Ao propor o tema educação nos referimos a ela com seu significado mais amplo entendendo que a ação proposta pela Diocese de Goiás com seus Grupos do Evangelho e a formação bíblica está realizando um trabalho eminentemente educativo. Entende-se que cabe à educação uma função relevante para a construção de uma nova mentalidade, uma nova consciência de relação entre campo e cidade. A função da educação foi percebida pelos que pensaram a ação da Diocese e, o seu desenvolvimento tinha um diferencial em relação à ação escolar. Sem pensar explicitamente em ‘educação do campo’, isso foi acontecendo dentro do trabalho de evangelização, dentro do estudo e interpretação popular da Bíblia. Ela se torna educação do campo na medida que parte do sujeito do campo, sua situação de vida e o incentiva, lhe dá condições para o protagonismo histórico.
Diferentemente daquilo que acontecia nas escolas, pelo fato de que são instituições atreladas a um sistema, a formação oferecida pela Diocese de Goiás tinha como meta a libertação, a construção de cidadania e este caminho se construiu não de fora para dentro, de cima para baixo, mas começando por entregar a palavra aos marginalizados da sociedade e da própria Igreja.
Os pobres logo entendiam o Evangelho. Na primeira reunião de um patrimônio, um participante falou: ‘a Boa noticia é esta reunião nossa de hoje. Antes o povo nunca foi convidado a dar palpite numa reunião sobre as palavras de Cristo. Nós estamos vivendo na miséria, somos pisados e nos pisamos uns aos outros e não tem amor entre nós. Hoje começou para nós um caminho novo, verdadeiro’ (BOAS NOTÍCIAS, 1975, p. 11).
A educação escolar não vinha produzindo resultados que realmente favorecessem aos trabalhadores, uma vez que continuava servindo aos interesses do capital. O certo é que a escola continua trabalhando com a realidade do mérito,
isso significa uma visão de desigualdade, que continua a alimentar os conflitos entre campo e cidade e não a busca da construção da igualdade. “A escola mesmo que seu reformismo pedagógico tenha incorporado definitivamente a seu discurso termos como ‘solidariedade’ ‘cooperação’, ‘trabalho em equipe’ e outros do estilo, estimula por todos os meios a seu alcance a competição entre os alunos” (ENGUITA, 1989, p. 196). Diante disso, o notável é que esta educação estimula a competição entre os alunos porque é uma escola que está dando formação em função do mercado e, consequentemente, em função de uma sociedade capitalista. Trata-se de uma instituição que não se preocupa com a formação de seres pensantes e sim com a formação de seres integrados na sociedade neoliberal, a educação inclusiva, com seus mais belos ideais de cidadania não passa na verdade dessa integração.
Socializar hoje sistematicamente as crianças no individualismo, na competição e na falta de solidariedade é preparar o terreno para que amanhã se lhes torne difícil erigir outro gênero de relações entre eles e, em particular para que não sejam capazes de agir de forma solidária frente seus empregadores (ENGUITA, 1989, p. 199).
Não se trata de desacreditar da escola, esta é uma constatação de seu uso, e do serviço que acaba prestando ao sistema capitalista. Assim, não há como propor reformas ou mudanças superficiais, uma vez que as mudanças na educação devem ser mudanças radicais. “É por isso que é necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente” (MÉSZÁROS, 2007, p. 198).
Uma das formas que funcionou muito como rompimento com a lógica do capital foram os mutirões. Assim expressava o refrão de um canto da época intitulado de ‘A mensagem do Evangelho e da realidade’: “Lavradores! Vida nova!/ Gente unida em mutirão,/Gente unida a toda prova,/de uma fé e um coração” (BOAS NOTÍCIAS, 1975, p. 8). A ideia do mutirão não se restringiu aos trabalhos habituais da terra, foi assumida pelo trabalho pastoral. “Resolvemos fazer nosso mutirão para isto: sair pelas beiras de caminho e convidar as pessoas marginalizadas da sociedade e até da Igreja, unindo-nos a elas para podermos crescer todos juntos” (BOAS NOTÍCIAS, 1975, p. 10).
O grande desafio para a Diocese de Goiás era: como construir a igualdade dentro de um mundo desigual e que continuava aprofundando as desigualdades? A
Diocese de Goiás pensou na realidade vivida pela população, na grande maioria lavradores que, buscavam espaços para viver e criar suas famílias. E esse foi na verdade um trabalho educativo que foi servindo como cunhas nas brechas que o sistema opressor não dava conta de controlar. Não havia sido concebida ainda, na época a ideia de uma Educação do Campo, o que na verdade era praticada pela formação bíblica diocesana.
Hoje é muito comum se pensar e acreditar na educação como um fator que pode contribuir na construção de um mundo da igualdade, mas para isso é necessário recriar, ou mesmo criar uma nova educação, ou uma nova política de educação, e essa nova “política de Educação do Campo precisa conceber que a cidade não é superior ao campo” (BRASIL, 2004, p. 35). Acreditar na educação é acreditar na possibilidade de transformação, ela é um dos instrumentos disponíveis para que aconteça a recriação deste mundo, porém para que isto aconteça a educação não deve ser tomada apenas como um fato isolado e, vista apenas como educação formal ou escolar. Ela é uma realidade dos movimentos sociais, é uma realidade em primeiro lugar popular e que acaba valorizando a educação escolar. É nessa perspectiva que nasce a educação do campo.
A educação recria o campo porque por meio dela se renovam os valores, atitudes, conhecimentos e práticas de pertença à terra. Ela instiga a recriação da identidade dos sujeitos na luta e em luta como um direito social, porque possibilita a reflexão na práxis da vida e da organização social do campo, buscando saídas e alternativas ao modelo de desenvolvimento rural vigente (BRASIL, 2004, p. 33).
Recriar o campo no contexto de discriminação e desigualdades significa que a educação tem a função não de promover outro tipo de vida para o campo, mas sobretudo, valorizá-la. A educação como instrumento de valorização da cultura do campo, não significa de forma alguma colocar uma camisa de força e propor uma educação que sirva apenas para a vida do campo. O homem do campo como qualquer ser humano é livre e tem o direito de escolha sobre a sua forma de vida. O que é realmente seu direito é uma educação de qualidade. A Diocese de Goiás em conjunto com a PUC Goiás, na época, Universidade Católica de Goiás pensou também um trabalho a partir da escola, não deixou de acreditar em seu potencial agregador, tanto é que esteve junto com os trabalhadores na instalação da Escola Família Agrícola de Goiás acreditando que:
A escola deve levar em consideração a cultura da comunidade, mas deve também ampliar o mundo da criança para além da comunidade. Evidentemente, isso pode levar a criança a sair da comunidade em vez de lutar por ela, mas é preciso aceitar esse risco: direito à diferença é um direito, e não uma obrigação; e o sujeito tem direito também de se afirmar como diferente do grupo do qual nasceu (CHARLOT, 2005, p. 137).
Os movimentos sociais do campo, de modo geral, pensam uma educação no sentido de manter o homem e a mulher em sua terra, e quando se trata do jovem isso não tem significado real. Na verdade o jovem do campo tem o direito de uma educação, criadora, reflexiva, que lhe possibilita ver o mundo a seu redor, analisá-lo e tomar uma decisão. É uma educação que lhe dá o direito de pensar e repensar a sua cultura e decidir o destino de sua vida e, lhe dar a possibilidade de ser construtor de sua própria história. A pastoral diocesana se viu diante do problema do êxodo rural, este não era exclusivo dos jovens,a problemática estava generalizada. A opção por essa realidade exigiu da Igreja uma verdadeira conversão. Ela se coloca como pobre entre os pobres e, passa a assumir mais diretamente valores como solidariedade, cooperação, valorização dos conhecimentos populares. A igreja é desafiada a não ser mais mãe e mestra6 mas sim serva.