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Considerando todos os conceitos acima, compreendemos que a religião e sua linguagem ainda são estruturantes fundamentais da vida e opera para a interpretação do mundo, bem como para a superação de situações onde a existência se encontra ameaçada e reprimida. A violência do cotidiano da favela é um dos fenômenos que demandam urgência de sua superação e, a religião ainda possui meios de minimizar seus efeitos na vida das pessoas, ainda que recorra à um discurso que apresenta violência implícita em sua estrutura. No Brasil, pelo menos 80% da população se autodeclara cristã7, e considerando este percentual altamente significativo, é necessário pensarmos como o discurso de fé cristã influencia a vida das pessoas cotidianamente, quando a violência é um fenômeno que atinge a todos indistintamente. Por uma questão de espaço, trataremos do discurso específico da tradição batista, como temos apontado repetidamente, e, por meio da problematização desta sistematização, veremos a função da religião nos dias atuais e qual relação ainda mantém com a violência.

Para compreendermos a dimensão da situação alarmante da violência, é necessário esclarecer que, segundo o levantamento do IBGE de 2010, estimou-se que cerca de 6% da população brasileira vive nas favelas espalhadas por todo o país. Este percentual corresponde a mais de 11 milhões de pessoas8 que vivem em áreas de risco e confronto, onde a violência é parte do cotidiano e não apenas uma realidade distante assistida através dos noticiários. A Região que mais concentra moradores nessas condições é a sudeste com cerca de 49% do total nacional de domicílios nos aglomerados. Este dado corrobora com a relação direta que sugerimos entre industrialização e favelização do Brasil num primeiro momento, considerando esta região como o polo industrial mais atrativo do país a partir do início do século XX. Sendo assim, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro registram os maiores percentuais de pessoas aglomeradas nas favelas: 23,2% e 19,1%, respectivamente.

Por outro lado, o documento publicado pelo IBGE acerca das religiões no Brasil, também de 2010, revelou que o percentual de evangélicos no Brasil cresceu cerca de 6,8%, alcançando um total de 22,2% da população nacional. Dentre os declaradamente evangélicos, nos interessa àqueles que são conhecidos como evangélicos de missão, que conformam um total de 4,1%, sem deixar de mencionar os evangélicos pentecostais em constante crescimento, e que atingem a casa dos 13,4% de adeptos no Brasil. Este interesse justifica-se porque a tradição batista, a

7 Segundo o último recenseamento do IBGE, de acordo ao gráfico anexo A. 8 Dado contido no Relatório de Aglomerados Subnormais de 2010, disponível em:

qual nos dedicamos neste trabalho, está alocada na classificação de evangélicos de missão e apresenta um pequeno déficit no crescimento, quando comparados os censos realizados em 2000 e 2010. O cruzamento destes dados revela duas características importantes para o desenvolvimento da presente pesquisa. A saber, que o Brasil possui um altíssimo percentual de sua população vivendo em favelas, e que a religião predominante é o cristianismo. Ou seja, mesmo que haja variações denominacionais dentro do protestantismo, e maior pertença religiosa na vertente católica (cerca de 65% da população), a religião cristã e sua linguagem podem ser consideradas formativas e diretivas na vida da maioria dos brasileiros e brasileiras, incluindo aqueles que vivem nas favelas.

Estes indivíduos marginalizados são herdeiros e ao mesmo tempo reféns da Modernidade, que substituiu Deus do centro da fala ordenadora e conseguiu impor tessituras científicas para a organização da vida e da sociedade. Mesmo assim, como foi possível perceber, estes mesmos indivíduos seguem se apropriando da religião, e é necessário discutirmos o que justifica tal opção, principalmente pensando o ambiente violento que é a favela. Se aplicarmos o pensamento de Erich Fromm à presente problematização, veremos que, “desde o princípio de sua existência, o homem se vê confrontado com a necessidade de escolher diversas linhas de ação” (FROMM, 1986, p. 36), ou seja, maneiras de viver. A partir da psicanálise, Fromm avalia a função da religião numa linha de pensamento similar à de Freud. Este último indica que é “a religião que restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento” (FREUD, 1997, p. 35). A contribuição de Fromm, em especial, é muito importante para nós porque ele a faz de forma complexa, considerando não somente a psique humana, mas também como o tecido social influencia a construção da Religião e suas funções, além de considerar o desenvolvimento integral do ser humano. Sendo assim, ao problematizar tais temas, ele conclui que,

O que caracteriza a sociedade medieval, em contraste, com a Moderna, é a ausência, naquela, de liberdade individual. Em sua fase inicial, todas as pessoas se achavam agrilhoadas ao respectivo papel na ordem social[...]. Pelo fato de ter, ao nascer, um lugar distintivo, imutável e incontestável no mundo social o homem tinha raízes em um todo estruturado, e assim a vida tinha um significado que não deixava margem, nem tampouco necessidade para dúvidas. Havia muito sofrimento e dor, mas também havia a Igreja, que tornava tal sofrimento ao explicá-lo como resultado do pecado de Adão e dos pecados individuais de cada pessoa[...]. Malgrado a sociedade fosse assim estruturada e desse segurança ao homem, no entanto, mantinha-o escravizado. A sociedade medieval não despojava o indivíduo de sua liberdade, porque o indivíduo ainda não existia: o homem estava ainda relacionado com o mundo pelos vínculos primários (FROMM, 1986, p. 43).

Para Fromm, o advento da Reforma Protestante foi um marco diferencial para a alteração da estrutura e de função da Religião expostas acima. Ao considerar este movimento, ele chega a dizer que “o protestantismo fez o indivíduo enfrentar Deus sozinho” (FROMM, 1986, p. 94). Para ele, a capacidade crítica, o autoexame de consciência, a mudança estrutural da mediação Igreja-Deus para Indivíduo-Deus fez o homem enfrentar o mundo de forma diferente. Contudo, o resultado disto é que, “a nova liberdade tende a criar um profundo sentimento de insegurança, impotência, dúvida, solidão e angústia. Estes sentimentos têm que ser mitigados para que o indivíduo possa atuar satisfatoriamente” (FROMM, 1986, p. 59).

Baseados em tudo que foi exposto, e aplicando ao ambiente de violência cotidiana da favela e as incertezas daí oriundas, o protestantismo aparece como uma opção de refúgio e conforto, onde a linguagem religiosa serve para aplacar a dureza da experiência de sobrevivência ao caos cotidiano, onde a violência é protagonista. A rendição e entrega de seres humanos expostos à violência na favela à religião, pode ser compreendida mediante esta chave de leitura, pois, entender o protestantismo como refúgio sugere que, a sua adesão tenha o poder de mitigar a angústia de enfrentar a realidade. A liberdade em altas doses gera medo no ser humano, é isso que Fromm sugere. Pensando nisso, essa mitigação da angústia se dá principalmente na delimitação ética que o protestantismo oferece ao indivíduo, livrando-o da necessidade de optar e fazer suas próprias escolhas, interpretar o mundo e a realidade que o cerca a partir de seus próprios pensamentos. Ou seja, a Religião oferece ao indivíduo o alívio da carga de estar sempre exposto as diversas possibilidades de ações individuais. Desta maneira, um sujeito que adere à fé cristã, adere indiretamente determinadas exigências éticas e morais, e negocia a sua liberdade de escolhas por uma lista de exigências, ficando arraigado aos padrões de conduta, de discurso, de crenças definidas pela religião. Inferimos, portanto, que pertencer à alguma religião, antes de mais nada, é uma maneira de estar-no-mundo, de viver mediante um discurso que promova segurança, estabilidade, promessas de uma vida mais prazerosa e a sensação de que a solidão e o desamparo estão distantes, independente do que aconteça e do que se apresente como realidade. Ainda que o preço disso tudo, seja como Fromm sugere, a negociação da liberdade de tecer caminhos próprios e não anteriormente fixados por instituições.

Para compreendermos tal questão, voltamos novamente o nosso foco para o caso específico que é a favela Coronel Leôncio, já abordada no primeiro capítulo quando desvelamos a tipologia de violência que é realidade neste local. Esta favela da zona norte de Niterói segue o perfil de outras espalhadas pelo Rio de Janeiro e contém presença significativa de Igrejas Evangélicas, principalmente pentecostais. Apesar da predominância de igrejas deste movimento, percebe-se neste caso a presença de uma Igreja Batista, estabelecida como Igreja

autônoma há 17 anos. Os cristãos e cristãs residentes desta favela convivem diretamente com toda a violência ali percebida e, apesar deste ambiente pendular, a religião é um elemento de sustentação da vida que está constantemente em risco e ameaçada pela violência.

Ao considerarmos a religião como uma forma de superação da realidade violenta e hostil da favela, pressupomos que a linguagem desta é capaz de exercer um tipo de domínio sobre os seres humanos que se sujeitam ao seu conteúdo pela oferta de segurança ali contida. Em se tratando do protestantismo de forma particular, pode-se dizer que a tônica da mensagem gira em torno do tema da salvação. Logicamente o conteúdo da mensagem cristã não é homogêneo, e nunca foi consensual. Ou seja, não se pode reduzir toda a teologia cristã à uma única temática, porém, é possível dizer que a busca fundamental no campo sistemático do cristianismo é a resposta pela salvação da humanidade. Um exemplo concreto desta questão é a explanação de David Mesquiati de Oliveira acerca do pentecostalismo, que não é nosso foco, mas ilustra como o cristianismo se fundamenta como ferramenta de respostas que a vida faz de maneira urgente. Segundo ele,

O objeto da Teologia Prática Pentecostal é a situação presente, mas especialmente a realidade dos fiéis pentecostais e de quantos homens e mulheres de boa vontade cheguem às comunidades pentecostais em busca de uma resposta específica de Deus para algum aspecto de suas vidas[...]Se o objeto formal da Teologia Prática Pentecostal tem que ser a situação presente, isso significará considerar os problemas específicos (migrações, problemática étnica, pobreza, opressão demoníaca, enfermidades e dolências, “desvios” e patologias sociais), que convocam os aderentes à busca de respostas concretas dentro dos pentecostalismos: curas, milagres, transformação de vidas, exorcismos, consolação, terapias diversas etc. (OLIVEIRA, 2016, p. 268).

Os temas da vida real, respostas urgentes a perguntas latentes, como visto acima, preenchem o discurso do pentecostalismo de sentido. E talvez esta característica explique a grande adesão de pessoas da classe mais pobre e a presença massiva de igrejas desta vertente nas periferias e favelas. Esta pequena digressão acerca do Pentecostalismo ilustra rapidamente como a teologia cristã pentecostal e a adesão religiosa a igrejas deste movimento têm sido uma fonte de segurança e respostas para os fiéis. O objetivo de destacarmos a característica Prática da Teologia pentecostal é unicamente o de discutir a função similar da teologia adotada pelo movimento evangélico de missão, no qual a Igreja Batista se enquadra. Na favela, além das igrejas pentecostais, as igrejas do movimento de missão também têm seu espaço e sua função não parece diferir daquela exercida pelo pentecostalismo. Em suma, as Igrejas tradicionais também buscam oferecer aos fiéis, respostas concretas para os problemas concretos que os rodeiam. A pergunta pelo sentido da vida e a melhor forma de vivê-la são elementos que motivam a adesão de pessoas em situação de exposição à violência e a favela se apresenta como

um ambiente onde a vida é ameaçada e, ao mesmo tempo, fortalecida por meio da adesão à instituição religiosa.

Na tradição religiosa dos Batistas, a teologia comumente usada para esclarecer a temática da salvação é a chamada Teologia da Satisfação Penal. Esta teologia é o cerne da mensagem cristã professada por este grupo e se configura como a base da construção da linguagem estruturante dos fiéis. Baseada na sistematização teológica cunhada por Santo Anselmo, este aparato teológico transformou-se na doutrina da Salvação e está inteiramente conectado à história deste caso do protestantismo histórico. Como veremos mais adiante, a violência perpassa toda esta construção, ainda que não seja tratada assim. Como consequência, o cotidiano da favela, bem como o discurso religioso que ajuda no enfrentamento da realidade vivida neste ambiente, estão integralmente maculados pela violência. Neste sentido, a violência da favela é interpretada e superada mediante o discurso religioso, sem que neste último seja identificado elementos de violência, mas sim ações de gratuidade em direção a humanidade e expressões de amor da parte de Deus.

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