A igreja Batista em Coronel Leôncio, estabelecida há mais de 15 anos está alocada em uma favela da cidade de Niterói, onde a violência faz parte do cotidiano. No primeiro capítulo vimos como a violência se desdobrou como um fenômeno, onde a problemática do tráfico de drogas e os conflitos entre facções estabeleceram um cenário de violência contínua e, como consequência disto, a vida dos moradores deste local está constantemente ameaçada. Neste ambiente conflituoso e violento, a religião, como temos trabalhado de forma geral, se apresenta como um meio de proteção e, direcionamento e funciona para diminuir a aflição e angústia de optar entre diversos caminhos. Nesse sentido, a adesão a uma instituição religiosa promove, entre outros, sentimento de segurança e pertencimento. Diante da realidade da favela, estes sentimentos são valiosos, considerando que a violência está presente de forma contínua e sua presença carece de certa aparência de normalidade. Se assim não fosse, as pessoas viveriam em constante estado de vigilância, medo, incertezas e a vida seria reduzida à proteção individual contra os efeitos da violência dentro da favela.
Sabendo que a vida segue seu curso e o tempo não faz pausas longas para que as pessoas elaborem problematizações profundas continuamente acerca de suas condições na favela, a Igreja neste ambiente bem como seu discurso, reforçam que a vida pode ter um sentido especial, que há esperança de uma vida melhor, que Deus é um Pai que cuida dos seus e afasta o mal que insiste em fazer ameaças. Para comprovar tal apontamento, analisamos alguns boletins dominicais distribuídos na Igreja Batista em Coronel Leôncio e percebemos três elementos comuns no material analisado. Os elementos são similares àqueles que temos apontado até então e tem relação com a proposta de estabilidade e conforto ofertado pela Religião, o mecanismo mimético intrínseco ao ser humano e, por último, o sacrificialismo contido na Teologia da
Satisfação penal, que reestabelece a relação entre Religião e Violência discorrida no primeiro capítulo e aplicada neste segundo.
A começar a análise de boletins, destacamos a missão, os valores e os propósitos declarados da Igreja em questão. Em relação à sua missão, relata-se repetidamente que a Igreja Batista em Coronel Leôncio pretende “levar pela ação do Espírito Santo pessoas a Jesus, tornando-as membros da família de Deus. Tendo como visão o seguinte: “queremos ser uma comunidade que adore o Deus Pai, que reflita o amor de Jesus, que pregue o evangelho e que ensine os valores Bíblicos, proporcionando assim, uma vida com significado e propósito. E por fim, destacamos no propósito elaborado e declarado uma frase afirmativa que indica que esta Igreja é “um lugar de fé, esperança e amor para você e sua família”. Os grifos feitos ressaltam que a ideia de que a religião opera para a mitigação das inseguranças e a inclusão de indivíduos em grupos de pertencimento ainda é comum, como podemos notar. A crença de que a vida será ressignificada pela religião, terá um propósito mais definido e que as pessoas ao aderirem à fé cristã estarão em família na comunidade e também com Deus é perceptível como promessa no conteúdo grifado. No boletim 1, que se encontra anexo B, observamos as informações acima e também um texto bíblico que ressalta este sentimento de pertencimento e segurança. “Não se turbe o vosso coração” (citação do Evangelho de João 14:1) é a mensagem central da leitura bíblica, que está em consonância com o hino que adverte os fiéis à confiarem na providência divina, e no amor de Deus Pai: “Em Jesus confiar. Sua Lei observar. Oh que gozo, que benção, que paz! ” (Hino do cantor cristão n°301).
No boletim 2, também no anexo B, o texto da pastoral (que é escrita por membros da diretoria da igreja ou pelo próprio pastor) curiosamente apresenta a interpretação de um texto bíblico do Antigo Testamento, onde as lições aprendidas têm relação com o atributo da onisciência de Deus e como Ele protege de forma especial os seus filhos; como o medo é ferramenta usada por Satanás para frear o avanço dos cristãos em relação ao caos da vida e, por fim, que Deus é poderoso para apaziguar o que está descrito como guerras espirituais e as guerras momentâneas do cotidiano. O texto bíblico utilizado na pastoral e sua interpretação, ilustram o pensamento de Baumann quando ela aponta que, “na época bíblica, a vingança é uma forma de ação legalmente regulada. Pela vingança se obtém, em disputas inter-humanas, um equilíbrio entre as partes litigiosas. Se se apela a Deus como vingador, isso geralmente ocorre por uma parte litigante, que pelos mais diversos motivos não está em condições de apelar a um julgamento humano” (BAUMANN, 2011, p.157). A imagem de Deus exposta na pastoral é claramente a de um protetor seletivo, que tem o poder de privar os seus de situações conflituosas e de seus efeitos, quando evocado. A dimensão imanente recebe interferência direta da justiça
divina neste tipo de construção teológica, e as dificuldades enfrentadas na vida real tem seu correspondente na esfera transcendente, onde Deus e os anjos atuam em favor dos cristãos e cristãs que sofrem. Este exemplo ilustra como a religião tem uma função específica de criar estruturas mentais de confiança e estabilidade mesmo diante de um ambiente complexo, caótico e violento.
No boletim anexo B de número 3, a pastoral apresenta um tipo de fábula que ilustra o texto bíblico do livro de Provérbios, capítulo 22 nos versos 24 e 25, fazendo uma advertência sobre a companhia de pessoas violentas e agressivas. No texto da pastoral, percebe-se que a fábula tem o objetivo de ensinar que o convívio com homens violentos pode levar à imitação de comportamento. A fábula narra a amizade de um beija-flor com um corvo, descritos como inseparáveis por conta da força da amizade. Num dado momento, o beija-flor faz um convite ao corvo, que o aceita e posteriormente retribui o convite. Tendo sido convidado para jantar, o beija-flor se vê obrigado a comer aquilo que era de costume do corvo, e, como consequência da ingestão de alimentos comuns somente ao corvo, acaba morrendo. Claramente tanto o texto bíblico, quanto a fábula, contém traços indiretos da teoria do mecanismo mimético, onde a imitação torna-se consequência da assunção de algum modelo inconsciente. Neste caso, a pastoral se propõe a explicar o mimetismo que o texto bíblico aponta, utilizando o exemplo dos animais. A violência, segundo o texto, é uma ação que pode ser aprendida e assumida como hábito, sendo o meio para a construção desse hábito de violência, o contato com um indivíduo violento. É interessante percebermos indiretamente a teoria do mecanismo mimético aplicada no conteúdo do boletim, considerando que para figurar como pastoral (aconselhamento), a problemática da imitação de comportamentos violentos e agressivos carece de atenção nesta comunidade de fé, possivelmente motivados pelo próprio ambiente hostil.
Por fim, destacaremos em alguns destes boletins da igreja Batista em Coronel Leôncio, como a teologia da Satisfação Penal pode ser percebida, constantemente associada à linguagem sacrificial que é a tônica desta sistematização. Em relação a leituras bíblicas feitas durante a liturgia, destacamos dentre os boletins analisados os textos dos livros de Salmos (capítulo 139:14-24) e Isaías (Capítulo 53:3-5) do Antigo Testamento, e o texto da Epístola aos Efésios 2:1-8 e carta aos Hebreus (capítulo 12:1b-2) no Novo Testamento. Todos estes textos fazem referência a prática sacrificial herdada do Judaísmo primitivo, onde os ritos sacrificiais foram um estabelecimento divinos. A diferença fundamental é que, no Novo Testamento a maior parte dos textos interpreta Jesus Cristo como a vítima sacrificial definitiva e que substitui toda a humanidade. Esta característica está presente principalmente nos escritos Paulinos e claramente são produções que estão de acordo ao seu contexto vital. Sem abordar questões estritamente
teológicas como datação, estrutura textual e afins, destacamos que os temas do pecado, salvação e morte violenta de Jesus são retomados durante a liturgia dominical de forma muito evidente. A linguagem religiosa dominical não está desassociada de elementos onde a violência tem papel fundamental, como é o texto de Isaías 53, por exemplo. Mesmo não sendo um texto cristológico, a imagem de Cristo é associada ao do Servo Sofredor, e todo o martírio de Jesus é interpretado a partir deste texto considerado popularmente como uma profecia (no sentido errôneo de antecipar o futuro). A vida de Jesus é reduzida à necessidade de reparação da honra divina e parafraseando o texto bíblico, a ideia corrente é que o castigo que promove a paz para a humanidade foi aplicado na crucificação de Jesus.
Em último lugar, os boletins apresentam um conteúdo baseado na sistematização da Satisfação Penal explicitados também nos hinos entoados durante a liturgia. Um exemplo deste caso é o hino do cancioneiro Batista, de número 123, chamado Bendito o Cordeiro. Segue abaixo a letra:
Seja bendito o Cordeiro, que na cruz por nós padeceu. Seja bendito o seu sangue, que por nós pecadores verteu. Eis, nesse sangue lavados, com roupas que tão alvas são. Os pecadores remidos que, perante Deus hoje estão. Alvo mais que a neve. Sim, nesse sangue lavado, mais alvo que a neve serei. Quão espinhosa coroa que Jesus por nós suportou. Oh! Quão profundas as chagas, que nos provam o quanto Ele amou. Eis, nessas chagas, pureza, para o mais torpe pecador. Pois que, mais alvo que a neve, o teu sangue torna, Senhor! Se nós a ti confessarmos, e seguirmos na tua luz, Tu não somente perdoas, purificas também, ó Jesus. Sim, e de todo pecado. Que maravilha desse amor. Pois que, mais alvos que a neve, o teu sangue nos torna, Senhor.
O hino do cancioneiro batista descrito acima é bastante considerado nas liturgias desta igreja. Considerado um clássico na tradição batista, a letra do hino praticamente remonta tudo aquilo que expusemos no decorrer deste capítulo sobre a violência presente no discurso religioso. É possível perceber a teologia da Satisfação Penal condensada nas linhas do hino. Os elementos da cruz, o sangue, os pecados, a remissão, são relacionadas ao amor de Deus e do próprio Jesus que se entregou na cruz, sendo supliciado até a morte. Como explicado anteriormente, a morte de Cristo é entendida como uma exigência divina para o perdão dos pecados da humanidade caída. Na cruz, como fica claro na letra do hino, Jesus derrama seu sangue que se torna o símbolo da purificação de todo aquele que nele crê. Esta característica da mensagem cristã, que torna o sangue de Jesus um elemento de purificação, nos remonta à teoria de Girard que apresenta a vítima e sua imolação como o fim de um ciclo e violência e o começo de um ciclo de paz. No discurso cristão esta questão é similar, e o sangue de Cristo representa tanto a purificação dos pecados, como alude à fúria divina que exigiu a satisfação mediante a morte do Filho.
Todas estas construções litúrgicas, hinos e textos com temas similares, indicam que a Teologia da Satisfação Penal ainda está muito presente no discurso da Igreja Batista, especialmente da Igreja em Coronel Leôncio. Todos os hinos e textos bíblicos que aludem aos elementos que temos indicado como violentos, são parte estruturante do discurso cristão e referenciam a maneira pela qual esta comunidade interpreta o texto bíblico e estrutura a fé. Todos os boletins dominicais anexos B são uma comprovação de que o tronco teológico da Satisfação Penal continua bastante usual e atual no discurso desta Igreja. Sendo assim, pode-se inferir que a mensagem cristã que contém violência, ajuda no enfrentamento da vida na favela e também da violência percebida neste contexto. A rotina desta favela está manchada de sangue, tanto quanto a teologia da Igreja batista em questão. A diferença é que no caso da Teologia, a violência é mascarada pelos objetivos salvíficos subjacentes. Já em relação à rotina de violência, a fé cristã opera como um ponto de estabilidade e segurança, produzindo através do discurso religioso uma disposição mental capaz de apoiar o fiel nas dificuldades que se apresentam cotidiana e ininterruptamente, inclusive daquelas relacionadas diretamente a violência.
Neste final de capítulo vimos como a Igreja Batista em Coronel Leôncio se apropria da Teologia da Satisfação Penal e fundamenta sua liturgia nesta corrente teológica sacrificialista. Entender como esta igreja tem mantido esta linguagem violenta, dentro de um contexto violento, foi de fundamental importância para compreendermos como o mascaramento da violência opera especialmente para a manutenção deste fenômeno. Ainda que até este ponto tenhamos evidenciado toda a carga de violência presente no discurso cristão, em outros documentos dominicais desta igreja percebemos que a linguagem sacrificial divide espaço com outras possibilidades de leitura teológica. Sendo assim, algumas ambiguidades são percebidas e demonstram que apesar da Igreja Batista em Coronel Leôncio estar associada à vertente sacrificialista, especificamente a Teologia da Satisfação Penal, em outros momentos o discurso tem tons mais pacíficos e indicam a possibilidade de existir uma teologia não-violenta, que sirva tão bem quanto a que desenvolvemos neste capítulo para dar respostas às demandas cotidianas e dar sentido à vida do fiel que está na favela. Nos dedicaremos a apresentar estas ambiguidades, com o objetivo de revelar como esta comunidade de fé já possui uma linguagem que abre mão da violência, mesmo que mantenha a sua estrutura teológica tradicional.