As funções do encenador, conforme Pavis (2015, p. 128), são: montar a peça, assumir a responsabilidade estética e organizacional do espetáculo, escolher os atores e utilizar as possibilidades cênicas à sua disposição. Os diretores contemporâneos, no entanto, parecem ir além. Principalmente depois de Brecht, que mudou a relação do artista com o público, os encenadores tiveram que agregar outras capacidades e pensar o teatro de maneira diferente a partir da ideia de distanciamento. Segundo Peter Brook, Brecht é o mais forte, influente e radical dos homens do teatro contemporâneo e ninguém seriamente interessado em teatro pode ignorá- lo.
Brecht é a figura chave de nossa época e todo trabalho teatral de hoje, a um certo ponto, começa ou retorna às suas afirmações e conquistas. Podemos voltar-nos diretamente para a palavra que ele introduziu no nosso vocabulário – distanciamento. [...] Não havia uma quarta parede entre atores e público – o objetivo único do ator era criar uma reação precisa numa plateia que Brecht introduziu a ideia de distanciamento, pois distanciamento é um apelo à parada: distanciamento é cortar, interromper, mostrar alguma coisa exposta à luz, fazer-nos reexaminar. É, sobretudo um apelo ao espectador para que use a própria cabeça, de modo a tornar-se cada vez mais responsável, apenas aceitando o que vê se isso lhe parece, de uma maneira adulta, conveniente. (BROOK,1970, p. 41)
Os quatro encenadores entrevistados citam e mostram em suas obras a influência de Brecht. Inclusive, ao serem interrogados sobre as funções do diretor contemporâneo, nossos artistas entram em consenso ao afirmarem que os papéis exercidos pelo encenador dependem do tipo de processo, das necessidades da montagem e da relação que o diretor quer estabelecer com o espectador. Por isso, alegam dificuldade para colocar em um quadro os papéis designados ao encenador, principalmente, pelo acúmulo de outros cargos: dramaturgo, dramaturgista, ator etc. A verdade é que diretores atuais, raramente, exercem apenas a direção e, dessa forma, torna- se um desafio identificar atribuições exclusivas do encenador.
As respostas dos encenadores, no entanto, permitem traçar convergências sobre as posições deles quanto ao diretor. O primeiro ponto em comum se encontra no fato de ressaltarem a existência de dois tipos básicos de encenadores: há os que apenas colocam o texto no espaço e marcam os atores no palco34; e os que, influenciados pelas ações de Brecht,
participam de todas as esferas buscando uma independência da encenação35. Todos se enquadram na segunda categoria.
Carla Romero, questionada sobre o lugar do diretor, no primeiro momento, reforça a dificuldade de colocar em uma cartilha os papéis que exerce. De maneira geral, afirma que a missão do diretor é articular todos os envolvidos na criação cênica de maneira harmônica, pois, para ela, encenar “não consiste em ordenar, em impor, pelo contrário, é criar um espaço onde os quadros se enredam mais” (p. 150), ou seja, o diretor deve exercer um papel de conciliador em busca da criação de uma obra em que todos os desejos se transformam em um único espetáculo. Por isso, outra característica destacada por ela é a necessidade de inventar um ambiente onde todos os participantes sejam envolvidos no intuito de encontrar uma unidade.
Gil Vicente também entende que, com tantas possibilidades de comandar um processo, cada montagem exige atitudes diferentes. Para ele, em alguns casos, fazer a direção de um espetáculo é seguir o texto, tirá-lo do papel, marca-lo muito bem e construir aquela história no palco; em outros, porém, o diretor precisa ser transdisciplinar, ter uma intertextualidade, uma relação com outras áreas afins, dialogar com todas as extensões da criação de um espetáculo e ajustar tudo como um maestro: polir, lapidar, tirar o excesso e escavar até encontrar o essencial. Ele precisa afinar tudo, evidenciar um sentido - ou o espetáculo fica vazio - e conciliar as imagens dos diversos profissionais em busca de uma unidade.
João Falcão, que sempre exerceu as funções de encenador e dramaturgista de maneira simultânea, é quem mais demonstra dificuldade em separar suas funções em dois blocos. Porque, para ele, os papéis se misturam, uma vez que cria e pensa os elementos como uma obra una. Ainda assim, na tentativa de separar seus papéis, Falcão encontra três ações que são mais ligadas ao diretor: armar o plano-sequência das marcações, orientar a equipe (figurinista, iluminador, técnicos em geral) e gerar uma coesão entre as esferas. Ele ressalta, porém, que seria bastante difícil realizar essas atividades caso não fosse o dramaturgista dos seus espetáculos. Para Falcão, a maioria dos papéis exercidos por um, se encaixa na descrição do outro e, por isso, afirma que esse posto que exerce – uma mistura dos dois profissionais – não é de diretor, ou autor, e sim de um “fazedor de espetáculos” (p. 143).
Paulo Cunha enxerga o diretor como uma espécie de catalisador, um promotor que vai estimular e encaminhar essa produção. Suas principais funções são indicar um caminho, racionalizar o espetáculo e trazer um posicionamento de construção de uma nova obra. Cunha
enfatiza a necessidade de o diretor buscar um “discurso paródico”, ao lado de uma leitura achatada e neutra do texto. Ele também ressalta que, apesar de existir quem veja a direção como uma mera definição de marcações ou concepção de ideias antes da prática, esse caminho vem perdendo espaço e os encenadores cada vez mais acumulam funções e trabalham como uma espécie de maestro. O diretor, destaca Cunha, deve pensar a encenação como uma obra independente de qualquer literatura, gerada por vários autores e, por isso, a criação deveria ser chamada de “composição teatral”.
Ao registrar o relato dos quatro entrevistados, de maneira geral, nota-se o consenso em relação ao fato de existir tipos diferentes de diretor. Em relação às obrigações principais dele, eles compartilham a ideia de que o encenador contemporâneo tem as seguintes obrigações principais: colocar no espaço o texto literário; ser conciliador, ter ouvidos e olhos abertos no intuito de absorver o que cada envolvido pode oferecer de melhor; ser conhecedor das obras de referência para fortalecer o discurso; buscar um sentido para construir uma obra teatral uniforme, sem excessos; apresentar um discurso paródico; ter a capacidade de indicar caminhos; e, assim, orientar os atores.