• Aucun résultat trouvé

Rappel des énoncés

Dans le document tel-00780176, version 1 - 23 Jan 2013 (Page 48-59)

A família representa, talvez, a forma de relação mais complexa e de ação mais profunda sobre a personalidade humana, dada a enorme carga emocional das relações entre os seus membros.

Rey e Martinez (1989)

A família constitui o primeiro universo de relações sociais da criança, proporcionando-lhe um ambiente de crescimento e desenvolvimento (Silva & Dessen, 2001). A aprendizagem das competências sociais inicia-se na infância, primeiramente com a família e depois noutros contextos (escolar, comunitário); os membros do agregado familiar são a base da estimulação inicial dos padrões de relacionamento e competência social.

Durante a infância, a perceção e compreensão do mundo social são grandemente influenciadas pela família. As crianças aprendem inicialmente a relacionar-se através da observação dos pais, interagindo com eles e com outras pessoas, aprendendo os seus estilos relacional e de vida. Tanto a componente verbal como a não-verbal da comunicação interpessoal, o tipo de abordagem e de resolução de conflitos, como a capacidade de negociação, são competências aprendidas através de modelos parentais (Calmeiro & Matos, 2004, citado por Matos, 2008).

O comportamento social é formatado em função da avaliação do resultado das interações, o que proporciona um feedback importante para o reforço ou extinção de ações subsequentes.

Os pais que estabelecem um ambiente familiar acolhedor e que organizam contextos favoráveis para o desenvolvimento da criança, estabelecem fatores de proteção face a eventos ameaçadores, aos quais as

crianças estão usualmente expostas (Del Prette & Del Prette, 2005; Yunes, 2003). Esse ambiente acolhedor prevê um padrão adequado de comunicação, tanto verbal como não-verbal entre pais e filhos (pais que ajudam os filhos a identificarem emoções, que os aconselham, com expressividade emocional positiva e que estão dispostos à conversa com eles), o que por sua vez, auxilia na melhor interação social destes com os pares e na menor probabilidade de apresentarem problemas de comportamento (Bohanek et al. 2006).

Del Prette & Del Prette (2006) realçam ainda a importância do comportamento verbal, ao afirmarem que o papel dos pais, na aprendizagem interpessoal da criança, depende da forma como eles planificam e conduzem a educação dos filhos. As práticas parentais, consideradas positivas, incluem a monitorização positiva e o comportamento moral, ou seja, um relacionamento entre pais e filhos sustentado por regras claras, com informações sobre as contingências em vigor para os comportamentos sociais. Tais práticas aumentam a probabilidade de a criança desenvolver relações sociais saudáveis no âmbito familiar e com os pares. Por outro lado, a exposição da criança a práticas parentais inadequadas (conflitos, violência, coerção) ou a um baixo envolvimento com os pais, constituem fatores de risco para o desenvolvimento infantil.

Marcelli (1996, citado por Anaut, 2005, p.32), considera como fatores de risco todas as condições existenciais na criança ou no seu meio ambiente que envolvem um risco de morbilidade superior à que se observa na população em geral, obtida através dos inquéritos epidemiológicos.

Do ponto de vista de Garmezy (1996, citado por Anaut, 2005, p.32), um fator de risco poderá ser um acontecimento ou uma condição

orgânica ou ambiental que aumente a probabilidade de a criança desenvolver problemas emotivos ou de comportamento.

Deste modo, podemos considerar crianças em risco, nomeadamente as que vivem num contexto ambiental marcado pela pobreza, pela violência, pela inadequação das relações parentais, ou pela monoparentalidade (Anaut, 2005, p.39).

Ao verificarmos que crianças e jovens com DID estão em contínua interação com o seu meio social e familiar e que, apesar de apresentarem limitações nas suas capacidades não estão imunes à influência do seu ambiente, estas podem igualmente estar expostas a fatores de risco dentro do seu meio familiar.

No que diz respeito aos fatores de risco na família, usualmente considerados como fatores de adversidade no desenvolvimento da criança, temos: os baixos níveis educativos, doenças psiquiátricas, abuso de substâncias e criminalidade, bem como a discórdia conjugal, violência familiar, pobreza e condições de habitabilidade degradadas e/ou com sobrepovoamento.

Do conjunto de fatores enunciados, ocorrem, como particularmente desfavoráveis, o nível socioeconómico baixo, a monoparentalidade, a depressão e “stress” maternal e a exposição das crianças a conflitos conjugais e a agressões físicas. Por outro lado, é altamente provável que estes fatores ocorram em simultâneo, sendo igualmente evidente que uma boa parte deles se associa à pobreza e a condições degradadas de vida. Em geral, os seus lares tendem a ser marcados por: discórdia conjugal e rutura familiar, monoparentalidade ou presença de diversos “pais”, negligência relativamente aos filhos, possibilidade de abusos físicos, diversas figuras de autoridade, quase sempre oscilando entre o autoritarismo e a negligência, exposição à

delinquência, possibilidade de má nutrição, depressão ou desânimo maternal, doenças físicas, famílias numerosas e desorganizadas, pouca estimulação e padrões particulares de comunicação em que a expressão física predomina sobre a linguagem verbal (Lopes et al., 2011).

O conhecimento da existência de potenciais fatores de risco e ou de grupos vulneráveis, implica a possibilidade de desenvolvimento de programas de intervenção focados em prevenir ou atenuar os efeitos prejudiciais na saúde mental de crianças e adolescentes (O’ Connel, Boat & Warner, 2009; OMS, 2001; OMS, 2005, citado por Sá et al., 2010).

Os alunos do estudo que relatamos neste trabalho provêm de ambientes familiares desfavoráveis, marcados por condições de pobreza, desemprego, discórdias na família, fracas condições habitacionais, cuidados de saúde e higiene inadequados, pouca instrução parental, exposição à violência verbal e/ou física e consumo de álcool na família. Todos estes fatores são obstáculos que aumentam a vulnerabilidade destas crianças, que reclamam uma intervenção decidida da escola para alterar as suas trajetórias de vida, nomeadamente através do desenvolvimento das suas competências sociais, que não foram devidamente adquiridas ou solidificadas no contexto familiar.

Dans le document tel-00780176, version 1 - 23 Jan 2013 (Page 48-59)