Na Agrovila Santa Luzia residem 86 famílias. São 76 casas, todas com energia elétrica, mas sem água encanada. Dos três poços existentes, bebem água de um que está localizado há quase um quilômetro de distância das suas casas. Precisam pega-la de carroça.
De vez em quando o equipamento que bombeia a água do poço quebra e sua recuperação é motivo de angústia. A irregular contribuição mensal dos associados da Associação Comunitária do Assentamento Agrovila Santa Luzia deixa-a sem recursos financeiros que lhe possibilite a resolução do problema.
Assim, como sugerem alguns assentados, “resta” ao seu Presidente, Seo Genário, procurar a “ajuda” da Prefeitura Municipal de João Câmara e, com isso, inserir-se, sem maiores resistências de sua parte, numa lógica de relacionamento com o poder público pautado em contrapartidas político-eleitorais entre a diretoria da Associação e o grupo político que administra os serviços públicos.
Nessa situação (aparentemente) minúscula se condensam elementos contraditórios do processo de (re) territorialização operada quando da ocupação e da conquista da imissão de posse. Por ser inacabada, a vivência territorial absorve a permanência de tessituras antigas, de relações vividas em um contexto anterior, quando o espaço trazia a marca do latifúndio, que não se extinguem com a ocupação e a conquista da terra, mas reaparecem na territorialidade que se gesta no novo cotidiano.
A desresponsabilização dos membros da comunidade em manter uma contribuição regular à Associação incapacita seus dirigentes de oferecerem resoluções aos problemas gerais dos assentados a partir de recursos próprios e estratégias soberanas. A irregularidade
das contribuições, por outro lado, reflete o descrédito de parte dos assentados para com a experiência associativista cuja história tão pequena no local já registra casos de desvios e má gestão dos recursos.
...eu mermo não contribuo mais com a Associação pruque é uma desorganização só, num sabe? Já teve caso de dinheiro que sumiu, Presidente que gastou num sei com quê e num deu prestação de conta...Eles decide as coisa e a gente só vem saber depois (Seo “Pitiu” – Francisco de Assis da Silva – informação verbal, grupo de discussão realizado em 24/01/2005).
O sentimento de Seo Pitiu de não pertença à Associação que oficialmente lhe representa é um primeiro efeito do desgaste do incipiente processo associativo experimentado na comunidade após a conquista da imissão de posse. E também a mais lamentável demonstração de que a nova realidade territorial ensejada pelo assentamento não constituiu condição suficiente para que as relações entre os assentados se instituíssem a partir de outros/novos códigos de organização coletiva, distintos dos que regiam suas práticas sócio- culturais anteriores ao processo de ocupação.
Ocorre, muitas vezes, o contrário do que apregoam determinadas concepções idílicas acerca do processo de ocupação. As experiências de organização e mobilização vivenciadas durante o período do acampamento, em que predominam traços de uma referência coletivista, comunitarista, não garantem a convicção, entre a maioria dos assentados, de que o processo de gestão territorial do assentamento deva se pautar em novos códigos de organização política e produtiva, tais como os vividos durante o período da ocupação.
Assim, ainda que se instituísse como um novo território, espaço tecido a partir de um projeto de constituição de uma comunidade, o assentamento incorporou territorialidades antigas, ancestrais, relações entre os atores e o espaço e entre si mesmos, vividas num período que antecede o processo de conquista da terra. São essas territorialidades que, na verdade, fundamentam a opção dos sujeitos em participarem no movimento e delimitam o mais profundo dos seus objetivos que é ter o seu pedaço de terra para a garantia de sua sobrevivência e de sua família. Pelo menos a priori não integra seu universo imaginário a possibilidade de que conquistada a terra ele venha a experimentar – sem graus diversos de dificuldades – formas coletivas ou semicoletivas de organização produtiva, tal como propugnadas pelas lideranças do movimento.
é importante ressaltar o significado que tem a terra para o trabalhador rural. Para ele a terra é a fonte de vida e liberdade. Para ele é um bem precioso deter a autonomia de decisão sobre todos os aspectos de suas vidas, o que inclui aspectos relativos à produção e comercialização.
Voltando os olhos para a agrovila Santa Luzia, quanto aos outros dois poços, um – localizado em um ponto próximo de todas as casas – serve aos animais, por causa da baixa qualidade da água; e o outro serve ao projeto de horta e irrigação no lote da outra associação existente na comunidade, a Associação de Mulheres Girassol.
Nesse contexto, o acesso à água revelou-se como uma chaga sentida por todos. Um problema grave manifestado pela grande maioria dos assentados nas mais diversas situações, fosse uma entrevista ou uma conversa informal. Há um consenso de que o não acesso à água de boa qualidade e a dependência que têm em relação à água de chuva constitui-se no principal entrave à produtividade das famílias.
Isso ficou evidente na aplicação de um dos instrumentos metodológicos pelos quais intentei uma das primeiras aproximações com os assentados. Foi aplicado um questionário em 31 residências, momento em que os assentados eram solicitados a responderem, entre várias perguntas, do que o assentamento precisava para se desenvolver. Sob a inspiração da técnica do teste de associação livre (SÁ, 2002; NÓBREGA, COUTINHO, 2003), sugeri que os entrevistados(as) indicassem três palavras que nas suas respectivas percepções resumissem a resposta à pergunta, após o que eles poderiam comentá-la.
Entre os assentados que participaram dessa experiência, 14 indivíduos eram do sexo masculino e 17 do sexo feminino. A presença majoritária das mulheres deve-se ao fato de que a aplicação do questionário deu-se durante os turnos matutino e vespertino, período durante o qual os homens vão para o lote, para o roçado, enquanto as mulheres ficam em casa realizando os afazeres domésticos. Num primeiro momento, essa situação representou uma dificuldade na medida em que algumas mulheres se sentiam constrangidas e pediam que eu aguardasse os maridos chegassem, alegando que eles saberiam responder melhor às perguntas. Mas após as explicações acerca do trabalho e a concordância (da maioria) delas sobre a aplicação do questionário percebi que estava diante de um olhar que, a um só tempo, demonstrava captar de maneira específica os problemas do assentamento e manter-se sintonizado com as demandas que atingem indiscriminadamente todos os moradores.
No Quadro abaixo, apresentamos todas as palavras expressas pelos assentados entrevistados, organizadas segundo a freqüência das indicações e a ordem de evocação das
palavras. De um lado, elas sintetizam demandas estratégicas que precisam ser respondidas imediatamente no plano de políticas públicas, pois interferem na própria capacidade do assentamento tornar-se um lugar onde se viva e produza com o mínimo de segurança. De outro, apontam alguns elementos que compõem a perspectiva de territorialidade inscrita nas preocupações e carências imediatas dos assentados.
QUADRO 3 – “Do que o assentamento precisa para se desenvolver?”
Ordem de evocação Unidades Semânticas Freqüência de
evocação I II III Posto de saúde 14 05 05 04 Água encanada 10 07 01 02 Organização comunitária 08 06 02 - Irrigação 07 05 02 - Casa de Farinha 07 02 02 03 Creche 07 - 05 02 Ambulância 05 01 02 02 Trabalho 04 02 01 01 Orientação técnica 04 01 01 02 Água 03 02 01 -
Recursos no tempo certo 03 - 02 01
Dinheiro 02 02 - -
Melhorar educação 02 - - 02
Acompanhamento do governo 02 - - 02
Bom presidente (da Associação) 02 - - 02
Representante 01 - 01 - Comer 01 - 01 - Infra-estrutura 01 - 01 - Adutora 01 - 01 - Iluminação 01 - 01 - Igreja 01 - 01 - Espaço de lazer 01 - - 01 Transporte 01 - - 01 Cisterna 01 - - 01 Delegacia 01 - - 01 TOTAL 33 30 27
Apesar de “Posto de saúde” ter sido a palavra mais evocada, é importante atentar-se para alguns detalhes. Em primeiro lugar, o fato de “água encanada” se apresentar como a segunda palavra mais evocada, o que coloca a problemática da água entre as mais sentidas pela comunidade. Essa questão se revela como central também quando observamos que em termos de ordem de evocação “água encanada” ocupa o primeiro lugar, ou seja, quando dentre todas as indicações, ela foi a que mais apareceu como primeira preocupação.
Em segundo lugar, é importante ver as variações de respostas que se articulam em maior ou menor grau à problemática do acesso à água, como é o caso das respostas “irrigação”, “água”, “adutora” e “cisterna”, as quais, reunidas, totalizaram 12 evocações. Nesses casos, as expressões associadas a “água”, especialmente “irrigação” e “adutora” se remetem ao universo do trabalho, na medida em que dão um direcionamento produtivo ao uso da água.
Tal questão reaparece num trabalho de produção de texto desenvolvido no Projeto Saber da Terra (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) com alunos da turma de educação de jovens e adultos de Modelo II. Instados a escreverem sobre as dificuldades atuais do assentamento e as alternativas de superação, os assentados revelaram o que segue:
O nosso sonho é ter uma adutora para que todos possam plantar um pedacinho de terra irrigado para melhorar as condições de cada um, porque só assim sabemos quem tem coragem de permanecer na terra e dela tirar o sustento para sua família. Só assim o INCRA poderia fazer uma revisão para selecionar as pessoas que não tem coragem de trabalhar e deixar na terra quem nela trabalha (SILVA et al., 2004, p. 21).
O acesso à água, portanto, atravessa o imaginário da comunidade como uma questão vital, que naturalmente demarca a possibilidade de êxito do assentamento como unidade produtiva. Mas também, para alguns dos assentados, o acesso à água aparece como uma condição, um elemento prévio capaz de delimitar um parâmetro ético a partir do qual se põe à prova e se conhece quem, de fato, está apto a trabalhar na roça e, por isso, deve permanecer no assentamento e quem deve deixá-lo, à luz de sua suposta inadaptabilidade.
Foto 10 – A fragilidade do abastecimento d’água em Modelo II. Jovens assentados vão buscar água em poço que se localiza a 1 km da agrovila, em carroças puxadas à burro, para viabilizar o atendimento do consumo diário de água de suas famílias. 2006. Arquivo do autor.
A problemática do acesso à água é mais dramática porque desde que se instalaram definitivamente, há dez anos, os assentados só conheceram dois anos de bom inverno. No texto produzido pela turma de educação de jovens e adultos do Projeto Saber da Terra – PRONERA, do assentamento Modelo II, em 2002, lê-se o seguinte registro:
Aqui quando chove, no chão tudo que se planta nasce. Durante todo esse tempo de assentamento nós só tivemos um ano bom. Foi em 1996. Todo mundo fez o que comer e ainda deu para vender. O grupo de mulheres fez oitenta sacos de milho, cinqüenta sacos de feijão. No final da colheita fizemos uma celebração e cada um ofertou um pouco de sua colheita. No outro dia colocamos em cima do trator e fomos deixar na Baixa do Macaco. Por lá ainda era um acampamento e fizemos uma celebração onde os companheiros ficaram muito satisfeitos em saber que aquela mercadoria era fruto dos Sem Terras e que um dia eles também poderiam fazer o mesmo. Nos outros anos choveu muito pouco. Só dá para comer verde e por uns dias. Pois o nosso Mato Grande é lugar seco. Já foi comprovado pelos cientistas e é por isso que a gente deseja ter uma adutora vindo de uma lagoa (SILVA et al., 2004, p. 21).
Em 2004, teve um inverno que lembrou o de 1996. As chuvas começaram em janeiro e entre os meses de abril e julho se despejaram sobre a agrovila como um choro desesperado. As trovoadas mais pareciam zabumbas ribombando no colo de Deus, anunciando as lingüetas de fogo que riscavam o céu. As mesmas águas que lavavam o chão abriam riscos profundos
nas ruas do assentamento, tornando difícil até mesmo o tráfego de carroças em determinados trechos.
Mas as chuvas torrenciais de junho anunciavam, também, um problema para os que haviam investido na plantação de sorgo. Essa experiência havia sido incentivada por alguns órgãos institucionais (como a CONAB) e algumas lideranças que mantém uma ligação com os assentados da região. E entre as promessas feitas aos assentados que optassem pelo projeto do sorgo estava não apenas a compra da produção, mas também que o sorgo seria colhido por uma máquina colheitadeira a ser trazida ao assentamento no momento adequado.
Naqueles meses de junho e julho a maior parte do sorgo plantado encontrava-se no ponto certo para a colheita e a máquina não chegava. A chuva criava dificuldades de acesso dos trabalhadores aos lotes, impedindo-os de colher o sorgo que sob chuva intensa começava a mofar. Ainda que fosse possível colher tudo aquilo manualmente, não teriam onde guardar ou proteger a produção porque não se dispunha de qualquer edificação grande o suficiente para armazenar o que era colhido.
Porém, as máquinas não chegaram. E os trabalhadores tiveram de realizar a debulha manualmente. Um trabalho mais lento e penoso. As chuvas entraram em cena, naquele momento, como um agravante, pois devido a elas, boa parte da plantação mofou, propiciando uma diminuição do valor do produto colhido.
Uma parcela aproveitável da produção não foi comprada pela CONAB, mas por um dos assentados, Seo Pitiu, que atuou nesse processo duplamente: como produtor, pois plantou sorgo em seu lote e, contratando outros trabalhadores, colheu tudo o que tinha; mas também como “atravessador”, pois além de providenciar a vinda de uma máquina colheitadeira de um proprietário de uma granja instalada nas redondezas, comprou a colheita de boa parte dos assentados para revendê-la ao proprietário da granja, que transformou o sorgo em ração para o consumo de sua criação de galinhas.
Nessa situação criada pela combinação da intensificação de chuvas e ausência do poder público no compromisso de mecanizar a colheita dos assentados, a atuação empreendedora de Seo Pitiu é a comprovação de uma outra ausência: a de organização coletiva da comunidade capaz de dar resposta à dificuldades que atingem a todos assentados individualmente como produtores e ao assentamento como um todo. O papel por ele realizado bem poderia ter sido ocupado pela Associação Comunitária ou pelos Grupos de Produção não fosse o vácuo deixado por essas formas organizativas que, por razões a serem discutidas em momento posterior, tornaram-se meras formalidades.