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BRANCHES AND DECISION CODES The Condition Code

Quando questionados sobre as funções do dramaturgista, os entrevistados apresentaram definições diversas e não há um consenso. De fato, apesar dos mais de duzentos anos de existência, no Brasil, o termo dramaturg ainda é ignorado nos programas de espetáculos, editais e concursos. Em geral, os profissionais desempenham as funções do dramaturgista, porém, não usam a nomenclatura e isso fica nítido quando os entrevistados relatam suas experiências e mostram que já exerceram o cargo sem a consciência disso.

Ainda que o nome seja pouco usado, como destaca Quadros (2007, p. 89), são tantas as possibilidades de atuação que, de fato, é difícil definir e conceituar o dramaturgista. Essa multiplicidade, segundo ela, talvez “seja devido ao fato de que a dramaturgia perpassa, realmente, todos os aspectos e situações teatrais”. Vale lembrar que o emprego técnico da palavra, segundo Pavis (2015, p. 116), designa um guardião de sentido ou um conselheiro literário e teatral, um profissional que desempenha uma tarefa ambígua com muitas atribuições:

Escolher peças e combinar os textos escolhidos para uma encenação; efetuar pesquisas; adaptar ou modificar o texto sozinho (ou com encenador); destacar as articulações de sentido e inserir a interpretação no sentido global; intervir como crítico interno; assegurar ligação com um público potencial. (PAVIS, 2015, p. 116).

Na esfera brasileira, em geral, o nome é dado ao profissional que, a partir de um olhar crítico, reconstrói o texto concomitantemente ao desenvolvimento dos ensaios. Os quatro entrevistados, de diferentes formas, em busca de mais possibilidades dramáticas, realizam a função de modificar a dramaturgia durante o processo a partir de uma reflexão constante. Romero e Falcão são dramaturgistas apenas nos seus processos; Vicente, além de dramaturg nas suas peças, já realizou esse papel em trabalhos de terceiros; e apenas Cunha trabalha com dramaturgistas agregados, que dividem essa função com ele.

Romero, única entrevistada fora das fronteiras brasileiras, mostra ter mais clareza sobre o perfil do dramaturg. Questionada sobre as funções desse profissional, ela enxerga o dramaturgista como um sujeito mais próximo ao texto. Na prática, ela faz esse ciclo de ensaio e texto reconhecendo o seu papel de dramaturg como responsável pela “articulação de ideias através do texto”. O seu trabalho está em captar o que ocorreu no ensaio e refletir isso no texto, para que ele retorne à sala de ensaio criando mais possibilidades cênicas. Para ela, “o texto precisa contextualizar para abrir possibilidades no espaço” (p. 150) e, como a palavra aparece em cena de diversas formas, é fundamental o dramaturgista ter a sensibilidade de ouvir em todos os momentos e imaginar as infinitas possibilidades de aplicação das palavras.

Já Gil Vicente, ao assumir o posto de dramaturgista, toma a posição de um defensor ferrenho e estudioso do texto. Ele não coloca a literatura como protagonista do processo, mas mostra-se faminto em esgotar todas as suas possibilidades e não desistir (cortar ou modificar) de trechos no primeiro empecilho. Assim, como dramaturgista, ele se posta como crítico e guardião do sentido através do texto, com a obrigação de esgotar todas as possibilidades de uso antes de modifica-lo. Vicente, portanto, não realiza o processo de transformar a literatura de acordo com as necessidades da cena e ela somente é modificada se apresentar algum problema. Dessa forma, a encenação deve buscar alternativas dentro dela - na interpretação dos atores, nas escolhas visuais - sem colocar o texto como seu refém.

João Falcão, na maioria dos seus processos, foi dramaturgo, dramaturgista e encenador. A sua construção, ao contrário da de Vicente, permite a maior quebra das fronteiras de atuação dos três cargos, ou seja, o “encenador Falcão” invade a área do “dramaturgista Falcão”, que

invade a do “dramaturgo Falcão” etc. Enquanto Vicente primeiro realiza o trabalho de dramaturgo, depois o de encenador e, quando necessário, o de dramaturg; Falcão faz tudo ao mesmo tempo e, por isso, sente dificuldade em apontar as funções de cada um. Ao tentar uma definição, ele afirma que o dramaturg exerce o papel de crítico do texto em cena e realiza alterações enquanto a peça existir, com o pensamento de uma literatura a serviço dos resultados nos ensaios.

Paulo Cunha, ao mesmo tempo em que reconstrói a dramaturgia no palco, usa o termo dramaturgista para se referir aos profissionais com quem dialoga com frequência antes do contato com os atores e durante o processo. Cunha usa o nome dramaturg no sentido de crítico do processo e, antes de encontrar o ator, apresenta aos dramaturgistas agregados, principalmente, a sua visão das obras de referências para debatê-las. Em seguida, ele mostra os resultados dos estudos ao elenco e os deixa a par dos conceitos do espetáculo. Ao fim do processo, vale ressaltar que Cunha não produz um texto literário da obra que encontra o público, pois acredita que diversos elementos da peça não podem ser traduzidos para o papel.

Como dito, são muitas as definições dadas ao dramaturg e, principalmente na esfera brasileira, o termo é pouco conhecido. Os entrevistados, com exceção de Carla Romero, possuem dificuldade em dar uma resposta assertiva sobre os papéis específicos do dramaturgista. Esse problema, segundo Quadros (2007, p.89), nasce do fato de ser o diretor quem, normalmente, assume o posto de dramaturg. Ela acredita que é natural que seja ele, pois o encenador, ao ser também dramaturgista, pode ser “o elemento que proporciona a reflexão dramatúrgica, alguém que possa repensar o teatro, que tenha a função de consciência e de provocação”.

No teatro contemporâneo, não é raro ver o encenador agregar as funções do dramaturgista, como articulador e crítico literário, responsável por “instalar os materiais textuais e cênicos, em destacar os significados complexos do texto, ao escolher uma interpretação particular, em orientar o espetáculo no sentido escolhido” (PAVIS, 2015, p. 113). Aliás, quem melhor que o diretor pode exercer esses papéis?