Uma das propostas para o ensino de Língua Portuguesa é considerar o contínuo entre oralidade-escrita. Nessa perspectiva, o processo de retextualização apresenta uma excelente oportunidade do aluno colocar em prática as duas modalidades.
A retextualização é um processo que envonve a produção de um texto com base no conteúdo global ou parcial de outro. Esse processo, conforme Marcuschi (2010, p. 46), realiza- se por meio de operações complexas que interferem tanto no código como no sentido e evidenciam uma série de aspectos nem sempre compreendidos da relação oralidade-escrita”. A transformação de uma modalidade para outra implicará interferências mais ou menos acentuadas, mantendo-se o tema geral do texto-base, mas adaptando-o à nova situação de produção. Assim, dependendo da intenção do produtor, ocorrerão mudanças nitidamente definidas, enquanto outras serão opcionais.
Para Marcuschi (2010), os aspectos envolvidos nos processos de retextualização são divididos em quatro blocos:
bloco A: idealização (eliminação, completude, regularização); bloco B: reformulação (acréscimo, substituição, reordenação); bloco C: adaptação (tratamento da sequência dos turnos): bloco D: compreensão (inferências, inversão, generalização).
Os blocos A e B dizem respeito a aspectos linguísticos-textuais-discursivos, o bloco C refere-se a operações de citação (tratamento de turnos) e o bloco D a aspectos cognitivos,
Segundo Marcuschi (2010), para executar as operações envolvidas no bloco C, deve-se considerar incluídas as operações envolvidas nos blocos A, B e D.
Sabemos que, na transformação de um texto para outro, há uma série de operações e decisões a serem tomadas na condução do processamento da escrita. Para tanto, o produtor deve considerar as seguintes variáveis intervenientes apresentadas por Marcuschi (2010):
o propósito ou objetivo da retextualização;
a relação entre o produtor do texto original e o transformador;
a relação tipológica entre o gênero textual original e o gênero da retextualização; os processos de formulação típicos de cada modalidade.
Referente ao propósito ou objetivo da retextualização, dependendo da intenção do produtor, haverá uma diferença bastante significativa no nível de linguagem do texto, ou seja, é comum um gênero informal receber uma transformação mais descontraída, e o gênero formal receber uma transformação mais formal. Na verdade, uma retextualização não é indiferente aos seus objetivos ou ao seu propósito.
Quanto à relação entre o produtor do texto original e o transformador, um texto pode ser retextualizado pelo mesmo produtor do texto original ou outro produtor.
No que diz respeito à relação tipológica entre o gênero textual original e o gênero retextualizado, verifica-se que a retextualização de um texto situado em um gênero com predominância de um mesmo tipo textual apresente alterações formais menos variáveis em relação a gêneros de tipologias predominantemente distintas. Uma narrativa oral transformada em uma narrativa escrita tende a apresentar menos modificações formais de que um gênero transformado em outro, por exemplo, uma entrevista transformada em memórias.
Por fim, a variável relacionada aos processos de formulação típicos de cada modalidade, trata-se das questões de produção textual vinculadas a cada modalidade, os quais resultam de operações que, além de estruturas discursivas, do léxico, do estilo, da ordenação tópica, da argumentatividade, envolvem ordenação cognitiva, características dos gêneros como ação social e transformação propriamente dita que culminam na qualidade do texto retextualizado (DELL’ISOLA, 2007). De acordo com Marcuschi (2010, p. 55), “considerando as quatro variáveis intervenientes, pode-se sustentar que as operações de retextualização são atividades conscientes que seguem variados tipos de estratégias”.
Para uma melhor compreensão, observemos as nove operações e as operações especiais apresentadas no modelo das operações textuais-discursivas na passagem do texto oral para o escrito, de acordo com Marcuschi (2010):
Figura 3 - As operações de retextualização
1ª Operação: Eliminação de marcas estritamente interacionais, hesitações e partes de palavras (estratégias de eliminação baseada na idealização linguística).
2ª Operação: Introdução da pontuação com base na intuição fornecida pela entoação das falas (estratégia de inserção em que a primeira tentativa segue a sugestão da prosódia).
3ª Operação: Retirada de repetições, reduplicações, redundâncias, paráfrases e pronomes egóticos (estratégia de eliminação para uma condensação linguística).
4ª Operação: Introdução da paragrafação e pontuação detalhada sem modificação da ordem dos tópicos discursivos (estratégia de inserção).
5ª Operação: Introdução de marcas metalinguísticas para referenciação de ações e verbalizações de contextos expressos por dêiticos (estratégia de reformulação objetivando explicitude).
6ª Reconstrução: de estruturas truncadas, concordância, reordenação sintática, encadeamentos (estratégia de reconstrução em função da norma escrita).
7ª Operação: Tratamento estilístico com seleção de novas estruturas sintáticas e novas opções lexicais (estratégia de substituição visando uma maior formalidade).
8ª Operação: Reordenação tópica do texto e reorganização da sequência argumentativa (estratégia de estruturação argumentativa).
9ª Operação: Agrupamento de argumentos condensando as ideais (estratégia de condensação). Operações especiais: readaptação dos turnos (nos diálogos) para formas monologadas ou dialogadas. Fonte: Marcuschi (2010, p. 75).
Marcuschi (2010) organizou essas operações de retextualização em dois grupos: I- regras de regularização e idealização (operações de 1-4) e II - regras de transformação (operações de 5-9 e as operações especiais).
No primeiro grupo, as operações conduzem a uma primeira aproximação da idealização linguística e, no segundo grupo, as operações dizem respeito a um tratamento da fala, de natureza sintática, semântica, pragmática e cognitiva.
Ressaltamos que a 9º operação de retextualização (estratégia de condensação) não constava nas primeiras versões do modelo apresentado pelo pesquisador (MARCUSCHI, 2010, p. 86-87), mas surge como uma estratégia significativa para diferenciar a atividade de resumir e de transformar, porque, apesar de ambas atividades serem retextualizadoras, não apresentam o mesmo objetivo, isto é, enquanto no resumo predomina as operações ligadas à seleção de conteúdos e a condensação pela eliminação de informações secundárias; a transformação ocorre não necessariamente por razões de seleção de informações importantes, e sim pela regularização linguística que implica redução no volume de linguagem. Além disso, a manutenção integral do conteúdo não é vista como uma condição da retextualização, pois, segundo Marcuschi (2010, p. 87), “seria impossível, porque qualquer interferência na forma é também uma interferência no conteúdo”. Ainda no segundo grupo, encontram-se as operações especiais, as quais se referem ao tratamento dos turnos para o caso da retextualização de conversações.
Em resumo, as operações propostas correspondem a uma escala contínua de estratégias, desde os fenômenos típicos da oralidade até os mais específicos da escrita, assim o domínio da escrita manifesta-se progressivamente, conforme as estratégias que são realizadas, isto é, para a produção do gênero memórias a partir do gênero entrevista, os alunos realizaram operações de retextualização com um intuito de adequar a linguagem ao gênero textual memórias. Para tanto, ativou os conhecimentos prévios acerca do gênero e colocou em prática a atividade linguística, considerando os aspectos textuais do gênero em estudo.
Por fim, outro aspecto que devemos ressaltar é que há gêneros textuais que não contemplam todas as operações apresentadas no modelo de Marcuschi (Fig. 3), por exemplo, para produção do gênero memórias a partir do gênero entrevistas, os alunos não utilizaram a 8ª e 9ª operações, por não se tratar de um gênero do âmbito da argumentação, além disso algumas operações apresentadas mesclaram-se no momento da retextualização, essa atividade linguística será explicada na análise das produções dos alunos.