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2.3) Schéma d’interpolation de Deslauriers et Dubuc

A análise dos dados coletados obedeceu à ordem cronológica sugerida por Bardin (1977): ordenamento e organização do material, pré-análise, exploração e tratamento, inferência e interpretação dos resultados.

Assim sendo, após concluído todas as entrevistas foi elaborado para cada gruta turística uma ficha-cadastro (Anexo 2). Para elaboração desta Ficha-cadastro usou-se como referência as fichas-cadastro utilizadas para coleta de informações referentes às grutas turísticas, ou com potencial turístico no Plano de Ação Nacional para a

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Conservação do Patrimônio Espeleológico nas Áreas Cársticas da Bacia do Rio São Francisco (ICMBIO, 2012), e no Plano de Manejo Espeleológico do Parque Estadual de Intervales, São Paulo, Brasil (Governo do Estado de São Paulo, 2010).

Em seguida, deu-se início a etapa de pré-análise de dados considerados essenciais para caracterização do formato da gestão das grutas turísticas investigadas, como: o tempo de abertura da gruta a visitação pública, a tipo de entidade gestora, os equipamentos e infraestruturas disponíveis, o calendário e o horário de funcionamento, a capacidade de carga, o número de visitantes que a gruta recebe por ano, a existência de mecanismos de monitorização dos impactos ambientais, a dinâmica da visitação, os diferentes preços de acesso, as formas de promoção e a divulgação da gruta, os fatores que contribuem e os que dificultam a gestão na visão dos entrevistados, entre outros aspectos.

As inferências e interpretações sobre as características das gestões das grutas turísticas foram feitas a partir de análise quali-quantitativa dos dados. O pesquisador procurou o significado daquilo que os entrevistados expressaram com base nas suas opiniões, crenças, valores, representações e relações humanas. Figuras e quadros foram elaboradas para auxiliar a compreensão das informações apresentadas.

Contudo, de acordo com Minayo (2012) não existe uma mente vazia de informações anteriores ou isenta de teorias e ideologias. Nesse caso, o reconhecimento de que existem visões complementares entre sujeito e objeto no processo qualitativo de construção científica obriga um esforço metodológico capaz de realizar uma análise da forma mais sistemática e aprofundada possível, com o intuito de evitar incursões do subjetivismo, interpretações com base nas opiniões do pesquisador e conclusões precipitadas.

Atento a isto, o autor procurou sempre adotar um percurso analítico que permitisse a construção de conhecimentos com as condições necessárias para dar fidedignidade e confiabilidade aos resultados e, assim, poder ser reconhecido como um produto científico. 3.3.2.2 Análise SWOT

A discussão sobre o desempenho do setor público na implementação e gestão de áreas naturais protegidas, sobretudo parques é presente na sociedade muitas vezes embasada no questionamento da melhor eficiência do setor privado para provisão destes

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serviços (Saporiti, 2006; Fitzsimons, 2015; Spenceley et al., 2017; Braye, 2017). Estudos empíricos sobre este tema já foram realizados em diversos países (More & Manning, 2004; Weiermair et al., 2008; Pfueller; 2011), inclusive no Brasil (Todesco, 2007; Rodrigues & Godoy, 2013). No caso específico das grutas turísticas não foi encontrado nenhuma abordagem semelhante, apesar do fato de muitas delas também estarem inseridas em áreas naturais protegidas.

A comparação da sustentabilidade da gestão pública e privada de grutas turísticas é complexa e desafiadora, principalmente devido à ausência de padrões e formas de avaliação do desempenho. Sendo assim, a fim de facilitar uma comparação desses dois tipos de gestões elaborou-se uma análise SWOT das 10 grutas turísticas investigadas, sendo 5 geridas por instituições públicas e 5 por organizações privadas.

A análise SWOT, também conhecida como matriz SWOT, é um método de pesquisa utilizado para analisar um determinado status quo (Goranczewski & Puciato, 2010). O termo SWOT é a sigla em inglês, que representa um acrônimo de Forças (strenghts), Fraquezas (weaknesses), Oportunidades (opportunities) e Ameaças (threats).

Strengths (Forças) são as vantagens internas da entidade relativamente às concorrentes; Weaknesses (Fraquezas) são, por sua vez, as desvantagens internas em relação às

concorrentes; Opportunities (Oportunidades) são os aspectos externos positivos que podem potenciar a vantagem competitiva da entidade; e Threats (Ameaças) são os aspectos externos negativos que podem pôr em risco a vantagem competitiva (Harfst et al., 2010).

De acordo com Harfst et al. (2010), a análise SWOT é um dos métodos mais utilizados na gestão estratégica dos negócios e de recursos naturais para avaliar uma determinada decisão, projeto ou diretiva política de maneira sistemática. Segundo Schmoldt et al. (2001), a análise dos fatores ambientais internos e externos é uma parte importante de um processo de planejamento estratégico que, por sua vez, é um componente do desenvolvimento sustentável.

No turismo, a análise SWOT também tem sido amplamente utilizada, tanto no âmbito acadêmico quanto profissional (Carrà et al., 2016; Dilek & Kesgingöz, 2016). Inclusive, este método é bastante empregado em estudos e projetos que têm como foco o desenvolvimento sustentável do setor (Roslan et al., 2018; Mondal, 2017).

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A análise SWOT baseia-se em dois níveis de análise que são conduzidos separadamente:

1. O primeiro passo é analisar os fatores internos (análise local) que contêm uma discussão sobre os pontos fortes e fracos de acordo com os objetivos do SWOT;

2. O segundo passo é analisar os fatores externos (análise global) que contêm uma discussão sobre oportunidades e ameaças relevantes (Harfst et al., 2010).

As análises SWOT realizadas neste estudo partiram do pressuposto que a efetividade da gestão de uma gruta turística deve ser avaliada com base nos princípios de sustentabilidade que se traduzem na combinação de três vertentes de desenvolvimento: prosperidade de negócios, benefícios para as comunidades envolvidas e conservação do ambiente (UNWTO/UNEP, 2005; Hunter, 1997; Hardy et al., 2002).

De acordo com Goranczewski & Puciato (2010), na análise SWOT não há necessidade de especificar todos os fatores. Em vez disso, devem estar em foco aqueles que são de importância primordial e podem determinar o futuro da organização. Para garantir a imparcialidade da comparação do desempenho das instituições públicas e das organizações privadas, foram considerados em ambas as análises SWOT os mesmos critérios de avaliação. Estes critérios estão listados no Quadro 10 e foram previamente definidos pelo autor a partir do conhecimento obtido com a revisão da literatura (IUCN, 2018; ISCA, 2014; UNWTO/UNEP, 2005), conversas com especialistas e a pesquisa de campo (Anexo 2).

Caso a comparação fosse feita sem critérios previamente definidos, corria-se o risco da análise se tornar aleatória e os resultados enviesados. Posteriormente, estes critérios poderão ser utilizados para aprofundar esta investigação e, também realizar novos estudos, tornando assim possível a comparabilidade dos resultados. Reihanian et al. (2012) utilizaram de procedimento semelhante para verificar através da análise SWOT a aplicabilidade da transformação do estado atual do turismo no Parque Nacional de Boujagh, no norte do Irã, para um modelo de turismo sustentável.

Quadro 10 - Critérios definidos para análise SWOT da gestão das grutas turísticas no âmbito da sustentabilidade econômica, ambiental e social

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E

conôm

icos

Planejamento estratégico.

Monitoramento das tendências do mercado.

Avaliação da satisfação dos clientes e execução de ações corretivas. Gestão participativa.

Inovação e diversificação da oferta turística. Uso de diferentes canais de promoção e divulgação. Qualificação da mão-de-obra.

Articulação de parcerias com outros agentes do turismo. Flexibilidade da gestão e agilidade nas decisões. Diversificação de fontes de recursos.

Possibilidade de acesso a programas de financiamento,

Custos de manutenção (equipamento, funcionários, energia, etc.). Crescimento acelerado do turismo à escala global.

Sazonalidade do turismo.

Medidas compensatórias por decisão judicial como fonte de recursos. Falta de interesse político no desenvolvimento do espeleoturismo.

Atrasos ou cancelamentos de recursos públicos destinados às Unidades de Conservação (UCs). Ambiente global mais competitivo e turistas mais atentos a relação qualidade-preço.

Incapacidade de aperfeiçoar os produtos e serviços de acordo com as demandas do mercado, Velocidade de adaptação as novas tecnologias,

A m bie n tai s

Elaboração de Estudos de Impacto Ambiental/Plano de Manejo Espeleológico. Construção de infraestruturas em harmonia com o patrimônio natural e cultural. Monitoramento dos impactos ambientais.

Adoção de medidas de contenção, redução e/ou mitigação dos impactos ambientais. Maior conscientização ambiental dos turistas.

Procura dos turistas por experiências únicas e verdadeiras. Aumento do interesse pelo turismo de natureza.

Legislação insuficiente para o bom funcionamento e proteção das UCs. Regulamentação específica do espeleoturismo.

Soci

a

is

Realização de ações de educação ambiental.

Oferta de oportunidades de emprego para os moradores locais.

Comercialização de produtos desenvolvidos por empreendedores locais baseados na natureza e cultura da região.

Incentivo a visita dos moradores locais à gruta.

Política de gastos que prioriza a aquisição de serviços e bens locais. Respeito a proteção jurídica dos trabalhadores.

Conflitos de interesses com as comunidades do entorno.

Fonte: IUCN (2018); ISCA, (2014); UNWTO/UNEP, (2005); Anexo 2.

Com base nos resultados das análises SWOT, foram feitas reflexões apoiadas na literatura sobre os prós e os contras de cada tipo de gestão, do ponto de vista econômico, ambiental e social. Ao final, apresenta-se a conclusão sobre qual o tipo de gestão de grutas turísticas que, no geral, pode ser considerada a mais sustentável.

103 3.3.2.3 Análise de conteúdo

A análise de conteúdo foi a metodologia empregada para classificar e categorizar as mensagens extraídas das avaliações registradas no TripAdvisor. A metodologia tem uma extensa lista de aplicações no plano da comunicação social, por exemplo, em campanhas eleitorais para mensurar estratégias argumentativas adotadas pelos candidatos (Figueiredo et al., 1997; Cervi et al., 2012).

O número de avaliações a tomar em conta nesta investigação foi definido através do método de saturação teórica. Este método corresponde na suspensão de inclusão de novos participantes na pesquisa quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados (Glaser & Strauss, 1967).

Sendo assim, foram lidas e interpretadas as avaliações registradas no TripAdvisor sobre cada uma das 10 grutas turísticas investigadas até obter informações suficientemente estáveis para permitir estabelecer uma lista de temas mais citados nas avaliações. Foram definidos 10 temas, sendo eles: 1. Deslocamento, 2. Locomoção, 3. Infraestrutura, 4. Guias, 5. Conservação ambiental, 6. Preço, 7. Beleza natural, 8. Formação rochosa, 9. Conhecimento, 10. Sensações. Em seguida, estes termos foram utilizados como categorias para sintetizar e classificar o conteúdo das avaliações dos visitantes.

De acordo com Janis (1982), por mais intuitivo que possa parecer os limites de cada categoria devem ser claros e formalizados, e o conteúdo das mensagens não pode, em nenhuma hipótese, ser passível de classificação em mais de uma categoria. A quebra desta regra leva à ausência de confiabilidade dos resultados. Sendo assim, os sinais que indicam qual das 10 categorias uma determinada mensagem poderia ser classificada são apresentados no Quadro 11.

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Quadro 11 - Delimitação das 10 categorias de análise de conteúdo das avaliações sobre as grutas turísticas registradas no TripAdvisor

Categoria Sinais considerados

Deslocamento

Distância, condições das estradas, sinalização, transporte público e qualquer outro tipo de aspecto que se refira ao período de deslocamento do visitante do local de origem até a gruta. Locomoção

Condições de acesso da gruta em geral, como tamanho do percurso de visitação, nível de esforço físico, iluminação e infraestruturas internas instaladas (escadas, corrimãos, decks, elevadores, etc.).

Infraestrutura

Equipamentos turísticos instalados na superfície da gruta para receber os visitantes, como restaurantes/cafés, lojas de

souvenires, museus, estacionamento e casas de banho.

Guias Profissionais responsáveis por conduzir os grupos de visitantes dentro da gruta.

Conservação ambiental

Limpeza do ambiente, manutenção do aspecto natural da gruta, tamanho dos grupos de visitantes, barulho produzido dentro da gruta e medidas de controle dos impactos causados.

Preço Existência de cobrança e preço do bilhete de entrada. Beleza natural

Expressões de deslumbramento com a beleza da gruta: linda, fantástica, maravilhosa, magnífica, impressionante, obra- divina, esplêndida, etc.

Formação rochosa Atenção especial dada as formações rochosas, com destaque para os espeleotemas (estalactites e estalagmites).

Conhecimento Conhecimentos adquridos durante a visita à gruta.

Sensações Sensações individuais de paz, alegria, retorno ao passado, viagem ao centro da terra, meditação, adoração, etc.

Fonte: Elaboração do próprio autor com base nos dados obtidos no triAdvisor sobre as grutas turísticas investigadas.

Para seleção das avaliações que seriam analisadas definiu-se que a cada 10 avaliações registradas no TripAdvisor sobre cada gruta turística seria analisado o conteúdo da última avaliação. No total, foram analisados os conteúdos de 305 avaliações, conforme discriminado no Quadro 12.

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Quadro 12 - Número de avaliações registradas no TripAdvisor sobre as 10 grutas turísticas e o número de avaliações que tiveram o conteúdo analisado

Gruta turística Número de avaliações

registradas no TriAdvisor Número de avaliações analisadas o conteúdo Algar do Pena 4 4 G. Janelão 69 6 G. Santo António e G. Alvados 70 7 G. do Salitre 164 16 G. da Moeda 372 37 G. Rei do Mato 539 53 G. Mira de Aire 545 54 G. da Lapinha 625 62 G. Maquiné 667 66 Total 3.055 305

Fonte: Elaboração própria.

A partir da organização dos dados coletados e do emprego de técnicas de análise quantitativas foi possível perceber a frequência com que estes termos aparecem nas avaliações positivas e negativas dos visitantes das grutas turísticas investigadas. Berezina et al. (2016) utilizaram-se de procedimentos semelhantes para determinar os fundamentos da satisfação e insatisfação dos hóspedes com base nas avaliações registradas no

TripAdvisor sobre um hotel em Sarasota, Flórida, Estados Unidos.

Ao final, por meio de uma análise qualitativa dos resultados obtidos e com base na literatura apresentou-se considerações sobre os aspectos que potencialmente mais contribuíram para satisfação e insatisfação dos visitantes.