Podemos aludir que parte da didática praticada nas filarmônicas pode ser inserida nos cursos regulares de música nas escolas98. O perfil, atualmente observado nas filarmônicas brasileiras, é o de um corpo musical bastante jovem, pois nele integram alunos a partir dos 8 anos, com grau de escolaridade do ensino fundamental em diante. Participam da banda, de forma ativa e entusiasmada, convivendo com os adultos e promovendo assim a constante renovação dos integrantes.
As bandas civis de música desempenham em suas sedes a função de centro de formação e integração sociomusical. Porém, sempre foram deixadas à margem de qualquer menção nos projetos de Educação99, instituídos no país desde 1961, quando o Canto Orfeônico foi substituído pela Educação Artística, através da Lei 4024/61, a LDB 5.692/71 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), até a LDB de 20/12/1996. Apesar de estar à margem de projetos educacionais do poder público, a filarmônica vem desenvolvendo muitos dos objetivos gerais, conteúdos e compreensão da Música como produto cultural e histórico, enunciados nos
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Na cidade de Maragogipe/BA a escola de música da Filarmônica Terpsícore Popular passou a ser também escola de alfabetização em convênio com a Prefeitura Municipal.
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A banda de música somente é reconhecida pelo Ministério da Cultura. Aí, podemos considerar os apoios da FUNARTE.
Parâmetros de Currículos Nacionais (PCNs - Brasília: MEC/SEF, 1997, v. 6.) do ensino básico. É necessário registrar aqui, a falta de uma política de inclusão dos modelos populares de ensino musical, nas leis que regem os currículos nacionais, quanto aos modelos populares de ensino musical100.
O artigo 1° da LDB (Leis das Diretrizes e Bases de 20/12/1996) cita que: “a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social”. Dentro do âmbito de uma banda de música estas duas vertentes se encontram presentes em todas as atividades, na medida em que apresenta seus indivíduos de forma especial no contexto social e oferece a oportunidade de uma chance de ascensão profissional.
O primeiro enunciado dos objetivos gerais dos PCNs do ensino fundamental, com relação à música, tem por finalidade: “alcançar progressivo desenvolvimento musical, rítmico, melódico, harmônico, tímbrico, nos processos de improvisar, compor, interpretar e apreciar”. Nas bandas de música, podemos observar como principais propostas, presentes em seus estatutos, a preservação, difusão, execução e ensino de música em geral, além da participação em festividades, eventos civis e religiosos, principalmente os de sua cidade. Também nas bandas de música se desenvolve a percepção auditiva e a memória musical, a criação, interpretação e apreciação de músicas modal, tonal e outras.
Pesquisar, explorar, improvisar, compor e interpretar sons de diversas naturezas, desenvolvendo autoconfiança, senso estético crítico, concentração, trabalho em equipe com diálogo, respeito e cooperação, fazem parte do cotidiano
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A Educação Musical passou a integrar a disciplina de Educação Artística nas escolas de Ensino Fundamental e Médio e criou a Licenciatura em Educação Artística, Habilitação em Música, Artes Cênicas, Artes Plásticas e Desenho. Nenhum desses cursos, porém, incluíram nos programas curriculares, conteúdos e práticas relacionados à banda de música. (PEREIRA, 2007).
prático destas corporações de tradição mais que centenária, pois, segundo Freire (FREIRE, 2007, p. 35), “o velho que preserva sua validade ou que encarna uma tradição ou marca uma presença no tempo continua novo”. Segundo Pereira (2007)101 “a banda torna popular a cultura musical na medida em que apresenta instrumentos ainda desconhecidos pela maioria da população”.
Quanto aos conteúdos de Música dos PCNs, no que se refere à expressão e comunicação: improvisação, composição e interpretação, eles se encontram amalgamados na pedagogia desenvolvida pela prática de ensino adotada pelos mestres nas escolas de suas bandas. Muito antes de existirem os parâmetros que atualmente norteiam a educação musical nacional, já se adotava nas filarmônicas semelhantes princípios desta prática musical. Os PCNs indicam propostas como: da própria linguagem musical (sons, melodias, ritmos, estilo, formas); referentes a paisagens sonoras de distintos espaços geográficos (bairros, ruas, cidades)102, épocas históricas (estação de trem da época da “Maria Fumaça”, sonoridades das ruas)103; relativas à percepção visual, tátil; e concernentes a ideias e sentimentos próprios e ao meio sociocultural, como as festas populares.104
Entretanto, é bom lembrar que a filarmônica, como formadora de músicos para seu contingente, tem objetivos específicos não tão gerais quanto os dos PCNs. Alguns aspectos, como o da improvisação individual, embora não existam como interesse explícito das bandas, ocorrem espontaneamente, a partir da própria música. Embora não exista, de forma explícita, interesse na banda com a
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Correspondência eletrônica em setembro de 2007.
102 Por exemplo: A polaca “Papa-capim solitário” de Ygaiara Índio dos Reis. 103
Dobrados Bombardeio da Bahia e Retirada da Laguna dos compositores Antonino Manuel do Espírito Santo e Guerra Peixe.
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improvisação de forma individual, isso pode acontecer espontaneamente a partir da própria música, dos músicos e do repertório.
Portanto, se a finalidade da educação é permitir ao indivíduo o direito de desenvolver suas aptidões naturais, por em debate um parecer a favor da cooperação das bandas de música com a Educação Musical formal, seria uma inteligente estratégia, já que a lei 11.679 obriga a Música no ensino básico. A ideia não é que a filarmônica seja aproveitada para um direcionamento pedagógico do ensino musical, mas, com certeza, algumas técnicas e procedimentos dos mestres poderiam contribuir para a educação musical no ensino básico. Por outro lado, equipar os mestres de filarmônicas com as novas propostas cognitivas, técnicas e pedagógicas de ensino musical seria estender os tentáculos da Educação pela Música nos diversos rincões do país.
Deste modo, um trabalho conjunto entre a escola pública e as bandas de música contribuiria para uma expansão do acesso à informação atualizada de ambos os lados. Como exemplo, algumas bandas poderiam utilizar os espaços físicos da escola pública105. Isto promoveria uma colaboração entre comunidade e escola, ao estabelecer novas relações de instrução que romperiam com os muros da instituição de ensino, como vem acontecendo, parcialmente, com a Orquestra Brasileira de São Salvador e com a Filarmônica UFBA. Este último grupo é formado por alunos e ex-alunos da Escola de Música, integrantes de filarmônicas da cidade e músicos de outras comunidades soteropolitanas, sendo muitos oriundos de filarmônicas do interior. Ela também se propõe a interagir com o ensino básico. Isto articularia os espaços produtores do conhecimento (Universidade e Ensino Básico),
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Muitas bandas de música civis no Brasil não possuem sede própria, utilizando uma série de locais ligados a outras entidades.
criando um redimensionamento didático mais aberto e propício a uma gestão participativa, onde a aprendizagem colaborativa estaria mais próxima da realidade da população.
É inegável, embora sem o devido reconhecimento, que uma grande parte da música instrumental brasileira passa pelos bancos das bandas de música. Com a aprovação da Lei 11.769, é possível projetar a pedagogia das filarmônicas como uma alternativa viável da educação musical nas salas de aula, o que traz novamente questões que, desde os tempos de Villa-Lobos, já estavam em pauta106.
Outro destacado fator que incentiva a inserção da banda no ensino básico é que o tempo médio do aprendizado até o ingresso como músico da banda (“passado a estante”) dá-se em torno de seis meses a um ano. Além disso, os instrumentos podem ser compartilhados por mais de um aluno na banda e estes podem aprender com os métodos de ensino coletivo.