O início dos trabalhos da Diocese de Goiás, no tempo analisado, se dá num clima de forte repressão e de situação de supressão de direitos democráticos. Isto não foi um privilégio do Brasil, praticamente toda a América Latina nos anos 1960 e 1970 foi palco dos mais variados regimes militares e por sua vez de muitas lutas e conquistas populares. Várias foram as experiências, e algumas bem sucedidas na área da educação, na questão agrária, lutas operárias e outras. Na questão da educação do campo, entre outros, podemos citar os exemplos do Chile, Peru e México, como experiências bem sucedidas. Estas experiências se mostraram eficazes certamente pelo fato de virem ligadas à realidade da reforma agrária. “No caso do Chile a exemplo de outros países latino americanos (i.é: Peru e México) o desenvolvimento destas atividades coincide com o início da aplicação da Reforma Agrária (1965), cuja implementação exigia a erradicação do analfabetismo no campo” (GAJARDO, 1981, p. 116).
Educação e reforma agrária foram duas metas do trabalho da Diocese de Goiás essas duas questões andaram juntas e apoiadas na escritura sagrada, a educação do campo era realizada a partir de uma luta pela conquista ou permanência na terra, expressando ainda melhor a luta pela reforma agrária e agrícola. O trabalho foi desenvolvido por meio de uma ação educativa que não era chamada de educação do campo na época. Esta tese considera esse trabalho um verdadeiro trabalho de educação do campo.
O Brasil nasceu sob o domínio do latifúndio, grandes extensões de terra para poucos proprietários. Os escravos e depois os lavradores que foram a mão-de-obra rural não necessitavam da educação para o trabalho. Necessitavam de escolas apenas para ler escrever e fazer contas. A discussão sobre a reforma agrária se dá com mais ênfase a partir da década de 1960 quando os trabalhadores do campo vão sendo expulsos de seus trabalhos e moradia nas grandes fazendas, onde o pasto e o gado passam a dominar. A partir daí a questão da reforma agrária passa a ser mais evidenciada e os sindicatos e movimentos sociais passam a organizar trabalhadores para a luta pela terra. O problema, no entanto não é apenas a questão de distribuição de terras, pois o que está em jogo é o problema agrário que é mais amplo e carregado do peso forte do domínio da burguesia agrária com seus grandes latifúndios.
Nessa época estudada, a região da Diocese de Goiás e, o município de Goiás de modo muito particular, as terras estavam nas mãos da burguesia, havia uma grande concentração de terra. O trabalho desenvolvido pela Diocese produziu transformação, pois não é por acaso que só no município de Goiás foram criados 23 assentamentos segundo informações da CPT (Comissão Pastoral da Terra) diocesana. Luiz Antonio Ório, um dos agentes de pastoral da Diocese de Goiás que muito batalhou pela reforma agrária e pela vida do homem e da mulher do campo assim se expressa sobre o trabalho pastoral da Diocese:
A principal característica do trabalho pastoral da Diocese no aspecto social foi o apoio decisivo à reforma agrária, aos trabalhadores rurais, essa foi a marca da Diocese. E os resultados estão aí incontestáveis: 42 projetos de assentamento, aproximadamente 2000 famílias assentadas aqui na área da Diocese, e muitas, mas muitas outras estão em assentamentos em outras regiões do Estado (SCOLARO, 2001, p. 135).
A luta pela reforma agrária aliada, ou melhor, inserida no trabalho pastoral, na formação religiosa do povo do campo é o que aproxima o trabalho da Diocese de Goiás e a educação do campo. Todo trabalho humano conhece limites, a Diocese, com seu trabalho pastoral deu conta de contribuir e muito com a reforma agrária em sua região, porém não deu conta de fazer avançar mais a reforma agrícola e assim o trabalho fica incompleto. A questão agrária brasileira é uma realidade muito complexa, e nesse contexto a reforma agrária é apenas uma parte do conjunto da questão agrária (MARTINS, 1975). Quando se redistribui o domínio da terra e não se mexe na estrutura capitalista, de alguma forma interessa ao neoliberalismo, pois se mantém a propriedade privada da terra. A ideia do coletivo não foi bem aceita na região, se desconhece experiências neste sentido. O MST até tentou implantar assentamentos com produção coletiva mas não obteve sucesso. Esta realidade coloca uma certa suspeita em relação aos trabalhos realizados pela Diocese de Goiás.
Justifica-se uma pequena reflexão a respeito da situação política do país porque o trabalho desenvolvido teve uma relação íntima com esta realidade, uma relação de confronto e de perseguição. A Igreja de Goiás desde 1968 se posicionou contra a ditadura e tudo aquilo que como consequência dela atingia o povo brasileiro.
Convém lembrar em primeiro lugar que, se havia portas se abrindo, havia outras se fechando. Enquanto uma parcela da Igreja, com o Concílio Vaticano II e, alguns anos depois Medellín, tentava abrir as portas para o povo de Deus, se colocando ao lado dos empobrecidos, a ditadura militar fazia o oposto. A Igreja o fazia utilizando um olhar bíblico que lembrava à Igreja sua missão de ser presença libertadora junto aos espoliados pelo sistema do capital, a ditadura militar silenciava ainda mais o povo e perseguia os seus opositores. A ditadura militar instaurada em 31 de março de 1964 pelo exército, marinha e aeronáutica realizou uma varredura nacional em busca de subversivos, aqueles que poderiam representar algum perigo ao regime recém instalado. Os agentes de pastoral da Diocese de Goiás, em sua grande maioria, se inspiravam e carregavam em sua formação princípios da Ação Católica Especializada, a sua forma de ação seguia os seus princípios e metodologia. Isto representava um perigo para o sistema político e para a elite dominante.
A partir daquele momento eles rastrearam o país em busca de subversivos e comunistas. Com esta desculpa, todas as organizações populares iam sendo desmanchadas: sindicatos, liga camponesa, partidos, movimentos de estudantes. Até as associações de Ação Católica foram atingidas pela repressão. Existiam então a Juventude Estudantil Católica (JEC), Juventude Operária Católica (JOC) e Juventude Universitária Católica (JUC), Juventude Agrária Católica (JAC),que atuavam muito no campo social, reivindicando melhores condições de vida. Neste clima de repressão é que começará a caminhada da Igreja de Goiás (CAPPONI, 1999, p. 28-29).
O recorte temporal desta pesquisa está em grande parte está dentro desse período histórico mais sombrio da história do Brasil no século XX, a ditadura militar. Todo o trabalho de formação da Diocese é uma oposição ao estado de não direitos que se estabeleceu. Uma das características da nova igreja que se tenta implantar valoriza a democracia, há pelo menos a tentativa de se fazer uma igreja democrática, isso fica claro em suas inúmeras assembleias, isso contrasta com a estrutura geral da Igreja, que por sua vez influi negativamente sobre a igreja de Goiás.
A princípio a Igreja brasileira apoiou o golpe militar que era apresentado como revolução e portava bandeiras de luta como a preservação de valores da família. O país passa a viver sob o comando dos militares que representavam a elite nacional.
O golpe configura a ascensão de um novo bloco ao poder, que envolve uma articulação entre o conjunto das classes dominantes, ou seja, a burguesia industrial e financeira –nacional e internacional -, o capital mercantil, latifundiários e militares, bem como uma camada (de caráter civil) de intelectuais e tecnocratas. O espectro de interesses representados por esse conjunto autoriza-nos a qualificá- lo como uma elite (GERMANO, 1993, p. 17).
Uma grande parte da Igreja da América Latina e do Brasil abria as portas para os pobres e os menos favorecidos, porém enquanto a Igreja reagiu abrindo as “portas ao povo e refrescando a memória da sua vocação de ser povo e ficar do lado dos pobres e oprimidos, os capitalistas pensaram o contrário: trancaram as portas, viraram as costas ao povo e endureceram o regime político” (CAPPONI, 1999, p.28). A grande maioria dos bispos brasileiros que apoiara o golpe não tardou em se dar conta do engano e, passou a se posicionar como oposição ao regime. Esta rápida
mudança de posição se deu tendo em vista a violação de direitos humanos e pelo fato de que reforçava a estrutura piramidal da sociedade.
A Diocese, pela sua opção, desenvolve seu trabalho direcionado aos lavradores, os menos acreditados e mais marginalizados. Florestan Fernandes analisando a realidade brasileira da época e pensando na reação das classes subalternas cita trecho de reflexões de Marighella7 sobre as possibilidades do estabelecimento do pensamento revolucionário. Marighella demonstra um pensamento semelhante ao da Diocese de Goiás ao optar pelos lavradores e assim reagir ao golpe militar.
O caminho da derrubada da ditadura através da luta de massas não terá consequências, nem dará resultados, a não ser eliminando o desprezo pelo trabalho no campo e adquirindo a compreensão do campesinato no processo em curso. Não se pode fazer a luta pela democracia e pelas reivindicações nacionalistas, separando uma e outra da luta pela terra e pelos interesses das massas camponesas. É um erro relegar para o momento da decisão estratégica o processo de luta visando atrair a massa camponesa. ... O trabalho no campo é um trabalho tático. É o elemento essencial, fundamental da tática do proletariado (MARIGHELLA, Apud. FERNANDES, s/d, p.7) (grifo do autor).
Ao fazer uso da metodologia da Ação Católica especializada, assumir claramente uma eclesiologia8 laica ligada à Teologia da Libertação e às CEBs, a Diocese de Goiás adere ao pensamento da força revolucionária do camponês, aquilo que Pessoa (1999) denomina de uma certa “gravidez histórica” que estava necessitando de algum cuidado para que se desenvolvesse.