• Aucun résultat trouvé

Chapter 3. Literature review

3.3 Motivation and investment

Mostrando-se ainda preocupado com os meios pelos quais se pode definir a individualidade do vivente, Simondon procura verificar se a noção de indivíduo

biológico possui ou não um caráter unívoco, e notamos que, em seu estudo, em vez de buscar referências em meio às descobertas no campo da biologia molecular, o autor insiste em falar de esponjas, algas, e em especial sobre a formação das colônias. Assim, reafirma Simondon que é possível existir vida não apenas em um indivíduo, como também em um conjunto, sem que, neste caso, os indivíduos integrantes estejam separados anatômica e fisiologicamente. Chabot (2003), referindo-se à teoria da individuação biológica de Simondon, nos conta que “a Grande Barreira de Coral na Austrália é de 2400 km. Ela é por vezes considerada a maior forma de vida na terra” (2003, p. 91). E então, pergunta: “mas é um indivíduo?” (p. 91). Encontramos a resposta no exame de Simondon, que começa por observar que “em certas formações de

colônias, os indivíduos manifestam uma diferenciação que de certa maneira chega a fazer deles verdadeiros órgãos: uns têm um papel nutritivo, outros um papel defensivo, outros um papel sexual” (Simondon, 2009, p. 246). Mas nosso autor destaca também algo como um resíduo de individualidade nestes seres diferenciados; nota-se que não há sincronismo nos nascimentos e nas mortes destes indivíduos ou “órgãos”, o que gera dificuldade em se considerar a própria colônia como sendo um indivíduo. De fato, ao salientar que tais partes importantes de uma colônia (equivalentes a órgãos) podem morrer, sem que, no entanto, a colônia pereça, Simondon quer fazer notar, antes de tudo, que a colônia, em seu todo, não é um ser individual. O autor, neste contexto, tenta deixar claro que o meio pelo qual se pode chegar a reconhecer a individualidade biológica é a possibilidade de vida separada, ou seja, de “migração para fora da unidade biológica primeira” (p. 247). Ora, em certos casos, pode ocorrer que uma parte individual se solte e se afaste da colônia, chegando a botar ovos logo após certo período de vida independente. O que se verifica, a seguir, é a fundação, a partir desta parte individual, de uma nova colônia por brotamento de um indivíduo-matriz saído de um

ovo. Simondon mostra que a individualidade corresponde, neste caso específico, a este fragmento, que, compreendido entre uma colônia e outra, realiza um papel de propagação transdutiva: “emana, em seu nascimento, de uma colônia, e antes de sua morte engendra o ponto de partida de uma colônia nova” (Simondon, 2009, p. 248). O indivíduo em tal situação não é considerado parte de uma colônia, já que se encontra inserido entre duas colônias sem estar integrado a nenhuma: “seu nascimento e seu fim se equilibram na medida em que emana de uma comunidade e engendra outra” (p. 248). O indivíduo, portanto, revela-se possuidor uma natureza relacional, ele é transdução amplificadora.

Segundo Simondon, no caso em que se tem um indivíduo vivo independente e altamente diferenciado, o que encontramos é uma combinação, já que este indivíduo contém em si próprio um duplo caráter: “o caráter de pura individualidade, comparável ao que atua na relação entre duas colônias, e o caráter de vida contínua, que corresponde à função de simultaneidade organizada, tal como a vemos atuar em uma colônia” (p. 248). O indivíduo biológico, portanto, além de poder ser tratado como “um ser particular, parcelar, membro atual de uma espécie, fragmento atualmente solto ou não de uma colônia”, é também um ser que, devido à sua capacidade de propagar-se de modo transdutivo, é apto a “transmitir a vida da espécie, pois é um depositário de caracteres específicos” (p. 252). No primeiro sentido, “o indivíduo possui uma estrutura que lhe permite crescer; é polarizado no interior de si mesmo, e sua organização lhe permite incorporar matéria alimentícia” (p. 253). Ele possui também “certo esquema corporal segundo o qual cresce por diferenciação e especialização, que determinam as partes no curso de seu crescimento progressivo a partir do ovo ou do broto primitivo” (p. 253). Este esquema exige, para ser compreendido, o pressuposto segundo o qual, desde a segmentação do ovo, intervenha uma capacidade de organização e de

determinação que desemboque na produção dos diferentes órgãos do ser (Simondon, 2009, p. 253). Simondon frisa que esta aptidão não pode ser confundida com a capacidade de “produção exterior de outros seres, por brotamento ou por reprodução sexuada”, e recorda o caso de certas células, que podem tanto regenerar o organismo particular ao qual pertencem quanto engendrar outras células a partir de si (p. 253). O autor observa que há, neste caso, uma diferença de orientação que intervém para que ocorra ora a regeneração, ora a reprodução, sendo este, aliás, o critério que permite

distinguir a pré-individualidade da individualidade no nível do vivente. Ora, existe,

segundo Simondon, um sistema vital de nível inferior, uma “vida pré-individual pura, na qual as funções somáticas e germinativas não são distintas, como em certos protozoários e, em parte, nos espongiários” (p. 255); tal fato o leva a afirmar que só na individualidade propriamente dita é que estas funções se encontram diferenciadas. Em uma organização vital simples, estas funções são antagônicas, podendo ser cumpridas apenas sucessivamente; mas quando o indivíduo é bastante desenvolvido, dá-se o cumprimento simultâneo de ambas as funções, graças a uma separação completa das operações relativas a cada uma. Nas espécies totalmente individualizadas, a organização e a reprodução estão reunidas no mesmo ser, de modo que “funções somáticas e germinativas se encontram compatibilizadas na existência individual” (p. 255). O indivíduo vivo constitui-se, por conseguinte, como sistema de compatibilização destas funções, que correspondem, uma, à integração orgânica, e a outra, “à atividade amplificadora do indivíduo através da qual transmite a vida engendrando filhos” (p. 255). Este sistema de compatibilidade entre crescimento e reprodução só se revela plenamente em um indivíduo biológico mais complexo, no qual estas distintas funções guardam entre si uma relação de interdependência tal que sua separação implicaria na dissolução da própria natureza do indivíduo.

Ao discutir especificamente a reprodução, Simondon dá especial atenção aos estudos do zoólogo Étienne Rabaud (1868 – 1956) e à interpretação que este autor oferece do fenômeno em questão. Dentre os inúmeros casos observados por este zoólogo, Simondon destaca, por exemplo, o da hidra: verifica-se que cada um de seus tentáculos, quando separado do corpo original, é capaz de produzir outra hidra semelhante à primeira, e isso se aplica também a cada um dos fragmentos de seus tentáculos. Se um fragmento, em certo local, sofre isoladamente algum tipo de mudança, por menor que seja, então a hidra que se forma a partir deste fragmento será portadora de uma nova disposição, enquanto os outros fragmentos separados e não modificados “seguramente produzirão crias inteiramente comparáveis à hidra original” (Rabaud apud Simondon, 2009, p. 266)43. Assim, cada tentáculo, ou cada fragmento seu, desempenha o papel de germe, sendo por isso chamado por Rabaud de substância hereditária. Uma das proposições de Rabaud que Simondon destaca é a de que toda reprodução é uma regeneração. Para Rabaud, a reprodução se verifica, no caso da hidra, em todas as partes do indivíduo; o processo de regeneração se dá a partir de qualquer fragmento (o tamanho deste não compromete minimamente o processo), já que o indivíduo é, conforme entende o zoólogo, substância hereditária por inteiro (Simondon, 2009, p. 266). Estes estudos de Rabaud trazem resultados úteis para a teoria de Simondon: a regeneração passa a ser muito importante para a noção de indivíduo, tornando-se, na visão de nosso filósofo, o modo fundamental de amplificação vital. Consequentemente, é no próprio indivíduo biológico que reside, indivisa e completa, a capacidade de reproduzir-se. O poder de regeneração do indivíduo, princípio de reprodução, é a base do processo de amplificação (transdução) que os fenômenos vitais manifestam (p. 267).

43

A obra de Rabaud de que Simondon extrai esta passagem é Zoologie biologique (1934). Nosso autor, no entanto, não nos dá informações sobre qual edição da obra ele consultou.

Simondon, no longo exame que faz da reprodução, enfrenta notáveis dificuldades quanto a se conseguir apontar ou identificar, em inúmeros casos concretos, as características basilares da individualidade biológica. Dentre os casos trazidos, relevaremos aquele em que, segundo nos parece, resulta mais claro este tipo de empecilho: trata-se, pois, da esponja, que se ramifica sem que, no entanto, tais ramificações equivalham cada uma a um broto; todas elas permanecem em completa continuidade com a massa total da esponja (segundo o autor, nenhum elemento dela possui autonomia, sendo todos eles homogêneos). A aparição de novas partes não traz consigo uma diferenciação apreciável, e se, por outro lado, se subtrai uma parte desta esponja, não se tem uma mutilação, mas simples diminuição da matéria vivente. Há aqui uma ausência de estrutura, que não permite dar ao todo o nome de indivíduo mais do que às suas partes (Simondon, 2009, p. 275); o caso, portanto, parece ser aquele em que o todo não é mais do que a soma das partes. É possível, entretanto, detectar uma individualidade relativa do todo, pois, segundo Simondon, ele orienta, de modo rudimentar, a gênese das partes: estas “não chegam absolutamente ao azar em relação às antigas, mas segundo certas direções de crescimento privilegiadas” (p. 275). Simondon, contudo, diz que os estudos aos quais teve acesso não são suficientes para se chegar a afirmações seguras acerca da natureza desta atuação do todo sobre as partes. O conjunto, então, não resulta numa organização complexa, mas numa certa ordenação ligada a um “primeiro grau de individuação, antes do qual só há pura continuidade” (p. 276). Aqui, a ligeira subordinação da geração das partes à disposição do todo chega a constituir “um esboço de estrutura” (p. 276), revelando, pois, um estado em que a individualidade se mostra ainda tênue. No caso, o todo mostra-se como inibidor ou acelerador do crescimento das partes, dominando, assim, a reprodução em seu interior, e neste ponto Simondon lamenta o fato de não se conhecer suficientemente a gênese das

formas vivas para se ter ideia clara do agente que exerce a aceleração e a inibição no crescimento de um indivíduo.