemática pré-vital; a individuação física e a individuação vital são modos de resoluções, e não pontos de partida absolutos (Simondon, 2009, p. 475-6).
O domínio físico é, para Simondon, suporte de estruturas e de funções que descansam sobre caracteres não viventes, mas que depois amplificam estes mesmos caracteres,
tornando-os mais complexos, o que faz surgir o domínio vital. Também existe, segundo o autor, “um domínio do conhecimento do físico e um domínio do conhecimento do vivente; mas não existe, de igual modo, um domínio real do físico e um domínio real do vivente, separados por alguma fronteira igualmente real” (Simondon, 2009, p. 481-2). Vida e matéria inerte seriam o resultado de dois modos de individuação de uma mesma realidade pré-vital e pré-física. A partir de tal realidade, “uma individuação rápida e iterativa dá à luz uma realidade física; uma individuação [...] progressivamente organizada dá à luz o vivente” (p. 482).
Por conseguinte, caso seja válida a hipótese de que há intercâmbios entre sistemas físicos e biológicos, ela implica a possibilidade de o vivente aparecer, como já indicado no capítulo anterior, enquanto uma suspensão do desenvolvimento do ser físico. Neste ponto, Simondon supõe que as ordens biológicas elementares contêm “uma organização que é da mesma ordem que a que encerram os sistemas físicos mais perfeitamente individuados, como por exemplo aqueles que engendram os cristais, ou as grandes moléculas metaestáveis da química orgânica” (p. 232). A importância desta hipótese de pesquisa permite, segundo o filósofo, abandonar o hábito de se considerar que os seres vivos não poderiam provir dos entes puramente físicos, já que seriam superiores a estes últimos “graças à sua organização” (p. 232). Explica o autor que, segundo esta visão, é como se a natureza inerte não pudesse exibir ou conter uma organização elevada. A postura a se adotar é, então, a de evitar esta desvalorização do mundo inerte ou puramente físico, passando-se a admitir que ele já possa conter em si este último modo de organização. Simondon quer, pois, sugerir que a organização se
transforma na passagem da matéria inerte para a vida (p. 232); ou seja, o mundo físico
como aquilo que contém “sistemas nos quais existem energias potenciais e relações, que são os suportes da informação” (Simondon, 2009, p. 232).
Chabot (2003) nos ajuda a perceber melhor as diferenças entre a perspectiva simondoniana e o materialismo: explica Chabot que existe, na visão de Simondon,“uma conexão entre a realidade física e a realidade biológica, mas que as duas não são idênticas em sua natureza. O materialismo espera que as duas sejam idênticas” (2003, p.92). As classificações feitas por Simondon das realidades física e biológica “baseiam- se nos tipos de processos de informação a que o sistema está sujeito no decurso de sua individuação. Os processos de informação podem incluir propriedades ativas, sistemas, ou os processos de organização que agem sobre a matéria (polaridades)” (2003, p. 92). Ou seja, a noção de processo é o cerne da filosofia de Simondon, enquanto o postulado do materialismo é, por outro lado, o da redução dos sistemas vivos à simples matéria. Simondon, pois, rechaça tal postulado não apenas porque ele “leva à ideia de que o mundo físico consiste inteiramente de matéria, a qual é substância” (2003, p. 92), mas sobretudo porque este substancialismo priva a matéria de “tudo o que poderia ser explicado por individuação física, energias e relações potenciais (2003, p. 92). Em outros termos, o materialismo simplesmente desconsidera a informação (as condições para o surgimento do indivíduo).
Outra particularidade do materialismo, segundo Chabot, é que ele “só leva a informação em conta quando considera os últimos estágios na evolução das espécies. O materialismo valoriza essas etapas mais „avançadas‟, desvalorizando a organização da matéria inerte” (2003, p. 93). Para o materialismo, a matéria não é ricamente organizada, e o superior pode apenas emergir do inferior. Simondon, entretanto, entende que a matéria inerte também pode organizar-se, o que afasta a ideia de uma ruptura radical entre as duas realidades. O fato mesmo de que existem grandes moléculas cuja
organização é comparável à das formas vivas mais elementares revela que a vida não é uma substância em si distinta da matéria. “Apenas estruturas físicas podem servir de base para os processos de integração e diferenciação” (Chabot, 2003, p. 93).
François Jacob, por sua vez, em La logique du vivant (1970), nos dá uma interessante explicação sobre o paralelo que Erwin Schrödinger, em seu conhecido livro
What is Life (1943), estabelece entre cromossomos e cristais: sabe-se que o cromossomo
contém em si todo o padrão do desenvolvimento futuro do indivíduo e do seu funcionamento na maturidade. A este respeito, o cromossomo não é diferente do cristal, uma vez que este último também se desenvolve a partir de certa configuração contida no germe cristalino. Mas o que diferencia, então, a ontogênese vital da cristalização? Vale a pena acompanhar a seguinte passagem de Jacob sobre a ideia de Schrödinger:
Por razões de estabilidade, a organização da vida torna-se semelhante à de um cristal. Não se trata da estrutura cristalina um tanto maçante e monótona onde se repete uma única configuração química outra vez e outra, com os mesmos intervalos periódicos em três dimensões. Trata-se do que os físicos chamam de um „cristal aperiódico‟, no qual a disposição de configurações não repetitivas cria a variedade necessária em que se apoia a diversidade dos seres vivos (Jacob, 1970, p.274).
Percebemos, com base nestas declarações, que os termos de comparação são muito semelhantes em Schrödinger e Simondon. Mas Simondon, conforme salientaremos logo mais neste capítulo, não está preocupado com o código em miniatura que o cromossomo contém. Em vez disso, nosso autor utiliza o caso do cristal para enfatizar que a entidade viva é um “agente de individuação”, cuja atividade intrínseca é a principal responsável
pela integração e pela diferenciação que se dão a partir das disparidades cromossômicas42.