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Chapter 4. Methodology

4.5 Data analysis procedure

Simondon assinala que a homeostase não basta para alcançarmos uma compreensão suficiente da ontogênese do ser vivo. A representação da homeostase como significando a autoregulação de um perpétuo equilíbrio metaestável pode aplicar- se muito bem, segundo o autor, a um ser já adulto que luta para manter-se vivo, mas para pensarmos a formação mesma de um indivíduo é preciso, antes de mais nada, conceber a ontogênese enquanto algo estreitamente relacionado a uma “problemática interna do ser” (Simondon, 2009, p. 303). Neste quadro, o indivíduo resolve “problemas” relacionados à sua formação através da estrutura e da função. O indivíduo jovem é um sistema portador de informação, contendo pares de elementos antitéticos que sua unidade precária (portadora de ressonância interna) mantém ligados. Para Simondon, o equilíbrio metaestável do vivente é a homeostase, vista como um princípio de coesão que liga por comunicação estes domínios díspares. Dessa forma, o desenvolvimento de um indivíduo é uma invenção de funções e estruturas que resolvem, etapa por etapa, a problemática interna (e que constituem, portanto, individuações parciais que o autor chama de etapas de amplificação). Estas individuações significam cada qual a solução de estados problemáticos imediatamente anteriores; tais resoluções, no entanto,não eliminam as tensões do ser, o que faz com que a forma orgânica esteja sempre em construção. Assim, a forma faz-se ou constroi-se a si própria, não sendo ela mesma algo já totalmente pré-estabelecido: ela incorpora a disparidade anterior em uma unidade sistemática de estruturas e funções. Só a morte significaria a eliminação de tais

disparidades ou tensões, mas de nenhum modo a solução destas tensões; a morte em si não é solução de coisa alguma. A individuação conserva, num sistema de estruturas e funções, as tensões em equilíbrio metaestável, sem nunca as anular atingindo a estabilidade. Segundo Simondon, o indivíduo vivo permanece coeso na medida em que há tensões internas: “a ressonância interna do ser é tensão da metaestabilidade” (Simondon, 2009, p. 304). A individuação descobre um sistema de estruturas e de funções no interior do qual as tensões se tornam compatíveis. Com isso, a tensão entre as determinações díspares (disparidades internas que se dão durante a formação mesmado organismo vivo) torna-se significativa pelo descobrimento de um conjunto estrutural e funcional mais elevado. Para o autor, “a ontogênese é uma problemática perpetuada, que se atualiza de resolução em resolução até a estabilidade completa que é a da forma adulta” (p. 304).

O amadurecimento de um ser vivo não acontece, explica o filósofo, envolvendo todas as funções e estruturas ao mesmo tempo. As vias da ontogênese não são simultâneas, de modo que, às vezes, uma alternância de atividade faz com que o processo de crescimento afete primeiramente um conjunto de funções, depois outro, e assim por diante. As tensões experimentadas pelo ser vivo devem, portanto, ser resolvidas sucessivamente, sendo esta capacidade de solução vista como um “funcionamento do ser sobre si mesmo” (p. 305). O desenvolvimento de um ser vivo dá-se através de um esquema de diferenciação e de integração auto-regulador, no qual “a resolução dos problemas que o indivíduo traz consigo se dá segundo um processo de amplificação construtiva” (p. 306). Segundo Simondon, esta amplificação é verificada quando, por exemplo, uma larva se torna ninfa, seno este um processo no qual a solução das tensões acarreta a transformação do indivíduo, sem que sua individualidade se perca.

Vale destacar a referência que Simondon faz à teoria de Wrinch47a respeito da estrutura cromossômica, a qual ajuda a explicar melhor a ontogênese como solução de problemas internos. Simondon afirma que, de acordo com Wrinch, “o cromossomo é uma estrutura constituída por dois elementos: largos filamentos de moléculas de proteína idênticas, dispostas paralelamente, e rodeadas de grupos de moléculas de ácido nucleico ciclizadas, tudo entrelaçado como em uma trama” (Simondon, 2009, p. 307). Simondon identifica aí o fundamento estrutural e funcional do desenvolvimento, uma vez que a ontogênese se realizaria a partir de uma disparidade envolvendo os pares de moléculas de proteína. Neste contexto, um caráter hereditário não pode ser visto como um elemento pré-determinado, mas como um problema a ser resolvido; o que se tem, antes de tudo, são pares de elementos em uma relação de disparidade. Nas palavras de Simondon, o ser individuado conteria

pares de disparidade geradores de problemática. O desenvolvimento estrutural e funcional seria uma série de resoluções de problemas: uma etapa de desenvolvimento é a solução de um problema de disparidade; ela traz, por meio da dimensão temporal do sucessivo (que participa da integração e da diferenciação), a significação única no interior da qual o par de elementos díspares constitui um sistema contínuo (Simondon, 2009, p.307).

Assim, “o desenvolvimento é descobrimento de significações, realização estrutural e funcional de significações. O ser contém sob forma de pares de elementos díspares uma informação implícita que se realiza, se descobre no desenvolvimento” (p. 307). Assim, não há uma essência única do indivíduo, já que este não é substância. A própria

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Simondon se refere a Dorothy Maud Wrinch (1894 – 1976), que se destacou em epistemologia, matemática e bioquímica. Apotheker & Sarkadi (2011) nos contam que, no campo da biologia molecular, Wrinch desenvolveu importantes estudos acerca da estrutura da proteína durante a década de 1930. Em 1934, ela publicou na revista Nature seu primeiro trabalho sobre proteínas: Chromosome behavior in

possibilidade de desenvolvimento significa que o ser não está completamente unificado e nem sistematizado, pois em tal caso um indivíduo simplesmente não poderia desenvolver-se. Escreve Simondon:

não há essência primeira de um ser individuado: a gênese do indivíduo é um descobrimento de padrões sucessivos que resolvem as incompatibilidades inerentes aos pares díspares de base; o desenvolvimento é o descobrimento da dimensão de resolução, ou também da significação, que é a dimensão não contida nos pares díspares, e graças à qual esses pares se convertem em sistemas (Simondon, 2009, p. 307-8).

Portanto, a própria ontogênese é uma amplificação: “a ação do indivíduo frente a si mesmo é a mesma que acontece frente ao exterior: desenvolve-se constituindo uma colônia de subconjuntos [...] por entrelaçamento recíproco” (p. 308). Por conseguinte, a informação não pré-existe, sendo, antes, vista como algo prestes a surgir, algo que necessita ser descoberto, inventado. Ela não está contida desde o início nos pares em disparidade, mas surge enquanto converte estes pares em sistema. Se a informação fosse pré-existente, então teríamos a forma como princípio de individuação, e não, como quer Simondon, o processo individuante como sendo ele mesmo este princípio.

O caso dos dois olhos e suas diferentes captações constituintes da bidimensionalidade da imagem é outra boa ilustração oferecida pelo filósofo. Segundo ele, não há, no sistema tridimensional que faz desaparecer a disparidade própria de tal bidimensionalidade, uma abstração redutora, que retém o que há de comum em ambas as imagens dos dois olhos. Há, antes, uma integração (ou se preferirmos, uma informação) que envolve todos os detalhes captados pelos dois órgãos. Esta integração é um descobrimento perceptivo, uma operação amplificante, significativa, informativa. Em outros termos, o que se tem, primeiro, é a sensação ligada à disparidade, dando-se,

em seguida, a percepção, entendida como processo de integração em forma de sistema, vale dizer, como individuação perceptiva. A sensação não é material de que se valem as formas a priori do sujeito kantiano; é, antes, “jogo diferencial dos órgãos dos sentidos, que indica relação com o meio” (Simondon, 2009, p. 309). A sensação é poder de diferenciação, ou seja, de captar diferenças entre os objetos ou mesmo entre o corpo que experimenta e os objetos experimentados. Já a integração é processo de construção de uma relação de compatibilidade entre os objetos díspares, constituindo-se, por isso mesmo, como percepção, a qual já implica em si resposta motriz eficaz. A percepção utiliza o conflito entre dois elementos particulares para descobrir o sistema mais elevado no qual estes dois particulares se incorporam. Assim, sensação e percepção, são “as duas vertentes desta individuação amplificante que o sujeito efetua segundo sua relação com o mundo” (p. 309).

Simondon assume que o crescimento do ser não é algo diferente disso:o crescimento é atividade que, além de consistir em “amplificação por diferenciação e integração”, é ainda “o modelo de todos os processos vitais” (p. 309). Mas isso não significa que não haja algum “coeficiente genético em cada atividade do ser. Uma operação de sensação-percepção é também uma ontogênese limitada e relativa” (p. 309). Ela emprega modelos estruturais e funcionais já formados, ou seja, é sustentada pelo ser vivo já existente, e é ainda orientada pelo conteúdo da memória. A sensação que desemboca em percepção é parte do processo total ontogenético tanto quanto qualquer outra atividade vital: todas as funções do vivente são em alguma medida ontogenéticas, porque permitem a adaptação do ser vivo ao mundo externo, e porque participam “desta individuação permanente que é a vida” (p. 309-10). O indivíduo vive e individua-se através da atividade da memória, de modo que o próprio aspecto psíquico é, em si mesmo, vital, mas enquanto “construção de sistemas de integração no interior

dos quais a disparidade dos pares de elementos toma um sentido” (Simondon, 2009, p. 310).