Commande de mouvements prédictive robuste
4.1 Position du problème de commande
4.1.2 Structure générale de commande proposée
No Brasil a situação dos registros das mortes por suicídio indígena não parece ser tão diferente da chilena. Os estudos estão dispersos e ficam invisíveis em outras causas externas de morte, ou se limitam aos campos disciplinais da epidemiologia ou das ciências humanas, que pouco dialogam entre si (Souza, 2009; Morgado, 1991; Erthal, 2001), “tratando-se de um daqueles objetos rebeldes aos limites disciplinares [...]” (Souza, 2009: 2). No artigo de Morgado (1991), o autor apresenta o que seria uma epidemia de suicídios entre os jovens Guarani-Kaiowá. Em um período de duas semanas, suicidaram-se seis jovens. Entre os anos de 1987 e 1991, foram registrados 52 suicídios. O autor aponta que as tentativas de explicação mais fáceis e comuns são insuficientes e cegas, pois apontam para o que ele chama de “pseudo- causas” como o alcoolismo, a religião, a desagregação familiar, etc. (Morgado, 1991:587).
É interessante salientar que, nesse texto, a análise que o autor fez dos suicídios problematiza o reducionismo da explicação causal, e aponta para uma compreensão sócio-histórica que ele chama de:
[...] hipótese do recuo impossível, caracterizada pela ocorrência simultânea de dois tipos de sujeição máxima da pessoa: 1)Total esgotamento de opção para recuar ou mudar sem nenhuma possibilidade de território para os indígenas [...] 2) Degradação extrema de condições universais de dignidade do ser humano, que independe da pessoa ser um indígena ou não; liquidar o patrimônio material e cultural [...] (Morgado, 1991:592).
O autor adverte que essa tendência generalizada para procurar as pseudo-causas dos suicídios são “pré-julgamentos do senso comum e de amplificação pelos mass media” (Morgado 1991:591), pois limitam o entendimento antropológico. O ponto em comum com as compreensões das mortes dos Mapuche Pewenche é que se têm recorrido apenas ao que Morgado chamou de “pseudo-causas”. A hipótese do recuo impossível é interessante e plausível.
O tema é delicado e precisa ser pesquisado por diferentes ângulos. Tanto a dimensão epidemiológica quanto a antropológica são fundamentais para dimensionar a complexidade do tema. Nesse sentido, a pesquisa de Maximiliano Ponte de Souza, com o tema “Suicídio Indígena no estado do Amazonas: uma abordagem interdisciplinar”
(Souza, 2009) tem um alcance promissor no sentido de integrar a dimensão quantitativa e qualitativa no estudo do fenômeno dos suicídios. Trata-se de uma proposta cujos resultados serão paradigmáticos para o desenvolvimento de iniciativas de estudo a partir de diversos campos disciplinares no futuro, algo que ainda falta nas pesquisas do Chile.
Uma discussão interessante, pela importante contribuição para a pesquisa proposta aqui, é feita por Souza e Santos sobre o suicídio e morte ritual entre os Suruwaha (Souza e Santos, 2009). Os autores vão problematizar o termo “suicídio” no contexto das mortes rituais entre o povo Suruwaha da Amazônia. Destacam que “o olhar eurocêntrico construiu a imagem genérica do „índio‟ [...]” (Ibidem:11), uma imagem que foi adaptada às visões do mundo ocidental europeu, bastante fértil para problematizar o que está por trás dos atos “suicidas” de um povo que tinha uma prática contextualizada e que é reduzida a um campo individual. O texto adverte sobre os “riscos iminentes deste „olhar ocidentalizado‟ em relação a uma prática indígena” (Ibidem). Sobretudo se esse olhar acarreta políticas intervencionistas que apontam para uma visão individual e que têm efeitos não dimensionados nas comunidades.
Na mesma linha de problematizar, desde um olhar antropológico, o estatuto fixado dos suicídios está o trabalho de Regina Erthal (2001) sobre os “suicídios” no povo Tikúna no Alto Solimões, um dos maiores povos indígenas do Brasil (Erthal, 2001:301). É um trabalho que tem muito em comum com a proposta desta dissertação. Ela vai além das pseudo-causas (desintegração social, aumento da violência, alcoolismo, etc.), para abordar os sentidos que as mortes têm para os Tikúna, a forma de estar no mundo perpassa o contexto histórico cultural de constantes mudanças e conflitos no interior dos grupos.
A autora consegue ampliar o foco e tece um diálogo necessário entre aspectos epidemiológicos, elementos históricos e cosmológicos dos Tikúna. Ela coloca o centro da análise na perspectiva dos atores, no interior de um grupo grande e diverso, em que cada um dos agentes sociais, opera desde “uma lógica cultural específica” (Erthal, 2001:300). Nesse contexto, ela releva que os modelos de compreensão das mortes por suicídio dos Tikúna fazem referência as concepções dos processos de saúde-doença. As doenças, mortes e infortúnios entre os Tikúna, igualmente que para os Pewenche, podem ser precipitados por causas naturais ou externas, que não são excludentes. Os males de causas externas são atribuídos também à transgressão de normas culturais, ou à manipulação de malefícios pela ação da feitiçaria desencadeada pela
inveja ou raiva de alguém, no caso de feitiço, as pessoas procuram a causa última (Erthal, 2001:301).
A analogia da análise dos Tikúna com a situação dos Mapuche Pewenche e sua concepção das mortes pela própria mão, é destacável. O trabalho de Regina Erthal estabelece algumas diretrizes para aprofundar na pesquisa com o povo Pewenche, embora o enfoque centrado em narrativas aqui seja ainda limitado em comparação à abrangente quantidade de atores sociais que Regina Erthal traz à mão em sua etnografia.
A análise de Erthal faz interligações entre o individual-social, as imbricações dessas duas dimensões estão num espectro ou contínuo de amplo dinamismo, salientando a agência dos atores da cena. As ações, numa dialética constante, estão influenciadas também por um contexto de globalização dos mercados e imposição das instituições do Estado. A presença das empresas seringueiras e a necessidade de procurar emprego por parte dos Tikúna geram mudanças e tensões no interior das comunidades, onde as tradicionais disputas faccionais encontram sua expressão na prática da feitiçaria, o que estaria por trás das mortes por “suicídio”.
CAPÍTULO 3. As narrativas institucionais e a saúde: as