Após compreendermos em que consiste a Religião e sua importância comprovada na sociedade, podemos avançar com a discussão de sua relação histórica com a violência, a partir das teorias de René Girard, problematizando esta relação a partir do locus hermenêutico específico da favela que temos trabalhado. A esquematização teórica proposta por Girard acerca da violência e religião, nos ajuda a interpretar pelo menos duas facetas deste fenômeno, que desde sempre apontamos como complexo. A primeira faceta é a violência bruta, chamada por ele de intestina, que é produto da capacidade mimética do Ser humano, sendo percebida no que desenvolvemos no primeiro capítulo na tipologia de violência. E a segunda aplicação da teoria de Girard, nos ajudará a compreender como a religião opera seus ritos nos dias atuais, cooperando para que a violência seja um fenômeno não-paralisante quando percebida cotidianamente como é o caso do contexto da favela.
A tipologia de violência desenvolvida anteriormente e a violência percebida no processo inicial de industrialização na cidade do Rio de Janeiro estava associada, majoritariamente à crimes contra a pessoa. Os crimes contra a propriedade privada figuravam de forma muito tímida no início do século XX, e este quadro só mudou consideravelmente a partir da década de sessenta, tendo se agravado, a partir da década de setenta, quando as facções criminosas se formaram nas cadeias do Rio de Janeiro. Baseando-nos na teoria girardiana, podemos compreender que a escalada de violência no Rio de Janeiro e Niterói a partir da década de sessenta, e a significativa alteração da tipologia criminal pode ser explicada pelo desejo mimético. Acerca disto, é sabido que, “o desejo é todo construído socialmente” (GIRARD, 2011, p. 99). Ou seja, a valoração social de certos objetos e posições sociais é construída historicamente. Nada tem valor por si só.
Ao avaliarmos o processo de industrialização que gerou indiretamente o processo de favelização, percebemos que no início do século XX as taxas de criminalidade e violência estavam diretamente relacionadas a ações diretas contra pessoas, sem necessariamente terem como fundo motivacional a questão econômica. É certo, como comprovamos inicialmente, que a favela enquanto espaço social sempre foi associada à presença e propagação da violência para a cidade formal, sendo apontada continuamente como nascedouro de marginalidade e malandragem. Contudo, como vimos, as favelas inicialmente foram formadas pela classe
trabalhadora, formal e informal, estruturada por pessoas que saiam de outros estados e até outros países em busca de trabalho na capital, com vistas à melhoria no acesso a elementos básicos de sobrevivência. O que nos interessa nesta questão é apontar que a criminalidade aguda que foi, desde a gênese da favela associada a este lugar e seus atores sociais, só foi realidade constatada numa segunda ou até terceira geração de pessoas segregadas.
O avanço econômico do país, mais estimulado no período do Estado Novo como vimos, agravou um problema já existente no Rio de Janeiro e em Niterói. A proporção de crescimento econômico é equivalente ao crescimento das favelas, e, consequentemente, o acúmulo ilimitado de capital caminha lado a lado com a pobreza extrema na história destas duas cidades. O aumento populacional sem precedentes fez com que a indústria não tivesse capacidade de absorver esta massa trabalhadora, e, assim, os recém-chegados ficaram relegados aos trabalhos informais e ao que chamavam de biscates, juntamente com os já instalados nas favelas e que tinham ocupações similares. Este movimento migratório, de êxodo rural, já indicam a presença de um modelo inconsciente estabelecido. Os homens e mulheres que apostaram na sorte e na esperança de uma vida melhor, eram impulsionados por um discurso que descrevia uma vida onde o acesso à saúde era facilitado, onde a educação era possível não somente aos filhos dos ricos, onde a oferta de trabalho não era escassa e havia espaço para a sobrevivência. O desejo desta primeira geração de favelados e faveladas objetivou como modelo aqueles que não viviam relegadas à própria sorte numa vida preenchida pela falta.
O modelo inconsciente que motivou esta saída de uma parcela altamente significativa de pobres para as capitais, correspondia a pessoas de classe média ou alta, que viviam em condições salubres, com acesso aos serviços que facilitam a continuidade da vida, e, por mais surpreendente que seja, podemos destacar a comida como um elemento possuído pelos modelos e em falta para os sujeitos. O início do século XX, de fato, alçou a classe média/alta como o modelo para as massas de trabalhadores. Para exemplificar, relembramos que em uma das gravuras apresentadas no primeiro capítulo, vemos um homem negro trajado, a seu modo, como o Prefeito Pereira Passos, o que demonstra uma tentativa de igualamento e adequação social do sujeito em relação ao seu modelo. No que diz respeito a violência, neste mesmo período há a predominância de homicídios motivados por brigas, e a repressão estatal ainda era eficaz no tocante à imposição de limites de classe. O mimetismo tinha diferença de classe, contudo, a rivalidade ficava concentrada em sua grande maioria entre indivíduos de mesma classe social. Ou seja, os criminosos favelados agiam contra os próprios favelados, ou à indivíduos pobres e operários. Logo, neste início de século não havia um espaço intermediário entre a cidade-formal e a informal e o Estado agia como repressor e administrador da violência percebida.
O momento que corresponde à uma grande alteração na tipologia de violência, indica que este fenômeno em seu estado mais bruto está relacionado ao período em que a economia atinge seu clímax de produtividade e ascensão. As décadas de cinquenta e sessenta foram palcos destas mudanças. Este período corresponde à colheita dos efeitos esperados pelos investimentos feitos durante o início do Estado Novo e, quando analisamos a violência praticada nestas duas décadas, a tipologia sugere que o motivador principal de ações violentas era o fator econômico. O sucesso dos investimentos estatais que resultaram na ampliação da Indústria Nacional, sob a administração de Vargas, não teria ocorrido sem a parceria dos detentores de Capital e tecnologia, bem como da massiva absorção de trabalhadores vindos de diferentes regiões e países. A tão esperada transição nos modelos de produção finalmente mostrava seus primeiros resultados positivos no campo econômico, mas também resultava em aumento da violência urbana. Seria ingênuo considerarmos que todas as pessoas, principalmente considerando a classe operária, sofreram alterações significativas em sua pobreza por conta deste momento histórico. Entretanto, seria desonesto não apontarmos que o aumento da oferta de emprego, na indústria em geral, promoveu melhorias na qualidade de vida dos brasileiros das classes mais pobres.
Se é possível, como sugere Girard, que o desejo seja compreendido como uma construção social, podemos então entender que a melhoria na esfera econômica dos mais pobres teve como resultado direto a alteração dos tipos de modelo adotados, e, consequentemente, a fluidez do desejo mimético em relação ao quê possuir. Uma vez que as necessidades mais urgentes como a alimentação, por exemplo, já estavam supridas, a classe trabalhadora que ocupava as favelas, especialmente em sua segunda e terceira geração, foi capaz de ressignificar os seus alvos de desejo. Essa fluidez e mudança do alvo do objeto de desejo tem total relação com o modelo econômico vigente no período e reforça que o seu despertamento é uma característica inata humana. Acerca disto, Girard diz que o capitalismo gerou uma equalização de classes, em matéria de desejos. Segundo ele “as pessoas que se encontram no patamar social mais baixo desejam o mesmo que as pessoas situadas no patamar mais alto têm” (GIRARD, 2011, p. 88). Logicamente o capitalismo já era o modelo econômico vigente quando as favelas surgiram, quando as relações trabalhistas se estabeleceram e a indústria cresceu no Rio e também em Niterói, contudo, a possibilidade de alteração de modelos e a mudança de alvo de desejo tem ligação direta, como dissemos, à priorização da manutenção da vida. Em síntese, o modelo selecionado inconscientemente por um indivíduo que passa fome, por exemplo, possivelmente será um indivíduo que come pelo menos três vezes por dia, pois o alvo de seu desejo é justamente algo que ele não possui e que é fundamental para a manutenção de sua vida.
A segunda e terceira gerações de pobres, filhos e filhas dos retirantes nordestinos, dos imigrantes, dos escravos e escravas, ainda tinham uma vida dura de carestias, mas, ainda assim, podiam nutrir desejos diferentes daqueles que seus pais tinham. Esta geração já estava estabelecida em casas (espaços pequenos e pobres na favela), já podia pleitear acesso a escolas públicas com maior probabilidade de acesso, e não precisavam começar a trabalhar tão cedo como era de costume na geração de seus pais e avós. Ou seja, a vida já tinha melhorado de uma geração para a outra, e a própria sociedade em seu dinamismo já havia criado novos alvos de desejo. Um jovem que comia pelo menos duas vezes por dia, podia desejar um tênis que custava mais da metade do salário de seu pai ou mãe, usado por seus modelos que ocupam a zona sul da cidade. Desta maneira, compreendemos que, o desejo mimético alavancado pela sociedade moderna, que é caracterizada pelo consumo, extrapolou fronteiras econômicas, e o desejo de ter assumiu as coordenadas éticas de uma parcela da população que passa a fazer uso da violência como meio de suprir os seus desejos. Isto explica o porquê dos crimes contra o patrimônio e propriedade privada passam a ser mais recorrentes que os crimes contra pessoa.
Para além disto, motivados pelo desejo, uma parcela excluída da cidade-formal decidiu romper a fronteira geográfico-econômica e acessou forçosamente o território que lhes foi negado com o fim possuir os seus objetos de desejo, mesmo que para isso fosse necessário violentar os seus modelos. A incidência de jovens pobres oriundos da favela na criminalidade aumentou significativamente nestas décadas de cinquenta e sessenta, e, então, a fama antiga de que a favela era lugar de marginalidade ganhou contornos mais definidos. A convergência de variáveis como uma maior satisfação dos elementos básicos, associada a uma mudança de geração e valores, e uma economia que tem seu mecanismo de funcionamento baseado no consumo irrefreado, resultou em um novo quadro de violência. A rivalidade suscitada pelo desejo cresceu assustadoramente e culminou em uma onda de violência sentida até os dias atuais. Uma parcela significativa que estava excluída da cidade-formal passou a acessar forçosamente o espaço social que lhes era negado, e, mais que isso, utilizando a violência como o meio mais eficaz para superar, ou pelo menos se igualarem aos rivais surgidos com o desejo mimético. O cálculo figurativo para entender esta questão é simples: quanto mais a juventude pobre era privada de acessar os seus objetos de desejo, mais agiam com violência para possuí- los.
O despertar e projeção do desejo mimético deste período, ao produzirem rivalidade, apresentam os mesmos efeitos que nas sociedades pré-modernas: a escalada de violência. A diferença fundamental é que, a violência percebida já não era mais controlada e apaziguada pela Religião, especificamente no rito sacrificial do bode expiatório como vimos anteriormente.
Diante dessa alteração, a instituição responsável pela mediação e controle da violência, agindo com severa repressão, principalmente nas favelas, passou a ser o Estado. De acordo com Weber, Estado significa “uma relação de homens dominando homens, relação mantida por meio de violência legítima, isto é, considerada como legítima” (1982, p. 99). A violência continuou figurando como o meio mais acessível de controlar a própria violência, a diferença é que de acordo à administração burocrática, o monopólio do uso da violência pertence ao Estado. O Jus puniendi é seu direito exclusivo. Sendo assim, qualquer expressão de violência que não partisse diretamente das autoridades responsáveis e autorizadas para utilizá-la era classificada como violência ilegítima. No contexto da favela, a função do Estado é a mesma e suas ações repressoras são especialmente sentidas entre os jovens, que são os mais afetados pelo desejo mimético conflituoso e pela apropriação da violência como meio de suprir os desejos despertados. Como forma de punição e vingança, que tem como objetivo o controle da violência Ilegítima, a juventude pobre das favelas é violentada severamente de forma Legítima pelo Estado, o que configura este grupo como as vítimas históricas deste processo de melhoria econômica, estabelecimento de desigualdades e desejo mimético que desemboca em conflitos e rivalidades.6
Esse processo de monopolização da violência, que em poder do Estado torna-se legítima, leva-nos à uma pergunta importante. De que maneira os homens/mulheres transmitiram para o Estado o direito de vingança, ou a administração da violência que antes pertencia à religião? Entre outras razões, Weber entendeu que esse acordo tácito se efetiva entre os componentes da sociedade e o Estado por um princípio de Legalidade, “em virtude da fé na validade do estatuto legal e da competência funcional, baseada em regras racionalmente criadas” (1982, p. 99). De maneira intrigante, Weber aponta a fé como uma virtude que possibilita a concessão de poderes ao Estado. Há uma crença implícita de que, por ter sido racionalmente formulada, a sua eficácia é garantida. Weber, mesmo com referenciais modernos, apropria-se de categorias teológicas para explicar o bom funcionamento da coerção causada pelo Estado, e para indicar como a violência legítima sofre mascaramento. Assim como o ritual de sacrifício não é visto como assassinato nas sociedades antigas, a violência legal do Estado é percebida como condição necessária para apaziguar a vingança. Nas sociedades onde o Estado é mediador de conflitos, é necessário que a violência legítima não seja percebida como violência, pois a sensação de
6 Os relatórios divulgados em 1998 no Mapa da violência, acessível através do link
https://www.mapadaviolencia.org.br/publicacoes/MapaViolencia_1.pdf indica que entre 1979 e 1996, os índices de homicídios nas capitais aumentou cerca de 166%, e os jovens entre 15 e 24 anos são os que mais morrem de forma violenta. As mortes, em geral, são resultados direto dos conflitos com o Estado.
ordenamento e estabilidade que esta promove ficaria comprometida. De forma simplificada, poderíamos dizer que o Estado passou a administrar a violência, tentando reduzi-la somente pela via da punição e do monopólio da vingança, não acessando os pressupostos implícitos que contribuíam para o seu crescimento, como é o caso da rivalidade motivada pelo desejo mimético.
Tendo vencido estas questões, cabem ainda pelo menos duas perguntas importantes acerca da relação entre violência e religião a partir da perspectiva de Girard, que são as seguintes: como podemos compreender a continuidade das instituições religiosas mesmo com a extrema racionalização proposta pelas instituições modernas? Se o Estado passa a controlar a violência monopolizando seu uso, qual seria a relação moderna entre religião e violência? Acerca da primeira pergunta, é sabido que os teóricos modernos previram sem sucesso a morte da Religião. O próprio Weber sugeriu que o mundo sofreria um processo de desmagicização. Ou seja, o discurso religioso cairia em desuso e suas formulações seriam substituídas integralmente pela linguagem científica. Sabemos que estas previsões falharam, e a religião continua a figurar como uma das produções humanas mais acessadas em todas as partes do mundo. Sendo uma produção humana, que viabiliza desde sempre certo modelo de comportamento diante da vida, que oferece respostas as perguntas existenciais, que cerca os indivíduos de promessas de uma vida melhor nem que seja depois da morte, a religião não perdeu seu caráter estabilizador. E mesmo diante da solidez metodológica da ciência e de todas as explicações científicas objetivas, as estruturas subjetivas que conduzem os indivíduos à fé permaneceram inabaláveis.
Apesar da modernidade ter produzido uma nova forma de conhecimento, de propor formas de vida que supunham o amadurecimento do ser humano e como consequência o abandono da religião, esta sobreviveu à polarização extrema da racionalidade. Neste curso dinâmico da vida e de surgimento de ideias e instituições, como foi o caso do Estado, a violência continuou existindo fazendo suas vítimas e implicando as sociedades em sua espiral. Mesmo sabendo que o Estado burocrático assumiu o controle da violência, controlando-a por meio de monopólio do seu uso legítimo, isto não significa que cotidianamente os indivíduos tenham confiado plenamente nesta instituição para superar os efeitos e o envolvimento indiferenciado provocado pela violência. E é neste ponto que a Religião tem um papel fundamental. O discurso religioso possui uma capacidade formativa e organizadora, que leva indivíduos a agirem por meio dele, enfrentando e superando as demandas da vida, inclusive uma vida em que a violência está presente cotidianamente, como na favela. O que chama nossa atenção é que no próprio discurso religioso cristão, e aqui estamos tratando especialmente da tradição batista, a violência se apresenta como a ferramenta fundamental, o pilar da sistematização do pensamento e o
sacrificialismo retorna como a solução exigida por Deus para que a paz seja realidade. A questão fundamental é que, como Girard sugere, necessariamente qualquer sistema sacrificial necessita mascarar o uso da violência para romper com sua escalada.
Na Modernidade, independente do Estado ter assumido o papel que antes a Religião ocupava, esta continua a se entrelaçar com a violência de maneira bastante funcional, principalmente quando nos aproximamos das bases sacrificialistas presentes no discurso religioso cristão. Neste tipo de produção teológica, a violência ainda se apresenta como um elemento fundamental para aquilo que é basilar no discurso de fé: a salvação da humanidade, que foi possível mediante a satisfação da exigência divina, que era a morte de uma vítima. No caso, a vítima foi o próprio Filho de Deus. A diferença crucial na relação entre Violência e Religião é que, na Modernidade os ritos sacrificiais e a aplicação de violência direta para o controle de conflitos comunitários não são práticas permitidas. Ainda assim, na esfera da Religião, a institucionalização da fé cristã e a posterior sistematização de seus temas-base, apontam para o mascaramento da violência, transformando-a em um elemento necessário e identificada como purificadora, legítima e necessária, mesmo que parta diretamente de Deus.
Em síntese, os ritos religiosos violentos praticados nas sociedades antigas passam por uma metamorfose e ficam restringidos a esfera do discurso. A violência presente no rito sacrificial na antiguidade, invade na Modernidade o campo simbólico, e desta maneira o discurso cristão de base teológica sacrificialista continua a referenciar a morte, o sacrifício, o sangue, o pagamento de penas como exigências divinas, tendo como objetivos a instauração de uma ordem onde a transcendência opera para que a paz e a estabilidade sejam realidades vividas. Ou seja, a Violência e a Religião não estão de forma alguma separadas. O que mudou significativamente foi a sua aplicação e a forma de viabilizar o seu mascaramento. Diante disto, compreendemos que o Estado opera nos campos Legislativo e Judiciário para administrar a violência, e por sua vez, a Religião nos dias atuais opera no campo simbólico oferecendo mediante seu discurso e seus ritos institucionalizados, fundamentos para a vida análogas à violência que mascara.
No caso específico da favela e do crescimento significativo da violência que temos apontado, a religião configura-se como uma oferta de segurança e superação de uma realidade difícil de ser explicada, mas inadiavelmente superável. A seguir veremos como a Religião se desdobra nos nossos dias, e como no contexto da favela pode assumir funções positivas e estruturantes em meio ao caos.