Contrariando o pessimismo por parte dos teóricos Modernos que previam a morte por inanição da Religião, esta segue viva, em constante crescimento e num irrefreável processo de transformação cumprindo com os mais diversos objetivos nos mais diversos ambientes. A
religião possui linguagem própria, dotada de elementos significativos àqueles adeptos, fiéis, e que se estabelecem a partir de um determinado campo de informações para a construção e interpretação do mundo. “O mundo humano é uma construção que se faz com o auxílio de um modelo e de uma ferramenta - a linguagem” (ALVES, 1999, p. 22). Entre o ser humano e o mundo, portanto, está a linguagem que torna inteligível todas as coisas.
É sabido que a função da religião - que possui sua linguagem ordenadora própria - mudou significativamente e ainda mudará, pois não se constitui por si só, ou num movimento extra- humano. Senão que, a religião é reflexo daqueles que a praticam e está intrinsecamente ligada às determinantes de uma sociedade, suas práticas e seus pilares. Como sintetizam Filoramo e Prandi (2012, p. 20), “o que se dá a conhecer ao estudioso dos fenômenos religiosos não é nem a religião no estado puro, nem só a psique ou a cultura ou a sociedade, mas um entrelaçamento concreto, historicamente dado, entre determinadas individualidades religiosas com sua, particular, lógica e estrutura e determinados contextos histórico-sociais”. Estes entrelaçamentos formam e reformam a religião possibilitando que esta se adeque à vida real de seus praticantes.
Para estabelecermos um conceito norteador de religião que nos ajude a compreender sua função na favela, recorremos ao clássico pensamento de Geertz (2008, p. 67) que compreende a Religião como “um sistema de símbolos que atua; para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e; vestindo essas concepções com tal aura de factualidade que; as disposições e motivações parecem singularmente realistas”. Além de Geertz, recorremos a Rubem Alves (1975, p. 25) que, de certa maneira, lustra de poesia o conceito quando conclui que, “a religião, ao contrário (da ciência), é a voz de uma consciência que não pode encontrar descanso no mundo, tal como ele é, e que tem como seu projeto utópico transcendê-lo”. Considerando as duas definições, percebe-se que a Religião é produto de seu tempo, seu espaço, e que tem como uma de suas funções, situar o ser humano num determinado conjunto de ideias que o formam, estruturam e o guiam na realidade da vida. Além disso, o fator diferencial da religião é a dialética silenciosa e constante do já-dado e do utópico; das coisas tangíveis e das intangíveis. Um contínuo entrelaçamento da realidade com uma transcendência experienciável. Um constante desejo de experimentar o futuro, ainda no presente mediante o discurso e as experiências religiosas. Cabe reforçar, como destacado nas definições que a religião não é produto de pura mágica, irracionalidade ou cegueira emocional. A religião é, sobretudo, produto do ser humano que se percebe humano justamente pela sua capacidade de se indignar frente ao mal, de se modificar e de ser racional, e de problematizar sua existência, suas concepções e estruturas, projetando-se para um tempo onde haverá uma superação de tudo aquilo que reduz
a vida e sua dignidade. Nas palavras de Feuerbach (2007, p. 36), é “a razão, a vontade e o coração”, que unidas formam o ser humano. Nunca só razão, vontade, ou só coração. Sempre a presença retroalimentada destes três pilares.
Ao compreendermos o conceito de Religião, principalmente pensando o cristianismo de vertente protestante dentro desta formulação, entendemos que nada do que se sistematiza e institucionaliza possui elementos externos à vida e a realidade daqueles que empreenderam a tarefa de ordenar o discurso que surge das demandas cotidianas. “A linguagem é a primeira tentativa do homem no sentido de articular o mundo de suas percepções sensoriais” (CASSIRER, 1994, p. 366), e o discurso religioso não foge à regra. Em relação as mudanças na função da religião e de seus discursos, podemos perceber isto ao analisar o período pré- moderno e o lugar de importância ocupado pela religião neste ínterim. Ao considerarmos elementos religiosos discursivos como os mitos fundantes, tabus e ritos, percebe-se que para o ser humano pré-moderno tudo era sagrado, e, portanto, nada na vida estava fora do alcance do Divino. Acerca disto, Eliade (2001, p. 97) conclui que,
O homos religiosus acredita que sempre existe uma realidade absoluta, o Sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando-o real. Crê, além disso que a vida tem uma origem sagrada e que a existência humana atualiza todas as suas potencialidades na medida em que é religiosa, ou seja, participa da realidade.
Desta forma, compreende-se que a religião era a ferramenta absoluta de interação com a realidade. A natureza era submissa às forças do Sagrado, as relações interpessoais sofriam interferência por conta dos tabus, e os ritos eram respeitados e levados à cabo pelas comunidades com o fim de acessar e agradar - mediante repetição de comportamentos - a força transcendente que estava à cargo do bom funcionamento da vida em geral. Em síntese, de acordo com Cassirer (1994, p. 366) “a religião primitiva não pode deixar espaço para qualquer liberdade de pensamento individual. Ela prescreve suas regras fixas, rígidas e invioláveis não só para cada ação humana, mas também para todo sentido humano”. A noção de historicidade neste espaço-tempo é inexistente, considerando que todo acontecimento estava sob o controle dos deuses, deusas e os humanos eram coadjuvantes das ações protagonizadas na dimensão do Divino. E assim a vida do homem religioso estava estruturada. Com seu discurso estabelecido, suas regras fixadas, seus ritos postos em prática, a vida seguia sua ordem tendo a religião como principal fundamento da existência.
Considerando não mais a antiguidade como paradigma de análise, mas buscando compreender a função da Religião e sua linguagem no mundo Moderno, percebe-se que a
função ordenadora da religião foi mantida e atualizada, contudo, não mais como discurso principal. Uma outra maneira de ser no mundo foi desenvolvida à medida que as percepções de mundo foram mudando. Neste sentido, o homem moderno e a sociedade que resulta destes assumem pilares de existência que negam mediações diretas de transcendência e um discurso mágico como principal fonte de conhecimento e estabilidade. A noção de história surge e usurpa de Deus a imagem de protagonista da realidade, conferindo ao homem uma condição de responsabilidade ética. Nessa nova maneira de ser no mundo, o homem percebe-se racional, sujeito ético, e vê na magia e sua linguagem religiosa estruturante, um obstáculo à sua própria liberdade. Segundo Sung (2002, p. 52),
Com a Modernidade surge esta novidade: a percepção da história como sendo construída por sujeitos humanos[...]. Na construção da história pelo sujeito humano moderno, a razão tem um papel central. O indivíduo se torna sujeito na medida em que cria um mundo regido por leis racionais e inteligíveis para o pensamento humano. O Deus-ordenador do mundo e da história é substituído pelo sujeito humano ordenador do mundo e da história segundo a Razão.
O discurso da religião como principal fonte de ordenação foi substituída pela linguagem científica, que assumiu a voz ativa dos questionamentos anteriormente respondidos. A racionalidade como principal ponto de partida para o conhecimento e a linguagem científica como principal ferramenta de reestruturação de mundo assumem lugar de destaque e desestabiliza as bases mítico-religiosas que davam sentido à vida. Neste novo quadro de pensamento e sociedade, que valoriza a ciência, a prova científica, o cálculo – quadro de pensamento e sociedade que não surgem de uma hora para a outra, mas que se apresentam como alternativa ao discurso religioso questionado e apontado como insuficiente –, foi percebida uma resistência desmedida a tudo que era relacionado à linguagem religiosa. Os deuses “morrem”, a mística em suas manifestações mais explícitas é tratada como irracionalidade, e o que era Sagrado, por exemplo, a natureza, é visto como profano e controlável, porque pode ser dissecado e explicado como fenômeno pela Ciência. As relações interpessoais tomaram padrões específicos, não mais ditados e com limites estabelecidos somente pela questão religiosa, mas sobretudo pela faceta Legal que o Estado inaugura e a dimensão religiosa que abarcava a vida de forma geral foi relegada à esfera privada. “O homem vive esse mundo. E vivendo-o, o constrói e mantém, transmitindo-o de uma geração para outra. Vivendo-o, vive-o como legítimo” (HINKELAMMERT, 1988, p. 24). A legitimidade do Mundo moderno em suma é a ciência, contudo, a Religião ainda figura como um discurso de estabilidade e plausibilidade. Em síntese, a linguagem religiosa divide o campo de influência com outras instituições e a
facticidade e credibilidade que antes eram inquestionáveis tornam-se produtos de fé particular, ou de grupos específicos.